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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Um dia...

Um dia, vamos conhecer os verdadeiros santos de todas as religiões, credos, culturas, e de todos os ateísmos: os que viveram amando, no anonimato, sem nada esperar.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sabes que te amo?


Para a minha doce, amorosa e bela princesa...

O dia de hoje foi estipulado ser o dia dos (e)namorados. Para assinalar a data, decidi voltar a dedicar-te um texto que escrevi há algum tempo e que postei neste blog.
Tu és a fonte de inspiração dessas palavras escritas com amor profundo e verdadeiro. Quero que entre nós permaneça vivo este estado de enamoramento que nos enche o coração de ternura, serenidade, alegria e paz. Quero que o nosso amor se renove, recrie, amadureça e cresça cheio de beleza, inocência, pureza, ternura, compreensão, confiança, sinceridade e paixão.

Sabes que te amo?

Por vezes, sou acordado de manhã, com a tua voz sussurrando ao meu ouvido: «Sabes que te amo?». Outras vezes, enquanto escrevo ou estou profundamente concentrado na leitura de um livro, sinto uma carícia suave e aconchegante sobre os meus cabelos e a tua voz doce e ternurenta murmura: «Sabes que te amo?». Respondo quase sempre com um sorriso de indisfarçável alegria e satisfação, e retribuo com beijos e afagos o profundo e sincero afecto com que me aquietas a alma e aqueces o coração. Eu sinto-me grato(e algumas vezes, sinto vontade de chorar, porque sinto que não mereço).

«Sabes que te amo?», repetes a pergunta, que não é retórica, nem é como aquelas perguntas que por vezes fazemos, com o intuito de satisfazer a curiosidade, esclarecer algumas dúvidas, ou simplesmente para tentar saciar a insaciável sede de aprender e conhecer.«Sabes que te amo?»- Sei que é mais uma afirmação que uma interrogação. Penso que tu queres afirmar e queres que eu esteja seguro que, apesar de todos os meus defeitos, falhas e imperfeições, tu me amas como eu sou. Apesar das críticas que te dirijo; das coisas que te recuso; do meu aparente desinteresse; do meu espírito por vezes tão ausente; da minha impaciência irritante; das minhas crises de ansiedade; dos meus hábitos invulgares; das minhas opiniões irreflectidas; dos meus gestos impensados; das minhas pequenas obsessões; do meu desajeitado sentido prático; da minha falta de autoconfiança; das minhas inseguranças nocivas; dos meus medos injustificados; do cansaço que por vezes trago e com o qual te sobrecarrego; dos meus acessos de preguiça aguda; do meu despojamento em relação a tantas coisas(que para ti são importantes); do meu apego aquilo que considero que realmente importa e é essencial(mas que para ti pode não ser); do meu feitio caseiro e fechado; da falta de ousadia e coragem para correr riscos que por vezes se apodera de mim... e de tantas outras coisas que agora não me ocorrem e que, a serem lembradas, tornariam esta lista um relatório fastidioso e aborrecido.

«Sabes que te amo?» - Sim, eu sei.(raramente te respondo assim, porque creio que a tua intenção não é obter uma resposta, ou pelo menos, esta resposta) Tu queres reafirmar o teu amor por mim... Tu queres dizer-me:" Eu amo-te como tu és! Não me importa se por vezes falhas, se fracassas, se me desiludes, se me magoas, se não correspondes ás minhas expectativas... Eu sinto amor... é amor...". Então, vem-me à mente uma passagem bíblica, "o amor cobre uma multidão de pecados...". E quanto mais reflicto mais frases me ocorrem: "o amor é paciente...Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta".

«Sabes que te amo?» E parece que te oiço dizer:« Deixa-me amar-te... gosto tanto de amar-te... é tão bom amar-te.» E eu sinto-me amado e cheio de gratidão. Mas não mereço.Eu acredito e sinto que me amas, minha amada. O teu amor flui no meu coração como um bálsamo suave e inebriante. Sinto-me então mais confiante, sereno, ousado, corajoso, dinâmico, aberto aos outros, compreensivo, compassivo e paciente.

Eu também te amo, meu tesouro. Sabes que te amo? Quero que saibas que só sei amar-te como sou e amo-te como és. Não tenhas medo, minha flor. Não tenhas receio das trevas, pois também há luz no meu olhar. Não te assustes com as sombras; fixa o teu olhar no meu sorriso de criança feliz quando me dizes: «sabes que te amo?».Conta-me histórias de encantar quando à noite chegar cansado. Beija os meus densos cabelos negros e brancos, quando me sentires ausente ou ansioso. Deixa-me mergulhar com os meus medos nas águas tranquilas do teu regaço. Contagia-me com o teu entusiamo e alegria quando me sentires fustigado pelas tempestades da vida. Levanta-me com as tuas mãos suaves e maternas quando eu tropeçar e cair. Acalma-me com os teus beijos suaves e ternos quando o meu corpo tremer de ansiedade. Encoraja-me com as tuas palavras doces e meigas quando eu começo a vacilar. Pega nas minhas mãos frias e cansadas com as tuas mãos suaves e macias e diz-me mais uma vez: «sabes que te amo?».

Quero que saibas também que é o teu amor, meu amor(minha musa), que me faz escrever assim. Eu que já não escrevia assim há tanto tempo e agora escrevo, só porque acordei esta manhã com a tua voz doce de menina a segredar-me ao ouvido: «Sabes que te amo?».

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

INSISTIR, NUNCA DESISTIR!



O Verão não fora particularmente quente; mas, naquele dia o calor era intenso, quase excessivo. Depois de uma árdua semana de trabalho, subimos a serra a caminho do nosso cantinho predilecto, sedentos de repouso, paz, silêncio, tranquilidade... Sentámo-nos sobre a relva e inspirámos lentamente o ar puro que nos purificou os pulmões. Uma brisa fresca e ligeira acaricou os nossos corpos cansados. À nossa volta, as majestosas montanhas inspiravam-me sentimentos de humildade e reverência. Por entre a folhagem das árvores, penetravam raios de uma luz pura e sedosa. Não tínhamos pressa. O tempo parecia não existir.

À nossa frente, um casal com dois filhos pequenos. Pai e filho(com os seus 8 ou 9 anos) jogavam com raquetes de badminton. O prazer, a alegria e o entusiasmo com que se entregavam ao jogo prenderam a minha atenção. Vi no pai uma criança cheia de entusiasmo, vivacidade e contentamento. Cada vez que o filho acertava na "bola" ou fazia uma boa jogada, o pai expressava o seu contentamento e satisfação: "Boa!", "Boa, filho!". Quando o filho falhava, o pai corrigia-o com bondade, sabedoria e paciência; ensinando-o a postura correcta, os movimentos adequados, de modo a ser mais certeiro e eficaz. E depois repetia invariavelmente: "INSISTIR, NUNCA DESISTIR!". E o menino voltava a tentar uma e outra vez; e sempre que falhava ouvia o pai repetir: "INSISTIR, NUNCA DESISTIR!".

O menino insistia, empenhava-se; corria mais, saltava mais alto, corrigia a postura, aprimorava os gestos técnicos. Nos olhos do pai eu via um brilho de orgulho e satisfação: "BOA!" , "BOA, FILHO!" , "É preciso INSISTIR, NUNCA DESISTIR!".

Estas palavras de encorajamento, estímulo e incentivo ainda ecoam na minha mente. Costumo escutá-las nos momentos em que me sinto vacilar ou com falta de confiança diante de certos obstáculos. Quando sinto o desânimo a ganhar forças, o cansaço a querer derrubar-me, o medo a tentar conquistar terreno na minha mente, uma voz interior diz-me:" INSISTIR, NUNCA DESISTIR!".
E eu insisto, luto, faço, ajo, arrisco... Quando acerto, oiço a voz interior: "Boa!", "Boa, filho!". Quando tento, mas falho, oiço: "Boa!", "Boa, filho!" , "É preciso INSISTIR, NUNCA DESISTIR!".
Acredito que aquele menino jamais esquecerá as palavras do pai. Quando crescer e se deparar com os obstáculos da vida será forte e corajoso; superará muitos obstáculos e ouvirá o pai dizer:"BOA!" , "BOA, FILHO!". Cada vez que errar ou fracassar, levantará a cabeça e ouvirá uma voz dentro de si: "É preciso INSISTIR, NUNCA DESISTIR!".

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A Dádiva mais preciosa



A vida é tão preciosa... e tão bela. Basta escutar o pulsar radiante do coração do novo dia que nasce no horizonte da esperança. Basta inebriar-me com o doce e suave aroma do teu sorriso que desperta pela manhã todos os sonhos que enterrei antes de te conhecer. Basta-me o teu coração como abrigo e os teus braços sempre abertos para me acolher quando as tempestades da alma obscurecem o horizonte da fé e o sol da alegria esconde-se por detrás de nuvens passageiras de dúvidas e medos opressores. Basta a recordação da melodia divina de um pássaro sonhado nas manhãs de uma qualquer primavera da nossa pura inocência. Basta a tua mão entrelaçada na minha a dizer-me que me levantarás sempre que cair e que me perdoarás todos os infortunios das minhas imperfeições.

A vida é um dom. O amor também é um dom. Não amamos porque queremos. Não amamos porque desejamos desesperadamente amar. Amamos porque nos foi concedida essa dádiva maravilhosa, que precisamos cultivar, cuidar, tratar, vigiar, proteger... Tens de dar a tua dádiva para que ela cresça em ti. Tens de dar o teu amor para que ele viva e se renove. Essa dádiva única e preciosa tem de ser compartilhada se quiseres que ela permaneça contigo. Quanto mais deres, mais terás. Sentirás uma alegria inexprimível por partilhares a tua dádiva, mesmo que não recebas nada em troca. Não esperes receber algo em troca para alimentar o teu dom de amar. Acima de tudo preserva a tua dádiva de amor como um tesouro a ser compartilhado diariamente.

Se alguém chora, vai e oferece-lhe a tua dádiva de amor.
Se alguém sofre, vai e oferece-lhe o consolo e conforto do teu dom de amor.
Se alguém está só, vai e oferece-lhe o abrigo do teu coração onde habita a tua dádiva de amor.
Se alguém tem fome, vai e partilha o teu tesouro.
Se alguém desconhece esta dádiva, vai e mostra-lhe que ela existe dentro de cada um de nós.
Se alguém perdeu a esperança, vai e leva-lhe a dádiva de luz que trazes dentro de ti.
Se alguém grita de dor, vai e leva-lhe o silêncio sagrado da tua dádiva.
Se alguém está doente, vai e leva-lhe o conforto da tua presença luminosa.
Se alguém se sente culpado, vai e leva-lhe o poder libertador da tua dádiva.
Se alguém se sente rejeitado, vai e acolhe-o no seio da tua dádiva de amor.

A vida é tão preciosa... O melhor da vida? Este dom gratuito que faz pulsar o coração e é a essência da vida. Ou como alguém muito apaixonado disse: "A vida é a visão do Infinito, de todas as possibilidades e realizações que o amor pode trazer(...) Um homem só pode entregar-se nas mãos de alguém quando o amor é tão grande que o resultado dessa entrega é a liberdade total". Não se pressupõe a existência do amor sem liberdade. Liberdade para ser, para se reinventar, para romper com preconceitos, para superar falsos limites, para enfrentrar todos os medos, para se transformar em luz que ilumina, inspira, cativa, estimula, edifica...


sábado, 1 de setembro de 2007

O Pôr-do-sol contigo


Escrevi este texto inspirado por uma experiência de um grande Amigo que, infelizmente, vive há alguma distância de mim, mas que está sempre presente nos meus pensamentos, e ocupa um lugar especial no meu coração. Esta prosa poética é dedicada ao meu grande Amigo, Paulo, com o qual compartilhei muitas aventuras, histórias, ideias, sentimentos, sonhos, desilusões, desgostos, esperanças, dores, alegrias, tristezas... Que a nossa amizade seja eterna! Espero que gostes do texto. Escrevi-o na primeira pessoa. Provavelmente, não são estes os sentimentos que sentes em relação à experiência que vives. Esta é apenas a minha leitura e interpretação do que partilhaste comigo.

Gostava que as coisas fossem mais simples... mais transparentes. Gostava de te ver mais vezes, para cruzarmos os olhares e, talvez, num instante mágico, tudo o que temos cá dentro brilhasse como estrelas candentes no esplendor dos nossos rostos resplandecentes.

Perco-me nos labirintos das tuas ausências, das intermitências do teu afecto... Recordo os teus gestos de ternura e uma torrente de falsas ilusões e esperanças momentâneas invade-me o vazio da alma...

Nos dias da tua ausência tenho de esculpir sonhos, tecer ilusões como um artista solitário e incompreendido, que assim tenta exorcizar medos e vagos fantasmas que invadem os desertos da alma. Por vezes, renuncio à razão e mergulho nas profundezas do coração, onde sempre encontro ilusões consoladoras e sonhos cheios de esperança despertados pela beleza oculta nas profundezas do teu verdadeiro ser adormecido e desconhecido.

Desperta a criança que há muito adormeceu dentro de mim. Mostra-me de novo a pureza dos corações, a magia da descoberta, a simplicidade de ser, a espontaneidade genuína, o espanto perante a beleza da vida... Ensina-me a arte da confiança aberta e segura; a capacidade de dar e amar sem medo nem expectativas; o dom de não julgar, mas apenas compreender com profundidade e serenidade... Ilumina-me os recantos obscuros da alma com essa luz que brilha dentro de ti e que persistes em ofuscar com teorias e abstracções...
O verdadeiro amor brota do intelecto ou de um coração puro, livre, disponível?
Gostava que as coisas fossem mais simples... Gostava de ser uma prioridade na tua vida e não uma alternativa. Não quero ser alguém com quem apenas podes encontrar-te nas horas livres dos teus dias repletos de compromissos, que te separam da essência da vida e te aprofundam o vazio dos dias.
Tardas, o meu olhar esmorece...
És tu quem eu quero ver
ao adormecer
A minha canção de embalar...
Cansam-me as confusas conjecturas e inúteis especulações. Troco todas as palavras que até agora partilhámos pela suave e inebriante luz do teu doce e meigo olhar. Na tua ausência quero recordar mais intensamente essa luz que o teu olhar irradia do que as palavras que por vezes escondem o que realmente o teu coração me quer dizer.
Depois de saber que existes já não quero mais estes dias sem sentido e sem brilho, quero apenas seguir pelo caminho que o teu olhar iluminou, adormecer no doce abrigo do teu abraço, acordar com o sol do teu sorriso a brilhar no horizonte da minha alma, agarrar-te pela mão e caminharmos juntos pelos campos floridos de um prado qualquer... Tenho um sonho...
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.
Confesso-te que prefiro:
Amanhã virás, contemplarás o pôr-do-sol comigo
E eu verei a luz do sol poente brilhar no teu rosto.
Eu já te vejo amanhã a contemplar o pôr-do-sol comigo,
Pois quando vieres amanhã e contemplar o pôr-do-sol contigo,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

domingo, 6 de maio de 2007

A Mão Invisível de Deus


O Túnel. A luz ao fundo do túnel. À saída, o ceú escuro, sombrio, ameaçador. Irrompe a tempestade imprevísivel, violenta, implacável. Os céus em pranto. As pedras geladas contra o vidro. Um silêncio premonitório. Aquelas palavras que ainda ecoam dentro de mim:" Já está!". Já fomos, não há salvação, pensei. E hoje lembrei-me das palavras de Cristo:"Está consumado". Missão cumprida. A morte vencida. A morte de um Homem pela eternidade de muitos.

Surrealista, disseste. Sim, um acontecimento estranho, surreal. Para mim, como se o mundo invisível e o mundo visível se tivessem cruzado naquele instante e a realidade tivesse sido alterada por um insondável desígnio divino. Como num sonho, talvez. Ás vezes, os sonhos parecem tão reais, tão vívidos.

Os céus em pranto. Eu não chorei. Chorei depois. Não de tristeza, nem de alegria. Penso que de gratidão e comoção. A mão invisível de Deus. Os teus olhos brilhantes e meigos felizes com a minha presença física. Felizes por verem os meus vivos e brilhantes. Felizes por verem em mim o que só tu és capaz de ver.
Somos tão preciosos, meu amor. Deus conhece de cor cada recanto das nossas almas.

Quando estas coisas acontecem não podemos ficar indiferentes...Ninguém fica indiferente. E vemos quão preciosos somos no olhar de quem nos ama. Vemos o quanto nos querem bem. Como temem perder-nos. Como nos agarram e beijam como se lhes fossemos escapar.

Eu acredito que estas coisas acontecem não tanto para aprendermos com os erros e tornarmo-nos mais prudentes quanto para nos despertar, para nos lembrar da nossa fragilidade, da nossa dependência e mortalidade...Também acontecem para esvaziarmos o ego de quaisquer indícios de orgulho farisaico, auto-suficiência e altivez.

Sabes que um dia vais morrer, e que esse dia pode ser já hoje; mas vives como se dia nunca fosse chegar. Acreditas ter toda a eternidade pela frente e vais adiando sucessivamente as decisões importantes, as mudanças que urgem... Perdes-te em insignificâncias, coisas sem conteúdo e sem sentido...A rotina embala-te num sono letárgico... Nos teus olhos o torpor e o vazio das horas que passam sem que faça sentido aquilo que vives. Precisas de um abanão, de um choque(talvez um susto) que te desperte da ilusão do tempo indeterminado que julgas ter pela frente. E tem de ser assim, por que não aprendes com a morte dos outros. E só se vive uma vez.
A vida é uma dádiva. Fazes dela o que quiseres, com a liberdade que te foi concedida. Mas, tem cuidado com a forma como usas a liberdade. Não a uses para teu próprio proveito.

A efemeridade da vida. Fragilidade confrangedora. Os pensamentos emaranhados. O coração em silêncio contemplativo; expressando-se numa linguagem que só Deus entende. Tu(meu amor) tão frágil, vulnerável e indefesa. Tu(meu amor) pensando mais em mim do que em ti. E eu espantado, maravilhado por estarmos vivos e sem mazelas de maior. Os céus em pranto.Tu a tratares dos aspectos práticos e eu imerso no espanto, na profundidade daquele mistério. A ver a mão invisível de Deus por detrás de tudo.

Sorte? Acaso? Milagre? Destino?
Por vezes, entramos nos túneis escuros da vida e não conseguimos ver a luz ao fundo, ou esquecemos que ela existe como nos outros túneis que já atravessámos. Mas, enquanto atravessamos o túnel escuro do sofrimento, da dor, da perda, do fracasso, há sempre uma luz que nos guia e ilumina. A luz da fé. A luz da esperança. A luz do amor. A luz da amizade. A luz dos teus olhos tão doces e tão meigos.
O pior é quando na nossa alma todas as luzes se apagam e, através do túnel escuro e medonho, vagueamos sem direcção e sem rumo, ás apalpadelas, com a alma seca e os olhos molhados.
Mas, a luz continua a brilhar lá no fundo, do túnel, e da alma. E nunca estivemos sós por mais que acreditassemos nisso. Houve sempre um propósito, apesar da aparente falta de sentido. Houve sempre uma luz, apesar da escuridão. Houve sempre uma mão, apesar do sentimento de abandono e desamparo. Houve sempre uma Mão.
A Mão Invisível de Deus.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Sabes que te amo?


Por vezes, sou acordado de manhã, com a tua voz sussurrando ao meu ouvido: «Sabes que te amo?». Outras vezes, enquanto escrevo ou estou profundamente concentrado na leitura de um livro, sinto uma carícia suave e aconchegante sobre os meus cabelos e a tua voz doce e ternurenta murmura: «Sabes que te amo?». Respondo quase sempre com um sorriso de indisfarçável alegria e satisfação, e retribuo com beijos e afagos o profundo e sincero afecto com que me aquietas a alma e aqueces o coração. Eu sinto-me grato(e algumas vezes, sinto vontade de chorar, porque sinto que não mereço).

«Sabes que te amo?», repetes a pergunta, que não é retórica, nem é como aquelas perguntas que por vezes fazemos, com o intuito de satisfazer a curiosidade, esclarecer algumas dúvidas, ou simplesmente para tentar saciar a insaciável sede de aprender e conhecer.
«Sabes que te amo?»- Sei que é mais uma afirmação que uma interrogação. Penso que tu queres afirmar e queres que eu esteja seguro que, apesar de todos os meus defeitos, falhas e imperfeições, tu me amas como eu sou. Apesar das críticas que te dirijo; das coisas que te recuso; do meu aparente desinteresse; do meu espírito por vezes tão ausente; da minha impaciência irritante; das minhas crises de ansiedade; dos meus hábitos invulgares; das minhas opiniões irreflectidas; dos meus gestos impensados; das minhas pequenas obsessões; do meu desajeitado sentido prático; da minha falta de autoconfiança; das minhas inseguranças nocivas; dos meus medos injustificados; do cansaço que por vezes trago e com o qual te sobrecarrego; dos meus acessos de preguiça aguda; do meu despojamento em relação a tantas coisas(que para ti são importantes); do meu apego aquilo que considero que realmente importa e é essencial(mas que para ti pode não ser); do meu feitio caseiro e fechado; da falta de ousadia e coragem para correr riscos que por vezes se apodera de mim... e de tantas outras coisas que agora não me ocorrem e que, a serem lembradas, tornariam esta lista um relatório fastidioso e aborrecido.

«Sabes que te amo?» - Sim, eu sei.(raramente te respondo assim, porque creio que a tua intenção não é obter uma resposta, ou pelo menos, esta resposta) Tu queres reafirmar o teu amor por mim... Tu queres dizer-me:" Eu amo-te como tu és! Não me importa se por vezes falhas, se fracassas, se me desiludes, se me magoas, se não correspondes ás minhas expectativas... Eu sinto amor... é amor...". Então, vem-me à mente uma passagem bíblica, "o amor cobre uma multidão de pecados...". E quanto mais reflicto mais frases me ocorrem: "o amor é paciente...Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta".

«Sabes que te amo?» E parece que te oiço dizer:« Deixa-me amar-te... gosto tanto de amar-te... é tão bom amar-te.» E eu sinto-me amado e cheio de gratidão. Mas não mereço.
Eu acredito e sinto que me amas, minha amada. O teu amor flui no meu coração como um bálsamo suave e inebriante. Sinto-me então mais confiante, sereno, ousado, corajoso, dinâmico, aberto aos outros, compreensivo, compassivo e paciente.

Eu também te amo, meu tesouro. Sabes que te amo? Quero que saibas que só sei amar-te como sou e amo-te como és. Não tenhas medo, minha flor. Não tenhas receio das trevas, pois também há luz no meu olhar. Não te assustes com as sombras; fixa o teu olhar no meu sorriso de criança feliz quando me dizes: «sabes que te amo?».
Conta-me histórias de encantar quando à noite chegar cansado. Beija os meus densos cabelos negros e brancos, quando me sentires ausente ou ansioso. Deixa-me mergulhar com os meus medos nas águas tranquilas do teu regaço. Contagia-me com o teu entusiamo e alegria quando me sentires fustigado pelas tempestades da vida. Levanta-me com as tuas mãos suaves e maternas quando eu tropeçar e cair. Acalma-me com os teus beijos suaves e ternos quando o meu corpo tremer de ansiedade. Encoraja-me com as tuas palavras doces e meigas quando eu começo a vacilar. Pega nas minhas mãos frias e cansadas com as tuas mãos suaves e macias e diz-me mais uma vez: «sabes que te amo?».

Quero que saibas também que é o teu amor, meu amor(minha musa), que me faz escrever assim. Eu que já não escrevia assim há tanto tempo e agora escrevo, só porque acordei esta manhã com a tua voz doce de menina a segredar-me ao ouvido: «Sabes que te amo?».

domingo, 22 de abril de 2007

O mendigo


Não sou um grande contador de histórias(uma arte admirável), mas vou tentar contar, com as devidas limitações, um sonho que tive há muito e que ainda hoje está tão vivo e nítido na minha memória. Foi um sonho, não foi um pesadelo... Eu não queria acordar...
Estou no centro de uma cidade enorme, percorro uma avenida cujo fim não consigo vislumbrar. Até onde os meus olhos conseguem alcançar, no fundo do horizonte, avisto um deserto árido e tenebroso. Ao longo da avenida, caminha uma multidão de seres que me parecem humanos mas, ao mesmo tempo, me parecem completamente destituídos de humanidade.
Não há luz na cidade. O sol está ausente durante quase todo o sonho. O céu está coberto por um véu negro de escuridão impenetrável. O ar que respiro é oprimente e impregnado pelo cheiro das almas doentes que vagueiam pela avenida apressadas e indiferentes umas ás outras.Todas elas parecem rumar para o deserto que vislumbro no fundo do horizonte.
Penso que deserto será aquele: o deserto das suas vidas? O inferno? O fim de tudo ou o princípio de nada?
A certa altura, apercebo-me que nem todos caminham em direcção ao deserto estampado no fundo do horizonte. Alguns seres que me parecem claramente diferentes dos restantes, estão recostados nas paredes das casas e estendem as suas mãos para os que passam sem os ver. Neste sonho, consigo ter a percepção do interior do coração e da alma das pessoas, e passo por elas sem que se apercebam da minha presença. Julgo ser um ser etéreo.
O que vejo no coração e na alma daqueles seres que caminham apressados para o nada no fundo do horizonte? Vejo corações vazios; prisioneiros de si mesmos; oprimidos; sem amor e sem liberdade. Vejo almas cheias de si mesmas; cheias de nada; um deserto de solidão em cada uma. Mas, quando olho mais atentamente para os outros seres parados junto ás casas, com as mãos sujas e gastas estendidas num gesto carente de ajuda e partilha, perco a percepção anterior e vejo apenas seres que me parecem tão humanos quanto a humanidade almeja ser. Têm algumas semelhanças físicas com os mendigos da realidade da vida de cada um de nós, e com os quais nos cruzamos quase diariamente quando atravessamos apressados as ruas e avenidas das cidades onde moramos. Contudo, pressinto neles um mistério insondável.
Aproximo-me de um desses mendigos que me estende ambas as mãos. Vejo no seu rosto traços da indiferença e da rejeição das pessoas que passam. Olho no fundo dos seus olhos e vejo um quadro da solidão que acompanha os seus dias. Olho com mais profundidade e sou invadido por um sentimento de compaixão e compreensão profundos que não consigo ocultar. O mendigo permanece de mãos estendidas, e eu sem saber bem o que fazer, revolvo os bolsos sem encontrar moedas ou notas. Com um gesto de profundo pesar, digo-lhe que lamento, mas não tenho nada para lhe dar. Ele estende ainda mais as suas mãos que parecem clamar pelas minhas. Não sei então o que fazer e, com um gesto espontâneo e natural, estendo-lhe as minhas mãos vazias e agarro as dele. Entrelaçamos as mãos, e pela primeira vez, vejo-o sorrir( como certamente há muito não sorria). É um sorriso de criança encantada, deslumbrada perante o milagre de existir.É o sorriso transbordante de quem sempre viveu num deserto morrendo à sede e, inesperadamente, encontra uma fonte onde pode momentaneamente saciar a sua sede. É o sorriso de um homem profundamente grato pelo meu gesto simples e afectuoso.
Naquele momento, eu queria que ele soubesse que, para mim, aquele sorriso era a dádiva mais preciosa. Eu também me sentia só e esquecido naquela cidade cheia de seres vazios. Eu também sentia sede...
O sonho não acaba aqui...Olhei de novo com profundidade os olhos do mendigo enquanto sorria, e vi nascer do fundo uma luz muito brilhante e pura... A luz crescia e tornava-se mais intensa, até que transbordou o limite do seu olhar e inundou tudo... as casas, os seres cheios de nada, as almas moribundas...O véu escuro que cobria o céu desapareceu e um sol alegre, ameno e risonho iluminou toda a cidade. No fundo do horizonte, já não se avistava aquele deserto de solidão para o qual aqueles estranhos seres pareciam caminhar. Agora, eu via um jardim coberto de flores e árvores. O ar da cidade estava agora impregnado pelo perfume extasiante das flores. Ouviam-se notas de uma música distante que inspirava paz e serenidade. Aqueles seres antes tão apressados e agitados, paravam agora junto aos mendigos, agarravam as suas mãos estendidas e arrebatavam-os para uma dança de prazer e alegria. Também entrei na dança.
Enquanto dançava extasiado, acordei do sonho com um sorriso de criança a moldar-me os lábios. Finos raios de sol primaveril penetravam por entre as frechas da janela do nosso quarto e anunciavam o nascimento de um novo dia. Levantei-me com a alma serena, limpa e leve...Abri a janela e, por instantes, admirei profundamente a beleza que me rodeava...Tive a sensação de que tudo era novo, diferente... e que uma nova vida me havia sido dada de presente pelo mendigo do sonho que acabara de sonhar, e que ainda hoje está tão vivo na minha memória como a imagem do nosso primeiro beijo, ou o sorriso familiar daquela criança que acaba de passar por nós.