segunda-feira, 25 de maio de 2009

COMO AVES MIGRATÓRIAS


Nós somos aves migratórias.
O nosso ninho é apenas um abrigo passageiro.
Estamos a caminho de um outro país.
Somos aves migratórias,
e por isso não ficamos parados no ninho...
vivemos de olhos postos num outro destino.
É para lá que voamos,
com o coração pleno de ansiedade.

Mas os nossos anseios
não nos tolhem os movimentos.
Abrem-nos o coração
e deixam-nos respirar livremente.
Eles conferem dignidade humana à nossa vida.

Só há vida verdadeira
quando somos movidos por ideais.
É no lugar onde residem
esses teus ideais mais profundos
que se encontra o verdadeiro caminho para a vida;
só aí podes descobrir a vitalidade que te falta.

Os teus anseios ajudam-te a conheceres-te a ti próprio.
Quando sentes os teus anseios,
ouves o teu próprio coração.
Nesse momento, os outros,
com as suas expectativas,
não têm qualquer poder sobre ti.
Esta ânsia impede-te de reagir com resignação
às desilusões que sofres na vida.
Pelo contrário, são as desilusões
que mantêm vivos os teus desejos.

Não há nada na Terra - nem sucessos nem pessoas -
que possam acalmar a inquietação da nossa alma.
Só alcançaremos a paz quando
encontrarmos em nós a nascente da água que não se esgota,
a segurança e o abrigo de onde nunca seremos afastados
e um amor que nunca se apaga
nem se esvai por entre os dedos.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A TIRANIA DO «EU» (2ª PARTE)

Como libertar-nos dessa tirania? Quando o homem deixa de se referir a essa imagem ilusória nasce a tranquilidade mental. A libertação consiste, pois, em esvaziar-se de si mesmo, tomar consciência e convencer-se de que esse «eu» é uma mentira, uma sombra.

Logo que o homem deixa de se referir ou de se apegar a esse «eu», apagam-se os medos, as angústias e as obsessões, que são chamas vivas. E, apagadas as chamas, nasce o descanso, da mesma forma que, consumido o óleo da lâmpada, se apaga o fogo. Morre o «eu» e nasce a liberdade.

Desprendido de si e das suas coisas, e libertado das amarras do «eu», o coração pobre e humilde entra no seio profundo da liberdade. E, a partir daí, começa a viver livre de todo o medo, na estabilidade emocional de quem está acima de qualquer mudança.

O coração pobre e humilde, libertado já da obsessão da sua imagem («eu»), não se preocupa com o que pensem ou digam dele, e vive, silencioso, numa agradável interioridade. Movimenta-se no mundo das coisas e acontecimentos, mas a sua morada está no reino da serenidade.
Não precisa de defender nada, porque nada possui. Não ameaça ninguém e por ninguém se sente ameaçado.

Ignacio Larrañaga, em "A Rosa e o Fogo"

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A TIRANA DO «EU» (1ª PARTE)

O «eu» é uma ilusão, uma ficção que nos seduz, uma mentira que exerce sobre o homem uma tirania cruel: está triste porque a sua imagem perdeu o brilho.
Parece abatido porque a sua popularidade caiu. Vai caindo na depressão porque o seu prestígio se despedaçou. O seu «eu» (identidade pessoal) permanece inalterável. É sua imagem («eu») que sobe ou desce. E, no vaivém dos aplausos ou vaias, sobem e descem as suas euforias e depressões. Como se vê, o «eu» rouba ao homem a paz e a alegria.

Vive obcecado por ficar bem, por causar boa impressão; está sempre ansioso em saber o que pensam dele, o que dizem dele, e, nos ziguezagues desses altos e baixos, o homem sofre, teme, emociona-se.
A vaidade e o egoísmo amarram o homem a uma dolorosa e inquietante existência.

Pior ainda: o «eu» coloca o homem num campo de batalha. Ataca e fere os que brilham mais do que ele no fragor das invejas, vinganças e rixas, que são as armas com que defende a sua imagem. E assim nascem as guerras fratricidas, desencadeadas em nome de uma mentira, de uma louca quimera, de um fogo-fátuo.

Ignacio Larrañaga, em "A Rosa e o Fogo"

terça-feira, 19 de maio de 2009

O FALSO «EU» (2ª PARTE)

«O falso eu é a pessoa que nós apresentamos ao mundo, aquela que, em nosso entender, será agradável aos outros: atraente, confiante e bem sucedida. O verdadeiro eu, por outro lado, é a pessoa que nós somos diante de Deus.
A santidade consiste em descobrir quem é essa pessoa e em lutar para conseguir sê-lo. (...)

O verdadeiro eu de cada pessoa é uma criação única de Deus, e o caminho para a santidade é tornarmo-nos o único eu que Deus deseja que nós sejamos.(...)

Thomas Merton refere-se a essa jornada como a «descoberta de mim mesmo ao descobrir Deus». Ele diz: «Se eu O encontrar, encontrar-me-ei a mim mesmo, e se eu encontrar o meu verdadeiro eu, também encontrarei a Deus.» Por outras palavras, Deus quer que nós sejamos as pessoas para que fomos criados: ser pura e simplesmente aquilo que somos, e, nesse estado, amar a Deus e deixarmo-nos amar por Ele. Trata-se, na verdade, de uma caminhada dupla: encontrar Deus significa deixarmos que Ele nos encontre. E encontrar o nosso verdadeiro eu significa permitir que Deus nos encontre e nos revele o nosso verdadeiro eu. (...)

O desejo de o nosso verdadeiro eu ser revelado, de nós nos aproximarmos mais de Deus, foi um desejo plantado dentro de nós por Deus.
Ao mesmo tempo, a nossa própria individualidade, o nosso próprio tipo de santidade, vai sendo gradualmente revelado. (...)
O tipo de santidade de cada um vai-se tornando mais claro à medida que o verdadeiro eu se vai revelando.

E, à medida que nos vamos aproximando mais do nosso verdadeiro eu, do eu que deveríamos ser, do eu criado por Deus, mais as nossas facetas mais amáveis vão sendo naturalmente ampliadas, e mais as nossas facetas pecaminosas se vão reduzindo naturalmente.»

"Depois de termos aprendido a viver com o nosso verdadeiro eu, nunca mais conseguimos voltar a satisfazer-nos com a nossa falsa identidade: esta parece-nos completamente disparatada e superficial." (Richard Rohr)

James Martin, S.J., em "Torna-te aquilo que és"

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O FALSO «EU» (1ª PARTE)

«O nosso falso eu é aquele que nós julgamos ser. É a nossa imagem pessoal e a nossa aceitação social imaginárias, à qual a maior parte das pessoas passa a vida a tentar corresponder - ou da qual passa a vida a tentar libertar-se.»
(Richard Rohr, em "Adam´s Return)

"Há que trabalhar duramente para manter vivo este falso eu. Para mim, pessoalmente, era um esforço que me desgastava completamente. Deu-me muito trabalho conseguir convencer as pessoas de que eu era tudo aquilo que queria que elas pensassem que eu era. (...) Deu-me muito trabalho assegurar que ninguém me visse como uma pessoa insegura acerca fosse do que fosse na vida (...) Deu-me muito que fazer esquivar-me aos meus verdadeiros desejos, aos meus verdadeiros sentimentos e à minha verdadeira vocação na vida.(...)"

James Martin, S.J. ,em "Torna-te aquilo que és"

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Reconciliando-te contigo próprio (3ªparte)


A tua voz, que é única,
não pode faltar na diversidade
dos que cantam no coro da humanidade.
De outra forma,
o Mundo seria mais pobre.
Sem ti, esta pluridade de vozes
não seria tão bonita.

Ter fé significa também encararmo-nos a uma nova luz.
Como é que te vês a ti próprio?
Com que critérios te avalias?
Põe de lado todos os preconceitos e avaliações
que te impedem de ver a tua verdadeira essência.
Olha para ti à luz de Deus.
Então, hás-de reconhecer que és, de verdade,
uma imagem única de Deus,
na qual a beleza divina brilha
de forma singular.

Senta-te, respira calmamente
e goza o prazer simples de sentir a vida
e de apreciar o teu ser em toda a sua singularidade.
Saboreia a vida,
sente o gosto da felicidade.
Não tens de mudar nada em ti,
com violência, obstinação ou intransigência.
Tu és quem és,
feito à imagem e semelhança de Deus,
protegido pelo seu amor incondicional.

Se o fizeres,
verás que a alegria te inunda.
E tudo será bom.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Reconciliando-te contigo próprio (2ªparte)


Não te deixes entorpecer
pelos teus erros e fraquezas.
Enfrenta-os,
não os ignores,
aceita que és falível
e procura melhorar as tuas fraquezas.

Mas, não te culpabilizes.
Deixa que elas existam.
Se Deus te perdoa,
também tu deves perdoar-te.
Sê compassivo para com os teus erros.

Não te queixes apenas dos teus problemas ou fraquezas.
Começa a pensar em tudo o que consegues fazer bem.
Concentra-te nas tuas capacidades.
Cada um de nós tem os seus pontos fortes.
Tu também.

Alcançarás a harmonia interior
quando conseguires conciliar
tudo o que há de contraditório em ti.
Deves ser sensível às tuas contradições.
Deves aceitá-las.
Assim, elas deixarão de te lacerar.
Podes arrumá-las,
deixar que cada uma das tuas facetas
tenha a sua musicalidade própria.
Todas juntas, elas compõem uma pauta.
É assim que se cria a tua harmonia.

Verás que consegues estar em sintonia
com todo o teu ser.
Não precisas de suprimir nada
da tua personalidade.
Tudo em ti terá a sua própria melodia.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Reconciliando-te contigo próprio (1ª parte)


Quem vive reconciliado consigo próprio
consegue também criar harmonia à sua volta.

Quando te aceitas tal como és,
e te reconheces a ti próprio,
sentes-te mais activo no universo a que pertences.
Para que serve, então, o sucesso?
Basta que algo te alegre, para seres feliz.
A felicidade está em ti.
Não precisas de a alcançar
recorrendo ao sucesso exterior.
Se te reconciliares contigo próprio
e alcançares a harmonia interior
serás feliz, e isso começa a ver-se nos teus olhos.

Quando te aceitas a ti próprio,
não precisas de correr atrás do reconhecimento dos outros.
E então, também deixa de ser importante
aquilo que os outros dizem de ti.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

segunda-feira, 11 de maio de 2009

PODE SALTAR!

«O ideal evangélico de "ser como criança" não quer dizer comportar-se com uma mentalidade infantilóide, mas apresentar a docilidade e a fé pura que a criança tem. Se um pai disser a seu filhinho "pode saltar!", ele se jogará donde estiver em seus braços, confiante, crendo na sua palavra.

Diante de Deus, a pessoa é uma criança. E é Deus quem lhe ordena, no fim da vida: "Pode saltar, meu filho!" Quão poucos aceitam obedecer-lhe! Falta à pessoa humana a confiança que a criança tem em seu pai.»

(Pe. Neylor J. Tonin)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

UNIÃO COM DEUS

«Para os cristãos, a união pessoal com Cristo é a maneira de alcançar a união divina. O amor de Deus tomará conta do restante da jornada. A prática cristã almeja primordialmente demolir o falso eu. É o trabalho que Deus parece exigir de nós como prova de nossa sinceridade. Então ele vai tomar nas mãos nossa purificação, colocar nosso egoísmo arraigado num foco claro e nos convidar a abandoná-la. Se concordarmos, Ele o levará embora e o substituirá por Suas próprias virtudes.»

"Mente Aberta, Coração Aberto", de Thomas Keating

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O VIAJANTE

O viajante precisa bater
em muitas portas alheias
para finalmente
chegar à sua própria;
precisa vagar por todos os mundos exteriores;
para finalmente alcançar o santuário mais íntimo.

Rabindranath Tagore

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A VERDADEIRA LIBERTAÇÃO


Pensar que Deus pune o ser humano é um dos maiores obstáculos à fé. Para quem vê Deus como um juiz tirano, São João relembra com palavras de fogo: "Deus é amor. Foi Ele quem nos amou primeiro. Amemos, pois, respondendo ao seu amor". (...)

Se amar Deus implicasse o medo dum castigo, isso já não seria amar. Cristo não nos quer ébrios de culpabilidade, mas cheios de perdão e de confiança.

O coração do ser humano é por vezes muito severo porque não se deixa revestir pela compaixão de Deus. (...)

A certeza do perdão é a realidade do Evangelho mais extraordinária, mais inacreditável, mais generosa - é a libertação incomparável.

Deus ama-te antes que O ames. Pensas que não esperas Deus e Deus espera-te. Dizes: "Não sou digno" e Deus põe no teu dedo o anel do filho pródigo. Esta é a mudança radical do Evangelho.

Todos nós somos filhos pródigos! Voltas-te para Deus, lá no fundo das tuas misérias, e no teu rosto deixa de haver amargura. O perdão de Deus anima o teu canto. E a contemplação do seu perdão, o resplendor da sua bondade transforma o teu coração que, na sua simplicidade, se deixa conduzir pelo Espírito. »

Irmão Roger, de Taizé, em "Oração: Frescura de uma fonte"

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A FELICIDADE É UMA DÁDIVA

A felicidade é sempre uma dádiva.
A felicidade é sempre um milagre.
Os milagres não se obtêm.
Os milagres acontecem.
Os milagres surpreendem-nos.
Os milagres surgem do nada.
E... vêm sempre do alto.
Eles descem sobre nós,
Nós apenas podemos estender a mão
para que os milagres não nos escapem.

Quanto mais insistirmos em obter
uma felicidade fácil,
mais difícil será alcançá-la.
A felicidade não se ganha
de forma intencional.
Esse estado é próprio daqueles
que só se sentem felizes
quando algo lhes corre bem,
quando sentem que alguma coisa
os toca profundamente.

Quando amamos e o nosso amor
é desinteressado e puro,
então podemos ser felizes.

São muitos os que querem possuir a felicidade
como se tivessem direitos sobre ela.
Esquecem-se que o Homem só pode alcançar a felicidade
se ela for uma dádiva.
Só quando é oferecida
é que o encherá de alegria.
De outra forma, por mais pessoas interessantes que conheça,
a sua presença nunca o poderá preencher.
Por mais bens materiais que possua,
eles nunca o farão feliz.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

sexta-feira, 1 de maio de 2009

FUGA DE DEUS

«Há pessoas que passam pela vida numa fuga simulada em relação a Deus. No fundo, elas têm, quase sempre, sentimentos religiosos, mas relutam em alimentar uma vida de intimidade com Ele.
Voltarão, com certeza, conscientemente para Deus no fim de suas vidas ou na hora da morte, quando fugir dele seria trágico e pouco coerente.

Na verdade, o ideal seria ir-se preparando, ao longo da vida, para o encontro definitivo com Ele. Deste encontro nada se tem a perder. Só a ganhar, e muito.» (Pe. Neylor J. Tonin)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A FONTE INTERIOR (2º PARTE)


Sempre que nos sentimos esgotados,
é sinal de que não estamos a beber
da nossa fonte interior
mas sim da água turva de outras fontes.
Aquele que dá aos outros
só para receber reconhecimento,
depressa fica exaurido.
No fundo, aquilo que os outros querem
não é assim tão importante.
Temos de procurar dentro de nós
aquilo que achamos certo.

Só reconciliando-nos connosco próprios
é que se torna possível alcançarmos
os nossos recursos interiores.

Quando bebemos das nossas fontes
mais íntimas e mais límpidas,
conseguimos trabalhar mais e melhor.
E fá-lo-emos com alegria e energia renovada.
A nossa própria fonte dá nova frescura
ao corpo e à alma
e isso vê-se em tudo o que fazemos.

Se viveres da tua fonte interior,
a tua vida dará muito fruto.
Não te deixes pressionar pela necessidade
de alcançar muitos feitos e de ter de demonstrar
aos outros o que quer que seja.
O mais importante é reconheceres
a fonte interior que te dá vida.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A FONTE INTERIOR (1ª PARTE)


O sucesso da nossa vida depende
das fontes onde bebemos.

Se não formos bem fundo,
limitamo-nos a chapinhar em águas turvas.
Se queremos chegar às águas límpidas e vivificantes,
não devemos ficar-nos pela rama.
Devemos lançar-nos em busca das nascentes
que nos renovam verdadeiramente,
que dão sentido á nossa vida
e afastam as sombras que há em nós.

Quem bebe da fonte do Espírito Santo
recebe calma, fecundidade e vida.
Para encontramos em nós esta fonte de águas límpidas,
temos de ver para lá das águas turvas e avançar
até ao mais profundo do nosso ser,
onde brota esta fonte de vida.

O sentido que damos à nossa vida no seu todo
e a cada situação em concreto
é algo que nos dá forças,
que nos enriquece e revigora.
Quando não damos sentido ao que fazemos,
perdemos o contacto com a nossa fonte de energia.
Deambulamos sem razão de viver,
sem descobrir as oportunidades imensas
que vão surgindo no nosso caminho.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O CORAÇÃO ALEGRE

O coração alegre é sempre um coração grande.
Está cheio de gentileza,
não julga ninguém e espalha alegria à sua volta.
A alegria é fruto da luz interior.
Não são apenas os que vivem
expostos às intempéries da vida
que aprendem com a experiência.
Também o céu limpo pode iluminar
a alma dos que vivem com tranquilidade.


O nosso coração é o lugar onde Deus habita;
é o lugar onde o Céu e a Terra se tocam
e é também a porta que se abre
para os outros poderem entrar em nós.
O coração une os homens uns aos outros.
Sempre que dois corações se tocam,
o céu abre-se sobre eles.
Aí, os anjos sobem e descem
pela escada do céu.


Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

quarta-feira, 22 de abril de 2009

SURPREENDIDOS PELO AMOR

O olhar benevolente dos outros transforma-nos.
Quando somos surpreendidos pelo amor
sentimo-nos como que renovados.
Quando somos amados,
renasce em nós aquilo que outrora estava
escondido ou adormecido.

Deixa que o teu coração seja tocado
pelo amor que vem ao teu encontro
ou que desabrocha em ti.
É o próprio Deus que te toca
e te abre o espírito para o mistério
de um amor mais puro e sincero
que é de todos e para todos.

Quem confia no amor que brota de si
receberá de volta todo o amor que partilhar.
Apenas o amor que é partilhado pode ser fonte de felicidade.
A felicidade que tentas possuir,
que tentas guardar só para ti,
não é verdadeira.
Uma felicidade que não é partilhada com os outros
é demasiado pequena para nos fazer
verdadeiramente felizes.

Existe na tua alma uma morada eterna para o amor.
Porém, não podes pensar que sofres com falta de amor,
não podes depender dos outros
para saber se eles te amam ou não.
Deves lembrar-te que existe em ti
uma fonte de amor divino que nunca seca,
que nunca se cansa, que é eterna.
Esta certeza liberta-te os movimentos,
afugenta o medo de que, na tua vida, não haja amor.

O amor de Deus é como uma nascente que nunca se esgota.
Não tens de procurar o amor em ti.
Deves apenas beber da nascente divina que habita
no teu ser e que chegará sempre para ti.

Quando confias a Deus
tudo o que há em ti,
compreenderás que és amado
de forma incondicional.
Sentirás uma presença reconfortante
e amorosa que te envolve e te protege.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O SENTIDO HUMANO DA VIDA

O sentido da nossa vida é muito simples:
devemos orientar cada pensamento
e cada gesto de modo a que ela se torne
uma fonte de alento para os outros.

Sê justo para com os que se cruzam contigo.
Justo é aquele que deixa que os outros sejam iguais a si próprios,
que aceita as suas diferenças
e que ajuda os que precisam do seu auxílio.
Sê humano, com os outros e contigo.
A humanidade dos outros só é benéfica
para ti quando eles a têm para com eles próprios.
Só assim, a humanidade é recíproca
e pode ser um bálsamo para todos.

Sê bondoso para com as pessoas que cruzam o teu caminho.
Quem olha para si e para os outros com benevolência e tolerância
não se deixa tolher pelos seus próprios erros.
Agarra-se ao bem e acredita nele,
mesmo que sofra muitas desilusões.
A fé na bondade de cada um atrai o melhor que há nas pessoas,
pois reconhece o bem que há em todos.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A ARTE DE SER FELIZ (2ª parte)


Só precisamos de nos maravilhar com a criação que nos rodeia.
Basta-nos observar o que temos perante os olhos
e entender a profundidade daquilo que vemos.
Então, sentiremos o prazer que se desprende
de toda a criação e que nos contagia.
Já não nos limitamos a apreciar a brisa dum dia de Primavera.
Deixamos que ela nos penetre e inunde o coração.
E então, irrompe em nós uma apaixonante alegria de viver.
A atenção que damos a cada momento
é mais do que um simples exercício de concentração,
é o caminho para a felicidade.
Não precisamos de muito
para sermos felizes.
Basta que estejamos atentos.
Quando nos sentimos gratos
pelas coisas que apreciamos,
até os olhos bem treinados são uma fonte de felicidade.
Todos os dias, os nosso olhos têm coisas maravilhosas para ver,
mas é preciso treinar a atenção
para contemplar, de forma consciente,
as maravilhas que nos saltam á vista diariamente:
a beleza de uma rosa,
a majestade de uma montanha,
o zumbido de um besouro
que cruza o nosso caminho,
o encanto de um rosto humano.
O melhor da tua vivência
está nas coisas que te rodeiam.
No prado que se estende
em frente à tua casa.
Nas flores que tens na secretária.
Na música que ouves.
No silêncio que desfrutas.
A felicidade já está à tua volta.
Só tens que a saborear.
Só quando o teu espírito habitar o teu corpo,
quando o teu espírito olhar,ouvir, cheirar, saborear
e tocar com todos os sentidos
é que poderás viver plenamente a felicidade.
Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade" (adaptado)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A ARTE DE SER FELIZ (1ªparte)


A arte de estar atento à vida
consiste em ver para lá
das aparências...
em descobrir o encanto
que habita em cada coisa.
A arte de ser feliz
pode ser aprendida e praticada.
E o treino pode começar agora mesmo.

Entrega-te à vivência do teu dia-a-dia.
Confia que é mesmo aí que podes
encontrar tudo o que procuras.
Não se trata de desencantar
novidades interessantes,
mas sim de apreciar o que já existe.
Aprecia aquilo que possuis.

Faz justiça às coisas que descobres na
realidade do teu quotidiano.
Então, sentirás que o teu dia-a-dia te conduz
à verdade, à pura descoberta do ser.
E quando entrares em contacto com
o teu interior mais profundo,
tocarás a razão de todo o teu ser.

Quando o quotidiano é visto
a uma nova luz, quando se torna
o local de encontro com Deus,
tudo se transfigura.

Somente o coração vê à sua volta
os sinais da verdade e da confiança
que se espelham no rosto
de cada pessoa,
em cada pedra e em cada ramo,
como que a dizer:
«Tu és amado. O amor está contigo
em tudo aquilo que vês.»

(Anselm Grüm, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade" )

segunda-feira, 13 de abril de 2009

ELE VIVE EM CADA UM DE NÓS


«Se Jesus não tivesse vivido entre nós, Deus manter-se-ia distante, inatingível.
Mas, através da sua vida, Jesus deixou transparecer quem era Deus.
E hoje, ressucitado, Cristo vive em cada um de nós pelo Espírito Santo.

A confiança, a esperança e a paz do coração têm por fonte uma misteriosa presença:
a presença de Cristo.
Pelo Espírito Santo, Ele permanece em cada um de nós como humilde de coração.
E é suavemente que a sua voz se faz ouvir.»

(Irmão Roger, de Taizé, em "Deus só pode amar")

domingo, 12 de abril de 2009

O AMOR É MAIS FORTE DO QUE A MORTE



"O Amor é mais forte do que a morte"


"Deus dá-nos tudo, mas o maior dos seus dons é o amor que devemos ter por Ele."

Não quero desprezar este dom,
Mas acolhê-lo sempre no meu coração.
Porque o Amor dá-me tudo;
E eu devo dar tudo pelo Amor.
O Amor é a vida que vence a morte.
Do fruto do Amor brota a coragem, a justiça,
A alegria, a paz, a paciência,a bondade, a generosidade, a fidelidade...

No Amor serás livre!
E o Amor tudo pode,
"Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."

Deus é Amor, Deus é Amor, Deus é Amor...
Deus não é senão Amor.
A minha vocação é ser amor.

No Amor reside a verdadeira liberdade.
Se amares e acolheres o Amor serás livre!
Livre sobretudo da escravidão ao Pecado.

Devo amar sempre mais, mais e mais...
Nunca amarei o suficiente.
Mas buscarei sempre a pureza absoluta do amor;
um amor absolutamente purificado de todo o egoísmo;
um amor sempre em crescimento, em expansão, em contínua doação de si mesmo.

"Se não tiver amor, de nada me aproveita:
conhecer todos os mistérios e toda a ciência,
distribuir todos os meus bens,
entregar o meu corpo para ser queimado..."
Não, "se não tiver amor, de nada me aproveita."

Oiço-Te dentro de mim a perguntar:
"Paulo, tu amas-me?";
"Paulo, tu és deveras meu amigo?"
Ouso responder-Te: Jesus, quero muito amar-Te;
Quero muito ser Teu amigo.
Quero confiar absolutamente em Ti;
Ser-Te fiel em tudo.
Sei que queres todo o meu coração,
e a minha alma e a minha mente e o meu espírito.
Concede-me esse dom de Amar-Te acima de todas as coisas.

No fim da jornada, acredito que me "julgarás" segundo os critérios do amor.
Eis os teus critérios:

"Faz aos outros o que gostararias que te fizessem a ti.
Cumpre a lei do Amor.
Ama-me naquele que tem sede e fome;
Nos doentes, nos prisioneiros, nos abandonados,
nos excluídos, nos pobres, nos marginalizados,
nos oprimidos, nos deprimidos...
Segue-me, toma a tua cruz, renuncia a ti mesmo;
Sê um reflexo de Mim; luz resplandecente que ilumina as trevas do mundo.
Perde a tua vida para te encontrares na que Te ofereço
Esvazia-te para te encheres de Mim."

O Amor é mais forte do que a morte.
Acredito que Hoje, Aqui e Agora, Tu estás vivo, Jesus.
Jesus, Tu estás Vivo!

Tu amaste até ao fim
Numa entrega absoluta de Ti mesmo,
Numa obediência pura e sem tréguas.
O Teu Amor sem limites venceu a morte e deu-nos a vida sem fim...

Concede-me a graça de ser fiel à Tua vontade,
ao Teu Mandamento de Amor Absoluto
ao Teu Projecto de Amor, reconciliação, justiça, alegria, paz, liberdade, fraternidade, união.
Concede-me a liberdade suprema de amar até ao fim,
A humildade para Te obedecer em tudo.
A verdadeira alegria de viver como Tu viveste
Para vencer a morte como Tu venceste!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Jesus - Porta para a Vida


"Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem". (João 10:9)

"Jesus se identifica com a porta. Ele é a porta que conduz ao nosso próprio âmago. Ele tem acesso ao nosso coração. E por meio de Jesus entramos em contacto com nós mesmos. (...)

Certamente, os primeiros cristãos experimentavam Jesus e as suas palavras como uma porta que os levava a eles próprios. Meditando sobre Jesus descobriam de repente quem eram eles mesmos. Através de Jesus como porta podiam entrar em sua própria casa para sentirem-se em casa. Jesus era para eles a porta para o seu verdadeiro eu. E é esse também o desafio para mim hoje: compreendendo Jesus compreendo a mim mesmo, descubro quem sou eu de verdade, ganho acesso a mim mesmo.

Jesus é a porta pela qual posso entrar e sair. Por meio dele posso encontrar um bom pasto. Revela-se aí um outro aspecto da imagem da porta. Jesus é para nós a porta pela qual encontramos não só o acesso a nós próprios, mas também a saída para o mundo.
Só permanece vivo aquele que, através de Jesus, entra em seu próprio interior, mas que através de Jesus também sai para o mundo.(...)

Por meio de Jesus encontramos o nosso verdadeiro ser, a nossa totalidade. Só em Jesus se revela o significado da vida. Jesus é a porta para a vida em abundância, para a vida em profusão. É a vida divina que não é limitada pela estreiteza do nosso corpo e da nossa história pessoal. "

(Anselm Grün, em "Jesus - Porta para a Vida")

quarta-feira, 8 de abril de 2009

À PROCURA DA PERFEIÇÃO (2ª parte)

«No tempo em que vivemos, o sucesso imperioso tornou-se a nossa cruz, passou a determinar o nosso enconto com os outros. Junto com uma insaciável necessidade de louvores e confirmação da nossa superioridade em relação ao comum dos mortais, carregamos o medo aflitivo de falhar.

Que importam os nossos sentimentos? Que importa a nossa capacidade de rir, de brincar, de termos um gesto de ternura, de nos emocionarmos? Que importa a nossa vontade de afagar um animal ou de cuidar de uma planta? Que importa a satisfação que nos dá apanhar amoras num silvado ou uma pena que voou ao nosso encontro?

Nada disso conta para a nossa avaliação.

Só pelo sucesso somos medidos, ainda que muitas vezes ele assente no esforço ou, pior ainda, no fracasso alheio.

E se voltássemos ao princípio de nós? E se nos atrevêssemos a ser o que verdadeiramente somos, acreditando que pode haver quem nos ame mesmo assim?

Se Deus nos quisesse perfeitos, tinha-nos feito perfeitos, mas preferiu criar seres em movimento, à procura da perfeição. Da nossa e da alheia.»

(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

segunda-feira, 6 de abril de 2009

À PROCURA DA PERFEIÇÃO (1ª parte)

«O psiquiatra Amo Gruen afirma que «o vício do poder destrói o coração do homem».

O que esperamos, não só do espelho onde em cada manhã nos olhamos mas de todos os olhos que nos olham, é a confirmação dessa imagem de seres poderosos que desejamos ostentar.

Odiamos em nós o desamparo, a dependência, as limitações, o medo, qualquer sinal de fraqueza, e se alguém ousa pôr a realidade a descoberto, enfurecemo-nos e descarregamos a nossa raiva. Queremos dizer a nós mesmos que não, que não conhecemos a insuficiência, o sofrimento, a dor, o medo de falhar, o medo da rejeição, o medo de que não gostem de nós.

Conhecemos a alegria que nos invade quando vencemos uma competição ou quando nos prestam homenagens. No entanto, esquecemo-nos de procurar a alegria no crescimento de outra pessoa, na partilha de um sofrimento ou de um momento de tristeza, na realização de qualquer coisa que torne melhor o espaço e o tempo em que nos foi dado viver.»

(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A LIBERDADE NO AMOR

"A liberdade para a qual conduz a vida espiritual não é apenas a liberdade de todas as influências exteriores, não apenas a liberdade das paixões e do poder dos homens. Ela é, simultaneamente, uma liberdade da entrega. Não se trata portanto apenas de uma liberdade 'de', e, sim, também de uma liberdade 'para'.

O ser humano que se tornou livre de si mesmo, também está livre para entregar-se em favor de outros, como Jesus o afirmou a respeito de si mesmo: "Não existe amor maior do que quando alguém entrega sua vida pelos amigos' (Jo 15,13).

A liberdade das expectativas dos outros e a liberdade de girar em torno de si mesmo são as condições para o amor. Somente quem se tornou livre de si mesmo pode empenhar-se altruisticamente pelos outros.

Não misturará seu engajamento com motivações egoístas, como tantas vezes o fazemos. Ele se torna livre de pensar em sua própria reputação, em seu empenho, nos elogios e no reconhecimento pelos homens. Também não pensará que então se sentirá melhor do que as outras pessoas, que Deus o iria recompensar, etc.

Ele está livre para as pessoas que dele necessitam. Livre para oferecer-se em amor."

(Anselm Grun, em "Caminhos para a Liberdade")

quinta-feira, 2 de abril de 2009

SÓ O AMOR

«Não podemos reconhecer a nós mesmos se não nos amamos.
E só o amor nos permite penetrar fundo em nós mesmos e reconhecer quem somos em verdade.

Amar-se a si mesmo é diferente de girar em torno de si.»

(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

CRIANÇAS E PEDRAS

Sobre Deus, uma história:

Era uma vez uma criança. Uma criança que tentava levantar uma pedra. Porém, e apesar do seu esforço, nem sequer a conseguia mexer.

O pai, que a observava já há algum tempo, disse-lhe finalmente:

- Ouve, tens a certeza de que estás a usar toda a tua força?

- Sim, tenho - respondeu o filho.

- Não estás não. É que ainda não me pediste para te ajudar - disse-lhe o pai.

Que é como quem diz: «Façamos o pouco que nos toca a nós realizar, mas façamo-lo. Depois entreguemos o resto a Deus, que nos ama com amor infinito."

(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

segunda-feira, 30 de março de 2009

O PERDÃO LIBERTA!

«Mesmo quando o coração nos acusa, Deus é maior que o nosso coração e conhece tudo.» (João 3, 20).

Em nenhum caso Deus atormenta a consciência humana.
Deus coloca o nosso passado no coração de Cristo e há-de cuidar do nosso futuro. (...)

Deus vem revestir-nos da sua compaixão.
Com os fios do seu perdão,
Ele tece a nossa vida e faz dela uma veste resplandecente.

Saber que o seu perdão é sempre dado significa descobrir uma das mais generosas realidades do Evangelho.
E isso liberta-nos, incomparavelmente.

(Irmão Roger, de Taizé, em "Deus só pode amar")

sexta-feira, 27 de março de 2009

EM QUEM NUNCA NINGUÉM REPARA...

" J., a quem muitos chamavam "menina" mesmo quando já tinha sessenta anos, trabalhava como bibliotecária num centro cultural, a encapar com plástico pesados livros de arte que nenhum leitor vinha requisitar. Os seus gostos, temperamento e cor dos vestidos, tudo nela parecia frágil e um pouco antiquado, como uma aguarela em que a cor rosa dominasse.
Doçura e benevolência cercavam os olhos daquela que, por nunca ter causado mal, terá atravessado esta vida na ponta dos pés sem que ninguém a visse, não fazendo a sua morte mais barulho que neve a cair sobre neve.

Talvez o mundo seja continuamente preservado do aniquilamento para que tende por seres assim, em quem nunca ninguém repara."

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 26 de março de 2009

LUZ QUE BRILHA NA NOITE


«Uma confiança em Deus não se comunica com argumentos que, procurando convencer o outro a todo o custo, suscitam inquietação e medo. É antes de mais no coração, nas nossas profundezas, que recebemos o chamamento do Evangelho.(...)

Pode acontecer, surpreendentemente, que cheguemos a dizer:«Jesus ressuscitado estava em mim e eu não sentia nada da sua presença. Procurei-O muitas vezes noutros sítios. Enquanto fugia das fontes por Ele depositadas no mais profundo do meu ser, podia ir longe, muito longe, mas perdia-me em caminhos sem saída. Parecia impossível encontrar em Deus uma alegria.

Mas chegou o dia em que descobri que Cristo nunca me tinha deixado. Quase não me atrevia a dirigir-me a Ele, mas Ele compreendia-me e até me falava. E, quando o véu da inquietação se levantou, a confiança da fé iluminou a minha noite.»

(Irmão Roger, de Taizé, em "Deus só pode Amar")

quarta-feira, 25 de março de 2009

SOPRO DE CONFIANÇA

«Tal como a amendoeira começa a florir no alvor da Primavera, um sopro de confiança faz germinar os desertos do coração. (...)
É a flor que desabrocha de madrugada, quando é possível recomeçar sempre de novo, quando o sopro da confiança nos conduz pela senda de uma bondade serena.»

(Irmão Roger, de Taizé, em "Deus só pode Amar")

segunda-feira, 23 de março de 2009

AMOR É O MEU NOME


“ Dizer que fui criado à imagem de Deus é dizer que o amor é a razão de minha existência, pois Deus é amor.
Amor é a minha verdadeira identidade.
Esquecimento de mim mesmo é meu verdadeiro eu.
Amor é meu verdadeiro caráter. Amor é meu nome...

...o amor de Deus é como um rio que brota das profundezas da substância divina e se derrama incessantemente através da criação, comunicando, em abundância, a todas as coisas, vida, bondade e força.

(Thomas Merton, em "Novas sementes de contemplação")

sexta-feira, 20 de março de 2009

TU ÉS O MEU FILHO AMADO!

"Uma tentativa de me tornar consciente do amor de Jesus foi a meditação sobre o seu batismo (Lc 3,21s).

Jesus desce até o Jordão, entra na água, "que está povoada de culpa" das pessoas que ali se deixavam batizar por João. Ao descer, abre-se sobre Ele o céu, e Deus lhe diz: "Tu és o meu Filho amado, de ti eu me agrado".

Eu experimentei na meditação a realidade deste amor, quando conscientemente pronunciei esta frase - "tu és o meu filho amado" - para dentro da minha angústia, da minha escuridão, do meu fracasso, da minha mediocridade, da minha mentira de vida. Tentei descer às águas do meu inconsciente, ao reino das sombras, para onde reprimi tudo o que teme a luz do dia, aquilo que não quero ver de dia.

Para mim esta é uma bela imagem para o batismo de Jesus, que o céu se abre justamente quando Ele desce às profundezas do Jordão. O céu também quer se abrir sobre os abismos da nossa alma. Mas precisamos criar coragem para descer a esses abismos interiores, para então, lá na profundidade, ouvir esta palavra com um novo sentido: "tu és o meu filho amado"; "tu és a minha filha amada".

Ao pronunciar esta palavra, que eu sou o filho amado, para dentro da minha vida concreta, fiquei tocado no fundo do meu ser e ganhei paz interior. Toda a fala sobre o amor de Deus não nos toca enquanto não atingir nossa vida nas experiências do quotidiano."

(Anselm Grün, em "Abra seu coração para o Amor")

quarta-feira, 18 de março de 2009

SOMOS AMADOS!

"Quando revejo minha história pessoal e imagino que em todos os meus caminhos, desvios e descaminhos, Deus me amou, jamais retirou de mim Sua mão amorosa, olho para a minha infância com outros olhos; posso me dar conta de que o amor de Deus me envolveu também lá, onde não o percebi, porque a falta de amor das pessoas havia me magoado.

Então, após a raiva e a dor pelas feridas, aumentará em mim também a noção de amar e de ser amado: mesmo com minhas chagas e em minhas chagas sempre permaneci o filho amado, a filha amada de Deus.

Seu grandioso amor nem sempre oferece apenas amparo: ele desabrocha muitas vezes, justamente quando tudo está despedaçado dentro de nós. Em meio à dor pelo fracasso damo-nos conta de que no fundo somos amados. Não ficamos delirando em virtude deste amor, mas podemos nos entregar a ele e assim ficar bem tranquilos, humildes e livres de nós mesmos em relação à dor."

Anselm Grün, em "Abra seu coração para o amor"

segunda-feira, 16 de março de 2009

CADA UM É ESPECIAL

«Muitos querem ser especiais. Naturalmente, cada pessoa é única. Mas muitos vêem "seu" carácter especial apenas no grande poder, na grande posse.

Também devo, porém, olhar dentro de mim mesmo; qual é a minha história de vida, quais são minhas feridas, qual é minha sensibilidade? Pois tudo isto faz parte de mim - minhas feridas, meus erros, minhas fraquezas. Não apenas meus pontos fortes.
Apenas quando me reconcilio com isso descubro que sou singular, uma expressão única de Deus.

Mas pretender ser algo de especial passando por cima da própria humanidade é dar murro em ponta de faca.»

(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade)

sexta-feira, 13 de março de 2009

O QUE OS ERROS PODEM MOSTRAR

«Muitas pessoas têm a tendência de dizer: se cometo um erro, não valho nada; serei rejeitado. E, com essa falta ideia, elas acabam justamente se prendendo aos seus erros. Consequência: procuram evitar os erros em todas as circunstâncias.
A experiência mostra, contudo, que quem procura evitar todos os errros é quem os acaba cometendo. Quem quer controlar tudo perde o controlo da vida.
Poder cometer erros pertence à minha condição humana.

E da minha condição também faz parte que eu seja aceite e amado com meus erros e apesar das minhas fraquezas. Mas também faz parte da condição humana trabalhar nossos erros e não cruzar simplesmente os braços e dizer: eu sou assim, vocês não vão me ter de outro jeito.
É preciso dizer: só quando eu me aceitar realmente - com minhas falhas, é claro - poderei dar o segundo passo e tentar mudar várias coisas. (...)

É este o objectivo da ascese: que eu me exercite, que eu entre numa boa forma para mim, que eu atinja um estado em que me sinta livre. Mas a ascese nunca vai impedir que eu cometa erros; eles sempre virão até mim e sempre voltarão a me mostrar que sou humano, não Deus.»

(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade")

quarta-feira, 11 de março de 2009

CORAGEM PARA COM A PRÓPRIA HUMANIDADE

«Aceitar a mim mesmo - do jeito que sou - é uma das coisas mais difíceis a exigir de mim. Para tanto é preciso humildade; e a humildade pede isto: descer aos abismos da minha alma, à escuridão, às minhas tendências agressivas, assassinas, sádicas, masoquistas. Quem é sincero consigo próprio sentirá esses abismos e tendências em si mesmo.

A humildade exige que eu desça a esse abismo, a esse meu desamparo. Isto é, por certo, a coisa mais difícil. Mas é exactamente isto que significa a mensagem cristã da humilitas, humildade: ter coragem de descer à sua humanidade.

Infelizmente, muitos cristãos que querem ser cristãos por inteiro tentam saltar esse caminho.
Na América se fala de bypassing espiritual, ou seja, de atalho espiritual. Quem age assim quer se edificar com belos pensamentos, sentimentos e ideais religiosos e, ao mesmo tempo, escapar da sua humanidade.»

(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade")

segunda-feira, 9 de março de 2009

O CAMINHO PARA UM CORAÇÃO TRANQUILO

"Aquele que sou saúda com melancolia aquele que eu gostaria de ser."

Por trás dessa frase do filósofo dinamarquês kierkegaard se esconde uma experiência que todos conhecemos: não raro, há um abismo entre nossa realidade (o jeito que somos) e nosso ideal (nosso ideia do que gostaríamos de ser). É totalmente compreensível que cada um goste de representar um ideal. Os ideais também são, em princípio, absolutamente positivos, pois têm o poder de estimular nosso crescimento; precisamos deles para sair das nossas comodidades.

Mas infelizmente muitos se identificam tanto com o seu ideal que não têm mais coragem de aceitar como são. Recusam aceitar sua realidade. Acham que só serão amados e reconhecidos por outras pessoas se puderem mostrar algo, se puderem fazer algo melhor que os demais. Então quase se fundem com sua concepção ideal. Outros são possuídos pela profunda desconfiança de que não serão reconhecidos como são.
Dizem para si mesmos: se você soubesse como realmente sou, não poderia mais me aceitar. Ou: se as pessoas soubessem como sou por dentro, se conhecessem minhas fantasias, não me respeitariam mais.

Para não cair nessa desconfiança de que os outros não me aceitariam como sou; para não cair nessa armadilha é preciso humildade; é preciso coragem para a verdade pessoal - coragem para aceitar a própria sombra. Claro que isso dói. Mas a negação nunca foi caminho para a felicidade e a paz interior.

Aceitar a verdade pessoal com toda a humildade é que traz tranquilidade ao coração.»


(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade")

sexta-feira, 6 de março de 2009

Meu amor é único


Ela está perto do meu coração,
tão linda quanto uma flor no jardim;
é suave, como é o descanso para o meu corpo.

O amor que lhe tenho é minha vida fluindo plena,
como corre o riacho nas manhãs de outono,
em sereno abandono.
Minhas canções são únicas como meu amor,
como é único o murmúrio de um rio que canta com todas suas ondas e correntes.

(Rabindranath Tagore)

quarta-feira, 4 de março de 2009

HUMILDADE

«A humildade é a própria condição para ser aquilo que se é: para ser humano. Essa é a verdade da nossa humanidade. (...)

De facto, o que temos de aprender continuamente é a ser homens, ou seja, feitos de argila. Mas uma argila aberta ao céu! E isso com mansidão e humildade.

A primavera é o período em que floresce a humildade... em que o homem se torna verdejante. Mestre Eckart dizia: "O homem humilde se torna verdejante." Esse é o homem que está aberto ao que o Céu lhe oferece.

Ser humilde é aceitar-se como argila e, também, como luz. "Tu és pó e ao pó voltarás"; mas tu és luz e voltarás à Luz!

De facto, ser humilde é aceitar suas próprias qualidades e defeitos; ser humilde é aceitar aquilo que se é.»

(Jean-Yves Leloup, em "Amar... apesar de tudo")

segunda-feira, 2 de março de 2009

O DEUS CRISTÃO


«Deus não é uma simples projecção da nossa própria imagem no cosmos. Ele é diferente de tudo o que somos capazes de imaginar. Ele nos oferece algo que jamais poderíamos merecer: o perdão dos nossos pecados e o acolhimento do seu amor.(...)

O Deus cristão vem a nós como alguém completamente diferente. Tão diferente dos deuses da minha imaginação e tão além do meu controle. Encontrar-se com um Deus como esse é aterrorizante, pois encontrar o Amor Perfeito implica o abandono do nosso próprio ego.

Um Deus que pudéssemos conceber seria bem menos aterrorizante, mas não poderia nos oferecer aquilo de que mais precisamos, que á libertação dos nossos medos e a cura do nosso desânimo. (...)

O Deus que os cristãos adoram ama os pecadores, perdoa nossas falhas, alegra-se em poder nos oferecer uma segunda chance e um novo começo e nunca se cansa de buscar suas ovelhas desgarradas, de esperar pelos filhos pródigos ou de resgatar aqueles que foram maltratados pela vida e que se desviaram dos seus caminhos.»

(David G. Benner, em "A Entrega Total ao Amor")

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O SENTIDO DA VIDA

«O sentido da minha vida não consiste,em primeira linha,em criar algo grandioso. Devo sim,viver de modo autêntico aquilo com que Deus me presenteou para que se torne fértil para esse mundo. Ao encontrar o sentido da minha própria vida,tornar-me-ei suficientemente forte para interceder por esse mundo no sentido de torná-lo mais humano.»

(Anselm Grun, em "Fontes da Força Interior")

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A SOMBRA

Aquele que conhece sua sombra lidará com mais cuidado consigo mesmo e questionará mais criticamente suas próprias motivações. Cessará de projetar seus lados de sombra em outros povos ou no vizinho ao lado, e lidará de forma mais benevolente com as pessoas em seu redor.

A sombra é aquilo que excluímos da vida, porque não corresponde à ideia que fazemos de nós e de nossa imagem externa.

Anselm Grun, em "O Ser fragmentado"

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A FELICIDADE VEM POR ACRÉSCIMO

«Um trecho do Evangelho diz:
"Procurai em primeiro lugar, o Reino e o resto vos será dado por acréscimo."

A felicidade é justamente o que nos é dado por acréscimo! Razão pela qual se a procurarmos em primeiro lugar, nunca chegaremos a encontrá-la...

A etimologia da palavra felicidade é muito significativa. Como já indiquei com precisão, é a "boa hora"; trata-se de estarmos na hora certa, de estarmos presentes onde estamos!

A infelicidade é justamente não estarmos presentes... onde estamos!
Há duas maneiras de viver o tempo: o presente e o ausente.(...)

A felicidade é reencontrarmos em nós a capacidade para amar, porque tudo o que fazemos sem amor é tempo perdido, é feito em má hora, é uma infelicidade... Enquanto tudo o que fazemos com amor é a eternidade reencontrada, a boa hora reencontrada; desse modo, a felicidade nos é dada por acréscimo.»

(Jean-Yves Leloup, em "Amar... apesar de tudo")

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O JULGAMENTO FINAL


Não tenho medo do julgamento final, sei que seremos julgados por um olhar de criança...
Quando hoje me coloco diante desse terrível olhar inocente, não consigo ter ilusões sobre mim mesmo e, ao mesmo tempo, não posso mais desesperar. Quando somos olhados assim, não nos sentimos mais fora do alcance do amor, qualquer que seja a espessura de nossas máscaras.
(Jean-Yves Leloup, em "O absurdo e a graça")

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

QUEM É ELE?

Eu me vangloriei entre os homens de haver-Te conhecido.
Eles vêem as Tuas imagens em todas as minhas obras.
Então se aproximam e perguntam: ‘Quem é Ele?’
Não sei o que lhes responder, e digo apenas:‘Na verdade, não sei como vos contar’.
Eles troçam de mim e se afastam, com desprezo.
E Tu ficas aí, sentado e sorrindo.


Conto as Tuas histórias em canções sem fim,
e nelas o segredo do meu coração acaba escapando.
Eles se aproximam e me perguntam: ‘Conta-nos o que significam todas essas canções’.
Não sei o que lhes responder, e digo apenas: ‘Ah, quem pode saber o que elas significam?’
Eles sorriem e vão-se embora, me desprezando.
E Tu continuas aí, sentado e sorrindo.”


Rabindranath Tagore

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

TUDO, MENOS CORAÇÃO

Conheci um homem que passou 47 anos entrevado num quartinho abafado e morreu sem maldizer a vida.
Conheci uma mulher que criou 12 filhos, perdeu o marido cedo e nunca reclamou de nada.
Conheci uma pessoa que não tinha quase beleza física, mas só tinha lindas palavras para os outros.
Conheci uma outra que era absolutamente rigorosa consigo mesma, mas sempre foi afável para com todos.
Conheci um mendigo que cantava pelas ruas da cidade.
E conheci alguém que tinha tudo, menos coração.

(Pe. Neylor J. Tonin)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

AMOR ESPONTÂNEO E LIVRE

«O amor que fracassa quando não se vê correspondido não é livre, já que depende do amor de outrem; portanto, tem apenas interesse, confundindo-se com o egoísmo. Este amor exige reciprocidade.

A generosidade desinteressada atinge a sua plenitude no amor de cada um aos seus inimigos.
Por isso o perdão é um dom perfeito, e nele brilha a liberdade do amor.

O amor que temos aos nossos inimigos é o ponto mais alto da nossa consciência moral formada pelo cristianismo

(François Varillon)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A LÓGICA DO AMOR

«O amor tem pouco a ver com merecimento.
O amor não é um prémio que se dá aos bons, mas nasce da liberdade da pessoa que ama.
Nós não amamos pessoas que achamos que merecem o nosso amor ou que seriam as melhores pessoas para amarmos e sermos amados, mas amamos porque amamos!

Eu posso escolher alguém para casar a partir de um cálculo sobre as vantagens e desvantagens; mas não posso amar alguém desta forma.
Amor tem um outra lógica que não obedece às regras racionais da retribuição, cálculo, comparação, etc.»

Jung Mo Sung, em "O Caminho Espiritual para a Felicidade"

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

AMAR O PRÓXIMO COMO A NÓS MESMOS

A auto-estima consiste em como nos vemos reflectidos nos olhos dos outros. Isso, por sua vez, condiciona a percepção do mundo e a interacção com a comunidade.

Na condição de cristãos, a auto-estima negativa se expressa basicamente como uma imagem de pessoas não amadas. Negamos nosso próprio valor, somos assombrados por sentimentos de insuficiência e inferioridade, e nos fechamos para o valor dos outros porque ameaça nossa existência. (...)

Para amar o próximo como a nós mesmos, precisamos reconhecer nosso valor e nossa dignidade intrínsecos e nos amar de forma saudável e consciente, conforme Jesus nos ordenou ao dizer: "Ame o seu próximo como a si mesmo". (...)

A capacidade de amar a si mesmo é a raiz e o pilar básico de nossa capacidade de amar aos outros e a Deus. Só posso tolerar nos outros aquilo que posso aceitar em mim.

Van Kaam escreve:

A bondade para com o meu precioso e frágil "eu", quando inspirado exclusivamente por Deus, constitui o núcleo de bondade para com os outros e com as múltiplas formas criadas do Divino ao meu redor. É também uma condição necessária para minha apresentação a Deus.

Ironicamente, nossa auto-repugnância nos leva de modo bem frequente a prejudicar a auto-estima de outros. Andrew Greeley escreve:

A missão de Deus no mundo e sua missão na relação com o crente enquanto indivíduo é essencialmente uma missão de superação da auto-aversão. Pois a auto-aversão é uma barreira ao amor. Não odiamos outras pessoas porque nos amamos demais, mas porque não conseguimos nos amar o bastante. Nós as tememos e desconfiamos delas porque nos sentimos inadequados em nossa relação com elas. Nós nos escondemos por trás de nossa raiva e ódio porque em algum recesso profundo de nossa personalidade não acreditamos que somos bons o suficiente para elas.

(Brennan Manning, em "Convite à Loucura")

domingo, 8 de fevereiro de 2009

NÃO JULGAR PARA NÃO SER JULGADO

«O homem será julgado pela sua capacidade de amar. Aquele que julga o irmão não pode amar. Só vê o mal, está impedido de ver o bem que com ele se mistura.

Este tipo de injustiça, se não for detectada, provavelmente levará à condenação.
Acertamos quando dizemos «não julguemos para não sermos julgados».

Valemos o que valem os nossos juízos.»

(François Varillon)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Para além da cortina da vida


Ignoro onde estejam os que amei e que morreram. Só sei que não estão nos cemitérios, apesar de o sol se inclinar dia após dia frente aos seus túmulos fazendo brilhar os nomes deles.

Do além não imagino nada, ou apenas algo que se assemelha àqueles campos há muito por cultivar e cujos proprietários seria impossível encontrar, mesmo procurando nos pesados registos cor de malva das repartições municipais.

Cristo percorre esta terra inculta que escapou à tirania do utilitário, com o passo lento do vagabundo que não tem nada para fazer senão contemplar os mil cambiantes da vida. Quando se estende na erva para uma sesta, borboletas aproximam-se da sua cara, agitando, com o batimento silencioso das asas coloridas, o ar que ele respira.

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

DESPERTAR


Leio nas folhinhas amarelas da bétula, brilhantes de chuva e resistindo ao vento que as fustiga, como numa carta um pouco apressada escrita por um Deus pobre.

O meu coração desperta apenas raramente, mas quando o faz é para saltar de imediato sobre a eternidade como sobre uma presa desejada.
Christian Bobin, em "Ressuscitar"

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Aceitação de si mesmo (4ªparte)

«Temos tanta dificuldade em aceitar as nossas pobrezas que até parece que nos impedem de amar: como somos deficitários neste ou naquele ponto, não merecemos ser amados.
Viver sob o olhar de Deus, faz-nos perceber que essa ideia é falsa: o amor é gratuito, não se merece, as nossas pobrezas não impedem Deus de nos amar, pelo contrário! Somos libertados do terrível e desesperante dever de sermos alguém de bem para, finalmente, merecermos ser amados.

Porém, «autorizando-nos» a ser nós mesmos, a ser pobres pecadores, o olhar de Deus também nos permite todas as ousadias no caminho da santidade: temos o direito de aspirar aos cumes, de desejar a maior santidade, pois Ele quer e pode conceder-no-la.
Nunca ficamos encerrados na mediocridade, nem somos coagidos a uma triste resignação, mas temos sempre a esperança de progredir no amor.

Do pecador que eu sou, Deus é capaz de fazer um santo, a Sua graça pode realizar este milagre, posso ter uma fé ilimitada na força do Seu amor.

Aquele que cai todos os dias e que, apesar disso, se levanta dizendo: «Senhor, agradeço-Te, pois tenho a certeza de que farás de mim um santo!» agrada muito a Deus e, mais cedo ou mais tarde, receberá o que espera.

A atitude correcta diante de Deus é, pois, a seguinte: por um lado, uma aceitação muito serena, muito «descontraída», de nós mesmos e das nossas enfermidades, e por outro, em simultâneo, um imenso desejo de santidade, uma forte determinação de progredir, baseados numa confiança ilimitada na força da graça divina.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

sábado, 31 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (3 ªparte)

«Pelo olhar que poisa sobre nós, Deus convida-nos certamente à santidade, estimula-nos à conversão e ao progresso, mas sem nunca provocar a angústia de não a atingir, aquela «pressão» que às vezes experimentamos sob o olhar dos outros ou sob o julgamento que fazemos acerca de nós próprios: nunca nos portamos suficientemente «bem», nunca suficientemente isto ou aquilo, estamos permanentemente descontentes connosco mesmos, sentimo-nos sempre culpados por não correspondermos a tal expectativa ou a tal norma.

Não é por sermos pobres pecadores que havemos de nos sentir culpados por existir, como é o caso de muitas pessoas, muitas vezes inconscientemente.
O olhar que Deus poisa sobre nós autoriza-nos plenamente a sermos nós mesmos, com as nossas limitações e insuficiências, dá-nos o «direito ao erro» e livra-nos, diria eu, daquela espécie de coacção, daquela obrigação de que às vezes nos sentimos prisioneiros (obrigação que não provém da vontade de Deus, mas da nossa psicologia ferida) de sermos, afinal, diferentes daquilo que somos.

Sob o olhar de Deus, somos libertados da coacção de sermos «os melhores», de sermos perpétuos «vencedores»; podemos viver numa profunda descontracção, pois não temos que fazer esforços contínuos para nos mostrar bem dispostos nem que despender uma energia prodigiosa para parecermos aquilo que não somos: podemos ser, simplesmente, aquilo que somos, nem mais nem menos.
Não há melhor «relaxamento» do que repousar, como criancinhas, na ternura do Pai que nos ama como somos.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (2ª parte)

«O esforço de aceitação de si mesmo custa bastante mais do que parece. O orgulho, o medo de não ser amado, a convicção de que pouco valor temos, têm, em nós, raízes muito profundas. Basta constatar como aceitamos mal as quedas, os erros, os fracassos, até que ponto nos desmoralizam, culpabilizam ou preocupam.

Na verdade, julgo que não conseguimos chegar a aceitar-nos plenamente senão sob o olhar de Deus.

Para nos amarmos a nós mesmos, precisamos de uma mediação, do olhar de alguém que nos diga como o Senhor o fez pela boca de Isaías: «Eu tenho por ti um amor eterno». (Is 54, 8).

É um caso muito vulgar: uma jovem que se acha feia (como acontece, curiosamente, a muitas jovens, apesar de serem bonitas!), começa a pensar que talvez não seja tão horrível como isso no dia em que um jovem se enamora dela e poisa no seu rosto o terno olhar dos apaixonados!

Temos uma necessidade vital da mediação do olhar do outro para nos amarmos e nos aceitarmos a nós mesmos. Do olhar de um familiar, de um amigo, de um pai espiritual, mas acima de tudo, do olhar de Deus nosso Pai. Porque é o olhar mais puro, mais verdadeiro, mais terno, mais amante, mais cheio de esperança que existe no mundo.

E julgo que o maior presente que pode receber aquele que procura o rosto de Deus perseverando na oração, é dar conta, um belo dia, desse olhar divino poisado sobre si; sentir-se-à, então, tão ternamente amado, que receberá a graça de se aceitar profundamente a si mesmo.»
(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (1ª parte)

«O que há de mais importante na nossa vida, não é tanto o que podemos fazer, mas sim que demos lugar à acção de Deus.
O grande segredo de toda a fecundidade e de todo o crescimento espiritual, é aprender a deixar Deus agir: «Sem Mim, nada podeis fazer», disse Jesus. Porque o amor divino é infinitamente mais poderoso do que tudo quanto poderíamos fazer pela nossa própria sabedoria ou pelas próprias forças.

Porém, uma das mais necessárias condições para permitir que a graça de Deus actue na nossa existência, é dizer «sim» àquilo que somos e às situações em que nos encontramos.

Com efeito, Deus é «realista». A graça divina não opera no imaginário, no ideal, no sonho. Actua na realidade, no concreto da existência. Mesmo que a trama da minha vida de todos os dias não me pareça muito gloriosa, em mais parte nenhuma poderei deixar-me encontrar pela graça divina.

A pessoa que Deus ama com a ternura de um Pai, com quem se quer unir para a transformar pelo Seu Amor, não é a pessoa que eu gostaria de ser, ou que deveria ser. É a que eu sou, muito simplesmente.
Deus não ama pessoas «ideais», seres «virtuais». Ama os seres reais, concretos.

Frequentemente, aquilo que bloqueia a acção da graça na nossa vida, não são os nossos pecados, nem os nossos erros, mas a falta de aceitação da nossa fraqueza, todas as rejeições mais ou menos conscientes do que somos ou da nossa situação concreta.

Para «libertar» a graça na nossa vida, e para possibilitar mudanças profundas e espectaculares, bastaria dizer simplesmente «sim» (um sim inspirado pela confiança em Deus) a aspectos da nossa existência face aos quais nos mantemos numa posição de recusa interior.
Não admito ter esta pobreza, aquela fragilidade, ter ficado marcado por tal acontecimento passado, ter cometido um determinado pecado, e assim por diante. E sem dar conta, invalido a acção do Espírito Santo.

Este não tem pleno domínio sobre a minha realidade senão na medida em que eu próprio a aceito: o Espírito Santo nunca age sem a colaboração da minha liberdade. Se não me aceitar tal como sou, não permito ao Espírito Santo que me faça ser melhor!"

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

domingo, 25 de janeiro de 2009

«SER» e «FAZER»

«A tendência para entender o «ser» com base no «fazer» tem, certamente, um aspecto positivo na construção da pessoa, pois ela desenvolve-se pelo exercício das suas diversas capacidades...

Não podemos, porém, identificar a pessoa com a soma das suas aptidões; ela é muito mais do que isso. Não podemos avaliar ninguém unicamente pelas suas capacidades; cada pessoa tem um valor e uma dignidade únicos, independentemente de «saber fazer»....

Que lugar haveria para os pobres e para os deficientes, num mundo onde a pessoa não fosse alguém senão em função da sua eficácia, do bem visível que fosse capaz de produzir? (...)


A nossa identidade, o «ser» quem somos, para além das nossas actividades, tem uma fonte muito mais profunda: o amor criador de Deus, que nos fez à Sua imagem, e quer que vivamos para sempre com Ele, amor esse que não pode desdizer-se.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")