sexta-feira, 3 de setembro de 2010

DEUS ENTRE AS PESSOAS

«Quando perguntavam a Martin Buber - o grande filósofo e teólogo judeu - "Onde Deus está?", ele foi suficientemente esperto para não dar a resposta estereotipada: Deus está em toda parte, Deus é encontrado nas igrejas e sinagogas.

Buber respondia que Deus está nos relacionamentos. Deus não é encontrado nas pessoas, mas entre as pessoas. Quando duas pessoas estão verdadeiramente em sintonia uma com a outra, Deus se aproxima e preenche o espaço entre elas para que fiquem unidas.

Tanto o amor quanto a verdadeira amizade são mais do que apenas uma forma de saber que somos importantes para alguém. Eles são uma maneira de levar Deus para um mundo que, de outro modo, seria um vale de egoísmo e solidão.» Harold Kushner

terça-feira, 31 de agosto de 2010

PENSAR...

«Uma verdadeira amizade é como a fosforescência, resplandece melhor quando tudo escureceu.» (Rabindranath Tagore)

«O mal surge sempre quando o amor não é suficiente.» (Hermann Hess)

«O amor é mestre, mas é preciso saber adquiri-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar, de facto, não por um instante, mas até ao fim.» (Dostoievksi)

«Protegei-me da sabedoria que não chora, da filosofia que não ri e da grandeza que não se inclina perante as crianças.» (Kahlil Gibran)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

QUE TEMOS FEITO COM AS NOSSAS VIDAS?

«Que temos feito com as nossas vidas?
Quantos de nós não traímos o que em verdade poderíamos ter sido? (...)

Sabemos que é pelo sucesso que nos medem e é pelo sucesso que nos medimos a nós próprios. Vivemos aterrorizados pela possibilidade de fracassar. Mas nem o medo podemos admitir, e dominar tornou-se a técnica para o afastar(...)
Assim nunca saberemos o que podemos suportar sem sermos derrotados.
A derrota é o pesadelo que nos ensombra os dias e as noites.

Continuamos a jogar os jogos que nos desgastam e, no fundo do coração, a acalentar o sonho do que poderíamos ter sido, transparentes e autênticos, se alguém nos tivesse querido tal qual éramos.
Mas não. E traímos aquilo que éramos, aquilo que íamos ser, aquilo que deveríamos ter sido, só para que nos quisessem, para que nos admirassem, para que nos amassem.
E perdemos a autonomia, esse estado de graça em que nos sentimos pacificados com os nossos sentimentos e necessidades, sem termos que provar nada a ninguém.

Que temos feito com as nossas vidas?
Temo-nos traído ou sentimo-nos fiéis a nós próprios? (Julgo que é mais do que uma mera pergunta retórica.)
Bom é saber que podemos recomeçar a qualquer momento.
Bom é saber que Aquele que incondicionalmente nos ama, todas as manhãs nos entrega em branco um dia, garantindo-nos que ainda temos hipóteses, que nada do que possamos ter feito nos condena irremediavelmente, que o exame se repete todos os dias, que há sempre um segunda chamada, que se chumbámos ontem, hoje podemos voltar a tentar.
Bom é saber desse Amor e rendermo-nos a ele.
»


Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."

terça-feira, 24 de agosto de 2010

CAPACIDADE DE SOFRER

"Capacidade de sofrer, para mim, significa saber permanecer no sofrimento a fim de procurar o seu significado. Permanecer aí o tempo suficiente para poder descobrir quem se é verdadeiramente.(...)


Saber viver significa saber estar no sofrimento para aprender a sair dele. (...)

Poderá parecer-vos estranho, mas julgo que saber sofrer significa saber que o sofrimento faz parte da vida.
Por definição.
Irremediavelmente.
De forma inevitável.


Só esta sociedade competitiva nos leva a acreditar que a vida só o é verdadeiramente quando se vence, quando não se sofre. Tanto é assim, que quem não alcança algum tipo de êxito se sente frustrado, irrealizado, deprimido, não importante, não vivo.
Nos dias de hoje, a nossa identidade é construída sobre os êxitos que alcançamos, sobre aquilo que possuímos, sobre o dinheiro, o sexo, a glória; sobretudo, sobre a imagem que damos de nós mesmos. (...)



Para mim, os êxitos têm tanto valor como as derrotas.
Importante, vital, é dar-lhes sentido.
Se eu tiver um êxito, dar-lhe-ei sentido, se viver uma derrota, dar-lhe-ei sentido.
Eu existo porque sou.

Os êxitos e as derrotas são partes integrantes do meu caminho pessoal sobre a terra. Nada mais. São momentos úteis para compreender melhor o sentido da minha viagem terrena, para reduzir o meu apego ao mundo. »

Valerio Albisetti, em "Viagem da Vida"

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

AMOR INCONDICIONAL

«Trata-se de uma autêntica revolução interior: proceder de maneira a não me apoiar no amor que tenho a Deus, mas exclusivamente no amor que Deus me tem...
Quando já não acreditares no que podes fazer por Deus, continua a acreditar no que Deus pode fazer por ti...

Deus não me ama por causa do bem de que sou capaz, do amor que Lhe tenho, mas ama-me de uma maneira absolutamente incondicional, por causa de Si mesmo, da Sua misericórdia e da Sua infinita ternura, unicamente em virtude da Sua Paternidade para comigo.

Esta experiência produz um grande abalo na vida cristã, que vem a ser uma graça imensa: o fundamento da minha relação com Deus, da minha vida, não mais está em mim, mas total e exclusivamente em Deus.»

Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior"

terça-feira, 17 de agosto de 2010

AMAR E DEIXAR-SE AMAR

«Uma das notas mais penosas do neurótico parece ser a ausência de gratuidade com que age. Tudo faz para amar e ser amado, menos amar e deixar-se amar gratuitamente.

No jogo do amor, parece temer, no fundo, sentir-se diminuído, tentando por isto sempre impor sua presença, infelizmente, problemática. Faz-se assim agente, centro e fim das relações amorosas que, por natureza, exigem correspondência livre e generosa.

Ah, que beleza se os neuróticos descobrissem a gratuidade do amor!


Os grandes mestres da Espiritualidade sempre detectaram, nas imperfeições do amor, um desejo impulsivo de dominação. Cobranças mesquinhas, controles descabidos, ciúmes ridículos, rudezas espantosas e desconfianças estapafúrdias não passam de atestados de uma doentia insegurança psicológica.

Amar não é dominar nem muito menos aprisionar.
O caminho do amor é uma aventura rica e dolorosa que vai aos poucos nos libertando das escórias do medo e do egoísmo.

Pe. neylor J. Tonin

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ABRIR-SE À FÉ

«É verdade que a fé é um dom de Deus, mas é necessário facilitar-lhe o caminho, abrimo-nos para recebê-la. (...)


A fé, segundo a minha acepção, é aquela «capacidade» que nos permite viver a realidade como qualquer coisa fora do nosso Eu, exterior a nós, à qual devemos respeito.

A fé, como lugar que nos faz sair do próprio Eu.

A fé diz-nos que já não podemos sentir-nos importantes e orgulhosos pelos nossos êxitos terrenos, mas por Deus. Por isso, se temos fé, não podemos orgulhar-nos daquilo que fazemos, mas daquilo que é feito por nós.

O acto de fé, na mimha opinião, é sair do nosso Eu para nos colocarmos noutro lugar, no lugar da transcendência, da espiritualidade, e não para nos empobrecer, e não para nos debilitar, mas para alcançar a harmonia e a consciência.

Para nos tornarmos adultos.

Só centrando-nos em Deus podemos estabelecer uma verdadeira harmonia connosco mesmos e com os outros.

Só assim podemos entrar em contacto com a parte mais profunda de nós, com o mistério da nossa existência.

Com a nossa verdadeira essência.

Com a nossa divindade. »

Valerio Albisetti, em "Viagem da Vida"

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A BONDADE IRRADIA

«Bondosa é a pessoa que tem boas intenções em relação a nós.
Dela irradia calor.
No seu olhar e nas palavras bondosas,
sente-se que o seu coração é bondoso,
que o bem toma conta dele.

A bondade irradia de uma alma que é boa em si,
que está em harmonia consigo mesma.
Quem sente a sua alma como boa também acredita na bondade alheia.
Como ele vê a bondade no outro,
ele também o tratará bem.
Por sua atitude bondosa, ele desperta o núcleo bom no outro.»

Anselm Grün, em "O Pequeno livro da verdadeira felicidade"

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

EXISTE PARA CADA UM DE NÓS...

Existe para cada um de nós
uma determinada hora
em que o conhecimento inconsolável
nos invade a alma e a despedaça.
É à luz dessa hora,
já chegada ou não,
que todos nós nos deveríamos falar, amar,
e se possível,
rir juntos.
Christian Bobin

terça-feira, 3 de agosto de 2010

LUGAR DE AMOR

Em todo o ser humano existe um recanto imaculado,
virgem, inexplorado, silencioso, profundo...
Em toda criatura permanece um mundo, santo e ignorado,
nunca antes penetrado, aguardando, enriquecido de ternura...

Há, no abismo de toda alma,
um rochedo, um lugar, uma ilha, um paraíso,
recanto de maravilha a ser descoberto...
Em todo coração se demora um espaço aberto para a aurora,
um campo imenso a ser trabalhado,
terra de Deus, lugar de sonho,
reduto para o futuro.

Em toda vida há lugar para vidas,
como em toda alegria paira uma suave melancolia prenunciadora de aflição.

Há, porém, um lugar em mim,
na ilha dos meus sentimentos não desvelados,
um abismo de espera,
um oceano de alegria,
um mundo de fantasia,
para brindar-Te, meu Senhor!

Vem, meu amado Rei e Senhor,
dominar a minha ansiedade,
conduzir-me pela estrada da redenção.
E toma posse deste estranho e solitário país,
reinando nele e o iluminando com as tuas claridades celestes,
para que, feliz, eu avance, até o desfalecer das forças,
no Teu serviço libertador.

Vem, meu Rei,
ao meu recanto e faz da minha vida um hino de serviço.
E por Ti uma perene canção de amor.

Rabindranath Tagore

sexta-feira, 30 de julho de 2010

ESPIRITUALIDADE NO DIA-A-DIA

«O caminho da espiritualidade tem de conduzir ao quotidiano.
Consiste simplesmente em fazer aquilo que é «necessário», aquilo que devo fazer no momento, aquilo que devo a mim e ao meu ser, aquilo que devo ao outro e aquilo que devo a Deus. (...)

A espiritualidade tem de ser uma coisa concreta. Esta revela-se na configuração do dia, através de rituais curativos. Revela-se num relacionamento amável com os seres humanos, na disponibilidade para ajudar quando os outros precisam do meu trabalho, e numa ocupação em que sirvo as pessoas e não a minha própria imagem. O facto de um ser humano ser espiritual ou não é uma coisa que, segundo São Bento, conseguimos ler sempre no seu quotidiano: na sua maneira de lidar com as pessoas, como organiza o seu tempo e, não menos importante, como lida consigo próprio. Torna-se assim evidente se ele faz girar tudo à sua volta ou, em última análise, à volta de Deus.

Para São Bento, o objectivo de toda e qualquer espiritualidade é «que Deus seja glorificado em tudo». E, na sua regra, ele coloca este princípio precisamente num prosaico capítulo sobre os artíficies. A forma como trabalham e como lidam com o produto do seu trabalho é decisiva para avaliar se se deixam conduzir por cobiça ou avidez, ou se estão preocupados com a glorificação de Deus.»

Anselm Grun, em "O Livro das Respostas"

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ó MEU MESTRE!



Não sei como cantas, ó mestre!
Escuto sempre em silencioso deslumbramento.
A luz da tua música ilumina o mundo.
O sopro de vida da tua música voa de céu em céu.
A torrente santa da tua música rompe qualquer obstáculo de pedra - e jorra.
O meu coração anseia por juntar-se ao teu cântico, mas em vão se esforça por ter voz.
Eu poderia falar, mas a linguagem não se transforma em cântico, e, confundindo, choro em voz alta.
Ah! Tu fizeste o meu coração prisioneiro nas malhas sem fim da tua música, ó meu mestre!

Vida da minha vida, eu tratarei de trazer sempre puro o meu corpo, sabendo que o teu tato pousa sobre todos os meus membros.
Eu tratarei de trazer sempre longe dos meus pensamentos qualquer falsidade, sabendo que tu é essa verdade que acende a luz da razão no meu espírito.
Eu tratarei de afastar sempre do meu coração qualquer maldade e de conservar sempre em flor o meu amor, sabendo que tens a tua morada no santuário íntimo do meu coração.
E será todo o meu empenho o de revelar-te em minhas ações, sabendo que é o teu poder que me dá a força de agir.

Rabindranath Tagore

sexta-feira, 23 de julho de 2010

PARA DEUS NADA É PEQUENO

"Purifique a sua intenção e a menor das suas acções encontrar-se-á cheia de Deus !" (Teillhard de Chardin)


«Não procureis acções espectaculares.
O que importa é o dom de vós mesmos.
O que importa é o grau de amor que pondes em cada um dos vossos gestos.
Sede fiéis nas pequenas coisas, porque é nelas que está a vossa força.
Para Deus nada é pequeno. (...)

Um dia, enquanto caminhava por uma rua de Londres, vi um homem sentado que parecia muito só. Fui até junto dele, peguei-lhe na mão e apertei-a.
Ele disse: "Há quanto tempo não sinto o calor de uma mão!"
Compreendi que um gesto assim tão pequeno pode dar muita alegria.»

Madre Teresa de Calcutá

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A CAPACIDADE DE AMAR

«A maior dignidade do homem, seu poder essencial e peculiar, o segredo mais íntimo daquilo que constitui sua humanidade, é a capacidade que ele tem de amar. Esse poder escondido nas profundezas da alma humana imprime no homem a imagem e semelhança de Deus.

Diferentes das demais criaturas que nos cercam, temos o poder de penetrar no mais íntimo santuário do nosso próprio ser. Podemos penetrar em nós como em templos de liberdade e de luz. Podemos abrir os olhos do nosso coração e contemplar face a face Deus, nosso Pai.

Podemos com Ele falar e ouvir-lhe a resposta. E Ele nos diz não apenas que somos chamados a viver como homens e dominar o mundo, mas que temos uma vocação ainda mais elevada.
Somos seus filhos.»

Thomas Merton

segunda-feira, 19 de julho de 2010

CAMINHO PARA UM CORAÇÃO TRANQUILO

"Aquele que sou saúda com melancolia aquele que eu gostaria de ser." (Kierkegaard)

«Por trás dessa frase do filósofo dinamarquês kierkegaard se esconde uma experiência que todos conhecemos: não raro, há um abismo entre nossa realidade (o jeito que somos) e nosso ideal (nosso ideia do que gostaríamos de ser). É totalmente compreensível que cada um goste de representar um ideal. Os ideais também são, em princípio, absolutamente positivos, pois têm o poder de estimular nosso crescimento; precisamos deles para sair das nossas comodidades.

Mas infelizmente muitos se identificam tanto com o seu ideal que não têm mais coragem de aceitar como são. Recusam aceitar sua realidade. Acham que só serão amados e reconhecidos por outras pessoas se puderem mostrar algo, se puderem fazer algo melhor que os demais. Então quase se fundem com sua concepção ideal. Outros são possuídos pela profunda desconfiança de que não serão reconhecidos como são.
Dizem para si mesmos: se você soubesse como realmente sou, não poderia mais me aceitar. Ou: se as pessoas soubessem como sou por dentro, se conhecessem minhas fantasias, não me respeitariam mais.

Para não cair nessa desconfiança de que os outros não me aceitariam como sou; para não cair nessa armadilha é preciso humildade; é preciso coragem para a verdade pessoal - coragem para aceitar a própria sombra. Claro que isso dói. Mas a negação nunca foi caminho para a felicidade e a paz interior.

Aceitar a verdade pessoal com toda a humildade é que traz tranquilidade ao coração.»


Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade"

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A ÚNICA COISA NECESSÁRIA

«Um dos principais obstáculos a essa perfeição de caridade generosa é a ansiedade egoísta de tirar o máximo de cada coisa, de ter um brilhante êxito aos nossos olhos e aos dos outros. Só podemos livrar-nos dessa ansiedade se aceitarmos perder algo em quase tudo o que fizermos. Não podemos dominar tudo, provar tudo, compreender tudo, esgotar totalmente cada experiência. Mas, se tivermos a coragem de abrir mão de quase tudo, provavelmente conseguiremos reter o único necessário – seja ele qual for. Se formos por demais ávidos de ter tudo, quase com certeza perderemos até a única coisa que necessitamos.

A felicidade consiste em descobrir precisamente o que pode ser essa ‘única coisa necessária’ em nossas vidas e renunciar alegremente a todo o resto. Pois então, por um divino paradoxo, constatamos que tudo o mais nos é dado junto com a coisa única de que precisamos.»

Thomas Merton, em "Homem algum é uma ilha"

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A FUGA DE DEUS

"Se temos medo de ficar sozinhos, medo do silêncio, talvez seja em virtude da nossa secreta desesperança de reconciliação íntima. Se não temos a esperança de ficar em paz connosco em nossa própria solidão e em nosso silêncio pessoal, jamais seremos capazes de nos encarar: continuaremos correndo sem parar.

E essa fuga do eu é, como indicou o filósofo suiço Max Picard, uma "fuga de Deus".
Afinal de contas, é nas profundezas da consciência que Deus fala, e, se recusamos a nos abrir por dentro e a olhar essas profundezas, também recusamos nos confrontar com o Deus invisível presente dentro de nós."

Thomas Merton, in "Amor e Vida"

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O PERIGO DO ÓDIO



«Não é só o nosso ódio aos outros que é perigoso, mas também, e sobretudo, o nosso ódio a nós mesmos. E esse ódio a nós mesmos é tão profundo e tão forte que não pode ser enfrentado. Pois é isso que nos faz ver nossa própria maldade nos outros e nos torna incapazes de vê-la em nós mesmos.»

Thomas Merton

sexta-feira, 9 de julho de 2010

TÃO POBRES

"E não falemos da pobreza do amor, para não ter mesmo aqui de começar a chorar. A pobreza de amor nas famílias, entre vizinhos e amigos, para com Deus, o pior dos empobrecimentos...

Estamos tão pobres de amor, meu amor. Sente-se tanto, nota-se tanto esta pobreza, esta falta, nunca tanto foi assim tanto, podes crer, meu amor.
É nesta falta, tão pobres dele, que ele cresce, tem de crescer ainda mais, acredita, meu amor."

Pedro Paixão, em "muito, meu amor"

quarta-feira, 7 de julho de 2010

CAPACIDADE DE AMAR

«Certa vez, Frei Egídio (um dos companheiros mais queridos de S. Francisco), homem muito simples e piedoso, falou assim ao Ministro General, Frei Boaventura (+ 1274), um dos maiores teólogos da Igreja.

- Meu Pai, Deus deu-lhe muitos dotes. Eu, pessoalmente, não recebi grandes talentos. O que devemos nós, ignorantes e tolos, fazer para sermos salvos?

O douto e santo Frei Boaventura elucidou-o dizendo:

- Se Deus não desse ao homem nenhuma outra capacidade senão a de amar, isto lhe bastaria para se salvar.

- Quer dizer que um ignorante, pode amar a Deus tanto como um sábio?, perguntou Frei Egídio, tentando entender.

- Mesmo uma velhinha muito ignorante, disse-lhe com ternura o grande teólogo, pode amar mais a Deus do que um professor de Teologia.


Dando pulos de alegria, Frei Egídio correu para a sacada do convento e começou a gritar:

- Ó velhinha ignorante e rude, tu que amas a Deus Nosso Senhor, podes amá-l`O mais do que o grande teólogo Frei Boaventura.


E, comovido, ficou ali, imóvel, durante três horas.»

(Pe. Neylor J. Tonin, em "Histórias de Sabedoria")

segunda-feira, 5 de julho de 2010

GRITOS

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta aos seus discípulos: - Porque é que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?

- Gritamos porque perdemos a calma - disse um deles.

- Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao nosso lado? Questionou novamente o pensador.

- Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça, respondeu outro discípulo.

E o mestre volta a perguntar: - Então não é possível falar-lhe em voz baixa?
Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu:

- Vocês sabem porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecido? O facto é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, os seus corações afastam-se muito. Para diminuir esta distância precisam de gritar para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, através da grande distância. Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas? Elas não gritam. Falam suavemente. E por quê? Porque seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Às vezes estão tão próximos os seus corações, que nem falam, somente sussurram. E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer sussurrar, apenas se olham, e basta. Seus corações se entendem. É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas.
Por fim, o pensador conclui, dizendo:- Quando discutirem, não deixem que os vossos corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O SENTIDO HUMANO DA VIDA

O sentido da nossa vida é muito simples:
devemos orientar cada pensamento
e cada gesto de modo a que ela se torne
uma fonte de alento para os outros.

Sê justo para com os que se cruzam contigo.
Justo é aquele que deixa que os outros sejam iguais a si próprios,
que aceita as suas diferenças
e que ajuda os que precisam do seu auxílio.
Sê humano, com os outros e contigo.
A humanidade dos outros só é benéfica
para ti quando eles a têm para com eles próprios.
Só assim, a humanidade é recíproca
e pode ser um bálsamo para todos.

Sê bondoso para com as pessoas que cruzam o teu caminho.
Quem olha para si e para os outros com benevolência e tolerância
não se deixa tolher pelos seus próprios erros.
Agarra-se ao bem e acredita nele,
mesmo que sofra muitas desilusões.
A fé na bondade de cada um atrai o melhor que há nas pessoas,
pois reconhece o bem que há em todos.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

quarta-feira, 30 de junho de 2010

COMO UMA CRIANÇA



Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande,
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.

Alberto Caeiro, in "Fragmentos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 28 de junho de 2010

UM SILÊNCIO...

«Existe em todas as coisas
uma doçura inesgotável,
uma infinita pureza,
um silêncio que é fonte
de toda a acção e alegria.
Ergue-se numa candura sem palavras
e flui de mim
de raízes invisíveis
de todo o ser criado.»
Thomas Merton

sexta-feira, 25 de junho de 2010

CANTARÃO DE AMOR...

«Quando estiverem afinadas, Mestre,
todas as cordas da minha vida,
cada vez que as toques, cantarão de amor.»
Rabindranath Tagore

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A DÁDIVA

«Estendemos os braços e tentamos tocar-nos. Em vão. Porque nunca nos atrevemos a dar-nos.»
Dag Hammarskjoeld

Vós pouco dais quando dais de vossas posses.
É quando dais de vós próprios que realmente dais.
Pois, o que são vossas posses senão coisas que guardais
por medo de precisardes delas amanhã? (...)

Há os que dão pouco do muito que possuem,
e fazem-no para serem elogiados,
e o seu desejo secreto desvaloriza as suas dádivas.

E há os que têm pouco e dão-no integralmente.
Esses confiam na vida e na generosidade da vida,
e seus cofres nunca se esvaziam.

E há os que dão com alegria, e essa alegria é já a sua recompensa.
E há os que dão com pena, e essa pena é o seu baptismo.

E há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria nem pensar na virtude:
Dão como, no vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço.
Pelas mãos de tais pessoas, Deus fala;
e através de seus olhos
Ele sorri para o mundo.

É belo dar quando solicitado;
é mais belo, porém, dar sem ser solicitado, por haver apenas compreendido. (...)

Dizeis muitas vezes: “Eu daria, mas somente a quem merece”.
As árvores de vossos pomares não falam assim,
nem os rebanhos de vossos pastos.
Dão para continuar a viver,
pois reter é perecer.

Khalil Gibran

segunda-feira, 21 de junho de 2010

DAR E RECEBER GRATUITAMENTE

«Estamos no mundo para aprender a amar, matriculando-nos na escola de Jesus.
Aprender a amar é extremamente simples: é aprender a dar gratuitamente e aprender a receber gratuitamente....

Dar gratuitamente não é para nós espontâneo. Temos uma grande tendência para dar para receber em troca. O dom de nós mesmos é sempre motivado, em maior ou menor grau, pela expectativa de alguma gratificação. O Evangelho convida-nos a pôr de parte essa limitação para praticar um amor tão puro e desinteressado como o do próprio Deus, um amor que seja livre precisamente por ser capaz de existir e de durar sem ser condicionado pela resposta nem pelo mérito daquele a quem se destina...

Também não temos facilidade em receber gratuitamente...
Receber gratuitamente pressupõe que tenhamos confiança naquele que dá, que tenhamos o coração aberto e disponível para receber...
Não podemos receber gratuitamente se não nos reconhecermos e nos aceitarmos como pobres; e o orgulho recusa-se terminantemente a fazê-lo. Somos capazes de reivindicar, de exigir, mas raramente de aceitar.

Pecamos por falta de gratuidade sempre que, nas nossas relações com Deus ou com os outros, o bem que tivermos realizado nos sirva de pretexto para reivindicar algum direito, para exigir reconhecimento ou qualquer gratificação por parte de outro. E também, mais subtilmente, sempre que tivermos receio, por causa desta ou daquela limitação ou falha pessoal, de não receber amor, como se o amor devesse pagar-se ou merecer-se.»

Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior"

sexta-feira, 18 de junho de 2010

SER AMOR

«Estive duas vezes no monte Athos. Lembro-me com prazer da primeira visita há vinte anos. O velho padre nos cumprimentou, a mim e a meu irmão, em Simonos Petras. Não entendemos nada do que ele falava. Mas as mãos que nos estendeu eram tão macias e sensíveis que exalavam amor. E os seus olhos irradiavam tal amor que logo nos sentimos em casa. Então pressenti como uma pessoa pode mudar quando é atravessada por inteiro pelo amor de Deus.

Quando olho tais pessoas que são puro amor lembro-me também de uma velha camponesa em cujo olhar se podia ler amor e misericordiosa doçura. Ela passou por altos e baixos na vida. Não falava muito. Mas em todo o seu ser brilhava um amor que brotava em todos os poros do seu corpo. Dessas pessoas flui um amor que tudo une, Deus, homem e criação. Elas estão em harmonia consigo mesmas e com a sua vida. Elas se amam e se sabem profundamente amadas por Deus. Elas fazem o seu amor fluir para tudo que encontram, para os homens, mas também para os animais e as coisas, que elas tocam amorosamente.

É provável que o leitor também conheça essas pessoas que são preenchidas de amor em todo o seu ser. Perto delas, você se sente em casa, aceite, amado. Mas o que é isso que irradia dessas pessoas? Temos dificuldade quando tentamos definir com mais precisão aquilo a que chamamos amor. Só podemos descrever que o amor é, evidentemente, uma qualidade do sentir, do falar e do agir, uma força que flui de nós, uma irradiação. Nela estão as qualidades da doçura, da bondade, da ternura, da amizade, da mansidão, da alegria. Por fim, estão reunidos no amor todos os frutos do Espírito que Paulo enumera na Epístola aos Gálatas (Gl 5,22s).»

Anselm Grun, "Morar na casa do Amor"

quarta-feira, 16 de junho de 2010

MEU CORAÇÃO ESTÁ HOJE SERENO

«Meu coração está hoje sereno, e as angústias de sempre foram substituídas pela calma e pela alegria; vi Jesus num sonho, durante a noite.
A mesma face generosa, os grandes olhos negros que pareciam queimar a quem o encarava de frente, os pés empoeirados, as sandálias usadas. E a presença forte de Seu espírito, dominando tudo com a paz daqueles que sabem olhar direito a Vida.
Oh, querida Mary, por que não posso sonhar com Jesus todas as noites? Por que não consigo olhar para minha vida com a metade da calma que Ele era capaz de me transmitir durante o sonho? Por que não consigo encontrar ninguém nesta Terra que possa ser tão simples e tão afectuoso como Ele?»

Kahlil Gibran, em "Cartas de amor do profeta (7 de Fevereiro de 1912)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

POST SCRIPTUM

"Que a tua vida
seja natural como o respirar,
que o teu peso para os outros
seja apenas o das pétalas,
que a tua gratidão seja ilimitada
e as tuas palavras favos de ternura.

Que todos os que se aproximem de ti
tenham vontade de cantar
e de encher de luz e canções
as suas noites,
de despir os lutos do coração
e compor as jarras da alegria.

Procura a lucidez
que afasta os medos,
e a humildade para permaneceres
profundo em ti,
livre na vida,
eterno no momento,
fiel ao que permanece."

Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O OLHAR DO AMOR

«Amar não significa apenas ter sentimentos amorosos.
É preciso o crer, o ver bem, para poder amar, tratar bem.
O amor necessita primeiro de uma nova forma de ver.
Pede ao anjo do amor que te dê novos olhos,
para que possas ver as pessoas ao redor de ti mesmo sob uma nova luz,
para que possas descobrir o núcleo bom em ti e nos outros.»

Anselm Grün, em "O Pequeno livro da verdadeira felicidade

quarta-feira, 9 de junho de 2010

SÊ BOM PARA CONTIGO

Ser bondoso para contigo significa
olhares para ti com humanidade.
Ser bondoso significa sentires-te bem contigo próprio.
É reconhecer a criança ferida que existe em ti
e usares de misericórdia para com ela;
olhar para as próprias feridas com o olhar
compassivo do coração e agir com uma
dedicação sincera.
Não deves enfurecer-te com as tuas próprias fraquezas,
mas sim olhá-las com amor e aceitá-las.
Só um olhar carinhoso pode fazer com
que as nossas fraquezas se transformem.

Não dificultes a tua vida
ao levar demasiado a sério
aquilo que não te agrada em ti
e o que te aborrece nos outros.
Vive e deixa viver.
Vê para lá das coisas.

Sê criativo na forma como levas alegria
à vida das pessoas que vais encontrando.
As rosas que fazes florescer para os outros
não perfumam apenas a vida delas.
Também inebriam a tua.
Também enchem o teu coração de amor e alegria.
Sempre que te aproximas dos outros,
há algo em ti que se agita,
que te faz sentir livre e expansivo.

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade"

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A VERDADEIRA ALEGRIA

«Cultivar a alegria não é tapar os olhos para não ver as coisas feias e os dissabores do mundo, não é cobrir a realidade com um véu cor-de-rosa para criar uma felicidade ilusória; pelo contrário, viver na alegria é viver na consciência extrema, testemunhando, na escuridão do mundo, que o nosso ser pertence a algo de diferente.

A alegria não é uma linguagem de palavras, é uma linguagem de olhares, a alegria não convence, contagia. A alegria é poderosamente subversiva, porque é subversivo o amor sem distinções que ela transmite.» -

Susanna Tamaro, Querida Mathilda

sexta-feira, 4 de junho de 2010

OS LAÇOS FRÁGEIS DO AMOR


«A. e E. formavam um casal em que cada um, por lassidão ou desespero, tinha renunciado ao amor do outro. Não se tinham separado, haviam recomposto a sua ligação a um nível mais baixo, um gosto comum pelas viagens e antiguidades - laços decerto menos frágeis e dolorosos que a esperança infinita do amor -.
A vida passou desde aí a evitá-los, tal como a água de uma torrente contorna, sem cobrir, uma grande pedra que lhe fique a meio.»

Christian Bobin

quarta-feira, 2 de junho de 2010

UM MUNDO EM QUE NÃO ACREDITO

«Multiplico desde sempre artimanhas para não revelar a minha ausência de um mundo que se ocupa de assuntos e prazeres que nunca compreendi. Tento, por vezes, aprender essa língua estrangeira que quase todos falam. Apenas momentaneamente o consigo. Este sentimento do mundo é antigo. Vem sem dúvida da mais remota infância. Devo então ter-me recusado a aprender alguma coisa cuja aprendizagem é impossível mais tarde. Ignoro se é uma graça ou uma enfermidade. Sei apenas que me é impossível viver num mundo em que não acredito.»

Christian Bobin

segunda-feira, 31 de maio de 2010

ÁRVORES E LIVROS



«S., reputado pela profundidade dos seus livros, quando ia ao campo visitar amigos, pedia para se sentar numa das cadeiras de costas para janela: "Não suporto a visão de uma árvore", dizia, e estas palavras revelavam, melhor do que a leitura extenuante da sua obra, a doença que se alojava no seu espírito, como o verme na fruta.»

Christian Bobin

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A VIDA É ESPANTOSA!



«Tem nove meses. Está sentado ao meu lado no carro que conduzo através de um campo inundado de sol. Enquanto tomo atenção à estrada, observo-o de vez em quando.Tem nos olhos a gravidade de um sábio. Estuda as luzes, as sombras e os laços dos sapatinhos, que agarrou. Por vezes um pensamento fá-lo franzir a testa.
Abrando um pouco, inclino-me para ele e digo-lhe a rir: "A vida é espantosa. Vamos todos morrer mas mesmo assim é fabulosa." Ele interrompe os estudos, fixa em mim os olhos negros como ameixas, sorri de lado e retoma os pensamentos profundos, imperturbável, majestoso.»

Christian Bobin, em "Ressuscitar"

quarta-feira, 26 de maio de 2010

JULGAMENTO

Não julgues...
Habitas num recanto mínimo desta terra.
Os teus olhos chegam
Até onde alcançam muito pouco...
Ao pouco que ouves
Acrescentas a tua própria voz.
Mantém o bem e o mal, o branco e o negro,
Cuidadosamente separados.
Em vão traças uma linha
Para estabelecer um limite.

Se houver uma melodia escondida no teu interior,
Desperta-a quando percorreres o caminho.
Na canção não há argumento,
Nem o apelo do trabalho...
A quem lhe agradar responderá,
A quem lhe agradar não ficará impassível.

Que importa que uns homens sejam bons
E outros não o sejam?
São viajantes do mesmo caminho.

Não julgues,
Ah, o tempo voa
E toda a discussão é inútil.
Olha, as flores florescem à beira do bosque,
Trazendo uma mensagem do céu,
Porque é um amigo da terra;
Com as chuvas de Julho
A erva inunda a terra de verde,
e enche a sua taça até à borda.
Esquecendo a identidade,
Enche o teu coração de simples alegria.
Viajante,
Disperso ao longo do caminho,
O tesouro amontoa-se à medida que caminhas.

Rabindranath Tagore

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O LUGAR DO HOMEM

Perguntaram a um sábio:

- Nossos mestres sempre nos ensinaram que não há nada neste mundo que não tenha o seu respectivo lugar. Assim, também o homem tem o seu devido lugar. Por que razão, então, as pessoas se sentem tão oprimidas?

- Ora, simples : «porque cada um quer ocupar o lugar do outro», respondeu o sábio.

(Autor desconhecido)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

AS PESSOAS SENSÍVEIS

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 19 de maio de 2010

AMOR PACÍFICO E FECUNDO

Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.

Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

segunda-feira, 17 de maio de 2010

À BELEZA

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga, in 'Odes'

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A FÉ

"A fé torna-nos capazes de pensarmos como Deus, tanto no que respeita à nossa pessoa como a tudo aquilo com que contactamos.
Crer significa, portanto, sintonizar e identificar o nosso pensamento com o de Deus.

O mundo criado à nossa volta é como que a expressão de uma voz que nos fala. Se a nossa fé é fraca essa voz produz em nós a dispersão, afasta-nos de Deus e leva a centrarmo-nos em nós próprios. Mas, quando a fé cresce, dá-se o processo inverso: o mundo exterior começa a falar-nos de Deus, a atrair-nos para Ele, torna-se sinal da Sua presença. Além disso, ajuda-nos a entrar em contacto com Ele e transforma-se num lugar de encontro com Deus.

É a fé que te torna capaz de ultrapassar as aparências, de distinguir a causa primeira das causas segundas e de ver que aquilo que se passa em teu redor, não é fruto do poder dos homens.
A fé permite-te descobrir os sinais de Deus na Criação, oferece-te a possibilidade de acolheres os acontecimentos como expressão da Vontade de Deus e de os ver como uma passagem de Deus na tua vida"

Tadeusz Dajczer, em "Meditações sobre a fé"

quarta-feira, 12 de maio de 2010

SÓ NO AMOR

«Só no amor do outro como outro, na passagem da esfera inteira do eu para o tu, é que o homem se encontra no caminho que vai do homem à humanidade. (...)
O homem só se comprova, só chega a si mesmo no encontro; é no acontecimento dos olhos nos olhos que a verdade nasce, e que se revela espontaneamente, de modo livre, por graça, a profundidade do ser humano.»

Hans Urs von Balthasar, em "Só o Amor é Digno de Fé"

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O PERDÃO

«O perdão,
o acto de amar o inimigo,
assim como perdoar a si mesmo
não é um evento repentino,
uma mudança rápida de ânimo.

A maior parte do tempo é um processo longo,
que se inicia com o desejo de sermos livres,
de nos aceitarmos como somos
e de crescermos no amor por aqueles que são diferentes
e por aqueles que nos magoaram
ou aparecem como nossos rivais.

É o processo de sairmos da prisão das nossas simpatias e antipatias,
dos nossos ódios e medos,
e caminharmos para a liberdade e para a solidariedade.
No processo de libertação pode ainda haver inibições,
ressentimentos e raiva,
mas há também este desejo crescendo de ser livre.»

Jean Vanier

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O SORRISO


«O sorriso é algo sagrado
como tudo o que responde com uma resposta
maior do que a questão.
Eu que sou um obstinado da solidão
Digo que o mais maravilhoso de tudo é o sorriso.
Este é uma das maiores subtilezas humanas.»

Christian Bobin

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O ESPÍRITO DE AMOR

«Enquanto me dou conta que, de há dez anos, não fazia a mínima ideia de como as coisas me iriam acontecer, continuo, no entanto, a manter a ilusão de que tenho o controlo da minha própria vida. Gosto de decidir tudo à minha maneira, a próxima coisa que farei, o objectivo que quero atingir e imaginar o que os outros pensarão de mim.
Enquanto estou ocupado com a própria vida, torno-me insensível aos movimentos imperceptíveis do Espírito de Deus em mim, apontando-me para direcções bastante diferentes das minhas.

É necessária uma grande capacidade para criar silêncio, solidão interior e nos tornarmos conscientes destas inspirações divinas. Deus não grita nem empurra. O Espírito de Deus é calmo e sereno como uma voz suave ou uma ligeira brisa. É o espírito de amor.

Se calhar, ainda não acreditamos perfeitamente que o Espírito de Deus é, na verdade, o Espírito de amor que nos conduz cada vez mais profundamente para o amor.
Se calhar, ainda não confiamos no Espírito, com medo de sermos conduzidos para lugares que nos possam tirar a liberdade. Ou, quem sabe, ainda pensamos no Espírito de Deus como um inimigo que exige de nós algo que julgamos não ser bom para nós.

Mas Deus é amor, só amor, e o Espírito de Deus é o Espírito de Amor que anseia por nos guiar para lugares onde os desejos mais profundos do nosso coração podem ser satisfeitos.
Com frequência, nem sequer nós próprios sabemos qual é o nosso mais profundo anseio. Ficamos muito facilmente enredados pela nossa cobiça e raiva, partindo do pressuposto errado de que esses sentimentos nos comunicam o que realmente queremos.

O Espírito de amor diz: «Não tenhas receio de pôr de lado a necessidade que sentes de controlar a tua própria vida. Deixa-me preencher os verdadeiros desejos do teu coração.»

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

segunda-feira, 3 de maio de 2010

MINIATURAS DE CRISTO

"...até que Cristo seja formado em vós" (Gálatas 4.19)

Ele age em nós de todas as maneiras. Mas, acima de tudo, ele age em nós por intermédio uns dos outros. Os homens são espelhos ou "transmissores" de Cristo para outros homens.
Geralmente são aqueles que conhecem a Cristo que o levam aos outros. É por isso que a Igreja, todo o conjunto de cristãos que revelam Cristo uns aos outros, é tão importante.

É muito fácil pensar que a Igreja tem muitos objectivos diferentes - educação, obras, missões, cultos... A Igreja não existe para outro propósito senão atrair os homens para Cristo, transformá-los em miniaturas de Cristo. Se ela não faz isso, então todas as Catedrais, todos os líderes, todas as missões, todos os sermões, a própria Bíblia - tudo não passa de perda de tempo. Deus não se tornou homem por outro motivo. E é até de duvidar, veja só, que todo o Universo tenha sido criado por qualquer outro motivo.»

C.S. Lewis

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O AMOR DE SI

«O amor de si está para o amor de Deus
assim como o trigo ainda verde está para o trigo maduro.
Não há ruptura de um a outro - apenas um alargamento sem fim,
as águas caudalosas de uma alegria que,
depois de ter impregnado o coração,
transborda por todos os lados e recobre a terra inteira.

O amor de si nasce num coração infantil.
É um amor que brota naturalmente.
Vai da infância até Deus.
Vai da infância,
que é a nascente,
a Deus que é o oceano.»

Christian Bobin, em "Um Deus à Flor da Terra"

quarta-feira, 28 de abril de 2010

PALAVRAS AUTÊNTICAS

«São muito poucas as palavras autênticas que se trocam todos os dias,
realmente muito poucas.
Talvez não nos apaixonemos
senão para finalmente começarmos a falar.
Talvez não se abra um livro
senão para finalmente começar a ouvir.»

Christian Bobin

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O MUNDO DO ESPÍRITO

«Serei rico de uma maneira muito diferente da tua.
Serei rico por tudo o que perderei.
O mundo do espírito não é algo distinto do mundo material.
O mundo do espírito não é mais do que o mundo material finalmente endireitado.
No mundo do espírito, é abrindo falência que se enriquece.»
Christian Bobin, em "Um Deus à Flor da Terra"

sexta-feira, 23 de abril de 2010

ANSEIO PELO TEU AMOR

«Jesus é Deus-para-nós, Deus-connosco, Deus-dentro-de-nós. Jesus é Deus a dar-se completamente, a derramar-se sem reservas para nós. Jesus não se retrai nem fica agarrado àquilo que lhe pertence. Ele dá tudo o que tem para dar. "Comei, bebei, isto é o meu corpo, isto é o meu sangue...isto sou Eu para vós!"

A palavra que melhor exprime o mistério do amor de autodoação total de Deus é «comunhão». É a palavra que contém a verdade de que, em Jesus e através de Jesus, Deus quer, não só ensinar-nos, instruir-nos ou inspirar-nos, mas fazer-se um connosco.

Deus deseja unir-se plenamente a nós de tal modo que todo o ser de Deus e todo o nosso ser possam unir-se num amor perdurável. Toda a longa história da relação de Deus com os seres humanos é uma história de comunhão cada vez mais profunda... é uma história em que Deus procura caminhos sempre novos para entrar em íntima comunhão com os que foram criados à imagem divina.
Dizia Agostinho: «A minha alma anda inquieta enquanto não repousar em vós, Senhor.» Ao examinar, porém, a tortuosa história da nossa salvação, apercebo-me que não somos só nós que ansiamos por pertencer a Deus: Deus também está ansioso por nos pertencer a nós. É como se Deus estivesse a clamar: «O meu coração anda inquieto enquanto eu não puder repousar em vós, minhas criaturas bem-amadas.»

Deus clama, pedindo para ser recebido por aqueles que lhe pertencem: «Eu criei-te, dei-te todo o meu amor, guiei-te, ofereci-te o meu apoio, prometi-te que se realizariam todos os anseios do teu coração: onde estás, qual é a tua resposta, onde está o teu amor? Eu não vou desistir, vou continuar a insistir. Um dia descobrirás como eu anseio pelo teu amor!»

Henri Nouwen, em "Não nos ardia o coração?"

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O MEU CORAÇÃO

«Eu perdi o meu coração no empoeirado caminho deste mundo;
Mas Tu o tomaste em Tuas mãos.
Eu buscava alegria e apenas colhi tristezas;
Mas a tristeza que me enviaste tornou-se alegria na minha vida.
Os meus desejos espalharam-se em mil pedaços;
Mas Tu os recolheste e reuniste em Teu amor.
E enquanto eu vagava de porta em porta,
Cada passo conduzia-me ao Teu portal.»

Rabindranath Tagore

segunda-feira, 19 de abril de 2010

CELESTE CÃO DE CAÇA

Dele fugi, noites e dias adentro;
Dele fugi, pelos arcos dos anos;
Dele fugi, pelos caminhos dos labirintos
De minha própria mente; e no meio de lágrimas
Dele me ocultei, e sob riso incessante.
Por sobre esperanças panorâmicas corri;
E lancei-me, precipitado,
Para baixo de titânicas trevas de temores abissais,
Para longe daqueles fortes Pés que seguiam,
Seguiam após mim.
Mas com desapressada perseguição,
E com inabalável ritmo,
Deliberada velocidade, majestosa urgência,
Eles marcavam os passos - e uma Voz insistia
Mais urgente que os Pés -"Tudo no mundo te atraiçoa quando tu me trais!...
Tudo foge de ti quando foges de Mim...
Ah, pobre cego e insensato!
Aquela treva que parecia envolver a tua vida
Nada mais era que a sombra de minhas mãos,
Estendidas para abraçar-te!

Francis Thompson

sexta-feira, 16 de abril de 2010

CAMINHO PARA O CORAÇÃO


«A vida hoje afastou-nos da natureza: as paisagens urbanas, com as suas florestas de betão, encerram a vida entre paredes eficazes, super-cómodas, é certo, mas o ar que respiramos por alguma razão se chama “ar condicionado”.

O que acredito é que precisamos de amplitude, de campos vastos a perder de vista, de viagens mais profundas que as da rotina. Precisamos perceber o silêncio das coisas, cúmplice do silêncio da nossa alma.

Precisamos da liberdade leve dessas horas inapreensíveis que passamos junto ao mar.

Há um poeta que diz: “Deus anda à beira d’água”. Não me admiro nada. A imensidão, o nome límpido, a alegria azul do mar são lugares onde Deus deixou o Seu toque.

Os caminhos marítimos para os outros continentes estão descobertos.

Falta, talvez, (re)descobrir o caminho marítimo para o porto secreto de cada coração.

José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 14 de abril de 2010

AMOR INFINITO

O filósofo Jean Guitton, na sua obra "As minhas razões de crer", coloca uma questão pertinente: "Que se passaria em mim se a minha fé diminuísse e se desvanecesse; se, como dizem as pessoas, «perdesse a fé»? (...)

Jean Guitton afirma que o famoso padre jesuíta Teilhard Chardin colocou a si mesmo esta questão, e respondeu, «que se deixasse de crer em Deus, no Deus cristão, e mesmo em Deus pura e simplesmente, continuaria a crer no Mundo.»

Quanto a mim, se eu «perdesse a fé», estaria em plena sintonia com Jean Guitton, pois «seria no amor ou, para ser mais exacto, no que existe de absoluto no amor, que eu creria.»

Faço minhas suas palavras: «Se eu tivesse vergado sob o peso do desespero e privado de toda a esperança encontraria, nesta loucura possível do amor, força suficiente para dar ainda alguns passos na estrada da dor. Dito de outra forma, a ideia que me daria forças face à perda de tudo, seria a ideia de que existe talvez, algures, um ser capaz de amar com um amor infinito. E então, mesmo que esse ser fosse único, parece-me que valeria a pena o mundo ser aceite, e que teria uma razão de ser, e que o homem teria uma razão para viver e também para morrer.(...)

Também me revejo nas palavras do padre Valensin citado na referida obra de J. Guitton:
«Se na hora da minha morte visse claramente que me espera o nada e que todas as crenças estão repletas de ilusão, não lamentaria absolutamente nada ter-me enganado toda a vida e ter crido na verdade do cristianismo, pois era o amor infinito que estaria errado por não existir, e não eu por ter acreditado nele.»

Por fim, para melhor exprimir tudo o que tentou dizer sobre esta questão, Jean Guitton recorre às palavras de São João Maria Vianney, que dizia: «Se na hora da morte me aperceber de que Deus não existe, terei sido bem enganado, mas não lamentarei o facto de ter passado a vida inteira a crer no amor.»

Jean Guitton, em "As minhas razões de crer"

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A AVENTURA DO AMOR DELICADO

Como Amor, tinha que respeitar e, de algum modo, depender da nossa liberdade e das nossas opções e escolhas.

Chama-nos, convida-nos, seduz-nos mas não violenta. Bate à porta (Ap 3, 20), mas aguarda, delicado, que Lhe demos licença para entrar.

Inspira-nos, ilumina-nos, mas deixa-nos livres para aderir, para responder.

O nosso Deus, o Pai do Céu, ensina-nos a divina delicadeza do amor.
Confia no homem, respeita a sua liberdade e sabe esperar.

Por delicadeza do amor, Deus não castiga, não fere, não magoa.

Está debruçado sobre nós, com amor, para nos abraçar na sua divina ternura, para nos repassar do seu carinho, para nos pegar no colo.

Cantemos a sinfonia do amor delicado do nosso Deus.

E aos poucos o nosso amor, o nosso coração, a nossa maneira de ser e agir será cada vez mais como a d`Ele, delicada, mansa, paciente, carinhosa, terna.

É que o cântico da sinfonia do amor delicado vai-nos transformando por um divino encanto.

E ficaremos mais semelhantes ao nosso Deus e nosso Pai.

Que bela aventura a do amor delicado...

Dário Pedroso s.j., em "Sinfonias do amor"

sexta-feira, 9 de abril de 2010

DEUS É O QUE SABEM AS CRIANÇAS


«Há algo no mundo que resiste ao mundo,
e este algo não se acha nas igrejas nem nas culturas nem no pensamento
que os homens têm de si próprios,
na crença mortífera que eles têm de si próprios
enquanto seres sérios, adultos, razoáveis,
e este algo não é uma coisa, mas Deus,
e Deus não pode caber em nada sem logo o abalar, o arrasar,
e Deus imenso não sabe caber senão nos estribilhos de infância,
no sangue perdido dos pobres ou na voz dos simples,
e todos estes abarcam Deus no côncavo das suas mãos abertas,
um pardal encharcado como pão pela chuva,
um pardal transido, chilreador,
um Deus pipilante que vem comer nas suas mãos nuas.»
Deus é o que sabem as crianças, não os adultos.
Um adulto não pode perder tempo a alimentar os pardais.»

Christian Bobin, em "Um Deus à Flor da Terra"

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O AMOR É PLENITUDE DA FALTA

Todo aquele que canta, arde na sua voz.
Todo aquele que ama, esgota-se no seu amor.
O canto é este abrasamento,
o amor é este cansaço.
Não vos vejo ardidos nem esgotados.
Esperais do amor que ele venha preencher-vos.
Mas o amor não preenche nada - nem o buraco que tendes na cabeça,
nem esse abismo que tendes no coração.
O amor é falta, muito mais do que plenitude.
O amor é plenitude da falta.
Concordo que se trata de algo incompreensível.
Mas o que é impossível de compreender é sumamente simples de viver.
Christian Bobin, em "Um Deus à Flor da Terra"

sexta-feira, 2 de abril de 2010

REVOLUÇÃO COPERNICIANA

«Amar como um cristão significa tentar seguir este caminho: que não amamos apenas aquele que nos é simpático, que nos agrada, com quem temos afinidades, e não apenas aquele que tem algo para nos oferecer ou do qual esperamos poder vir a obter benefícios.
Amar de forma cristã, ou seja, amar como Cristo nos explicou o amor, significa sermos bondosos para aquele que precisa da nossa bondade, mesmo que não simpatizemos com ele.
Significa aventurarmo-nos pelo caminho de Jesus Cristo e, desse modo, fazer uma revolução coperniciana, por assim dizer, na nossa vida.

A verdade é que, de certa forma, ainda vivemos todos antes de Copérnico. Não só porque, regendo-nos pelas aparências, pensamos que o Sol nasce e se põe, e roda em torno da Terra, mas também porque existe um sentido mais profundo. Porque todos nós acalentamos aquela ilusão natural que nos leva, a cada um, a colocar o nosso Eu no centro de tudo, em torno do qual o mundo e os homens têm de girar.
Todos nós temos de redescobrir constantemente que só construímos e vemos as outras coisas e as outras pessoas em relação ao nosso próprio Eu, e que, ao mesmo tempo, as consideramos satélites que giram em torno do centro do nosso Eu.

À luz do que já foi dito, tornar-se cristão é pois algo de muito simples e, no entanto, de muito cataclísmico. É precisamente isso, fazermos uma revolução coperniciana na nossa vida e deixarmos de nos encarar como o centro do Universo, em torno do qual os outros têm de girar, porque, em vez disso, começámos a aceitar verdadeiramente que somos uma das muitas criaturas de Deus que, em conjunto, giram em torno do centro que é Deus.»

Joseph Ratzinger, em "Do sentido de ser cristão"