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segunda-feira, 21 de junho de 2010

DAR E RECEBER GRATUITAMENTE

«Estamos no mundo para aprender a amar, matriculando-nos na escola de Jesus.
Aprender a amar é extremamente simples: é aprender a dar gratuitamente e aprender a receber gratuitamente....

Dar gratuitamente não é para nós espontâneo. Temos uma grande tendência para dar para receber em troca. O dom de nós mesmos é sempre motivado, em maior ou menor grau, pela expectativa de alguma gratificação. O Evangelho convida-nos a pôr de parte essa limitação para praticar um amor tão puro e desinteressado como o do próprio Deus, um amor que seja livre precisamente por ser capaz de existir e de durar sem ser condicionado pela resposta nem pelo mérito daquele a quem se destina...

Também não temos facilidade em receber gratuitamente...
Receber gratuitamente pressupõe que tenhamos confiança naquele que dá, que tenhamos o coração aberto e disponível para receber...
Não podemos receber gratuitamente se não nos reconhecermos e nos aceitarmos como pobres; e o orgulho recusa-se terminantemente a fazê-lo. Somos capazes de reivindicar, de exigir, mas raramente de aceitar.

Pecamos por falta de gratuidade sempre que, nas nossas relações com Deus ou com os outros, o bem que tivermos realizado nos sirva de pretexto para reivindicar algum direito, para exigir reconhecimento ou qualquer gratificação por parte de outro. E também, mais subtilmente, sempre que tivermos receio, por causa desta ou daquela limitação ou falha pessoal, de não receber amor, como se o amor devesse pagar-se ou merecer-se.»

Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior"

segunda-feira, 29 de junho de 2009

LIBERDADE NO ESPÍRITO

"Liberdade é aceitar que, quando pertencemos a um grupo, raça, tribo, família, comunidade, religião, nenhum desses é perfeito, cada um tem seus limites e fragilidades.
Toda comunidade de humanos tem sua luz e sua escuridão.
Todos nós somos parte de algo maior do que nós.
Todos nós fluímos de uma fonte insondável e estamos todos caminhando para ela, levando connosco a luz da verdade e do amor.
Cada um de nós é chamado a estar em comunhão com a Fonte e Centro do universo.
Os infinitos anseios do nosso coração nos chamam para estar em comunhão com o infinito.
Nenhum de nós pode se satisfazer com o limitado e com o finito.
Cada um de nós deve ser livre para seguir o Espírito de Deus."

Jean Vanier

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A LIBERDADE NO AMOR

"A liberdade para a qual conduz a vida espiritual não é apenas a liberdade de todas as influências exteriores, não apenas a liberdade das paixões e do poder dos homens. Ela é, simultaneamente, uma liberdade da entrega. Não se trata portanto apenas de uma liberdade 'de', e, sim, também de uma liberdade 'para'.

O ser humano que se tornou livre de si mesmo, também está livre para entregar-se em favor de outros, como Jesus o afirmou a respeito de si mesmo: "Não existe amor maior do que quando alguém entrega sua vida pelos amigos' (Jo 15,13).

A liberdade das expectativas dos outros e a liberdade de girar em torno de si mesmo são as condições para o amor. Somente quem se tornou livre de si mesmo pode empenhar-se altruisticamente pelos outros.

Não misturará seu engajamento com motivações egoístas, como tantas vezes o fazemos. Ele se torna livre de pensar em sua própria reputação, em seu empenho, nos elogios e no reconhecimento pelos homens. Também não pensará que então se sentirá melhor do que as outras pessoas, que Deus o iria recompensar, etc.

Ele está livre para as pessoas que dele necessitam. Livre para oferecer-se em amor."

(Anselm Grun, em "Caminhos para a Liberdade")

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Aceitação de si mesmo (4ªparte)

«Temos tanta dificuldade em aceitar as nossas pobrezas que até parece que nos impedem de amar: como somos deficitários neste ou naquele ponto, não merecemos ser amados.
Viver sob o olhar de Deus, faz-nos perceber que essa ideia é falsa: o amor é gratuito, não se merece, as nossas pobrezas não impedem Deus de nos amar, pelo contrário! Somos libertados do terrível e desesperante dever de sermos alguém de bem para, finalmente, merecermos ser amados.

Porém, «autorizando-nos» a ser nós mesmos, a ser pobres pecadores, o olhar de Deus também nos permite todas as ousadias no caminho da santidade: temos o direito de aspirar aos cumes, de desejar a maior santidade, pois Ele quer e pode conceder-no-la.
Nunca ficamos encerrados na mediocridade, nem somos coagidos a uma triste resignação, mas temos sempre a esperança de progredir no amor.

Do pecador que eu sou, Deus é capaz de fazer um santo, a Sua graça pode realizar este milagre, posso ter uma fé ilimitada na força do Seu amor.

Aquele que cai todos os dias e que, apesar disso, se levanta dizendo: «Senhor, agradeço-Te, pois tenho a certeza de que farás de mim um santo!» agrada muito a Deus e, mais cedo ou mais tarde, receberá o que espera.

A atitude correcta diante de Deus é, pois, a seguinte: por um lado, uma aceitação muito serena, muito «descontraída», de nós mesmos e das nossas enfermidades, e por outro, em simultâneo, um imenso desejo de santidade, uma forte determinação de progredir, baseados numa confiança ilimitada na força da graça divina.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

sábado, 31 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (3 ªparte)

«Pelo olhar que poisa sobre nós, Deus convida-nos certamente à santidade, estimula-nos à conversão e ao progresso, mas sem nunca provocar a angústia de não a atingir, aquela «pressão» que às vezes experimentamos sob o olhar dos outros ou sob o julgamento que fazemos acerca de nós próprios: nunca nos portamos suficientemente «bem», nunca suficientemente isto ou aquilo, estamos permanentemente descontentes connosco mesmos, sentimo-nos sempre culpados por não correspondermos a tal expectativa ou a tal norma.

Não é por sermos pobres pecadores que havemos de nos sentir culpados por existir, como é o caso de muitas pessoas, muitas vezes inconscientemente.
O olhar que Deus poisa sobre nós autoriza-nos plenamente a sermos nós mesmos, com as nossas limitações e insuficiências, dá-nos o «direito ao erro» e livra-nos, diria eu, daquela espécie de coacção, daquela obrigação de que às vezes nos sentimos prisioneiros (obrigação que não provém da vontade de Deus, mas da nossa psicologia ferida) de sermos, afinal, diferentes daquilo que somos.

Sob o olhar de Deus, somos libertados da coacção de sermos «os melhores», de sermos perpétuos «vencedores»; podemos viver numa profunda descontracção, pois não temos que fazer esforços contínuos para nos mostrar bem dispostos nem que despender uma energia prodigiosa para parecermos aquilo que não somos: podemos ser, simplesmente, aquilo que somos, nem mais nem menos.
Não há melhor «relaxamento» do que repousar, como criancinhas, na ternura do Pai que nos ama como somos.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (2ª parte)

«O esforço de aceitação de si mesmo custa bastante mais do que parece. O orgulho, o medo de não ser amado, a convicção de que pouco valor temos, têm, em nós, raízes muito profundas. Basta constatar como aceitamos mal as quedas, os erros, os fracassos, até que ponto nos desmoralizam, culpabilizam ou preocupam.

Na verdade, julgo que não conseguimos chegar a aceitar-nos plenamente senão sob o olhar de Deus.

Para nos amarmos a nós mesmos, precisamos de uma mediação, do olhar de alguém que nos diga como o Senhor o fez pela boca de Isaías: «Eu tenho por ti um amor eterno». (Is 54, 8).

É um caso muito vulgar: uma jovem que se acha feia (como acontece, curiosamente, a muitas jovens, apesar de serem bonitas!), começa a pensar que talvez não seja tão horrível como isso no dia em que um jovem se enamora dela e poisa no seu rosto o terno olhar dos apaixonados!

Temos uma necessidade vital da mediação do olhar do outro para nos amarmos e nos aceitarmos a nós mesmos. Do olhar de um familiar, de um amigo, de um pai espiritual, mas acima de tudo, do olhar de Deus nosso Pai. Porque é o olhar mais puro, mais verdadeiro, mais terno, mais amante, mais cheio de esperança que existe no mundo.

E julgo que o maior presente que pode receber aquele que procura o rosto de Deus perseverando na oração, é dar conta, um belo dia, desse olhar divino poisado sobre si; sentir-se-à, então, tão ternamente amado, que receberá a graça de se aceitar profundamente a si mesmo.»
(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (1ª parte)

«O que há de mais importante na nossa vida, não é tanto o que podemos fazer, mas sim que demos lugar à acção de Deus.
O grande segredo de toda a fecundidade e de todo o crescimento espiritual, é aprender a deixar Deus agir: «Sem Mim, nada podeis fazer», disse Jesus. Porque o amor divino é infinitamente mais poderoso do que tudo quanto poderíamos fazer pela nossa própria sabedoria ou pelas próprias forças.

Porém, uma das mais necessárias condições para permitir que a graça de Deus actue na nossa existência, é dizer «sim» àquilo que somos e às situações em que nos encontramos.

Com efeito, Deus é «realista». A graça divina não opera no imaginário, no ideal, no sonho. Actua na realidade, no concreto da existência. Mesmo que a trama da minha vida de todos os dias não me pareça muito gloriosa, em mais parte nenhuma poderei deixar-me encontrar pela graça divina.

A pessoa que Deus ama com a ternura de um Pai, com quem se quer unir para a transformar pelo Seu Amor, não é a pessoa que eu gostaria de ser, ou que deveria ser. É a que eu sou, muito simplesmente.
Deus não ama pessoas «ideais», seres «virtuais». Ama os seres reais, concretos.

Frequentemente, aquilo que bloqueia a acção da graça na nossa vida, não são os nossos pecados, nem os nossos erros, mas a falta de aceitação da nossa fraqueza, todas as rejeições mais ou menos conscientes do que somos ou da nossa situação concreta.

Para «libertar» a graça na nossa vida, e para possibilitar mudanças profundas e espectaculares, bastaria dizer simplesmente «sim» (um sim inspirado pela confiança em Deus) a aspectos da nossa existência face aos quais nos mantemos numa posição de recusa interior.
Não admito ter esta pobreza, aquela fragilidade, ter ficado marcado por tal acontecimento passado, ter cometido um determinado pecado, e assim por diante. E sem dar conta, invalido a acção do Espírito Santo.

Este não tem pleno domínio sobre a minha realidade senão na medida em que eu próprio a aceito: o Espírito Santo nunca age sem a colaboração da minha liberdade. Se não me aceitar tal como sou, não permito ao Espírito Santo que me faça ser melhor!"

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

BASTA A CADA DIA...


Ao peso do dia presente, temos o mau hábito de juntar o do passado, e ainda mais o do futuro.

O remédio para essa atitude é meditar (e pedir a Deus a graça de o pôr em prática) o ensinamento do Evangelho:
«Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?(...)
Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta.
Não valeis vós muito mais do que elas? (...)

(...) não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? Que havemos de beber? Com que nos havemos de vestir?(...) Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.» (Mateus 6, 25-34)

Não se trata de sermos imprevidentes e irresponsáveis, temos obrigação de fazer projectos e de pensar no amanhã. Mas temos de o fazer sem inquietação, sem aquela preocupação que consome o coração e que não resolve nada, impedindo-nos muitas vezes de estar disponíveis para o que temos que fazer no momento presente.
É preciso «evitar transferir para o dia presente o peso e as angústias que o futuro nos inspira» (Etty Hillesum).
O coração não pode estar simultaneamente absorvido pela preocupação com o dia seguinte e acolher a graça do momento presente...

Quando Jesus nos pede que não tenhamos nenhuma preocupação, fá-lo cheio de compaixão e de ternura, principalmente para salvaguardar a qualidade das nossas relações: um coração repleto de inquietações e de preocupações, não está disponível para os outros e não pode fazer de cada momento um verdadeiro momento de comunhão, daqueles que alegram o coração.» (Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Para ser realmente livre


"Nada ter, tudo possuir", assim se pode descrever a postura dos sábios de todas as religiões, de todos os tempos. Apenas quem não prende seu coração ás coisas criadas, quem sabe se soltar onde os outros se prendem, é realmente livre" (Anselm Grün, em "O Pequeno livro da verdadeira felicidade")

domingo, 25 de maio de 2008

Aprender a ser livre


«Ao crescer, o homem descobre paulatinamente que tem um espaço interior, no qual está, de algum modo, à disposição de si mesmo. Ele percebe que, essencialmente, não depende nem dos pais, nem dos professores do colégio; não depende dos meios de comunicação, nem tão pouco da opinião pública. Experimenta um espaço no qual está a sós consigo mesmo, onde é livre. Descobre seu mundo interior, sua própria intimidade.
O íntimo é o que só a pessoa conhece: é o «santuário» do humano. Posso entrar dentro de mim, e aí ninguém pode me aprisionar.
Quando «estou comigo», facilmente percebo quão desnecessário e inclusive ridículo é o buscar a confirmação e o aplauso dos demais. O valor de uma pessoa não depende dos outros, não depende dos aplausos ou gestos de confirmação que possa receber ou não.
Somos mais do que vivemos no exterior. Há um espaço em nós ao qual os outros não têm acesso. É nossa «pátria interior», um espaço de silêncio e quietude. Enquanto não o descubramos, viveremos de um modo superficial e confuso, buscando consolo onde não há - no mundo exterior.
O homem é livre, quando mora na própria casa.
Infelizmente, há muitas pessoas que não «estão consigo», mas sempre com os outros. Não sabem descansar em si mesmas. » (Jutta Burggraf)

terça-feira, 13 de maio de 2008

Livre no amor


"Não se é livre senão para amar,
porque em tudo o que está fora do amor existe o poder de dominar
que oprime e impede o homem de ser plenamente homem."

(François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver)

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O pássaro livre e o pássaro domesticado



O pássaro domesticado vivia na gaiola e, o pássaro livre, na floresta.

Mas o destino deles era se encontrarem, e a hora finalmente havia chegado.

O pássaro livre cantou: - Meu amor voemos para o bosque.

O pássaro preso sussurrou: - Vem cá, e vivamos juntos nesta gaiola.

O pássaro livre respondeu: - Entre as grades não há espaço para abrir as asas.

- Ah, lamentou o pássaro engaiolado - no céu não saberia onde pousar.

O pássaro livre cantou: - Amor querido, canta as canções do campo.

O pássaro preso respondeu: - Fica junto comigo, e eu te ensinarei as palavras dos sábios.

O pássaro da floresta retrucou: - Não, não! As canções não podem ser ensinadas!

E o pássaro engaiolado gemeu: - Ai de mim! Eu não conheço as canções do campo.

Entre eles o amor era sem limites, mas eles não podiam voar asa com asa.

Olhavam-se através das grades da gaiola, mas em vão desejavam se conhecer.
Batiam as asas ansiosamente, e cantavam: - Chega mais perto, meu amor!

Mas o pássaro livre dizia: - Não posso! Tenho medo da tua gaiola com portas fechadas.

E o pássaro engaiolado sussurrava: - Ai de mim! As minhas asas ficaram fracas e morreram. - (Rabindranath Tagore)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Liberdade


«Liberdade é uma condição essencial para ser feliz. É muito mais que fazer o que lhe apetecer! Isso é livre-arbítrio, não Liberdade… Liberdade é querer fazer o que considero melhor fazer, ainda que custe, ainda que, superficialmente, não me apeteça. Ser livre implica ser muito forte, porque é um combate que se trava consigo próprio. Ser livre é ser protagonista nas minhas opções, decisões e acções, não porque só se faz o que apetece, mas porque se está radicalmente comprometido com o que se faz.»

Rui santiago, Jovens redentoristas

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Amor e Liberdade

Não se pode ter liberdade e coerção ao mesmo tempo. Ninguém pode sujeitar o ser que ama com o intuito de conquistar os seus afetos. O ser amado precisa sentir-se livre para mudar, rejeitar ou sumir; e eu que lhe ofereço a minha afectividade, sofrerei pelas suas escolhas. Também, quanto maior o amor, maior a possibilidade de dor. Quem ama com amor infinito corre o risco de sofrer uma dor infinita.

Juan Luis Segundo afirmou:"... significa também que a pessoa amada, permanece livre para mudar, para rejeitar-me e infringir-me, assim, a maior dor que posso experimentar. De facto, amar é oferecer-se desprotegido (segundo frase de Freud) à dor".

Que quer, então, verdadeiramente, a pessoa que acredita poder exigir de Deus uma criação onde o amor seja infalivelmente feliz? Pretende um amor sem dom de si, isto é, um não amor, um egoísmo onde a pessoa a quem digo amar se converte em instrumento determinado e cego, sem capacidade de expressar livremente seu ser.
O amor infalível não é amor. A dor é a outra face do dom de si mesmo, sem reservas, gratuito, como é todo o amor verdadeiro".
Assim, o Deus que não se vulnerabilizou à possibilidade de ser rejeitado, não ama. E o Deus incapaz de amar não é o Deus bíblico.


domingo, 25 de março de 2007

Ensina-me



" Ensina-me a empreender um novo início, a destruir os esquemas de ontem, a deixar de dizer «não posso» quando posso, «não sou» quando sou, «estou bloqueado» quando estou totalmente livre." - Rabbi Nachman Di Braslav

domingo, 18 de março de 2007

Liberdade


"Não nos tornamos livres por nos negarmos a aceitar algo superior a nós, mas por aceitarmos aquilo que está realmente por cima de nós."- Goethe

o elefante acorrentado


Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais… Mas, depois da sua actuação e pouco antes de voltar para os bastidores o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas.No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E, embora a torrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um animal capaz de arrancar uma arvore pela raiz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.O mistério continua a parecer-me evidente.O que é que o prende, então?Porque é que não foge?Quando eu tinha cinco ou seis anos, ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado.Fiz, então, a pergunta óbvia:-Se é amestrado, porque é que o acorrentam?Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo, esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta.Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio que encontrara a resposta:O elefante do circo não foge porque esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele.Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e no outro, e no outro... Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino.Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não é capaz de o fazer.Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer.E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação.Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força...

Transcrito do livro "Deixa-me que te conte" de Jorge Bucay