Ser bom, para alguns, em nada difere de ser burro.
- Que diferença vai de bom para burro?
É um olhar.
É verdade que a força e o poder fazem parte da nossa auto-imagem e da imagem que procuramos vender. E tantas energias gastamos nas lides do poder e da imagem. Tantas guerrilhas e artifícios até ao dia da imobilidade, como os anjos de pedra dos frisos do barroco.
Tenho diante de mim um trecho do Talmude, esse conjunto de leis e tradições religiosas do judaísmo pós-bíblico... Não é fácil interpretá-lo... Creio, no entanto, que este trecho dispensa interpretações eruditas:
«O ferro é forte, mas o fogo funde-o.
O fogo é forte, mas a água apaga-o.
A água é forte, mas as nuvens fazem-na cair.
As nuvens são fortes, mas o vento arrasta-as.
O vento é forte, mas o homem controla-o.
O medo é forte, mas o sono fá-lo esquecer.
O sono é forte, mas a morte supera-o.
A morte é fortíssima, mas a bondade sobrevive-lhe.»
- Que diferença vai de bom para burro?
Embora seja uma perspectiva, diria que é grande a diferença.
Primeiro, porque «o perfume fica sempre na mão de quem oferece a rosa».
Depois, porque «a morte é fortíssima, mas a bondade sobrevive-lhe».
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
" Porque melhor é a sabedoria do que os rubis; e, de tudo o que se deseja, nada se pode comparar com ela." - Provérbios 8.11
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
USAR AS COISAS E AMAR AS PESSOAS
"Haverá outro meio de uma pessoa tirar satisfação de outra que não o amor ou a dádiva?
Não confundas o amor com o delírio da posse.
Contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer.
O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse, sim, faz sofrer.
Haverá outro meio de uma pessoa tirar satisfação de outra que não o amor ou a dádiva?
Talvez devêssemos lavrar e semear o coração com esta lei, tão certa como a da gravidade:
Aprender
a usar as coisas
e a amar as pessoas;
não a amar as coisas
e a usar as pessoas."
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
Não confundas o amor com o delírio da posse.
Contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer.
O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse, sim, faz sofrer.
Haverá outro meio de uma pessoa tirar satisfação de outra que não o amor ou a dádiva?
Talvez devêssemos lavrar e semear o coração com esta lei, tão certa como a da gravidade:
Aprender
a usar as coisas
e a amar as pessoas;
não a amar as coisas
e a usar as pessoas."
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
QUE TEMOS FEITO COM AS NOSSAS VIDAS?
«Que temos feito com as nossas vidas?
Quantos de nós não traímos o que em verdade poderíamos ter sido? (...)
Sabemos que é pelo sucesso que nos medem e é pelo sucesso que nos medimos a nós próprios. Vivemos aterrorizados pela possibilidade de fracassar. Mas nem o medo podemos admitir, e dominar tornou-se a técnica para o afastar(...)
Assim nunca saberemos o que podemos suportar sem sermos derrotados.
A derrota é o pesadelo que nos ensombra os dias e as noites.
Continuamos a jogar os jogos que nos desgastam e, no fundo do coração, a acalentar o sonho do que poderíamos ter sido, transparentes e autênticos, se alguém nos tivesse querido tal qual éramos.
Mas não. E traímos aquilo que éramos, aquilo que íamos ser, aquilo que deveríamos ter sido, só para que nos quisessem, para que nos admirassem, para que nos amassem.
E perdemos a autonomia, esse estado de graça em que nos sentimos pacificados com os nossos sentimentos e necessidades, sem termos que provar nada a ninguém.
Que temos feito com as nossas vidas?
Temo-nos traído ou sentimo-nos fiéis a nós próprios? (Julgo que é mais do que uma mera pergunta retórica.)
Bom é saber que podemos recomeçar a qualquer momento.
Bom é saber que Aquele que incondicionalmente nos ama, todas as manhãs nos entrega em branco um dia, garantindo-nos que ainda temos hipóteses, que nada do que possamos ter feito nos condena irremediavelmente, que o exame se repete todos os dias, que há sempre um segunda chamada, que se chumbámos ontem, hoje podemos voltar a tentar.
Bom é saber desse Amor e rendermo-nos a ele.»
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
Quantos de nós não traímos o que em verdade poderíamos ter sido? (...)
Sabemos que é pelo sucesso que nos medem e é pelo sucesso que nos medimos a nós próprios. Vivemos aterrorizados pela possibilidade de fracassar. Mas nem o medo podemos admitir, e dominar tornou-se a técnica para o afastar(...)
Assim nunca saberemos o que podemos suportar sem sermos derrotados.
A derrota é o pesadelo que nos ensombra os dias e as noites.
Continuamos a jogar os jogos que nos desgastam e, no fundo do coração, a acalentar o sonho do que poderíamos ter sido, transparentes e autênticos, se alguém nos tivesse querido tal qual éramos.
Mas não. E traímos aquilo que éramos, aquilo que íamos ser, aquilo que deveríamos ter sido, só para que nos quisessem, para que nos admirassem, para que nos amassem.
E perdemos a autonomia, esse estado de graça em que nos sentimos pacificados com os nossos sentimentos e necessidades, sem termos que provar nada a ninguém.
Que temos feito com as nossas vidas?
Temo-nos traído ou sentimo-nos fiéis a nós próprios? (Julgo que é mais do que uma mera pergunta retórica.)
Bom é saber que podemos recomeçar a qualquer momento.
Bom é saber que Aquele que incondicionalmente nos ama, todas as manhãs nos entrega em branco um dia, garantindo-nos que ainda temos hipóteses, que nada do que possamos ter feito nos condena irremediavelmente, que o exame se repete todos os dias, que há sempre um segunda chamada, que se chumbámos ontem, hoje podemos voltar a tentar.
Bom é saber desse Amor e rendermo-nos a ele.»
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
segunda-feira, 14 de junho de 2010
POST SCRIPTUM
"Que a tua vida
seja natural como o respirar,
que o teu peso para os outros
seja apenas o das pétalas,
que a tua gratidão seja ilimitada
e as tuas palavras favos de ternura.
Que todos os que se aproximem de ti
tenham vontade de cantar
e de encher de luz e canções
as suas noites,
de despir os lutos do coração
e compor as jarras da alegria.
Procura a lucidez
que afasta os medos,
e a humildade para permaneceres
profundo em ti,
livre na vida,
eterno no momento,
fiel ao que permanece."
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
seja natural como o respirar,
que o teu peso para os outros
seja apenas o das pétalas,
que a tua gratidão seja ilimitada
e as tuas palavras favos de ternura.
Que todos os que se aproximem de ti
tenham vontade de cantar
e de encher de luz e canções
as suas noites,
de despir os lutos do coração
e compor as jarras da alegria.
Procura a lucidez
que afasta os medos,
e a humildade para permaneceres
profundo em ti,
livre na vida,
eterno no momento,
fiel ao que permanece."
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
ALEGRIA
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
CASA RECÉM-CONSTRUÍDA
«O amor é sempre uma casa recém-construída. Um rendilhado de filigrana, uma flor de estufa. Uma fenda nessa construção tende a crescer e pelas frinchas da indiferença ou dessas discussões e egoísmos idiotas, pode vir abaixo a construção duma vida...
... Deus pode conceder-nos dádivas, mas o mérito de as receber e conservar tem de ser nosso e , muitas vezes, quanto mais felizes somos menos atenção prestamos à nossa felicidade."
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
... Deus pode conceder-nos dádivas, mas o mérito de as receber e conservar tem de ser nosso e , muitas vezes, quanto mais felizes somos menos atenção prestamos à nossa felicidade."
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
QUEM NOS TRARÁ A PRIMAVERA?

«Por vezes, como disse Goethe, o nosso destino parece uma árvore de fruto no Inverno. Ninguém diria que aqueles ramos hão-de ficar verdes e florir de novo, mas temos confiança, nós sabemo-lo.»
Depois de cada Inverno, nunca sabemos os ramos que em nós voltarão a florir, nem quais teremos perdido para sempre.
Nunca sabemos a duração de cada Inverno em nós: no coração de alguns parece durar eternamente.
Perguntamos: quem nos trará a Primavera? Quem nos devolverá a inocência dos pássaros e a frescura das manhãs?
É preciso gritar e deixar que a violência do grito rebente no coração, como as trovoadas rebentam na terra as águas de Maio.
É preciso essa dor de nos deixarmos abrir, não ceder à tentação da fuga.
Fechados, tornamo-nos estranhos a nós próprios, enlouquecidos e sós, perdemo-nos profundamente, morremos devagar.
É pelos outros que nos conhecemos e encontramos.
Construímo-nos em relação, num diálogo marcado pelo amor, pela dádiva, pela tarefa de realizar um projecto de vida em que o outro se constitua como referencial absoluto.
O amor é um acto de fé. Torna-nos vulneráveis e expostos, abre fendas por onde podem penetrar o sofrimento e a dor, ou o calor que traga de novo a Primavera ao nosso destino para que se cumpra, para que de novo a árvore rebente e floresça, para que cada fruto estale e o sumo inunde a boca que o tocar.»
Henrique Manuel, em "Mas há Sinais"
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
QUE FAREMOS COM O NOSSO CORAÇÃO?

«Os corações das crianças são orgãos delicados. Um princípio cruel neste mundo pode deformá-los e imprimir-lhes formas estranhas.
O coração de uma criança pode encolher de modo a ficar duro e rugoso como o caroço de um pêssego. Ou pode crescer e dilatar-se até se transformar em algo de insuportável para trazer dentro do corpo, facilmente irritado e magoado pelas coisas mais insignificantes.»
No peito de cada um de nós há um coração moldado pela vida. Há os que o guardam palpitante como um pássaro e os que o esqueceram por terem deixado de o sentir. Entre os chamados «corações de pedra» e «corações de manteiga», há tantos e tantos corações diferentes que de formas diferentes vão moldando outros!
Há corações incendiados e corações de gelo, corações de leão e corações de pássaro, corações de ouro e corações de chumbo. Há mesmo bons e maus corações.
Por vezes ouvimos dizer de alguém que «não tem coração». É preciso nunca acreditar. Pode estar tão apertado como um buraco negro, mas está lá. Talvez precise apenas de ser alimentado.
Há corações que transportam privações de séculos e parecem nunca atingir a saciedade e há os que transbordam como fontes inesgotáveis.
Que coração trazemos em nós? Que coração palpita dentro de quem cruza o nosso caminho em cada dia? Como atingirei o coração do meu irmão? E se numa qualquer guerra da vida alguém tiver perdido o seu, poderemos ajudar a procurar, a tentar encontrá-lo? E se o encontrarmos, saberemos transportá-lo nas mãos, sem o ferir, e pousá-lo no peito a que pertence?
Que faremos com o nosso coração?»
Henrique Manuel, em "Mas há Sinais"
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
POST SCRIPTUM
"Que a tua vida
seja natural como o respirar,
que o teu peso para os outros
seja apenas o das pétalas,
que a tua gratidão seja ilimitada
e as tuas palavras favos de ternura.
Que todos os que se aproximem de ti
tenham vontade de cantar
e de encher de luz e canções
as suas noites,
de despir os lutos do coração
e compor as jarras da alegria.
Procura a lucidez
que afasta os medos,
e a humildade para permaneceres
profundo em ti,
livre na vida,
eterno no momento,
fiel ao que permanece."
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
seja natural como o respirar,
que o teu peso para os outros
seja apenas o das pétalas,
que a tua gratidão seja ilimitada
e as tuas palavras favos de ternura.
Que todos os que se aproximem de ti
tenham vontade de cantar
e de encher de luz e canções
as suas noites,
de despir os lutos do coração
e compor as jarras da alegria.
Procura a lucidez
que afasta os medos,
e a humildade para permaneceres
profundo em ti,
livre na vida,
eterno no momento,
fiel ao que permanece."
Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."
quarta-feira, 8 de abril de 2009
À PROCURA DA PERFEIÇÃO (2ª parte)
«No tempo em que vivemos, o sucesso imperioso tornou-se a nossa cruz, passou a determinar o nosso enconto com os outros. Junto com uma insaciável necessidade de louvores e confirmação da nossa superioridade em relação ao comum dos mortais, carregamos o medo aflitivo de falhar.
Que importam os nossos sentimentos? Que importa a nossa capacidade de rir, de brincar, de termos um gesto de ternura, de nos emocionarmos? Que importa a nossa vontade de afagar um animal ou de cuidar de uma planta? Que importa a satisfação que nos dá apanhar amoras num silvado ou uma pena que voou ao nosso encontro?
Nada disso conta para a nossa avaliação.
Só pelo sucesso somos medidos, ainda que muitas vezes ele assente no esforço ou, pior ainda, no fracasso alheio.
E se voltássemos ao princípio de nós? E se nos atrevêssemos a ser o que verdadeiramente somos, acreditando que pode haver quem nos ame mesmo assim?
Se Deus nos quisesse perfeitos, tinha-nos feito perfeitos, mas preferiu criar seres em movimento, à procura da perfeição. Da nossa e da alheia.»
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
Que importam os nossos sentimentos? Que importa a nossa capacidade de rir, de brincar, de termos um gesto de ternura, de nos emocionarmos? Que importa a nossa vontade de afagar um animal ou de cuidar de uma planta? Que importa a satisfação que nos dá apanhar amoras num silvado ou uma pena que voou ao nosso encontro?
Nada disso conta para a nossa avaliação.
Só pelo sucesso somos medidos, ainda que muitas vezes ele assente no esforço ou, pior ainda, no fracasso alheio.
E se voltássemos ao princípio de nós? E se nos atrevêssemos a ser o que verdadeiramente somos, acreditando que pode haver quem nos ame mesmo assim?
Se Deus nos quisesse perfeitos, tinha-nos feito perfeitos, mas preferiu criar seres em movimento, à procura da perfeição. Da nossa e da alheia.»
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
segunda-feira, 6 de abril de 2009
À PROCURA DA PERFEIÇÃO (1ª parte)
«O psiquiatra Amo Gruen afirma que «o vício do poder destrói o coração do homem».
O que esperamos, não só do espelho onde em cada manhã nos olhamos mas de todos os olhos que nos olham, é a confirmação dessa imagem de seres poderosos que desejamos ostentar.
Odiamos em nós o desamparo, a dependência, as limitações, o medo, qualquer sinal de fraqueza, e se alguém ousa pôr a realidade a descoberto, enfurecemo-nos e descarregamos a nossa raiva. Queremos dizer a nós mesmos que não, que não conhecemos a insuficiência, o sofrimento, a dor, o medo de falhar, o medo da rejeição, o medo de que não gostem de nós.
Conhecemos a alegria que nos invade quando vencemos uma competição ou quando nos prestam homenagens. No entanto, esquecemo-nos de procurar a alegria no crescimento de outra pessoa, na partilha de um sofrimento ou de um momento de tristeza, na realização de qualquer coisa que torne melhor o espaço e o tempo em que nos foi dado viver.»
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
O que esperamos, não só do espelho onde em cada manhã nos olhamos mas de todos os olhos que nos olham, é a confirmação dessa imagem de seres poderosos que desejamos ostentar.
Odiamos em nós o desamparo, a dependência, as limitações, o medo, qualquer sinal de fraqueza, e se alguém ousa pôr a realidade a descoberto, enfurecemo-nos e descarregamos a nossa raiva. Queremos dizer a nós mesmos que não, que não conhecemos a insuficiência, o sofrimento, a dor, o medo de falhar, o medo da rejeição, o medo de que não gostem de nós.
Conhecemos a alegria que nos invade quando vencemos uma competição ou quando nos prestam homenagens. No entanto, esquecemo-nos de procurar a alegria no crescimento de outra pessoa, na partilha de um sofrimento ou de um momento de tristeza, na realização de qualquer coisa que torne melhor o espaço e o tempo em que nos foi dado viver.»
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
quarta-feira, 1 de abril de 2009
CRIANÇAS E PEDRAS
Sobre Deus, uma história:
Era uma vez uma criança. Uma criança que tentava levantar uma pedra. Porém, e apesar do seu esforço, nem sequer a conseguia mexer.
O pai, que a observava já há algum tempo, disse-lhe finalmente:
- Ouve, tens a certeza de que estás a usar toda a tua força?
- Sim, tenho - respondeu o filho.
- Não estás não. É que ainda não me pediste para te ajudar - disse-lhe o pai.
Que é como quem diz: «Façamos o pouco que nos toca a nós realizar, mas façamo-lo. Depois entreguemos o resto a Deus, que nos ama com amor infinito."
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
Era uma vez uma criança. Uma criança que tentava levantar uma pedra. Porém, e apesar do seu esforço, nem sequer a conseguia mexer.
O pai, que a observava já há algum tempo, disse-lhe finalmente:
- Ouve, tens a certeza de que estás a usar toda a tua força?
- Sim, tenho - respondeu o filho.
- Não estás não. É que ainda não me pediste para te ajudar - disse-lhe o pai.
Que é como quem diz: «Façamos o pouco que nos toca a nós realizar, mas façamo-lo. Depois entreguemos o resto a Deus, que nos ama com amor infinito."
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
terça-feira, 4 de novembro de 2008
USAR AS COISAS
"Haverá outro meio de uma pessoa tirar satisfação de outra que não o amor ou a dádiva?
Não confundas o amor com o delírio da posse.
Contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer.
O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse, sim, faz sofrer.
Haverá outro meio de uma pessoa tirar satisfação de outra que não o amor ou a dádiva?
Talvez devêssemos lavrar e semear o coração com esta lei, tão certa como a da gravidade:
Aprender
a usar as coisas
e a amar as pessoas;
não a amar as coisas
e a usar as pessoas."
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
Não confundas o amor com o delírio da posse.
Contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer.
O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse, sim, faz sofrer.
Haverá outro meio de uma pessoa tirar satisfação de outra que não o amor ou a dádiva?
Talvez devêssemos lavrar e semear o coração com esta lei, tão certa como a da gravidade:
Aprender
a usar as coisas
e a amar as pessoas;
não a amar as coisas
e a usar as pessoas."
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
QUE TEMOS FEITO COM AS NOSSAS VIDAS?

«Que temos feito com as nossas vidas?
Quantos de nós não traímos o que em verdade poderíamos ter sido? (...)
Sabemos que é pelo sucesso que nos medem e é pelo sucesso que nos medimos a nós próprios. Vivemos aterrorizados pela possibilidade de fracassar. Mas nem o medo podemos admitir, e dominar tornou-se a técnica para o afastar(...)
Assim nunca saberemos o que podemos suportar sem sermos derrotados. A derrota é o pesadelo que nos ensombra os dias e as noites.
Continuamos a jogar os jogos que nos desgastam e, no fundo do coração, a acalentar o sonho do que poderíamos ter sido, transparentes e autênticos, se alguém nos tivesse querido tal qual éramos.
Mas não. E traímos aquilo que éramos, aquilo que íamos ser, aquilo que deveríamos ter sido, só para que nos quisessem, para que nos admirassem, para que nos amassem.
E perdemos a autonomia, esse estado de graça em que nos sentimos pacificados com os nossos sentimentos e necessidades, sem termos que provar nada a ninguém.
Que temos feito com as nossas vidas?
Temo-nos traído ou sentimo-nos fiéis a nós próprios? (Julgo que é mais do que uma mera pergunta retórica.)
Bom é saber que podemos recomeçar a qualquer momento.
Bom é saber que Aquele que incondicionalmente nos ama, todas as manhãs nos entrega em branco um dia, garantindo-nos que ainda temos hipóteses, que nada do que possamos ter feito nos condena irremediavelmente, que o exame se repete todos os dias, que há sempre um segunda chamada, que se chumbámos ontem, hoje podemos voltar a tentar.
Bom é saber desse Amor e rendermo-nos a ele.»
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
terça-feira, 28 de outubro de 2008
POR QUE TE TRAÍSTE?
«Ouve, por que te traíste a ti próprio?Afirmas com lamentos que tudo de mal te acontece e não reparas que, afinal, te enganas, julgando-te impotente para modificar a tua vida.
As bênçãos transbordam da tua mão, mas tu, criança mimada pela abundância, não lhes dás atenção.
Pergunta-te e responde se os obstáculos que produziram os teus fracassos não existem apenas na tua mente.
O meu orgulho por ti não conhece limites.
És a minha criação suprema, o maior milagre, em ti pus todos os segredos, até o de mover montanhas e desbravar o impossível.
Descobre-o, confia e rasga um dia novo, uma clareira mais perfeita na tua existência.
O que fizeste com essa força tremenda?
O que passou, passou. Pouco importa o que fizeste, importa o que és.
Conta as tuas bênçãos, os teus dons.
Proclama a tua singularidade, despe-te de máscaras e recomeça, sem angústia e sem pressa.
Concentra-te no poder que tens para escolher e procura pôr amor no que fazes. Amor por ti, pelos outros, amor por mim, teu Deus, que te criou. Não voltes a diminuir-te; a menos que seja para servir livremente.
Não te conformes com as migalhas da vida, nem com a metade de fruto nenhum.
Enxuga as tuas lágrimas, beija as cicatrizes, estende a tua mão, sente o calor da minha e vive este dia com toda a força que te dou.
Não o ouvimos já, e de tantas formas? Senão como o saberíamos?»
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Aí fora

«Ando à procura de Deus», respondeu a criança quando o pai lhe perguntou porque corria ela para a Igreja.
- Mas Deus não está em todo o lado? - insiste o pai.
- Sim, Deus está em todo o lado.
- E não é sempre o mesmo onde quer que esteja?
- É, responde a criança, Deus é sempre o mesmo. Eu é que não sou o mesmo em todos os sítios...
Conta-se também que havia uma senhora muito devota. Deus ocupava o lugar cimeiro da sua vida. Todas as manhãs, mal o dia começava, ia à igreja rezar. Pelo caminho havia sempre quem precisasse da sua ajuda, mas ia tão concentrada nas suas devoções que não os via.
Um dia, depois de ter percorrido o caminho habitual em direcção à igreja, e no momento em que o culto ia começar, empurrou a porta, mas ela não se abriu. Insistiu. Em vão. A porta estava fechada à chave!
Aflita por, pela primeira vez na sua vida, não poder assistir ao culto e não sabendo já que fazer, olhou para o céu. E foi então nesse movimento do olhar que, precisamente ali, frente aos seus olhos, viu um papel colado na porta da igreja com este pequeno recado manuscrito: Estou aí fora.»
(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
NÃO É FÉ
Se a nossa fé
não nos fizer acreditar que o dia de hoje pode ser melhor do que o de ontem;
se não nos arrancar da mesquinhez egoísta que nos esmaga de solidão e morte;
se não nos puxar os braços para os outros, na gratuidade natural de quem respira;
se não fizer com que a poesia desça ao nosso peito e as crianças e velhos bebam luz dos nossos olhos;
se formos secos de ternura e apenas e só prudentes como as serpentes;
se não passarmos de atarefados medricas a fugir, dias fora, da própria sombra;
se faz tremer a verdade e não rói os alicerces à mentira;
se não estrangula o desespero e incendeia a alegria;
se não nos fizer pôr na vida a beleza das palavras que engendramos,
então não é fé, pelo menos não é cristã.
Agarra-nos pelos ombros e diz-nos outra vez: «se a tua fé fosse sequer do tamanho de um grão de mostarda, dirias a esta montanha: vai daqui para ali, e ela iria e nada te seria impossível.» (Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
não nos fizer acreditar que o dia de hoje pode ser melhor do que o de ontem;
se não nos arrancar da mesquinhez egoísta que nos esmaga de solidão e morte;
se não nos puxar os braços para os outros, na gratuidade natural de quem respira;
se não fizer com que a poesia desça ao nosso peito e as crianças e velhos bebam luz dos nossos olhos;
se formos secos de ternura e apenas e só prudentes como as serpentes;
se não passarmos de atarefados medricas a fugir, dias fora, da própria sombra;
se faz tremer a verdade e não rói os alicerces à mentira;
se não estrangula o desespero e incendeia a alegria;
se não nos fizer pôr na vida a beleza das palavras que engendramos,
então não é fé, pelo menos não é cristã.
Agarra-nos pelos ombros e diz-nos outra vez: «se a tua fé fosse sequer do tamanho de um grão de mostarda, dirias a esta montanha: vai daqui para ali, e ela iria e nada te seria impossível.» (Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Não-é-bastante

No romance de N. Kazantzaki, Última Tentação de Cristo (depois adaptado ao cinema por Martin Scorcese), um personagem dirige-se a Deus e pergunta-lhe qual o seu verdadeiro nome.
E uma voz responde:
- O meu nome é «Não-é-bastante». É o nome que eu grito em silêncio a todos aqueles que se atrevem a amar-me.
Não-é-bastante... Talvez seja este o nome de todo o verdadeiro amor.
Nunca se ama o suficiente. O amor é uma estrada que continua sempre para além do horizonte.
No horizonte visual duma grande planície pomo-nos a andar em direcção ao horizonte. Mas quando chegamos onde antes nos parecia ser o fim do horizonte, o fim deslocou-se para além do horizonte...
S. João da Cruz dizia que «o amor é fogo que arde com apetite de arder mais. Sempre mais!»
E a tal voz:
«O meu nome é "Não-é-bastante". É o nome que eu grito em silêncio a todos aqueles que se atrevem a amar-me.» (Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
BOM OU BURRO?
«Ser bom, para alguns, em nada difere de ser burro.
- Que diferença vai de bom para burro?
É um olhar.
É verdade que a força e o poder fazem parte da nossa auto-imagem e da imagem que procuramos vender. E tantas energias gastamos nas lides do poder e da imagem. Tantas guerrilhas e artifícios até ao dia da imobilidade, como os anjos de pedra dos frisos do barroco.
Tenho diante de mim um trecho do Talmude, esse conjunto de leis e tradições religiosas do judaísmo pós-bíblico... Não é fácil interpretá-lo... Creio, no entanto, que este trecho dispensa interpretações eruditas:
«O ferro é forte, mas o fogo funde-o.
O fogo é forte, mas a água apaga-o.
A água é forte, mas as nuvens fazem-na cair.
As nuvens são fortes, mas o vento arrasta-as.
O vento é forte, mas o homem controla-o.
O medo é forte, mas o sono fá-lo esquecer.
O sono é forte, mas a morte supera-o.
A morte é fortíssima, mas a bondade sobrevive-lhe.»
- Que diferença vai de bom para burro?
Embora seja uma perspectiva, diria que é grande a diferença.
Primeiro, porque «o perfume fica sempre na mão de quem oferece a rosa».
Depois, porque «a morte é fortíssima, mas a bondade sobrevive-lhe». (Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
- Que diferença vai de bom para burro?
É um olhar.
É verdade que a força e o poder fazem parte da nossa auto-imagem e da imagem que procuramos vender. E tantas energias gastamos nas lides do poder e da imagem. Tantas guerrilhas e artifícios até ao dia da imobilidade, como os anjos de pedra dos frisos do barroco.
Tenho diante de mim um trecho do Talmude, esse conjunto de leis e tradições religiosas do judaísmo pós-bíblico... Não é fácil interpretá-lo... Creio, no entanto, que este trecho dispensa interpretações eruditas:
«O ferro é forte, mas o fogo funde-o.
O fogo é forte, mas a água apaga-o.
A água é forte, mas as nuvens fazem-na cair.
As nuvens são fortes, mas o vento arrasta-as.
O vento é forte, mas o homem controla-o.
O medo é forte, mas o sono fá-lo esquecer.
O sono é forte, mas a morte supera-o.
A morte é fortíssima, mas a bondade sobrevive-lhe.»
- Que diferença vai de bom para burro?
Embora seja uma perspectiva, diria que é grande a diferença.
Primeiro, porque «o perfume fica sempre na mão de quem oferece a rosa».
Depois, porque «a morte é fortíssima, mas a bondade sobrevive-lhe». (Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")
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