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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

DESPERTAR


Leio nas folhinhas amarelas da bétula, brilhantes de chuva e resistindo ao vento que as fustiga, como numa carta um pouco apressada escrita por um Deus pobre.

O meu coração desperta apenas raramente, mas quando o faz é para saltar de imediato sobre a eternidade como sobre uma presa desejada.
Christian Bobin, em "Ressuscitar"

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A CALMA DE UM CORAÇÃO ARDENTE


Nada preserva melhor a frescura da vida do que a calma de um coração ardente.


(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

GANHAR O MUNDO... PERDER A ALMA...

Que as pessoas desapareçam é, no fundo, menos surpreendente do que vê-las aparecer repentinamente diante de nós, como uma oferta ao nosso coração e à nossa inteligência.
Essas aparições são tanto mais preciosas quanto infinitamente raras. A maior parte das pessoas está, hoje em dia, tão perfeitamente adaptada ao mundo que se torna inexistente. (...)

A maioria das pessoas perde a alma ao tomar contacto com as coisas do mundo, tão facilmente como se perde um livro numa mudança de casa.

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

domingo, 18 de janeiro de 2009

DOIS INSEPARÁVEIS


«No cemitério de Saint-Charles a secção das crianças fica na parte mais alta.
Anjos de mármore branco de uns cinquenta cêntimos fazem com a luz do céu ricochete sobre os túmulos estreitos.
Uma criança de cinco anos, morta em 1942, tinha um companheiro da mesma idade que, no dia do seu enterro e nas semanas seguintes, afirmara aos pais que não abandonaria o amigo e iria em breve brincar com ele debaixo da terra.
As fábricas de Creusot foram bombardeadas um ano mais tarde. A criança morreu num desses bombardeamentos. Repousa ao lado da campa do seu amigo.

Aqui, com um pouco de silêncio, pode ouvir-se a dor e o pranto das famílias.
Com um silêncio um pouco mais profundo conseguimos surpreender os risos dos dois inseparáveis, ocupadíssimos a brincar após a festa do reencontro.»
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

CORAÇÕES EM SILÊNCIO


«Comunguei um dia de tal intimidade que cada palavra de um era recolhida pelo outro sem deturpação. Acontecia o mesmo com cada silêncio. Não se tratava daquela fusão que no início os amantes conhecem e que é um estado irreal e destruidor. Havia, na amplitude do laço que se criara, algo de musical e estávamos simultaneamente juntos e separados como as asas diáfanas de uma libélula. Por ter conhecido esta plenitude, sei que o amor nada tem a ver com o sentimentalismo que perpassa nas canções, nem tão pouco com a sexualidade de que o mundo faz a principal mercadoria - a que permite vender todas as outras.

O amor é o milagre de sermos ouvidos, mesmo estando em silêncio, e de ouvirmos em troca com igual acuidade a vida em estado puro, tão leve como o ar que sustém as asas das libélulas e se alegra com os seus bailados
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

domingo, 11 de janeiro de 2009

DEUS: do lado da vida em que estou...


Quando, bastante imprudentemente, falo de Deus, falo apenas deste lado da vida em que estou, e mais precisamente de uma parte desta vida, que está abandonada e se assemelha a uma arrecadação de ferramentas ao fundo de um jardim...

Embora não saiba nada dele, é-me impossível fazer como se não tivesse nada a ver com os nossos dias mais banais. Esses dias são livros e esses livros são escritos por Ele.
Rosto, dor e bondade são as páginas mais ricamente iluminadas, tal como roseira, pardal e primavera.

Não sei o que mais impede os homens de ler: se a avidez, se a falta de atenção. A avidez nasce da sua falta de atenção. Quando olhamos apressadamente para uma coisa bela - e todas as coisas vivas são belas porque trazem em si o segredo do seu próximo desaparecimento - apetece-nos guardá-la para nós.
Quando a contemplamos com o vagar que merece, que requer e que, por um instante, a protege do seu fim, então ilumina-se e já não temos vontade de a possuir: a gratidão é o único sentimento que responde a essa luz que entra em nós...

Contemplar sem possuir e mesmo sem compreender.
Os pardais desafiam-nos a isso com os seus cantos.
Há sob a minha janela, nos inúmeros braços da tília, uma multidão de Bach e de Schubert cujas obras não escritas me instruem sobre o que Deus é do lado da vida em que eu estou. Para conhecer o outro lado, terei um dia de afastar a cortina do meu sangue que me impede de ver.»

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A VIDA NA SUA PUREZA


Na altura em que nasci, uma fada debruçou-se sobre o meu berço e disse-me:

«Não experimentarás senão uma parte minúscula desta vida e em troca compreendê-la-ás toda.»


Quinze segundos de pureza aqui, outros dez além: com um pouco de sorte, terá havido na minha vida, quando partir, pureza suficiente para perfazer uma hora.


Christian Bobin, em "Ressuscitar"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Só o Amor conta...


Já não acredito no amor, porque só nele acredito.

Apostei tudo num amor que não pode fazer parte deste mundo, mesmo iluminando-lhe cada detalhe.

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

sábado, 3 de janeiro de 2009

UM CORAÇÃO PURO


«A Agnès tinha nascido numa família nobre e rica, daquelas que só se encontram nos contos, ou em Inglaterra. Perfumes sem preço, jóias antigas, sedas finas e viagens por um mundo impecavelmente liso - sim, tudo isso rodeou Agnès, do berço até à sepultura, mas a maravilha não estava no dinheiro nem na litania um pouco cansativa das portas que faz abrir à sua frente como num sonho.

A única maravilha era o coração da Agnès: um diamante cuja pureza dava aos seus olhos uma limpidez implacável. Mais do que de maravilha poder-se-ia falar de milagre: uma santa milionária - estas duas palavras, que não combinam, e que, no entanto, convêm perfeitamente a essa jovem, qual sapatinho ao pé da Cinderela.

Ao nascer a Agnès tinha recebido dinheiro e beleza. O dinheiro pode traçar caminho através de um coração como uma lagarta numa maçã. A beleza de uma mulher e o poder que lhe dá sobre os homens fracos pode inebriá-la, convencendo-a de que se gerou a si mesma e de que, como a uma divindade, tudo lhe é devido.

A Agnès tinha a seu favor ambas as coisas quando uma única basta para destruir uma alma.
A sua bondade tinha-a preservado, inspirando-lhe uma conduta ao mesmo tempo cheia de delicadeza e intransigente. "Prefiro, dizia ela, dormir debaixo da ponte a viver com um homem sem amor."

Infinitamente raras são as mulheres que, no seu desejo de amor, não fazem entrar a menor sombra de calculismo. A pureza ardia-lhe nos olhos, como um fogo perpétuo...»
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A VIDA É ESPANTOSA...


«Tem nove meses. Está sentado ao meu lado no carro que conduzo através de um campo inundado de sol. Enquanto tomo atenção à estrada, observo-o de vez em quando.
Tem nos olhos a gravidade de um sábio. Estuda as luzes, as sombras e os laços dos sapatinhos, que agarrou. Por vezes um pensamento fá-lo franzir a testa.

Abrando um pouco, inclino-me para ele e digo-lhe a rir: "A vida é espantosa. Vamos todos morrer mas mesmo assim é fabulosa."
Ele interrompe os estudos, fixa em mim os olhos negros como ameixas, sorri de lado e retoma os pensamentos profundos, imperturbável, majestoso.» (Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

ALMAS PURAS E SIMPLES


Os orgulhosos ensinaram-me a humildade,
os impacientes a lentidão,
os perversos ensinaram-me a rectidão e,
quanto aos raros que possuíam uma alma simples,
ensinaram-me a ler no seu coração os enigmas do universo visível e invisível,
tão facilmente como um recém-nascido lê na face da sua mãe.

Há poucas alegrias neste mundo
que não tenham secretos laivos de melancolia,
e é uma felicidade sem mácula descobrir uma alma pura.
São almas que se parecem com os primeiros livros infantis:
também contêm poucas palavras e são igualmente coloridas.

Não há alegria mais violenta que encontrar uma alma pura:
dá vontade de morrer de imediato."

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O CORAÇÃO DE DEUS


Deus é mais fácil de matar do que um pardal,
e o Seu coração
mais fácil de rasgar do que uma folha de papel -
até as crianças sabem disso...

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")


domingo, 7 de dezembro de 2008

O Pintarroxo


"Tornei-me amigo de um pintarroxo. Olhava para mim, de patitas solidamente plantadas num ramo de árvore.
Um Deus trocista brilhava nos seus olhos e parecia dizer-me:
"Porque passas a vida a tentar fazer coisas? Ela é tão boa quando vai passando, indiferente a razões, projectos e ideias.".
Não soube que responder-lhe." - Christian Bobin, em "Ressuscitar"

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

"Existe para cada um de nós uma determinada hora em que o conhecimento inconsolável nos invade a alma e a despedaça.
É à luz dessa hora, já chegada ou não, que todos nós nos deveríamos falar, amar, e se possível, rir juntos...

Perante a morte, estaremos como na altura do nosso nascimento, radicalmente privados de qualquer poder.
É a esta nossa fraqueza que, para todo o sempre, o amor se deveria dirigir."

Christian Bobin, em "Ressuscitar"

domingo, 2 de novembro de 2008

ESTE TAMBÉM SOU EU!


"Há anos que B. lê livros religiosos; passa noites inteiras debruçado sobre algumas frases cuja delicadeza admira, como um lapidador de diamantes, que inclinado sobre uma pedra com uma água particularmente pura, medita, sublinha, copia, em busca da verdade, sempre em vão, pois há muito que a encontrou. Falta-lhe apenas tirá-la dos livros onde definha para a fazer entrar no coração, único local onde poderia viver.
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

domingo, 26 de outubro de 2008

O QUARTO DA ALMA


«Uma cama de luz,
uma cadeira de silêncio,
uma mesa em madeira de esperança,
nada mais:
assim é o pequeno quarto de que a alma é locatária."

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

terça-feira, 21 de outubro de 2008

SANTAS


"As santas que conheci não se preocupavam com sê-lo. Tinham todas as idades e aparências. E, em comum, o passar pelo mundo com uma grande naturalidade e alegria como se nunca tivesse havido lei nem moral.

Sem pensar, cada uma delas dava mais amor do que o sol luz.

Uma, já idosa, ocupava-se de um jardinzinho e dormia num quarto do tamanho de uma casca de noz.
Outra trazia consigo a alegria como um pardal que esvoaçasse nos seus olhos claros.
Uma terceira, com quatro anos de idade, descobria, nas brincadeiras de que não se fartava, razão bastante para rir o dia inteiro." (Christian Bobin, em "Ressuscitar")

domingo, 19 de outubro de 2008

CONVERSA SILENCIOSA


"Acabo de ter uma conversa silenciosa com um bébé de dez meses. Olhámo-nos nos olhos durante mais de um quarto de hora. A nossa conversa era de ordem metafísica. Eu alegrava-me com a sua presença e ele admirava-se com a minha. Chegámos à mesma conclusão, o que nos fez desatar a rir ao mesmo tempo." - Christian Bobin, em "Ressuscitar"

sábado, 11 de outubro de 2008

DEUS EM NÓS


"Tudo o que sei do céu me vem do espanto que experimento perante a bondade inexplicável desta ou daquela pessoa, à luz de uma palavra ou de um gesto tão puros que me revelam bruscamente que nada no mundo poderia ser a sua origem. (...)

Há almas nas quais Deus vive sem que elas disso se apercebam. Nada deixa supor essa presença sobrenatural, senão a grande naturalidade que inspira aos gestos e às palavras daqueles em que habita." Christian Bobin, em "Ressuscitar"

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

POBREZA


"Quando se perde algo de material, cai imeditamente uma moeda de ouro no mealheiro da Pobreza.

Retirei muitas coisas inúteis da minha vida e Deus aproximou-se para ver o que se passava." - Christian Bobin, em "Ressuscitar"