quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Recado de JESUS aos Corações amedrontados

Este post merece uma introdução condigna.

Hoje, pela primeira vez, publico o mesmo post, em simultâneo, nos meus dois blogs. O objectivo é que o maior número de pessoas possível tenha acesso a este texto.
Há pessoas que visitam regularmente os meus dois blogs; outros que visitam apenas este, ou o Conhecer e seguir jesus. Também há os que visitam os meus blogs e o do autor do texto que irei transcrever e que, por essa razão, provavelmente já leram o texto. Mas, será sempre proveitoso rele-lo, estou certo.
Desejo que todos os que me visitam sintam vontade de ler este texto; crentes, não crentes, ateus, agnósticos, pessoas de diferentes religiões e credos (o texto é dirigido a todos). Desejo que o título do post não gere preconceitos ou desinteresse por parte dos que não crêem. Desejo que abram os vossos corações e recebam as palavras sábias e profundas escritas pelo meu caro amigo Rui Santiago, do blog: Derrotar montanhas( visitem-no sem demora).
Estou convicto que depois de lerem o texto sentirão a vossa alma mais leve, engrandecida, enriquecida, fortalecida, serena, grata( bem, já chega de adjectivos eloquentes)... E o vosso coração? Provavelmente, sentirá uma irresistível vontade de voar acima dos medos e entregar-se à liberdade suprema de um amor incondicional.
Boa leitura!


Recado de JESUS aos Corações amedrontados

Se tu soubesses do que és capaz, nem imaginas as cores com que se pintariam os teus dias! Se percebesses de uma vez por todas o teu verdadeiro tamanho, assim como eu próprio te vejo, e o lugar que ocupas no Coração do meu Pai, aprenderias de novo a dançar e a cantar como nos tempos de criança. Mas não dançarias mais como criança… Dançarias como fazem os Sábios de todos os tempos, cantarias como eles, sentirias o teu íntimo em Festa num sereno baile de Alegria e Paz…

Se tu soubesses do que és capaz, deixarias de fechar-te em ti próprio, e eu daria largas ao teu Coração, far-te-ia levantar voo acima dos teus medos, das tuas tristezas e das tuas desistências…

Deixa-me mostrar-te do que és capaz…

Todos os que dão crédito às minhas palavras, lentamente vão percebendo que não lhes minto! Dentro deles o Espírito Santo começa a fazer maravilhas, e eles sentem… Pouco a pouco, vão até aprendendo a colaborar com Ele, vão-lhe aprendendo os ritmos e percebendo os sinais… E, até hoje, nunca nenhum se sentiu defraudado em relação àquilo que lhe prometi! Bem pelo contrário…

Deixa-me mostrar-te do que és capaz…

Sou capaz de ensinar-te como se olha verdadeiramente para a Vida, para a História, para as Pessoas, e para os Desafios que tudo isto traz consigo! Sou capaz de libertar-te das forças autodestrutivas que às vezes ainda te minam o Coração: o ressentimento, o medo, a frustração, a impaciência, a desistência, a vingança, o desânimo…

Se tu soubesses do que és capaz adorarias voltar a ver-te ao espelho, e perceberias que tinhas renascido. Estas coisas escrevem-se-nos no rosto e nos olhos…

Lembras-te da quantidade enorme de desafios complicados que já venceste? São tantos, não são?!

Lembras-te de quantas vezes já pensaste “Desta não saio! Isto é demais! Nunca vou ultrapassar isto!”? Lembras-te?

Eu lembro-me bem, porque estive sempre contigo! Já vencemos juntos tantas coisas… E tudo isto, em vez de te fazer forte, muitas vezes só tem servido para complicares a Vida ainda mais por causa do passado e te assustares diante do rosto feio de alguns dias.

Por isso é que hoje tinha que falar-te assim, e andei às voltas a tentar arranjar uma maneira de o fazer! Porque quero muito que aprendas a olhar para ti como eu próprio te vejo!

Se tu soubesses do que és capaz, nem imaginas como os teus pés se tornariam ligeiros, as tuas pernas fortes, os teus braços vigorosos, o teu peito invencível, a tua cabeça inquebrável, o teu rosto terno, os teus olhos atentos…

Deixa-me mostrar-te do que és capaz!

Não perceberás tudo hoje, nem amanhã ainda… Mas começa hoje! Deixa-me mostrar-te do que és capaz…

Dentro de ti, quero ensinar-te a ver cada coisa com o seu real tamanho e valor, porque às vezes vês grandes demais problemas pequenos, e não prestas atenção a grandes maravilhas… Como tu!

Quando aprenderás a olhar para ti como se contempla uma maravilha? Quando aprenderás a ver-te como eu te vejo?

Não te olho à procura de perfeições, não existe em mim qualquer moralismo, não te exijo que sejas diferente do que és para gostar de ti e para me encantar ao olhar-te. Basta-me que sejas assim como és. Não compliques…

Se tu soubesses do que és capaz, tirarias finalmente muitos projectos da gaveta do teu Coração e darias passos que antes julgavas maiores do que as pernas. Porque se tu soubesses do que és capaz, as tuas pernas cresceriam…

Rui Santiago, Derrotar montanhas

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Raquel

Como o texto anterior escrito pelo Pedro Paixão foi apreciado por muitos leitores; hoje, vou publicar mais uma pequena história deste escritor. É um texto sobre as recordações duma paixão vivida entre dois adolescentes. Uma paixão vivida com intensidade, inocência, insensatez, irresponsabilidade, magia, aventura, ousadia... Podia ser paixão ou amor; mas só esse sentimento os unia e importava, tudo o resto era secundário, quase supérfluo e irrelevante ..."O amor era urgente e o mundo inteiro feito de nós dois."

Os corrimãos, as costas doridas, as caixas de correio cheias de publicidade e o cheiro a cabelos, lembro-me bem. Éramos novos, não tínhamos nada ou então tínhamos tudo porque nada nos faltava. Não tínhamos casa para onde ir, nem cama onde dormir, nem mesa onde comer. Pouco importava. O amor era urgente e o mundo inteiro feito de nós dois.
Dormíamos muito agarrados em bancos de jardins, enroscados em vãos de escadas que tremiam e se arrepiavam com os nossos corpos. Poucas vezes nos estendemos em camas de reles quartos de pensões que nos faziam rir antes do nosso sangue, tão espesso e tão quente, nos sufocar. Não tínhamos dinheiro ou muito pouco. Pedíamos uma cerveja para os dois e ficávamos até baixarem as luzes e o empregado vir dizer que tínhamos de sair. Se um de nós adormecia de cansaço, a cabeça em cima dos braços cruzados sobre o tampo da mesa, o outro ficava de guarda, como um anjo. Éramos novos e não havia outra maneira. De três em três dias íamos a casa dos nossos pais, apontando para as horas em que eles não estavam, tomar banho, mudar de roupa e roubar chocolates e bolachas e depois voltávamos para as ruas, para as escadas, para o calor.
Quem chegava atrasado era punido com beijos. Os nossos pais não percebiam, destruíam-nos a cabeça cada vez que nos apanhavam. Discutíamos alto e depois fugíamos batendo a porta atrás de nós, um livro no bolso para ler um ao outro debaixo de uma lãmpada qualquer.
O tempo foi clemente, as escadas sossegadas, nos jardins os passadores de drogas ignoravam-nos. Ninguém nos surpreendeu no escuro de um vão de escadas, embora houvesse momentos de perigo, que faziam bater tão alto o coração que parecia inevitável trair-nos e, por milagre, só nós ouvíamos. Não fomos atacados, roubados, violados. Nada de mal nos aconteceu, nem medo tínhamos. O mundo inteiro era feito de nós dois e era o bastante. O amor era a única coisa urgente, tudo o resto era adiado, não importava, ficava para depois. As aulas, os testes, tudo o que antes fazia uma vida, e não era. Se quiseres não acredites. Por vezes também não acredito. Mas foi mesmo verdade. Foram meses de uma primavera que passou. E se ainda acontece falarmos ao telefone, nenhum de nós fala sobre isso, como se tivéssemos vergonha de ter sido assim. Se quiseres saber mais pergunta-lhe a ela, a mim não. Chama-se Raquel e não mora longe daqui.

Pedro Paixão, em "Nos teus braços morreríamos"

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Dois homens a chorar num restaurante de luxo

Pedro Paixão é um dos meus escritores preferidos. Já perdi a conta das vezes que li este texto. Eu que já senti tantas vezes "aquela dor que bate quando quer", e por isso sinto uma empatia profunda por estes dois homens sensíveis sentados à mesa de um restaurante, presos à nostalgia de um amor grandioso e profundamente doloroso.

Escolhemos uma mesa junto à janela e pedimos cherne grelhado.
Há quatro meses que não nos vemos, cada um com os seus problemas, ele a refazer uma empresa, eu a curar-me de ti. Claro que de ti não falo, porque não temos intimidade para isso e porque falar de ti é arriscar-me a reavivar a ferida, a dor que hoje ainda não senti. Por isso nem minto quando digo que já estive mal e que hoje estou bem. Mas, de repente, o meu amigo, o meu novo amigo, sem que pareça vir a propósito, começa a falar de um amor antigo e que não passa, um amor excessivo como o nosso e eu fico preso às palavras que me diz sem cuidar de mais nada.
Como é possível que outros tenham sentido o que eu senti? É um escândalo. Eu digo-lhe que o meu interesse é puramente literário mas que por favor não pare. Há pormenores, detalhes que são uma réplica perfeita do que fomos, coisas sem importãncia que guardamos como tesouros. Olhamo-nos fixamente nos olhos como se um do outro aguardássemos uma resposta a qualquer coisa que não saberíamos pôr por palavras, naúfragos sem desejar salvação. E enquanto ele me conta devagar, com todos os cuidados - é imperioso que nada falte - a despedida, o último abraço, a voz embarga-se-lhe, vêm-lhe lágrimas aos olhos e depois sorri. Também eu sinto os olhos húmidos, uma vontade de o abraçar, de o proteger, embora ambos saibamos que não há maneira de afastar para longe aquela dor que bate quando quer.
Pagamos a conta e saímos, seguindo calados pelas ruas cheias de um sol sem compaixão. Uma montra lembra-nos com malvada ironia que vem aí o dia dos namorados. Deixo-o à porta do escritório onde nos abraçamos pela primeira vez e continuo em frente sem me perguntar para onde.

Pedro Paixão, em "Amor Portátil"

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A Dádiva mais preciosa



A vida é tão preciosa... e tão bela. Basta escutar o pulsar radiante do coração do novo dia que nasce no horizonte da esperança. Basta inebriar-me com o doce e suave aroma do teu sorriso que desperta pela manhã todos os sonhos que enterrei antes de te conhecer. Basta-me o teu coração como abrigo e os teus braços sempre abertos para me acolher quando as tempestades da alma obscurecem o horizonte da fé e o sol da alegria esconde-se por detrás de nuvens passageiras de dúvidas e medos opressores. Basta a recordação da melodia divina de um pássaro sonhado nas manhãs de uma qualquer primavera da nossa pura inocência. Basta a tua mão entrelaçada na minha a dizer-me que me levantarás sempre que cair e que me perdoarás todos os infortunios das minhas imperfeições.

A vida é um dom. O amor também é um dom. Não amamos porque queremos. Não amamos porque desejamos desesperadamente amar. Amamos porque nos foi concedida essa dádiva maravilhosa, que precisamos cultivar, cuidar, tratar, vigiar, proteger... Tens de dar a tua dádiva para que ela cresça em ti. Tens de dar o teu amor para que ele viva e se renove. Essa dádiva única e preciosa tem de ser compartilhada se quiseres que ela permaneça contigo. Quanto mais deres, mais terás. Sentirás uma alegria inexprimível por partilhares a tua dádiva, mesmo que não recebas nada em troca. Não esperes receber algo em troca para alimentar o teu dom de amar. Acima de tudo preserva a tua dádiva de amor como um tesouro a ser compartilhado diariamente.

Se alguém chora, vai e oferece-lhe a tua dádiva de amor.
Se alguém sofre, vai e oferece-lhe o consolo e conforto do teu dom de amor.
Se alguém está só, vai e oferece-lhe o abrigo do teu coração onde habita a tua dádiva de amor.
Se alguém tem fome, vai e partilha o teu tesouro.
Se alguém desconhece esta dádiva, vai e mostra-lhe que ela existe dentro de cada um de nós.
Se alguém perdeu a esperança, vai e leva-lhe a dádiva de luz que trazes dentro de ti.
Se alguém grita de dor, vai e leva-lhe o silêncio sagrado da tua dádiva.
Se alguém está doente, vai e leva-lhe o conforto da tua presença luminosa.
Se alguém se sente culpado, vai e leva-lhe o poder libertador da tua dádiva.
Se alguém se sente rejeitado, vai e acolhe-o no seio da tua dádiva de amor.

A vida é tão preciosa... O melhor da vida? Este dom gratuito que faz pulsar o coração e é a essência da vida. Ou como alguém muito apaixonado disse: "A vida é a visão do Infinito, de todas as possibilidades e realizações que o amor pode trazer(...) Um homem só pode entregar-se nas mãos de alguém quando o amor é tão grande que o resultado dessa entrega é a liberdade total". Não se pressupõe a existência do amor sem liberdade. Liberdade para ser, para se reinventar, para romper com preconceitos, para superar falsos limites, para enfrentrar todos os medos, para se transformar em luz que ilumina, inspira, cativa, estimula, edifica...


sexta-feira, 7 de setembro de 2007

As perguntas importantes de uma pessoa em construção:

- Quais são as minhas principais capacidades e qualidades?

- Quais são as minhas principais limitações e imperfeições?

- O que está hoje ao meu alcance para mudar?

- Quais são os sentimentos que me acompanham mais vezes?

- Qual é o sentimento mais frequente e presente em mim?

- Que sentimento gostaria de sentir mais vezes, ou mais intensamente?

- Está ao meu alcance consegui-lo?

- O que é importante fazer ou oferecer a mim próprio e eu ando a adiar há muito tempo?

- O que é importante fazer ou oferecer a alguém e eu ando a adiar há muito tempo?

- Hoje não pode ser um bom dia para me decidir?

- Ainda tenho sonhos pelos quais valha a pena lutar?

- Quais são os grandes adversários nas minhas lutas?

- Quais são as minhas fortalezas e os motivos para querer sempre recomeçar?

- Que lugar tem a Palavra de Deus no concreto dos meus dias?

- Se eu fosse morrer dentro de cinco minutos e me pusessem em directo na televisão, o que diria?

Fonte: Jovens Redentoristas

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Dulcineia


O autor cristão Brennan Manning, no livro "A assinatura de Jesus" , partilha um pequeno trecho de uma peça de teatro inspirada na obra-prima de Miguel de Cervantes -"Dom Quixote" .

O autor descreve uma cena que se passa na peça O homem de La Mancha:«Na peça ocorre um diálogo entre Alonso Chiana(também conhecido como Dom Quixote) e Aldonza, uma criada e prostituta. No seu delírio Alonso vê aquela mulher como uma aristocrata, e trata-a de forma compatível. Ele chama a meretriz rude e vulgar de "minha senhora" e "minha doce Dulcineia" . Num primeiro momento ela fica perplexa e indignada; não consegue entender este louco. Mas há uma pungente beleza nele. Por que razão ela se sente tão atraída por este homem misterioso? Porque dele vem a afirmação de que ela é um tesouro e deve ser estimada e tratada como tal. Ele faz em pedaços a muralha do seu medo e atitude defensiva.- Dulcineia! - brada Aldonza. - Meu Deus, ele conhece toda a história da minha vida. E ainda assim chama-me de Dulcineia!

Para esta mulher coberta de vergonha, é uma palavra que faz surgir um raio de luz nas profundezas de um mar negro. Atordoante na sua simplicidade, transformadora no seu poder, espantosa na sua sabedoria, Dulcineia é a indizível declaração das profundezas místicas do próprio Deus. Dulcineia é a esmagadora revelação de que Deus vê as coisas de modo diferente do que nós.

Perto do final da história o mundo de sonhos de Dom Quixote é despedaçado, e um desnorteado Alonso Chiana está a morrer na casa da sua família. Aldonza irrompe no quarto. Alonso não a reconhece. Ele está fraco, doente e confuso.
- É possível que eu a tenha conhecido, mas não me recordo - diz ele. Aldonza ajoelha-se ao lado da cama e implora:
- Tente lembrar, por favor!
- É assim tão importante?
- É tudo! - responde ela. - A minha vida inteira. O senhor falou comigo e tudo... mudou.
- Falei consigo?
- Chamou-me por outro nome. Dulcineia... Quando o senhor disse o nome foi como se um anjo sussurrasse: "Dulcineia... Dulcineia...".

Todo o anseio reprimido no coração humano de Aldonza vem à tona enquanto ela derrama diante de Alonso o que aconteceu quando ele a chamou por esse nome, o terramoto de espírito causado pelo seu amor e aceitação. Ele tê-la chamado de "senhora" despertara nela algo que ela pensava que jamais poderia ser. Ela havia estado morta, congelada, imune à emoção humana. O triunfo da sua vida tinha sido não precisar de ninguém. Mas ele invadira-lhe a câmara fechada do coração, e ela começara a derreter. Sementes de esperança, há muito enterradas, vieram à vida. Ela começara a crer que era Dulcineia. Tudo mudara porque ela havia sido tocada pelo amor de um velho sonhador que se chamava a si mesmo de Dom Quixote.

"A Assinatura de Jesus", Brennan Manning

sábado, 1 de setembro de 2007

O Pôr-do-sol contigo


Escrevi este texto inspirado por uma experiência de um grande Amigo que, infelizmente, vive há alguma distância de mim, mas que está sempre presente nos meus pensamentos, e ocupa um lugar especial no meu coração. Esta prosa poética é dedicada ao meu grande Amigo, Paulo, com o qual compartilhei muitas aventuras, histórias, ideias, sentimentos, sonhos, desilusões, desgostos, esperanças, dores, alegrias, tristezas... Que a nossa amizade seja eterna! Espero que gostes do texto. Escrevi-o na primeira pessoa. Provavelmente, não são estes os sentimentos que sentes em relação à experiência que vives. Esta é apenas a minha leitura e interpretação do que partilhaste comigo.

Gostava que as coisas fossem mais simples... mais transparentes. Gostava de te ver mais vezes, para cruzarmos os olhares e, talvez, num instante mágico, tudo o que temos cá dentro brilhasse como estrelas candentes no esplendor dos nossos rostos resplandecentes.

Perco-me nos labirintos das tuas ausências, das intermitências do teu afecto... Recordo os teus gestos de ternura e uma torrente de falsas ilusões e esperanças momentâneas invade-me o vazio da alma...

Nos dias da tua ausência tenho de esculpir sonhos, tecer ilusões como um artista solitário e incompreendido, que assim tenta exorcizar medos e vagos fantasmas que invadem os desertos da alma. Por vezes, renuncio à razão e mergulho nas profundezas do coração, onde sempre encontro ilusões consoladoras e sonhos cheios de esperança despertados pela beleza oculta nas profundezas do teu verdadeiro ser adormecido e desconhecido.

Desperta a criança que há muito adormeceu dentro de mim. Mostra-me de novo a pureza dos corações, a magia da descoberta, a simplicidade de ser, a espontaneidade genuína, o espanto perante a beleza da vida... Ensina-me a arte da confiança aberta e segura; a capacidade de dar e amar sem medo nem expectativas; o dom de não julgar, mas apenas compreender com profundidade e serenidade... Ilumina-me os recantos obscuros da alma com essa luz que brilha dentro de ti e que persistes em ofuscar com teorias e abstracções...
O verdadeiro amor brota do intelecto ou de um coração puro, livre, disponível?
Gostava que as coisas fossem mais simples... Gostava de ser uma prioridade na tua vida e não uma alternativa. Não quero ser alguém com quem apenas podes encontrar-te nas horas livres dos teus dias repletos de compromissos, que te separam da essência da vida e te aprofundam o vazio dos dias.
Tardas, o meu olhar esmorece...
És tu quem eu quero ver
ao adormecer
A minha canção de embalar...
Cansam-me as confusas conjecturas e inúteis especulações. Troco todas as palavras que até agora partilhámos pela suave e inebriante luz do teu doce e meigo olhar. Na tua ausência quero recordar mais intensamente essa luz que o teu olhar irradia do que as palavras que por vezes escondem o que realmente o teu coração me quer dizer.
Depois de saber que existes já não quero mais estes dias sem sentido e sem brilho, quero apenas seguir pelo caminho que o teu olhar iluminou, adormecer no doce abrigo do teu abraço, acordar com o sol do teu sorriso a brilhar no horizonte da minha alma, agarrar-te pela mão e caminharmos juntos pelos campos floridos de um prado qualquer... Tenho um sonho...
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.
Confesso-te que prefiro:
Amanhã virás, contemplarás o pôr-do-sol comigo
E eu verei a luz do sol poente brilhar no teu rosto.
Eu já te vejo amanhã a contemplar o pôr-do-sol comigo,
Pois quando vieres amanhã e contemplar o pôr-do-sol contigo,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

A parábola da rosa


Um certo homem plantou uma rosa e passou a regá-la constantemente e, antes que ela desabrochasse, contemplou-a. Ele viu o botão que em breve desabrocharia, mas notou espinhos sobre o talo e pensou: como pode uma bela flor vir de uma planta rodeada de espinhos tão afiados? Entristecido por este pensamento, ele recusou-se a regar a rosa, e, antes que estivesse pronta para desabrochar, ela morreu.
Assim é com muitas pessoas. Dentro de cada alma há uma rosa: os dons concedidos por Deus e plantados em nós crescem no meio dos espinhos das nossas faltas. Muitos de nós olhamos para nós mesmos e vemos apenas os espinhos, os defeitos. Por vezes, desanimamos e sentimos que nada de bom pode vir do nosso interior. Recusamo-nos a regar o bem dentro de nós, e, consequentemente, isso morre. Nós nunca percebemos o nosso potencial. Algumas pessoas não vêem a rosa dentro delas mesmas; alguém mais deve mostrá-la a elas.
Um dos maiores dons que uma pessoa pode possuir ou compartilhar é ser capaz de passar pelos espinhos e encontrar a rosa dentro de outras pessoas. Esta é a característica do amor - olhar uma pessoa e conhecer as suas verdadeiras faltas. Aceitar essa pessoa na sua vida, enquanto reconhece a beleza na sua alma e ajudá-la a perceber que ela pode superar as suas aparentes imperfeições. Se nós mostrarmos a essas pessoas a rosa, elas superarão os seus próprios espinhos. Só assim elas poderão desabrochar muitas e muitas vezes.
Fonte:ilustrar.com

domingo, 26 de agosto de 2007

A maçã e a pérola


Todas as manhãs o rei poderoso e rico de Bengodi recebia as ofertas dos seus súditos. No meio dos outros, sempre pontual, aparecia também um mendigo silencioso, que trazia ao rei uma maçã. Depois retirava-se. O rei, habituado a melhores presentes, aceitava a oferta, mas logo que o mendigo virava costas começava a zombar dele, seguido por toda a corte. O mendigo não desanimava. Voltava em cada manhã com a sua oferta. O rei aceitava-a e punha-a numa cesta ao lado do trono. A cesta continha todas as maçãs trazidas pelo mendigo com gentileza e paciência. Por fim, já transbordava.
Um dia o macaco predilecto do rei pegou num daqueles frutos e deu-lhe uma dentada. Depois deitou-o fora aos pés do rei: O soberano, surpreendido, viu no coração da maçã uma pérola brilhante. Maravilhado, o rei mandou chamar o mendigo e interrogou-o. "Trouxe-vos todas estas ofertas, Majestade", respondeu o homem, "para vos fazer compreender que a vida vos oferece todas as manhãs um dom extraordinário que esqueceis e deitais fora, porque estais rodeado de demasiadas riquezas. "

Autor desconhecido

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Amar para conhecer ou conhecer para amar?


«De entre os seres humanos, apenas conhecemos completamente a existência daqueles a quem amamos.»- Simone Weil


Por favor, não me analises;
Não fiques procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.
Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me cortes em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Envolve-me todo nos teus braços
E eu serei o perfeito amor.

Mário Quintana

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Madre Teresa de Calcutá


O dia mais belo? Hoje.
A coisa mais fácil? Errar.
O maior obstáculo? O medo.
O maior erro? Abandono.
A raiz de todos os males? O egoísmo.
A distracção mais bela? O trabalho.
A pior derrota? O desânimo.
Os melhores professores? As crianças.
A primeira necessidade? Comunicar-se.
O que mais lhe faz feliz? Ser útil aos demais.
O maior mistério? A morte.
O pior defeito? O mau humor.
A pessoa mais perigosa? A mentirosa.
O sentimento mais ruim? O rancor.
O presente mais belo? O perdão.
O mais imprescindível? O lar.
A rota mais rápida? O caminho certo.
A sensação mais agradável? A paz interior.
A protecção efectiva? O sorriso.
O melhor remédio? O Optimismo.
A maior satisfação? O dever cumprido.
A força mais potente do mundo? A fé.
As pessoas mais necessárias? Os pais.
A mais bela de todas as coisas? O amor.

Madre Teresa de Calcutá

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Ama em profundidade

Não hesites em amar e amar profundamente. Talvez receies o sofrimento que o amor profundo pode causar. Quando aqueles que amas profundamente te rejeitam, abandonam ou morrem ficas com o coração despedaçado. Mas que isso não te impeça de amar em profundidade. O sofrimento que provém do amor profundo torna o teu amor ainda mais profícuo. É como uma charrua que rasga o solo para permitir à semente ganhar raízes e tornar-se numa planta forte. Sempre que experimentas a dor da rejeição, da ausência ou da morte, enfrentas uma escolha. Podes tornar-te amargo e decidir não amar de novo ou podes enfrentar a tua dor com bravura e deixar que o solo em que permaneces enriqueça e seja capaz de dar mais vida a novas sementes.

Quanto mais tiveres amado e permitido a ti próprio sofrer por esse amor, tanto mais capaz serás de deixar o teu coração alargar-se e aprofundar-se. Quando o teu amor é verdadeiramente generoso e receptivo, aqueles que amas não deixarão o teu coração mesmo quando se afastam de ti. Tornar-se-ão parte de ti, construindo então uma comunidade dentro de ti.

Os que amaste profundamente tornar-se-ão parte de ti. Quanto mais longa for a tua vida tantas mais pessoas terás para amar e para fazer parte da tua comunidade interior. Quanto mais vasta se tornar a tua comunidade interior tanto mais fácil será reconheceres os teus próprios irmãos e irmãs entre os desconhecidos que te rodeiam. Os que estão vivos dentro de ti reconhecerão os que estão vivos à tua volta. Quanto mais vasta a comunidade do teu coração tanto mais vasta a comunidade que te rodeia. Assim, o sofrimento causado pelo desprezo, pela ausência e pela morte pode tornar-se frutífero.
Sim, à medida que amas profundamente, o solo do teu coração rasgar-se-á cada vez mais, mas regozijar-te-ás com a abundância dos seus frutos.

Henri Nouwen, A Voz Íntima do Amor

domingo, 12 de agosto de 2007

Sabedoria da Proporcionalidade

O mundo chama-lhe «Capacidade de Encaixe». Eu prefiro chamar-lhe «Sabedoria da Proporcionalidade».
Tem a ver com aprender a reagir diante de cada situação segundo o que ela merece e significa, e não segundo ela provoca. É a sabedoria de vencer a lógica da reacção… Numa re-acção, a acção nunca é nossa, mas daquele que a provoca. Nós não funcionamos senão como um espelho ou uma parede de ricochete, mais ou menos lisa.
Se numa re-acção a acção não é nossa, reagir é não ser livre. Além disso, se a acção não é nossa, reagir é não se construir.
A lógica da reacção persegue-nos a vida toda… Mas não é tão senhora de nós como pode parecer! Não pode ser!!! Temos que aprender a pôr um cabresto à lógica da reacção para que, nos momentos em que ela se insinua em nós, a domemos, dominemos e vençamos. Está ao nosso alcance! O cabresto chama-se Vontade. O treino segue a metodologia da perseverança quotidiana e não desistente.
Sem isto, não somos mais que seres ultra-sensíveis que se torcem e retorcem ao mínimo toque, e que ao primeiro dissabor atiram um ataque feroz contra essa fonte de sabores acres e amargos, sem sequer se darem conta – muitas vezes – que irão morrer à fome porque apertaram cabeças demais e acabaram por matar não só as fontes dos dissabores mas também as fontes de outras doçuras e delícias que lhes fazem falta…
As reacções são cegas, insensíveis e insensatas. Por muito que nos queiramos enganar, elas nunca estão do nosso lado! Nunca entram em jogo para nos fazer ganhar… As suas fintas quase sempre nos fazem marcar golos na própria baliza e sofrer a angústia da derrota.

Encontrar a proporcionalidade correcta entre o estímulo e a resposta. As reacções nunca são proporcionais; são exponenciais.
Aprender a Proporcionalidade é dar a cada coisa a importância que ela merece, e não a importância que lhe atribuem os nossos sentidos, os nossos afectos e emoções, ou as nossas revoltas interiores. Exige que nos livremos a cada dia da nossa «capa de ricochete relacional» para aprendermos a assimilar e centrar o que vem ao nosso encontro, sejam acontecimentos, situações imprevistas, alegrias ou tristezas, sofrimentos ou prazeres.
A «Sabedoria da Proporcionalidade» é o fio condutor da lógica da aprendizagem: descobrir em todos os acontecimentos uma porta de saída com sucesso. Sem ilusões… Dizer saída com sucesso não é sinónimo de solução fácil. Há algumas situações em que a porta de saída pode não ser uma solução, porque talvez nem a haja. Mas há sempre, em todo e qualquer acontecimento, a porta de saída da aprendizagem.
Isto significa validar todas as coisas, isto é, dar-lhes validade, valor, significado, importância. Porque o maior perigo da nossa vida são os dias em branco. Dias em que falhámos, fracassámos, errámos, foram dias em que, apesar de tudo, vivemos, arriscámos, optámos. Mas dias em branco não são mais do que suicídios de alguns pedaços de nós.
Há que recusar a neutralidade como lógica medíocre dos nossos dias, e optimizar a negatividade que de manhã à noite vem ao nosso encontro por mil e um rostos, acontecimentos e situações.
O que está em jogo somos nós próprios. Não basta ter nascido um dia… é preciso renascer todos os dias! É tarefa e necessidade do coração humano a Sabedoria de Viver, a Arte de Ser. Não está ao alcance de todos, porque é preciso conhecer alguns segredos… como este, por exemplo, da «Sabedoria da Proporcionalidade» ou, como o mundo lhe chama, a «Capacidade de Encaixe».
Para que ao vivermos uns com os outros, não nos condenemos a ser todos menos por causa da rudeza dos nossos desencaixes…


Rui Santiago cssr

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

A escolha


Numa terra em guerra, havia um rei que causava espanto. Sempre que fazia prisioneiros, não os matava: levava-os para uma sala onde havia um grupo de arqueiros de um lado e uma imensa porta de ferro do outro, sobre a qual viam-se gravadas figuras de caveiras cobertas por sangue. Nesta sala, o rei ordenava-lhes que se posicionassem em círculo e dizia-lhes, então:
- «Vocês podem escolher entre morrerem atingidos pelas setas dos meus arqueiros ou passarem por aquela porta e por mim serem lá trancados.»
Todos escolhiam serem mortos pelos arqueiros. Ao terminar a guerra, um soldado que por muito tempo servira ao rei dirigiu-se ao soberano:
-«Senhor, posso fazer-lhe uma pergunta?»
-«Diga, soldado.»
-«O que havia por detrás da assustadora porta?»
-«Vá e veja você mesmo.»

O soldado, então, abre vagarosamente a porta e, à medida que o faz, raios de sol vão adentrando e clareando o ambiente... E, finalmente, ele descobre, surpreso, que... a porta se abria para um caminho que conduzia à LIBERDADE !!!

O soldado, admirado, apenas olhou o seu rei, que diz:
- «Eu oferecia-lhes a escolha, mas preferiram morrer a arriscar-se a abrir esta porta.»

Autor desconhecido

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Sê autor da tua vida; e vê em cada pedra no caminho uma oportunidade

Quem decide por mim?

«Certo dia, um jornalista acompanhava um amigo à banca dos jornais. O amigo cumprimentou o jornaleiro amavelmente, mas como resposta recebeu um tratamento rude e grosseiro. O amigo do jornalista pegou no jornal que foi atirado na sua direcção, sorriu educamente e desejou um bom fim-de-semana ao jornaleiro.
Quando os dois amigos desciam pela rua, o jornalista perguntou:
- Ele sempre te trata com tanta agressividade e má disposição?
- Sim, infelizmente foi sempre assim...
- E tu és sempre tão educado e amigável com ele?
- Sim, procuro ser.
- Porque és tão amistoso e educado para com ele, uma vez que ele tem sempre uma atitude rude e grosseira?
- Porque não quero que ele decida como eu devo agir.»

Autor desconhecido
A Pedra
O distraído tropeçou nela...O bruto usou-a como projéctil. O empreendedor, utilizando-a, construiu. O camponês, cansado da lida, dela fez assento. Para os meninos, foi brinquedo. Drummond poetizou-a. Já Davi matou Golias, e Michelângelo extraiu-lhe a mais bela escultura... E em todos estes casos, a diferença não esteve na pedra, mas no homem!
Não existe "pedra" no teu caminho que não possa ser aproveitada para o teu próprio crescimento.
Autor desconhecido

domingo, 5 de agosto de 2007

Pensamentos

«Viver é como escrever um livro com os nossos pensamentos, palavras e actos. Se alguém fizer da sua vida um rascunho, menospreza o maior dom que recebeu do Criador, porque pode faltar-lhe tempo para passá-lo a limpo.» - Tarcisa Tommasi

«Houve homens que se interessaram de tal forma em provar a existência de Deus que acabaram por se desinteressar por completo do próprio Deus... como se o Bom Senhor nada tivesse a fazer além de existir! Houve alguns tão ocupados em espalhar o cristianismo que jamais deram um pensamento a Cristo. Amigo! Podes ver isso nas pequenas coisas. Já conheces-te um amante de livros que com todas as suas primeiras edições e obras autografadas tivesse perdido o poder de lê-las? Ou um organizador de obras de caridade que perdesse todo o amor pelos pobres? Trata-se da mais subtil de todas as armadilhas.» - C.S. Lewis

«Esta é a lição mais importante e útil que podemos aprender: conhecer-nos a nós mesmos como realmente somos, admitir abertamente as nossas fraquezas e fracassos, e ter um conceito humilde de nós mesmos por causa deles. Não nos firmar em nós mesmos e sempre ter pensamentos bons e respeitosos sobre os outros é grande sabedoria e perfeição.» - Thomas Kempis.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Sobre a Dor e a prática médica

"Agradeço a Deus pela dor", declarou Paul Brand, com a mais pura sin­ceridade. "Não posso pensar num presente maior para dar aos meus pa­cientes de hanseníase (A lepra ou hanseníase ou mal de Hansen, do nome de Gerhard Hansen, que identificou o agente da doença é uma doença infecciosa causada pelo Mycobacterium leprae que afeta os nervos e a pele e que provoca danos severos). "A maioria das pessoas vê a dor como uma inimiga. Porém, como os meus pacientes no leprosário compro­vam, ela força-nos a dar atenção a ameaças a que os nossos corpos estão submetidos. Sem ela, um ataque cardíaco, um derrame, um apêndice rompido ou úlceras estomacais aconteceriam sem aviso. Quem iria visi­tar um médico se não estivesse sentindo dor? Notei que os sintomas dos quais reclamavam os meus doentes eram, na verdade, uma prova da cura que o próprio corpo estava promoven­do. De modo geral, todas as reacções dos nossos corpos que vemos com irritação ou nojo - bolhas, calos, inchaços, febre, espirro, tosse, vómito e, especialmente, a dor - demonstram um reflexo em direcção à cura. Em todas essas coisas, normalmente consideradas como nossas inimigas, podemos encontrar uma razão para sermos agradecidos.

Paul Brand expressou o princípio orientador da sua carreira médica da seguinte maneira: "O bem mais precioso do ser humano é o seu espí­rito, seu desejo de viver, seu senso de dignidade, sua personalidade. Embora possamos ser descritos em termos de tendões, ossos e termina­ções nervosas, jamais devemos perder de vista a pessoa que estamos tratando".

Um doente tratado por Paul Brand disse:"Digo-lhe que sou feliz por ter tido esta doença". Perguntei, incrédulo: "Feliz?" Ele respondeu-me: "Sim. Se não fosse a hanseníase, eu teria sido um homem normal, com uma família normal, em busca da riqueza e duma posição mais alta na socieda­de. Nunca teria conhecido pessoas tão maravilhosas quanto o Dr. Paul Brand e a Dra. Margaret, e jamais teria conhecido o Deus que vive neles".

"Nunca ganhei muito dinheiro com a Medicina, especialmente em fun­ção dos lugares onde a pratiquei. Mas digo-lhe que, olhando para trás, para uma vida toda dedicada à cirurgia, vejo que a multidão de ami­gos que um dia foram meus pacientes traz-me mais alegria do que qualquer riqueza poderia dar. Encontrei-os pela primeira vez quando eles estavam sofrendo e com medo. Como seu médico, compartilhei a sua dor. Agora que estou velho, é o seu amor e a sua gratidão que ilumi­nam o caminho da minha vida. É estranho. Aqueles de nós que se en­volvem com lugares em que existe o maior sofrimento olham para trás surpresos por descobrir que ali foi o lugar onde conheceram a realidade da alegria.

"Para aprender como Deus vê o sofrimento neste planeta, precisa­mos apenas olhar para a face de Jesus nos momentos em que ele se move entre os paralíticos, as viúvas e os leprosos. Ao contrário de muitos da sua época, Jesus mostrava uma ternura incomum para com aqueles que tinham um histórico de pecados sexuais - veja como ele age com a mu­lher samaritana no poço, ou com aquela de má reputação que lavou os seus pés com os seus cabelos, ou com a mulher flagrada em adultério. Em Jesus, disse Donne, temos um grande Médico que "conhece as nossas en­fermidades naturais, pois ele as teve, e sabe o peso dos nossos pecados, pois ele pagou um alto preço por eles".

Philip Yancey - "Alma Sobrevivente"

terça-feira, 31 de julho de 2007

Vê com os olhos do coração

« A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que há em ti são trevas, quão grandes são tais trevas!» - Mateus 6, 22,23

Conta a história que uma jovem e dinâmica mulher de negócios mostrava sinais de fadiga e stress. O médico receitou-lhe tranquilizantes e pediu-lhe que voltasse para uma consulta duas semanas depois. Quando ela voltou, ele perguntou-lhe se se sentia diferente.
- Não.- respondeu; mas tenho observado que as outras pessoas parecem estar bem mais relaxadas.

Normalmente, vemos os outros não como são, mas como nós somos. Uma pessoa é, num sentido real, o que ela vê. E ver depende dos olhos. Jesus usa a metáfora dos olhos com mais frequência do que a da mente ou da vontade. O velho provérbio, "os olhos são as janelas da alma", contém uma profunda verdade. Os nossos olhos revelam se as nossas almas são espaçosas ou entulhadas, hospitaleiras ou censuradoras, compassivas ou repreensoras. O modo como vemos os outros é normalmente o modo como vemos a nós mesmos.

O julgamento depende do que vemos, de quão profundamente olhamos para o outro, de quão honestamente encaramos a nós mesmos, de quão dispostos estamos a ler a história humana por trás do rosto apavorado.

Brennan Manning- O Evangelho Maltrapilho

domingo, 29 de julho de 2007

Contentamento


É quase impossível encontrar uma definição completa e definitiva para a felicidade, mas é facto que, qualquer que seja a sua definição, estará associada aos estados de espírito com os quais atravessamos a vida. Podemos, inclusi­ve, alongar a discussão a respeito da distinção entre ser feliz, estar feliz e sentir–se feliz, e sobre como a felicidade é diferente da alegria, que, por sua vez, é diferente da euforia. Mas isso é complicar demais as coisas. O facto é que, se és feliz, então sentes-te feliz, e se tu estás feliz, também te sentes feliz, e esse sentimento de felicidade é, necessariamente, um estado de espírito, que pode ser duradouro, razoavelmente comum ou eventual. Nesse caso, prefiro simplificar um pouco mais e trocar a palavra "fe­licidade" por "contentamento", que defino como a capacidade de estar satisfeito (de adaptar–se) em qualquer situação. Esse tipo de contenta­mento não se explica pelas circunstâncias favoráveis e ou confortáveis, mas sim pela capacidade de exercer domínio sobre o estado de espírito de tal maneira que os factores externos que o abalam sejam em número cada vez menor.Contentamento é uma satisfação de dentro para fora. Vicente de Car­valho traduziu muito bem essa experiência do contentamento quando disse que a felicidade, essa árvore frondosa e cheia de frutos, existe sim, mas existe no lugar em que a plantamos, e o problema é que quase nunca a plantamos no lugar onde estamos. A expressão mais comum para os infe­lizes é que serão felizes "assim que...". Assim que arranjarem um emprego novo; um romance novo; um carro novo; uma casa nova; um chefe novo; e tanto mais, cada vez mais.Esse estilo de vida "assim que..." coloca a felicidade no futuro e perpetua o descon­tentamento, que impede a alegria de des­frutar o presente, as pessoas que temos em volta, as circunstâncias reais e imediatas que nos oferecem possibilidades de realização. A palavra contentamento deriva do latim contentu ("contido") e sugere a ideia de conteúdo. Nesse caso, contente é aquele que tem conteúdo em si mesmo ou que é capaz de usufruir o conteúdo da realidade na qual está inserido. Em outras palavras, em qualquer lugar, em qualquer companhia, e em qualquer circunstância existe possibilidade de contentamento mas somente para aqueles que sabem explorar a sua riqueza interior, ou as potencialidades do momento, ou ambas.Um momento de contentamento é aquele em que tudo parece certo: não há necessidade de mudar o que estás a fazer, nem a pessoa com quem estás, nem o lugar onde te encontras.

Ed René Kivitz, Vivendo com propósitos

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Parar para ver, ouvir e ler...


Pára um pouco! Desfruta tranquilamente deste momento; ouve com atenção estas palavras, contempla estas imagens, viaja ao som desta melodia... Por instantes, esquece o mundo lá fora, os teus múltiplos afazeres, as tuas pesadas pré-ocupações... Este momento também é importante! A vida é Aqui e Agora!




Autor: Rui Santiago -
http://www.youtube.com/user/ruisantiagocssr

Pára mais um pouco. Parar é importante...
Olha, vou fazer-te uma: como foi o teu dia? Não, não, não quero que me digas se correu bem ou mal, não quero que me digas que fizeste isto ou aquilo, não! Interessa-me saber quem és, quem foste hoje. Vá lá, como foi o teu dia? És mais feliz? Quantos sorrisos plantaste hoje? A quantas pessoas enriqueceste hoje, com a tua passagem?
Vês? Há perguntas difíceis, não há? Mas são as mais importantes. Pára um pouco! Liberta-te por um pedaço de tantas coisas urgentes! Sabes, passas os dias à volta de coisas urgentes, e costumas esquecer as importantes. É sempre tudo tão urgente, não é? A vida pede-nos tudo com urgência, tudo para ontem! E o importante, pode sempre ser amanhã. Na maior parte das vezes, um amanhã que demora a chegar…E na lógica das coisas urgentes, deixamos de viver e passamos a existir.Viver como pessoa humana é construir-se em cada dia, é ter-se nas mãos e fazer-se sem descansos, com a argamassa da Amizade, os tijolos do Amor, as ferramentas da Verdade. O ser humano não nasce feito, acabado. Temos que construir-nos como pessoas felizes, e isso acontece na medida em que souberes inventar relações de Amor, relações de bem-querer com aqueles que te rodeiam.
Vou dizer-te um segredo – fixa-o bem! – viver é conviver. Viver é conviver com os outros, porque ninguém é feliz sozinho. Mas a lógica das coisas urgentes costuma empurrar-nos sempre para o egoísmo, não é assim? Pensa bem: quantas vezes hoje te entraram pelos ouvidos frases deste género: “Isso é cá comigo”, “cada um que se arranje”, “eles são eles, eu sou eu”; quantas vezes as ouviste? E, já agora, quantas vezes as disseste? Às vezes, parece que vivemos enroscados em nós próprios, girando infinitamente sobre o nosso belo umbigo; e assim, perdemos o gozo de viver, o sentido dos nossos dias e a alegria que o nosso coração nos pede. Porque nos fechamos ao diálogo, à partilha, à fraternidade, à amizade. Fechar-se aos outros é fechar a porta ao encontro com Deus. Abrir-se aos outros é pôr-se na disposição de ser encontrado pela novidade surpreendente do seu Amor.
Olha, vou dizer-te mais um segredo: com Deus, ninguém fica a perder! A Fé verdadeira, aquela ao jeito de Jesus Cristo, não é uma piedadesinha domingueira, assim a cheirar a bafio e a bolas de naftalina, não! A Fé é uma arte de viver com sentido, a Fé é um descobrir os horizontes máximos da vida em Deus. O Seu Amor é a fonte, o Seu Amor será, no fim, a plenitude.Olha, e se tudo isto fizesse sentido também para ti? E se te abrisses hoje à novidade de Deus? Não o das imagens gastas, mas o Deus de Jesus de Nazaré, aquele Deus que faz nascer Vida Nova no coração daqueles que o acolhem – como tu…
Rui Santiago

terça-feira, 24 de julho de 2007

Relações(2ª parte)


Já te falei de auto-estradas, de carreirismo e de sprinters…

Queria ainda falar-te de duas palavras que conheces muito bem: entras num supermercado e, se reparares, encontras-te num mar de produtos light e artigos descartáveis.Tudo é light, dos sumos às manteigas, e tudo é descartável, desde as fraldas às giletes.O pior é que o critério light e descartável aninhou-se nas relações entre as pessoas. As relações são cada vez mais light, sem compromisso real, sem disponibilidade para aguentar sofrer naqueles momentos em que amar faz doer, sem promessa de fidelidade incondicional… A relação light é a típica relação do “vamos ver se dá”…O resultado imediato das relações light é que se tornam rapidamente relações descartáveis, relações de “usar e deitar fora”…

Se todos acordássemos para isto, o mundo poderia começar a ser diferente…Se as auto-estradas fossem só uma questão de alcatrão… mas são o sinal de uma mentalidade que nos entrou nas veias, a mentira de fazer da vida uma carreira, que nos impede de nos sentarmos nos bancos de jardim do coração a partilhar o dia com os amigos porque, na verdade, não há amigos mas sim adversários.

Se os critérios light e descartável fossem só uma questão de calorias e vasilhame… mas são o sinal de uma superficialidade que se nos colou ao coração e vai reduzindo as nossas relações a encontros à flor da pele e atitudes que não transformam mais que a casca da vida. Se todos nos déssemos conta de que criar relações verdadeiramente humanas é optar por viver em atitudes e gestos de bem-querer e atenção aos outros, de compromisso vital para que ninguém fique mais triste, pobre ou infeliz por nos ter conhecido…Se percebêssemos que este é exactamente o segredo mais profundo da nossa construção pessoal…Se tivéssemos os olhos bem abertos, perceberíamos que só o amor nos constrói…E se tivéssemos o coração suficientemente disponível para assumir o amor como sentido dos nossos dias, tenho a certeza que seríamos muito mais felizes!

Rui Santiago cssr

domingo, 22 de julho de 2007

Relações(1ª parte)


Uma das grandes invenções do nosso tempo são as auto-estradas. Até em relação à informática e aos meios audiovisuais se fala já das “auto-estradas da comunicação”. Só que reduz-se a tal “comunicação” a um intercâmbio de informação…É um sinal bem claro do que vem acontecendo às relações entre as pessoas nas últimas décadas. Cada vez está mais fácil e imediata a comunicação, mas cada vez são mais precárias e breves as relações. Porque talvez não nos andemos a encontrar ao nível certo…

As auto-estradas estão construídas para ultrapassar. Por isso é que é impossível ter uma só faixa de rodagem, porque isso dificultaria as ultrapassagens. A característica que identifica uma auto-estrada é possibilitar do início ao fim a “arte da ultrapassagem”.Ora, é exactamente a imagem do mundo que vimos construindo, onde as pessoas não se encontram verdadeiramente nem caminham juntas. Apenas se cruzam e entrecruzam enquanto se tentam ultrapassar.E o pior é que estamos a inocular esta “arte da ultrapassagem” no sangue inocente das crianças. Cada vez que comparamos uma criança com outra para a fazer sentir-se diminuída, ensinando-a a tirar daí motivação para ultrapassar a outra criança, estamos a inscrever desde logo no seu inconsciente (onde ganham raízes os valores que moldam a personalidade) que o importante não é ser bom. O mais importante é ser melhor que o outro. Mais importante que vencer-se cada um a si próprio, nas suas limitações e dificuldades, é vencer os outros. E assim vamos desde cedo envenenando o futuro…Deixamos de ter amigos porque os olhamos como rivais, os companheiros de caminhada passam a ser adversários, e os que caminham mais devagar não passam de estorvos.

Sabes que mentalidade é esta?A mentalidade daqueles que não esperam da vida mais que uma carreira!E não penses que isto está tão longe de ti como te pode parecer. Pensa bem…Desde pequenos, à célebre pergunta: “O que queres ser quando fores grande?”, somos ensinados a responder com uma carreira: “Quero ser professor, médico, advogado, veterinário…”. Quase nenhuma criança foi ensinada a responder: “Quero ser feliz!”Conheço muita gente que troca a vida por uma carreira. E isto – garanto-te – não é mais que um suicídio em câmara lenta.Foi esta mentalidade de “carreirismo” que inventou as famosas auto-estradas do coração, onde os outros não são mais que adversários a deixar para trás quanto antes.No nosso mundo, os heróis são todos “sprinters”.

O logótipo do sucesso é sempre alguém que, orgulhosamente só, chegou mais longe e mais rápido que todos os outros que queriam chegar ao mesmo, ficando assim no topo de um pedestal onde apenas há lugar para um, sobre todos aqueles que, por terem ficado para trás, lhe são submissos, ainda que a submissão esteja enraizada na inveja, no desejo de ver o outro fracassar ou na injustiça.Os heróis são os sprinters, os que chegam à meta em primeiro lugar e sozinhos. Quanto mais distantes dos seguintes, maior o brilhantismo. Parar pelo caminho para dar a mão aos companheiros é perda de tempo e chegar à meta de mãos dadas é “falta de espírito competitivo”. E no nosso mundo, só os que competem podem triunfar…(continua)

Rui Santiago cssr

quinta-feira, 19 de julho de 2007

O diabo e o seu amigo

Saiu o diabo a passear, um dia,
com um amigo seu; viram um homem
que, ali perto, se inclinava para o chão
e parecia pegar em algo caído sobre a estrada.

«Que terá ele encontado?». pergunta o amigo.
«Foi um pedaço de Verdade», diz o diabo.
«E isso não te perturba?», volta o amigo.
«De modo algum, respondeu-lhe o demónio;
deixarei, simplesmente, que ele faça,
daquele pedacinho de verdade,
nem mais nem menos que uma crença religiosa!».

Uma crença religiosa é como um sinal de trânsito que aponta o caminho da Verdade. As pessoas que se agarram ao poste e à tabuleta, evidentemente não caminham para a verdade por terem a falsa sensação de já a terem encontrado.

Anthony de Mello, O canto do pássaro

terça-feira, 17 de julho de 2007

A Loja da Verdade

Mal pude crer nos olhos quando vi
o nome do lugar: A Loja da Verdade.
Ali eles vendiam a Verdade!

A funcionária ao balcão foi delicada:
que tipo de verdade eu procurava...
só parte dela ou a Verdade toda?
Pois claro, a Verdade toda.
Não me dê decepções nem altos pensamentos.
Eu disse que gostava da Verdade
muito clara, simples, inteira.
Ouvindo isto, ela conduziu-me então
para o outro lado do balcão onde vendiam,
somente aí, a tal Verdade inteira.

O comerciante olhou-me compassivo
e mostrou-me a «etiqueta» com o preço:
«Como assim?», perguntei, determinado
a conseguir, custasse o que custasse
a Verdade toda.
«É que... se levar esta Verdade,
o preço que por ela vai pagar
será não ter mais descanso na vida».

Foi o que disse o homem do balcão
e eu, triste, afastei-me dessa loja
porque pensava eu, tolo, que podia
achar a Verdade inteira... a baixo preço.
Não estou pronto ainda para ela;
quero descanso e paz, de vez em quando;
sinto que preciso ainda de racionalizar,
de usar defesas,
escondendo-me atrás dessas muralhas
que levantei com crenças imbatíveis!

Anthony de Mello, O canto do pássaro

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Medos - Parte III

À medida que vou conversando contigo, não me sai da cabeça a imagem dos mineiros a aventurar-se em grutas que nunca ninguém percorreu…Há sempre os que ficam à porta da mina, “à superfície”, como eles dizem. A gruta é escura, os túneis desconhecidos, e o medo é mais forte…Tal e qual como na vida: há sempre os que ficam à porta, na superficialidade da existência, no lado de fora da realidade. E há os outros… os que entram. Não sem medo, não sem incertezas, não sem dificuldades… mas entram! E depois, desde a superfície até ao filão de minério que procuram, ainda há um caminho por contar. Mas, para contar, é preciso fazê-lo primeiro…Nesse caminho, há pedaços da gruta que são escuros e bates com a cabeça nos tectos mais baixos, ou tropeças nalgumas pedras mais levantadas e cais. No chão, descobres também que há outras pedras na parede, logo ali, onde podes apoiar as mãos para te levantares outra vez, porque o minério que procuras ainda te chama ao longe. Nesse caminho, há passagens tão estreitas que te arrancam pedaços e te fazem gemer por momentos a dor dos cortes. Mas isso é já depois de teres passado…E continuas a caminho, talvez ensanguentado, mas continuas. E dás-te conta de que o sangue rapidamente estancou. E sorris até, ao reparares que deixas por momentos atrás de ti um trilho marcado com o teu sangue para quem vier atrás, um apelo delineado com a tua própria vida para quem quiser seguir-te na procura dos tesouros que “à superfície” não se encontram.

E começas a sentir-te verdadeiramente feliz. Pela primeira vez saboreias a felicidade de construir um caminho que vale a pena, para ti e para os outros.À medida que avanças, encontras também pequenos charcos de água incrivelmente fresca que brota de nascentes que tens ao alcance da mão. E sentas-te, refrescas-te e saboreias a doçura de momentos como só dentro da gruta tiveste a oportunidade de experimentar. E, ao parares, dás-te conta de que há um companheiro que estava contigo nos primeiros metros de caminhada e já deixou de te acompanhar: o medo. Perdeste o medo, não porque lhe fugiste, mas porque o olhaste de frente e lhe passaste por cima. E diante de gente corajosa, o medo deixa-se ficar para trás.Sentiste-te livre! Descobriste que a liberdade verdadeira é a ausência de medos, e ficaste ainda mais feliz, porque só os homens livres podem ser felizes.

Continuaste a caminhar…E foste encontrando de tudo, entre galerias que se faziam aos pulos e de braços abertos, e passagens tão estreitas que as fazias deixando pedaços de carne e riscas de sangue nas pedras mais salientes. Mas estavas feliz, profundamente feliz, à procura do minério valioso que só na profundidade da gruta podias encontrar.Havia momentos em que caminhavas assobiando, saboreando ainda o fresco das águas das nascentes no teu rosto e nos teus músculos; havia outros em que caminhavas gemendo, sentindo os passos esforçados das pernas ensanguentadas. Esforçados, mas nunca hesitantes!Até que… finalmente!Finalmente…
Abriu-se aos teus olhos uma galeria cujas paredes tinham um brilho que jamais havias sequer imaginado enquanto tinhas andado “à superfície”… Um brilho que mal te cabia nos olhos e certamente não te cabia nas palavras.Tinha valido a pena!Nunca te tinhas sentido tão feliz!Nunca te tinhas deslumbrado com tamanha maravilha!Tudo o que conhecias te parecia de repente mais pequeno…Nesse momento sentiste uma pena imensa de tantos que tinham ficado à entrada da gruta, derrotados pelo medo das inseguranças e das incertezas do que poderia acontecer. Sentiste pena deles…E depois começaste a rir… A rir de vitória por teres enfrentado nos olhos o teu próprio medo. Quase dançavas de alegria com o gozo que dá ser livre! E até as feridas do caminho se transformaram a teus olhos. Farias tudo novamente, mil vezes se fosse preciso, porque agora experimentavas que descer à gruta tinha sido o melhor que já te acontecera na vida. Contra o medo, contra as incertezas, contra as palavras desanimadoras dos que na superfície se despediram de ti, contra os que te chamaram louco. Porque intuías no coração, no meio de tudo isso, que estava em causa a tua vida.E estava…Tudo menos deixar de viver, por ter medo de que a vida nos possa doer!



Rui Santiago cssr

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Medos - Parte II

Mas o mundo não quer que estas coisas se digam muito alto… Não, porque isto põe tudo em causa, e depois começa tudo a transformar-se, tranquilidades a desmoronar-se e rotinas a perder-se. E o mundo tem muito medo que isto tudo aconteça…O que se ouve gritar e repetir nos altifalantes do mundo faz da vida uma carreira, da felicidade uma tranquilidade sem sabor e uma alegria sem sentido. De tal maneira, que ao fim de cada dia quase apetece ir espreitar nas janelas das casas e atirar a pergunta que vi uma vez escrita numa parede da cidade: “Então, foste um bom robot hoje?”Mas nem me responderiam… O que estivessem nesse momento a ver na televisão seria para eles muito mais importante. Pelo menos, a televisão não faz este tipo de perguntas nem põe em causa o sentido da vida e o sabor dos dias. E tudo isto se entende, porque nas entrelinhas de tantas palavras, luzes e movimentos das nossas cidades, serpenteia a palavra “medo”…
Uma das invenções mais recentes da humanidade são as fechaduras. Durante milénios havia apenas trancas nas portas, que qualquer um podia abrir. Foram já os nossos bisavôs e avós que inventaram as fechaduras com chave. Mas ainda não chegava de segurança… Por isso, os nossos pais inventaram as portas blindadas e os vidros inquebráveis… Depois, nós especializámo-nos em sistemas de vigilância e segurança que utilizam as mais complexas técnicas descobertas, desde circuitos fechados de vídeo a detectores de movimento, sensores infravermelhos… e tudo o resto que serene tantos medos…

O pior é que nesta história recente de fechar as portas, também o coração se tem ressentido… Fechamos as portas de casa aos imprevistos da rua, e fechamos as portas do coração aos imprevistos da vida. Tudo em nome da segurança…Mas não é com seguranças que se constrói uma vida feliz; é com opções arrojadas, riscos, iniciativas, enganos e recomeços.Vou dizer-te um segredo: o medo é o que de mais autodestrutivo podes ter ao alcance do coração. Não te deixes vencer! Mas resiste também à tentação de lhe fugir. Ele perseguir-te-á incansavelmente. Só se vence o que se olha nos olhos e se combate de frente, cara a cara, de peito aberto e pés ao caminho. Força! Só assim vale a pena viver: lutando! Construindo, arriscando, descobrindo, inovando, corrigindo… só assim vale a pena. E não temos outra oportunidade.
Também sei que aleija de vez em quando.Também sei que há passos que se dão e deixam algum rasto de sangue atrás. Sim, também sei… Mas, mesmo assim, juro-te que só vale a pena viver se estivermos dispostos a sangrar!Ainda me lembro das vezes sem conta em que rasguei os joelhos para aprender a andar de bicicleta. Num deles ainda tenho as marcas. E já lá vão uns anos… Mas valeu a pena! Uns anos depois de tantos tombos, pude saborear longos passeios entre os pinhais na aldeia dos meus avós, a pedalar na minha bicicleta. E lembro-me como ia ao fim das tardes de verão tomar um banho ao rio, e voltava em caminhos de terra batida que contornavam pedras e arbustos dos que não se encontram nas cidades. E muitas outras lembranças, e muitos outros sabores dos meus longos passeios de bicicleta… Mas, para isso, ainda tenho num joelho as marcas de tantas quedas. Sabes o que te digo? Valeu a pena!!!E na vida também é assim… (continua)

Rui Santiago cssr

Jovens Redentoristas

terça-feira, 10 de julho de 2007

Medos - Parte I

Começa a preocupar-me a tranquilidade do meu mundo e a passividade de tantos irmãos ao meu lado…
Todos procuram desesperadamente seguranças, e não transformações. E nem imaginam o que estão a perder… E nem imaginam que estão a fechar as portas à felicidade verdadeira, que normalmente vem embrulhada no papel dos imprevistos, adornada com o laço das novidades e nas mãos de amores que nos propõem virar de pernas para o ar o nosso coração.
Sim, nem se dão conta de que viver seguro num palácio de portas trancadas evita os assaltos, mas também impede as visitas dos amigos…
Se uma mão descesse do céu obrigando os homens à escolha entre a Felicidade e a Tranquilidade, conheço muitos que abraçariam a Tranquilidade sorridentes. Dão-me pena… As seguranças das vidas tranquilas são mais apreciadas e procuradas que as transformações das vidas felizes.
Não consigo entender uma juventude que não sonha com mais do que uma “vida normal”… Vidas extraordinárias, vidas arriscadas, coração em sobressalto, tudo isso é bonito de ver nos filmes e admirar nos heróis de todos os tempos, os de ontem e os de hoje. Mas os heróis são sempre os outros… Vidas dessas são para ser admiradas e aplaudidas; não vividas.
Porquê?!
Não entendo! Juro que não…
Gostava de perceber melhor as causas do medo. Sim; porque é o medo a raiz de tudo isto. Não duvides…
Se lhes deres a optar entre uma vida feliz mas com riscos, perigos, incertezas, possíveis desilusões, quedas e recomeços, e uma outra vida mais tranquila, monótona até, vulgar e medíocre, mas sem inseguranças, sem riscos, desilusões, possíveis crises nem necessidade de esforço, temo que a maioria, sem hesitar, escolha a segunda.
As pessoas não se atiram de caras à vida, porque têm medo de se aleijar.
Os jovens não assumem grandes riscos, porque têm medo de se enganar.
Quase ninguém assume grandes transformações, porque tem medo das incertezas que sente como espinhos no coração.
São cada vez menos os que amam de verdade, porque são cada vez mais os que têm medo de sofrer.
E assim vamos criando um mundo de gente tranquila mas não verdadeiramente feliz, segura mas não apaixonadamente transformada.
Tenho pena que a maior parte dos meus irmãos ainda não se tenha dado conta de que só vivemos uma vez. E o que se decide numa só possibilidade não pode ser vivido a meio gás!
Tenho pena que tantos se deixem viver pela vida, em vez de a agarrarem nas mãos e perguntarem o que hão-de realmente fazer com ela.

Tenho pena que os homens, por medo, cada vez mais se limitem a existir, e deixem de viver de verdade. Porque viver é infinitamente mais que existir…
Viver de verdade é viver apaixonadamente.
Viver apaixonadamente é pôr o amor à frente das seguranças, a felicidade que se constrói à frente da tranquilidade que nos amarra. (continua)

Rui Santiago cssr

sábado, 7 de julho de 2007

Desabituar-se


Desabitua-te!
Desta janela em que escrevo, vejo os comboios a passar lá em baixo, não muito longe de mim. Mas daqui quase não os escuto. No entanto, há casas que estão mesmo coladas à linha férrea. Antes, admirava-me como conseguiriam essas pessoas dormir. Agora já não. Porque falei com algumas e revelaram-me o segredo: “nos primeiros dias ninguém pára, mas depois a gente habitua-se, já nem se dá conta”, disseram-me elas. Eis a maravilhosa capacidade de nos habituarmos.Mas depois, pus-me cá a pensar na nossa vida, e prefiro chamar-lhe assim: eis a perigosa capacidade de nos habituarmos. Porque o barulho dos comboios é como tudo: quando nos conseguimos habituar, deixamos de dar conta. E vejo que nos costumamos habituar a coisas demais. O hábito faz-nos perder a atenção dos acontecimentos, rouba-nos o gozo das novidades, e o sabor irrepetível dos dias; impede-nos de crescer. As pessoas habituam-se a viver juntas, e deixam de prestar atenção umas às outras. Um casal habitua-se ao casamento, e perdem o gozo do namoro. Esquecem a necessidade de se seduzir todos os dias. Habituam-se. E esquecem-se que têm que se pedir um ao outro de novo em casamento, em cada manhã.Deixamos cair até a nossa Fé na rotina do hábito, e tudo se vai tornando estéril. Vamos cumprindo rituais, aos quais chamamos obrigações e deveres. Vamos-nos habituando a cumpri-los, mas sem percebermos verdadeiramente para que servem.Habituamo-nos a ser o que somos, e deixamos de sonhar em ser mais. Habituamo-nos ao ritmo quotidiano, a que chamamos vida, e deixamo-nos engolir por ele. Habituamo-nos às correrias, habituamo-nos às inutilidades sempre tão urgentes, habituamo-nos a andar tristes. Habituamo-nos a encher a boca de queixas e lamentos. E assim, deitamos fora a vontade de mudar e viver de novo cada dia que nos calha em sorte. E depois… depois ainda somos capazes de dizer, com o rosto triste e um encolher de ombros desolado: “É a vida! Temos que nos habituar!”Não, não, amigo! Para ser verdadeiramente Vida, tens é que te desabituar!

Rui Santiago cssr

Hábito


O hábito torna-nos cegos às maravilhas do mundo - indiferentes e inconscientes perante os milagres quotidianos -, embota a força dos sentidos e dos sentimentos - torna-nos escravos dos costumes, mesmo tristes e culpados: suprime a vista, espanto, fogo e liberdade. Escravos, frígidos, insensatos, cegos: tudo propriedade dos cadáveres. A subjugação aos hábitos é uma subjugação da morte; um suicídio gradual do espírito.

(...)O hábito destrói a pouco e pouco o maior dom de Deus - a liberdade. Enquanto livres, somos feitos à imagem de Deus e capazes de nos aproximarmos, de nos reunirmos a Ele. Mas os hábitos, ao impedirem a evasão da mediocridade usual e os novos nascimentos, cancelam a semelhança divina, afastam o homem de Deus(...) Cristo promete o reino dos céus àqueles que se tornam pequenos - precisamente porque as crianças ainda não são afectadas pela camisa-de-forças dos hábitos.

Giovanni Papini - Relatório sobre os homens

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Chamo-Te

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.


Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.


Sophia de Mello Breyner Andresen

A Paz sem vencedor e sem vencidos

A paz sem vencedor e sem vencidos
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Mudar ou não mudar...

Fui um neurótico por muitos anos.
Cheio de depressões, angústias e egoísmos.
E toda a gente me dizia que mudasse;
acrescentando:«hás-de ter muitos amigos,
com esse feitio».
Eu sentia isso e concordava, ao mesmo tempo;
e queria até mudar, mas não podia;
e tentando, tentava o impossível.

Mas o que mais me feriu foi um amigo,
o meu melhor amigo, ele também, sempre a dizer:
«tu precisas de mudar, estás neurótico!».

Certo dia, porém, este amigo foi diferente:
«Não mudes! - disse. Fica assim como és!
Eu gosto de ti; não mudes;
não consigo deixar de te amar!».

Que melodia foi, nos meus ouvidos,
esta frase do amigo: «Não mudes... Não mudes!
Não mudes... eu gosto de ti!».

Posto isto, relaxei; voltei à vida
e, oh grande maravilha, foi então que eu mudei!

Agora sei que não teria conseguido, realmente, transformar-me, até ao dia em que encontrasse alguém que me amasse do modo que eu era: com ou sem mudança!

É assim que Vós me amais, oh Deus?

O canto do pássaro, Anthony de Mello