«Acreditamos muitas vezes que não somos capazes da genialidade que outros manifestaram. E porque não seremos? Se temos um coração que quer ser bom e trazer felicidade ao mundo, de forma livre, desprendida e leve... nada nos pode impedir de sermos verdadeiramente artistas de novidades nunca vistas».
No livro "A cor dos dias",António Alçada Baptista partilha pequenas histórias, reflexões e crónicas. Memórias e peregrinações por épocas, lugares e culturas. Uma prosa deliciosa, cheia de humor, sabedoria, aventura e personagens cativantes.
Numa das suas crónicas, fala-nos de Alain Gerbault, «um rapaz de boas famílias a quem uma aguda consciência do erro civilizacional em que estamos metidos e a necessidade de viver uma grande liberdade fez sair daqui». «Em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, Alain é mobilizado e vai para a aviação. No meio da guerra, sente a paisagem de desolação e morte.» É nesse terrível contexto de guerra sangrenta e cruel que nasce o sonho de navegar livremente pelos mares do sul. Combina com dois companheiros a partida. Entretanto, os companheiros morrem na guerra. Depois da guerra, regressou à Faculdade mas, três meses depois, decide procurar o seu barco. Descobre-o em Inglaterra: um veleiro de 11 metros, sem motor. Em 25 de Abril de 1923, começou a sua volta ao mundo.
Certo dia, um jornalista peguntou-lhe: «O que faz o senhor quando está só?» Ele disse: «Escuto-me a viver e é um som maravilhoso.»
"Espiritualidade tem a ver com "prestar atenção" à vida, cultivar um coração sensível e a capacidade de se comover com o belo e o trágico." Márcio Cardoso
"Uma má religião torna-nos insensíveis, incapazes de vida corporal. O culto do verdadeiro Deus faz-nos corporeamente vivos, palpando, saboreando, cheirando, vendo e ouvindo.»
Faz hoje 7 anos que o blog começou a dar os primeiros passos. Ao longo destes 7 anos de existência, ele cresceu e tornou-se mais "sábio", mais maduro e, sobretudo, mais consciente do significado e do impacto que algumas das partilhas têm na vida das pessoas Agradeço a todos os que por aqui passam, comentam e compartilham o que vai sendo partilhado. Espero continuar a contar com a vossa "presença" neste cantinho. Para mim, é uma espécie de vocação, que procuro cumprir com fé, amor, esperança, entrega, dedicação e com muito coração. Que Deus me ajude e abençoe com o maravilhoso dom de saber tocar os vossos corações com palavras de sabedoria, esperança, fé e amor. Faz sentido relembrar uma das primeiras partilhas que fiz, precisamente no dia 18 de Março de 2007: "Ainda que os teus passos pareçam inúteis, vai abrindo caminhos, como a água que desce cantando da montanha. Outros te seguirão..." -Saint-Exupéry
«Não há nada escondido, está tudo aqui à nossa vista, a vida passada, a vida presente e a vida futura, como três menininhas a rir e a trocar confidências por um caminho campestre.»
«No hospital psiquiátrico onde eu trabalhava, perto de Besançon, um doente veio ter comigo no primeiro dia, de braços abertos, dizendo-me: "Reconheço-o, você é Deus." Desatei a rir e respondi negativamente pedindo desculpa por o desiludir. Riu por sua vez. Nos dias seguintes, quando nos cruzámos nos corredores, falávamos com o mesmo entusiasmo desse Deus de que ele tinha ouvido dizer tanto bem e que não encontrava em parte alguma. Eu gostava de ver este homem tal como os seus companheiros de infortúnio. Só me sentia perturbado nos minutos que precediam o meu dia de trabalho, quando ouvia os enfermeiros, na sua sala, falar de mulheres, carros e dinheiro. O vazio das conversas deles parecia-me mais insondável que a loucura dos doentes. Uma manhã, um médico chamou-me à parte, como quem ralha a uma criança sem a querer humilhar, e sugeriu-me que pusesse um pouco mais de distância entre mim e os doentes. Não é na verdade feito para este trabalho, disse-me ele a sorrir. Não estava errado, embora expulsar a loucura do coração de um homem seja mais um dom do que um trabalho. Fui-me embora pouco depois, não sem cumprimentar uma última vez aquele que se afadigava de manhã à noite a procurar Deus no primeiro que chegasse. Quem sabe, talvez um dia o tenha encontrado.»
"Quando um sentimento de inferioridade nos atormentar, podemos com surpresa fazer esta descoberta: o que nos abre à plenitude não são os dons prestigiosos e, menos ainda, as grandes facilidades, mas sim um amor vivo."
Irmão Roger, de Taizé, em "Viver em tudo a Paz do Coração"
Cada nota musical humana é única na sua melodia e beleza. Cada uma dá o seu contributo para a sinfonia da Vida.
«Os seres humanos formam como que uma grande orquestra, na qual todos contribuem para uma harmonia, e onde, por isso mesmo, todos são imprescindíveis, por mais pequeno que seja o contributo.» (Louis Evely)
«Só existe um inferno e talvez já o tenhas conhecido: é o lugar onde nada se espera, onde não se ama absolutamente ninguém e de ninguém se atende absolutamente nada, onde não se tem confiança em ninguém...»
«Ouvir é oferecer um ombro, onde o outro possa colocar a mão, para rapidamente se levantar. (...)
(...) «abre o ouvido do teu coração». Quer dizer: a escuta não se faz apenas com o ouvido exterior, mas com o sentido do coração. A escuta não é apenas a recolha do discurso verbal. Antes de tudo é atitude, é inclinar-se para o outro, é confiar-lhe a nossa atenção, é disponibilidade para acolher o dito e o não dito, o entusiasmo da história ou a sua dor mais ou menos ciciada, o sentimento de plenitude ou de frustração.»
José Tolentino Mendonça, em ""O Hipopótamo de Deus"
«(...) O mundo em que vivemos anda encantado pelo amor e sem esse encantamento não permaneceríamos nele nem um segundo. Somos atirados à nascença para um buraco onde, se não fosse a clarabóia do coração a dar para o céu, não poderíamos deixar de definhar. Nesta vida só o coração é real, então porque teimamos em sonhar com outras coisa? (...)
Deus passeava maravilhado nas palavras deles, como um camponês pelo seu campo. Se Deus não está nas nossas histórias de amor, então elas esmorecem, esboroam e desmoronam-se. Não é essencial que se fale de Deus. Nem sequer é indispensável que os que se amam conheçam o seu nome: basta que se tenham encontrado no céu, sobre a terra. (...)
Se já não respiramos no céu, então sufocamos no vazio: é tão simples como isto»
A solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.
Mas, não guardemos esse desejo profundo para o futuro. Acredito que ser feliz, verdadeiramente feliz, implica uma adesão completa, atenta, profunda e cuidadosa ao momento presente.
E não esperemos crescer, não alimentemos o desejo de ser grandes... Façamo-nos pequenos, humildes, porque a verdadeira grandeza consiste em se dar e é maior quem se dá mais! (e esse é, também, o segredo de ser escandalosamente feliz).
Faço minhas as palavras de Adélia Prado: "Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande...". Como escreveu Rubem Alves, acredito que podemos adoecer de ser grandes, por isso, por vezes, "para se curar a "adultite", é preciso tomar chá de infância, virar criança de novo..."
«A vida no Espírito não pode ser emoldurada. É como um campo aberto que convida a ampliar o espaço interior. Quanto mais escavamos no nosso interior - espaço infinito de investigação - tanto mais crescemos em sensibilidade no olhar sobre as coisas mais simples e mais rotineiras do nosso quotidiano. Do homem novo nasce um olhar novo.» Carlos Maria Antunes, em "Só o Pobre se faz Pão"
«Quando contemplamos a beleza de uma árvore nem sempre nos lembramos que o seu segredo está guardado nas suas raízes. Tem uma história que a fez erguer-se, que a tornou majestosa, mas se permaneceu, se cresceu, se resistiu às intempéries da vida, é porque as suas raízes se foram aprofundando. Cresceu em altura, mas também cresceu em profundidade. Há um mistério oculto que acompanha a sua vida, e todas as vidas. O sentido sagrado da existência, vivida no quotidiano, advém daqui. Quanto mais nos adentramos nas nossas raízes tanto mais somos dom, beleza, vida para a vida do mundo.» Carlos Maria Antunes, em "Só o Pobre se faz Pão"
Uma fé adulta e madura implica uma confiança de menino, um espírito de infância capaz de mover as montanhas do medo, das falsas seguranças, das ilusões de poder e de autossuficiência.
«Talvez preferíssemos que a vida fosse uma espécie de piscina para crianças onde a água nos dá pela cintura e nunca perderíamos o pé. Já terá sido assim um dia, mas a vida está feita para ser vivida na liberdade e na confiança e isto não se ganha sem um belo de um mergulho (com chapa ou sem chapa) e depois, a esbracejar ou a nadar, avançamos por águas desconhecidas. Se se aprende a nadar, nadando; também não é menos verdade que só se aprende a viver, vivendo.»
Li e gostei de uma bela e profunda «explicação» da bondade num livro de Abbé Pierre dada por um velho monge indiano.
«O que é? Oh! Reparai numa mãe. O seu filho está a sofrer? Neste caso, ela não tem mais descanso; durante o dia, durante a noite, ela vai, ela luta, ela quer fazer tudo, até morrer ela própria, se for necessário, feliz até por morrer para que ele não sofra mais. Uma verdadeira mãe, isso é a bondade. Então, para sermos bons, lutemos por chegarmos a ser cada um como se fôssemos a mãe de todos os seres humanos que vivem nesta aldeia, na aldeia inteira da terra inteira.»
Abbé Pierre, em "Queria ser marinheiro, missionário ou vagabundo - Diário íntimo inédito"
«Só um coração iluminado pode reparar nas muitas flores que se encontram nos caminhos que percorremos todos os dias, porque um coração iluminado sabe, por experiência própria, que nos alicerces da alegria está o que é frágil, o que não conta, o que de algum modo é marginal, o que não é da ordem do necessário, mas do gratuito. Quando vivemos radicados no coração, os nossos dias tão iguais podem transformar-se na mais bela oração: «Vela com todo o cuidado sobre o teu coração, porque dele jorram as fontes da vida.» (Pr 4,23)
«Os magos vindos do Oriente- gentes vindas de outros mundos, estranhos para a terra de Israel – deixaram-se conduzir, na noite, por uma estrela. Leram os sinais e ousaram seguir-lhe o rasto. Possivelmente, já todos nós, por mais frágil quesintamos que é a nossa fé, experimentámos um dia o brilho intenso de uma estrela. Um brilho vislumbrado no segredo do coração. Não basta o cintilar dessa luz, é necessário abrir-se ao caminho. Diante dos sinais, somos convocados para avançar e a não ter medo dos passos incertos. Podemos ficar presos na nostalgia, também de Deus, só porque não arriscámos dar um passo».
Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez. Para quem quiser ver a vida está cheia de nascimentos. Nascemos muitas vezes ao longo da infância quando os olhos se abrem em espanto e alegria. Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca. Nascemos na sementeira da vida adulta, entre invernos e primaveras maturando a misteriosa transformação que coloca na haste a flor e dentro da flor o perfume do fruto. Nascemos muitas vezes naquela idade onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se com laços interiores e caminhos adiados.
Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez. Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar. Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de algumas lágrimas. Nascemos na prece e no dom. Nascemos no perdão e no confronto. Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra. Nascemos na tarefa e na partilha. Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos. Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.
O que Jesus nos diz é: "Também tu podes nascer", pois nós nascemos, nascemos, nascemos.
Não recorras ao que já sabes do Natal, mas coloca-te à espera daquilo que de repente em teu coração se pode revelar Não reduzas o Natal ao enredo dos símbolos tornando-o um fragmento trémulo sem lugar no concreto da vida Não repitas apenas as frases que te sentes obrigado a dizer como se o Natal devesse preencher um vazio em vez de o desocultar
Não confundas os embrulhos com o dom nem a acumulação de coisas com a possibilidade da festa: o que recebes de graça só gratuitamente poderás partilhar
Cuida do exterior sabendo que ele é verdadeiro quando movido por uma alegria que vem de dentro
Uma só coisa merece ser buscada e celebrada, uma só: o despertar de uma Presença no fundo da alma
Por isso o Natal que é teu não te pertence Só a outro o poderás pedir.
«Não há nada mais Sagrado do que aquela espantosa Humanidade com que nós somos capazes de nos tocarmos uns aos outros... Não há nada mais Divino do que um Ser Humano a realizar o melhor das suas capacidades, depois de ter descoberto que somos o que amamos e levamos os traços fundamentais do nosso Rosto não na nossa cara mas nas palmas das nossas mãos e no tom das nossas palavras...»
«A humildade é viver a partir do que efetivamente somos e não das fantasias que continuamente criamos...
... O nosso Céu está na terra, na terra que somos, essa terra que tanto nos custa amar, tão só porque não corresponde às crenças que interiorizámos ao longo da vida. (...)Descer à terra, uma e outra vez, , acolher o contraditório, o sombrio, o que nos dói, sem desalento e com ternura. Sempre com ternura, porque a terra que somos é o nosso melhor tesouro. Quando abrimos assim o coração, caem os medos, a liberdade ganha outra amplitude, aprendemos a olhar os outros com compaixão e vamos experimentando que Deus vive e respira em nós». Carlos Maria Antunes, em "Só o Pobre se faz Pão"
«Se eu fosse morrer esta noite e me perguntassem o que me move mais neste mundo, eu talvez respondesse: o modo como Deus passa através dos nossos corações. Tudo é engolido pelo amor».
«As pessoas cuja a alma e a carne são feridos têm uma grandeza que jamais terão aquelas que vivem a sua vida em triunfo.»
Christian Bobin
"Nascemos para manifestar a glória do Universo que está dentro de nós. Não está apenas num de nós: está em todos nós. E conforme deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo. E conforme nos libertamos do nosso medo, a nossa presença, automaticamente, liberta os outros".
Como uma pequena lâmpada subsiste e marcha no vento, nestes dias, na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra, dificilmente nas calçadas, nos quartos, um país puro existe, homens escuros, uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro, uma terra existe nesta terra, nós somos, existimos
Como uma pequena gota às vezes no vazio, como alguém só no mar, caminhando esquecidos, na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados, subsiste uma palavra, uma sílaba de vento, uma pálida lâmpada ao fundo do corredor, uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos, uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho, uma carta que segue, um bom dia que chega, hoje, amanhã, ainda, a vida continua, no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia, nas mãos que se dão, nos punhos torturados, nas frontes que persistem, nós somos, existimos.
«Dançaremos eternamente a música do amor com o jeito que aprendermos agora(...)
Quem opta pelo amor entra na dinâmica da criatividade. O amor é um apelo a responder de modo sempre novo e adequado, a fim de facilitara realização e a felicidade dos outros.(...)»
«A minha vida, a vida de cada um de nós, de cada ser humano, é uma imensa e extraordinária melodia que temos a oportunidade de executar. Quando desafinamos, o nosso coração logo nos diz que alguma nota está fora de tom. Corrigimos e continuamos a executar a melodia que, certamente, é um contributo para a beleza da criação». Graças a: https://www.facebook.com/graode.mostarda
«(...) Seduz-nos tanto o futuro programado e garantido, como se tudo dependesse de nós. E vamos dizendo: «mais vale um pássaro na mão do que dois a voar». O que não nos damos conta é que, ao não aceitar a provisoriedade própria da vida, nos fechamos à possibilidade do novo, do revelado, do inesperado. Cercamos a vida nos limites dos próprios «celeiros» que vamos construindo.(...)
Viver implica um grande desapego face à própria vida. Só se vive intensamente quando se está consciente que a qualquer momento podemos partir. Não podemos esquecer a nossa condição de peregrinos; e estes não constroem «celeiros», levam apenas uma pequena mochila com o mais essencial para a viagem».