quarta-feira, 11 de março de 2009

CORAGEM PARA COM A PRÓPRIA HUMANIDADE

«Aceitar a mim mesmo - do jeito que sou - é uma das coisas mais difíceis a exigir de mim. Para tanto é preciso humildade; e a humildade pede isto: descer aos abismos da minha alma, à escuridão, às minhas tendências agressivas, assassinas, sádicas, masoquistas. Quem é sincero consigo próprio sentirá esses abismos e tendências em si mesmo.

A humildade exige que eu desça a esse abismo, a esse meu desamparo. Isto é, por certo, a coisa mais difícil. Mas é exactamente isto que significa a mensagem cristã da humilitas, humildade: ter coragem de descer à sua humanidade.

Infelizmente, muitos cristãos que querem ser cristãos por inteiro tentam saltar esse caminho.
Na América se fala de bypassing espiritual, ou seja, de atalho espiritual. Quem age assim quer se edificar com belos pensamentos, sentimentos e ideais religiosos e, ao mesmo tempo, escapar da sua humanidade.»

(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade")

segunda-feira, 9 de março de 2009

O CAMINHO PARA UM CORAÇÃO TRANQUILO

"Aquele que sou saúda com melancolia aquele que eu gostaria de ser."

Por trás dessa frase do filósofo dinamarquês kierkegaard se esconde uma experiência que todos conhecemos: não raro, há um abismo entre nossa realidade (o jeito que somos) e nosso ideal (nosso ideia do que gostaríamos de ser). É totalmente compreensível que cada um goste de representar um ideal. Os ideais também são, em princípio, absolutamente positivos, pois têm o poder de estimular nosso crescimento; precisamos deles para sair das nossas comodidades.

Mas infelizmente muitos se identificam tanto com o seu ideal que não têm mais coragem de aceitar como são. Recusam aceitar sua realidade. Acham que só serão amados e reconhecidos por outras pessoas se puderem mostrar algo, se puderem fazer algo melhor que os demais. Então quase se fundem com sua concepção ideal. Outros são possuídos pela profunda desconfiança de que não serão reconhecidos como são.
Dizem para si mesmos: se você soubesse como realmente sou, não poderia mais me aceitar. Ou: se as pessoas soubessem como sou por dentro, se conhecessem minhas fantasias, não me respeitariam mais.

Para não cair nessa desconfiança de que os outros não me aceitariam como sou; para não cair nessa armadilha é preciso humildade; é preciso coragem para a verdade pessoal - coragem para aceitar a própria sombra. Claro que isso dói. Mas a negação nunca foi caminho para a felicidade e a paz interior.

Aceitar a verdade pessoal com toda a humildade é que traz tranquilidade ao coração.»


(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade")

sexta-feira, 6 de março de 2009

Meu amor é único


Ela está perto do meu coração,
tão linda quanto uma flor no jardim;
é suave, como é o descanso para o meu corpo.

O amor que lhe tenho é minha vida fluindo plena,
como corre o riacho nas manhãs de outono,
em sereno abandono.
Minhas canções são únicas como meu amor,
como é único o murmúrio de um rio que canta com todas suas ondas e correntes.

(Rabindranath Tagore)

quarta-feira, 4 de março de 2009

HUMILDADE

«A humildade é a própria condição para ser aquilo que se é: para ser humano. Essa é a verdade da nossa humanidade. (...)

De facto, o que temos de aprender continuamente é a ser homens, ou seja, feitos de argila. Mas uma argila aberta ao céu! E isso com mansidão e humildade.

A primavera é o período em que floresce a humildade... em que o homem se torna verdejante. Mestre Eckart dizia: "O homem humilde se torna verdejante." Esse é o homem que está aberto ao que o Céu lhe oferece.

Ser humilde é aceitar-se como argila e, também, como luz. "Tu és pó e ao pó voltarás"; mas tu és luz e voltarás à Luz!

De facto, ser humilde é aceitar suas próprias qualidades e defeitos; ser humilde é aceitar aquilo que se é.»

(Jean-Yves Leloup, em "Amar... apesar de tudo")

segunda-feira, 2 de março de 2009

O DEUS CRISTÃO


«Deus não é uma simples projecção da nossa própria imagem no cosmos. Ele é diferente de tudo o que somos capazes de imaginar. Ele nos oferece algo que jamais poderíamos merecer: o perdão dos nossos pecados e o acolhimento do seu amor.(...)

O Deus cristão vem a nós como alguém completamente diferente. Tão diferente dos deuses da minha imaginação e tão além do meu controle. Encontrar-se com um Deus como esse é aterrorizante, pois encontrar o Amor Perfeito implica o abandono do nosso próprio ego.

Um Deus que pudéssemos conceber seria bem menos aterrorizante, mas não poderia nos oferecer aquilo de que mais precisamos, que á libertação dos nossos medos e a cura do nosso desânimo. (...)

O Deus que os cristãos adoram ama os pecadores, perdoa nossas falhas, alegra-se em poder nos oferecer uma segunda chance e um novo começo e nunca se cansa de buscar suas ovelhas desgarradas, de esperar pelos filhos pródigos ou de resgatar aqueles que foram maltratados pela vida e que se desviaram dos seus caminhos.»

(David G. Benner, em "A Entrega Total ao Amor")

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O SENTIDO DA VIDA

«O sentido da minha vida não consiste,em primeira linha,em criar algo grandioso. Devo sim,viver de modo autêntico aquilo com que Deus me presenteou para que se torne fértil para esse mundo. Ao encontrar o sentido da minha própria vida,tornar-me-ei suficientemente forte para interceder por esse mundo no sentido de torná-lo mais humano.»

(Anselm Grun, em "Fontes da Força Interior")

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A SOMBRA

Aquele que conhece sua sombra lidará com mais cuidado consigo mesmo e questionará mais criticamente suas próprias motivações. Cessará de projetar seus lados de sombra em outros povos ou no vizinho ao lado, e lidará de forma mais benevolente com as pessoas em seu redor.

A sombra é aquilo que excluímos da vida, porque não corresponde à ideia que fazemos de nós e de nossa imagem externa.

Anselm Grun, em "O Ser fragmentado"

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A FELICIDADE VEM POR ACRÉSCIMO

«Um trecho do Evangelho diz:
"Procurai em primeiro lugar, o Reino e o resto vos será dado por acréscimo."

A felicidade é justamente o que nos é dado por acréscimo! Razão pela qual se a procurarmos em primeiro lugar, nunca chegaremos a encontrá-la...

A etimologia da palavra felicidade é muito significativa. Como já indiquei com precisão, é a "boa hora"; trata-se de estarmos na hora certa, de estarmos presentes onde estamos!

A infelicidade é justamente não estarmos presentes... onde estamos!
Há duas maneiras de viver o tempo: o presente e o ausente.(...)

A felicidade é reencontrarmos em nós a capacidade para amar, porque tudo o que fazemos sem amor é tempo perdido, é feito em má hora, é uma infelicidade... Enquanto tudo o que fazemos com amor é a eternidade reencontrada, a boa hora reencontrada; desse modo, a felicidade nos é dada por acréscimo.»

(Jean-Yves Leloup, em "Amar... apesar de tudo")

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O JULGAMENTO FINAL


Não tenho medo do julgamento final, sei que seremos julgados por um olhar de criança...
Quando hoje me coloco diante desse terrível olhar inocente, não consigo ter ilusões sobre mim mesmo e, ao mesmo tempo, não posso mais desesperar. Quando somos olhados assim, não nos sentimos mais fora do alcance do amor, qualquer que seja a espessura de nossas máscaras.
(Jean-Yves Leloup, em "O absurdo e a graça")

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

QUEM É ELE?

Eu me vangloriei entre os homens de haver-Te conhecido.
Eles vêem as Tuas imagens em todas as minhas obras.
Então se aproximam e perguntam: ‘Quem é Ele?’
Não sei o que lhes responder, e digo apenas:‘Na verdade, não sei como vos contar’.
Eles troçam de mim e se afastam, com desprezo.
E Tu ficas aí, sentado e sorrindo.


Conto as Tuas histórias em canções sem fim,
e nelas o segredo do meu coração acaba escapando.
Eles se aproximam e me perguntam: ‘Conta-nos o que significam todas essas canções’.
Não sei o que lhes responder, e digo apenas: ‘Ah, quem pode saber o que elas significam?’
Eles sorriem e vão-se embora, me desprezando.
E Tu continuas aí, sentado e sorrindo.”


Rabindranath Tagore

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

TUDO, MENOS CORAÇÃO

Conheci um homem que passou 47 anos entrevado num quartinho abafado e morreu sem maldizer a vida.
Conheci uma mulher que criou 12 filhos, perdeu o marido cedo e nunca reclamou de nada.
Conheci uma pessoa que não tinha quase beleza física, mas só tinha lindas palavras para os outros.
Conheci uma outra que era absolutamente rigorosa consigo mesma, mas sempre foi afável para com todos.
Conheci um mendigo que cantava pelas ruas da cidade.
E conheci alguém que tinha tudo, menos coração.

(Pe. Neylor J. Tonin)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

AMOR ESPONTÂNEO E LIVRE

«O amor que fracassa quando não se vê correspondido não é livre, já que depende do amor de outrem; portanto, tem apenas interesse, confundindo-se com o egoísmo. Este amor exige reciprocidade.

A generosidade desinteressada atinge a sua plenitude no amor de cada um aos seus inimigos.
Por isso o perdão é um dom perfeito, e nele brilha a liberdade do amor.

O amor que temos aos nossos inimigos é o ponto mais alto da nossa consciência moral formada pelo cristianismo.»

(François Varillon)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A LÓGICA DO AMOR

«O amor tem pouco a ver com merecimento.
O amor não é um prémio que se dá aos bons, mas nasce da liberdade da pessoa que ama.
Nós não amamos pessoas que achamos que merecem o nosso amor ou que seriam as melhores pessoas para amarmos e sermos amados, mas amamos porque amamos!

Eu posso escolher alguém para casar a partir de um cálculo sobre as vantagens e desvantagens; mas não posso amar alguém desta forma.
Amor tem um outra lógica que não obedece às regras racionais da retribuição, cálculo, comparação, etc.»

Jung Mo Sung, em "O Caminho Espiritual para a Felicidade"

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

AMAR O PRÓXIMO COMO A NÓS MESMOS

A auto-estima consiste em como nos vemos reflectidos nos olhos dos outros. Isso, por sua vez, condiciona a percepção do mundo e a interacção com a comunidade.

Na condição de cristãos, a auto-estima negativa se expressa basicamente como uma imagem de pessoas não amadas. Negamos nosso próprio valor, somos assombrados por sentimentos de insuficiência e inferioridade, e nos fechamos para o valor dos outros porque ameaça nossa existência. (...)

Para amar o próximo como a nós mesmos, precisamos reconhecer nosso valor e nossa dignidade intrínsecos e nos amar de forma saudável e consciente, conforme Jesus nos ordenou ao dizer: "Ame o seu próximo como a si mesmo". (...)

A capacidade de amar a si mesmo é a raiz e o pilar básico de nossa capacidade de amar aos outros e a Deus. Só posso tolerar nos outros aquilo que posso aceitar em mim.

Van Kaam escreve:

A bondade para com o meu precioso e frágil "eu", quando inspirado exclusivamente por Deus, constitui o núcleo de bondade para com os outros e com as múltiplas formas criadas do Divino ao meu redor. É também uma condição necessária para minha apresentação a Deus.

Ironicamente, nossa auto-repugnância nos leva de modo bem frequente a prejudicar a auto-estima de outros. Andrew Greeley escreve:

A missão de Deus no mundo e sua missão na relação com o crente enquanto indivíduo é essencialmente uma missão de superação da auto-aversão. Pois a auto-aversão é uma barreira ao amor. Não odiamos outras pessoas porque nos amamos demais, mas porque não conseguimos nos amar o bastante. Nós as tememos e desconfiamos delas porque nos sentimos inadequados em nossa relação com elas. Nós nos escondemos por trás de nossa raiva e ódio porque em algum recesso profundo de nossa personalidade não acreditamos que somos bons o suficiente para elas.

(Brennan Manning, em "Convite à Loucura")

domingo, 8 de fevereiro de 2009

NÃO JULGAR PARA NÃO SER JULGADO

«O homem será julgado pela sua capacidade de amar. Aquele que julga o irmão não pode amar. Só vê o mal, está impedido de ver o bem que com ele se mistura.

Este tipo de injustiça, se não for detectada, provavelmente levará à condenação.
Acertamos quando dizemos «não julguemos para não sermos julgados».

Valemos o que valem os nossos juízos.»

(François Varillon)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Para além da cortina da vida


Ignoro onde estejam os que amei e que morreram. Só sei que não estão nos cemitérios, apesar de o sol se inclinar dia após dia frente aos seus túmulos fazendo brilhar os nomes deles.

Do além não imagino nada, ou apenas algo que se assemelha àqueles campos há muito por cultivar e cujos proprietários seria impossível encontrar, mesmo procurando nos pesados registos cor de malva das repartições municipais.

Cristo percorre esta terra inculta que escapou à tirania do utilitário, com o passo lento do vagabundo que não tem nada para fazer senão contemplar os mil cambiantes da vida. Quando se estende na erva para uma sesta, borboletas aproximam-se da sua cara, agitando, com o batimento silencioso das asas coloridas, o ar que ele respira.

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

DESPERTAR


Leio nas folhinhas amarelas da bétula, brilhantes de chuva e resistindo ao vento que as fustiga, como numa carta um pouco apressada escrita por um Deus pobre.

O meu coração desperta apenas raramente, mas quando o faz é para saltar de imediato sobre a eternidade como sobre uma presa desejada.
Christian Bobin, em "Ressuscitar"

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Aceitação de si mesmo (4ªparte)

«Temos tanta dificuldade em aceitar as nossas pobrezas que até parece que nos impedem de amar: como somos deficitários neste ou naquele ponto, não merecemos ser amados.
Viver sob o olhar de Deus, faz-nos perceber que essa ideia é falsa: o amor é gratuito, não se merece, as nossas pobrezas não impedem Deus de nos amar, pelo contrário! Somos libertados do terrível e desesperante dever de sermos alguém de bem para, finalmente, merecermos ser amados.

Porém, «autorizando-nos» a ser nós mesmos, a ser pobres pecadores, o olhar de Deus também nos permite todas as ousadias no caminho da santidade: temos o direito de aspirar aos cumes, de desejar a maior santidade, pois Ele quer e pode conceder-no-la.
Nunca ficamos encerrados na mediocridade, nem somos coagidos a uma triste resignação, mas temos sempre a esperança de progredir no amor.

Do pecador que eu sou, Deus é capaz de fazer um santo, a Sua graça pode realizar este milagre, posso ter uma fé ilimitada na força do Seu amor.

Aquele que cai todos os dias e que, apesar disso, se levanta dizendo: «Senhor, agradeço-Te, pois tenho a certeza de que farás de mim um santo!» agrada muito a Deus e, mais cedo ou mais tarde, receberá o que espera.

A atitude correcta diante de Deus é, pois, a seguinte: por um lado, uma aceitação muito serena, muito «descontraída», de nós mesmos e das nossas enfermidades, e por outro, em simultâneo, um imenso desejo de santidade, uma forte determinação de progredir, baseados numa confiança ilimitada na força da graça divina.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

sábado, 31 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (3 ªparte)

«Pelo olhar que poisa sobre nós, Deus convida-nos certamente à santidade, estimula-nos à conversão e ao progresso, mas sem nunca provocar a angústia de não a atingir, aquela «pressão» que às vezes experimentamos sob o olhar dos outros ou sob o julgamento que fazemos acerca de nós próprios: nunca nos portamos suficientemente «bem», nunca suficientemente isto ou aquilo, estamos permanentemente descontentes connosco mesmos, sentimo-nos sempre culpados por não correspondermos a tal expectativa ou a tal norma.

Não é por sermos pobres pecadores que havemos de nos sentir culpados por existir, como é o caso de muitas pessoas, muitas vezes inconscientemente.
O olhar que Deus poisa sobre nós autoriza-nos plenamente a sermos nós mesmos, com as nossas limitações e insuficiências, dá-nos o «direito ao erro» e livra-nos, diria eu, daquela espécie de coacção, daquela obrigação de que às vezes nos sentimos prisioneiros (obrigação que não provém da vontade de Deus, mas da nossa psicologia ferida) de sermos, afinal, diferentes daquilo que somos.

Sob o olhar de Deus, somos libertados da coacção de sermos «os melhores», de sermos perpétuos «vencedores»; podemos viver numa profunda descontracção, pois não temos que fazer esforços contínuos para nos mostrar bem dispostos nem que despender uma energia prodigiosa para parecermos aquilo que não somos: podemos ser, simplesmente, aquilo que somos, nem mais nem menos.
Não há melhor «relaxamento» do que repousar, como criancinhas, na ternura do Pai que nos ama como somos.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (2ª parte)

«O esforço de aceitação de si mesmo custa bastante mais do que parece. O orgulho, o medo de não ser amado, a convicção de que pouco valor temos, têm, em nós, raízes muito profundas. Basta constatar como aceitamos mal as quedas, os erros, os fracassos, até que ponto nos desmoralizam, culpabilizam ou preocupam.

Na verdade, julgo que não conseguimos chegar a aceitar-nos plenamente senão sob o olhar de Deus.

Para nos amarmos a nós mesmos, precisamos de uma mediação, do olhar de alguém que nos diga como o Senhor o fez pela boca de Isaías: «Eu tenho por ti um amor eterno». (Is 54, 8).

É um caso muito vulgar: uma jovem que se acha feia (como acontece, curiosamente, a muitas jovens, apesar de serem bonitas!), começa a pensar que talvez não seja tão horrível como isso no dia em que um jovem se enamora dela e poisa no seu rosto o terno olhar dos apaixonados!

Temos uma necessidade vital da mediação do olhar do outro para nos amarmos e nos aceitarmos a nós mesmos. Do olhar de um familiar, de um amigo, de um pai espiritual, mas acima de tudo, do olhar de Deus nosso Pai. Porque é o olhar mais puro, mais verdadeiro, mais terno, mais amante, mais cheio de esperança que existe no mundo.

E julgo que o maior presente que pode receber aquele que procura o rosto de Deus perseverando na oração, é dar conta, um belo dia, desse olhar divino poisado sobre si; sentir-se-à, então, tão ternamente amado, que receberá a graça de se aceitar profundamente a si mesmo.»
(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (1ª parte)

«O que há de mais importante na nossa vida, não é tanto o que podemos fazer, mas sim que demos lugar à acção de Deus.
O grande segredo de toda a fecundidade e de todo o crescimento espiritual, é aprender a deixar Deus agir: «Sem Mim, nada podeis fazer», disse Jesus. Porque o amor divino é infinitamente mais poderoso do que tudo quanto poderíamos fazer pela nossa própria sabedoria ou pelas próprias forças.

Porém, uma das mais necessárias condições para permitir que a graça de Deus actue na nossa existência, é dizer «sim» àquilo que somos e às situações em que nos encontramos.

Com efeito, Deus é «realista». A graça divina não opera no imaginário, no ideal, no sonho. Actua na realidade, no concreto da existência. Mesmo que a trama da minha vida de todos os dias não me pareça muito gloriosa, em mais parte nenhuma poderei deixar-me encontrar pela graça divina.

A pessoa que Deus ama com a ternura de um Pai, com quem se quer unir para a transformar pelo Seu Amor, não é a pessoa que eu gostaria de ser, ou que deveria ser. É a que eu sou, muito simplesmente.
Deus não ama pessoas «ideais», seres «virtuais». Ama os seres reais, concretos.

Frequentemente, aquilo que bloqueia a acção da graça na nossa vida, não são os nossos pecados, nem os nossos erros, mas a falta de aceitação da nossa fraqueza, todas as rejeições mais ou menos conscientes do que somos ou da nossa situação concreta.

Para «libertar» a graça na nossa vida, e para possibilitar mudanças profundas e espectaculares, bastaria dizer simplesmente «sim» (um sim inspirado pela confiança em Deus) a aspectos da nossa existência face aos quais nos mantemos numa posição de recusa interior.
Não admito ter esta pobreza, aquela fragilidade, ter ficado marcado por tal acontecimento passado, ter cometido um determinado pecado, e assim por diante. E sem dar conta, invalido a acção do Espírito Santo.

Este não tem pleno domínio sobre a minha realidade senão na medida em que eu próprio a aceito: o Espírito Santo nunca age sem a colaboração da minha liberdade. Se não me aceitar tal como sou, não permito ao Espírito Santo que me faça ser melhor!"

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

domingo, 25 de janeiro de 2009

«SER» e «FAZER»

«A tendência para entender o «ser» com base no «fazer» tem, certamente, um aspecto positivo na construção da pessoa, pois ela desenvolve-se pelo exercício das suas diversas capacidades...

Não podemos, porém, identificar a pessoa com a soma das suas aptidões; ela é muito mais do que isso. Não podemos avaliar ninguém unicamente pelas suas capacidades; cada pessoa tem um valor e uma dignidade únicos, independentemente de «saber fazer»....

Que lugar haveria para os pobres e para os deficientes, num mundo onde a pessoa não fosse alguém senão em função da sua eficácia, do bem visível que fosse capaz de produzir? (...)


A nossa identidade, o «ser» quem somos, para além das nossas actividades, tem uma fonte muito mais profunda: o amor criador de Deus, que nos fez à Sua imagem, e quer que vivamos para sempre com Ele, amor esse que não pode desdizer-se.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A CALMA DE UM CORAÇÃO ARDENTE


Nada preserva melhor a frescura da vida do que a calma de um coração ardente.


(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

GANHAR O MUNDO... PERDER A ALMA...

Que as pessoas desapareçam é, no fundo, menos surpreendente do que vê-las aparecer repentinamente diante de nós, como uma oferta ao nosso coração e à nossa inteligência.
Essas aparições são tanto mais preciosas quanto infinitamente raras. A maior parte das pessoas está, hoje em dia, tão perfeitamente adaptada ao mundo que se torna inexistente. (...)

A maioria das pessoas perde a alma ao tomar contacto com as coisas do mundo, tão facilmente como se perde um livro numa mudança de casa.

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A VERDADEIRA CULPA

«...A verdadeira culpa é, principalmente, você não ousar ser você mesmo. É o medo do julgamento dos outros que nos impede de sermos nós mesmos, de nos mostrarmos tal como somos, de manifestarmos nossos gostos, desejos e convicções, de nos desenvolvermos, de nos expandirmos segundo a nossa própria natureza, livremente. É o medo do julgamento dos outros que nos esteriliza, que nos impede de produzir todos os frutos que somos chamados a produzir.
"Fiquei com medo" diz, na pará­bola dos talentos, o servo que escondeu o seu talento na terra, em lugar de fazê-lo valorizar. (Mt 25:25 BLH). »

(Paul Tournier, em "Culpa e Graça")

domingo, 18 de janeiro de 2009

DOIS INSEPARÁVEIS


«No cemitério de Saint-Charles a secção das crianças fica na parte mais alta.
Anjos de mármore branco de uns cinquenta cêntimos fazem com a luz do céu ricochete sobre os túmulos estreitos.
Uma criança de cinco anos, morta em 1942, tinha um companheiro da mesma idade que, no dia do seu enterro e nas semanas seguintes, afirmara aos pais que não abandonaria o amigo e iria em breve brincar com ele debaixo da terra.
As fábricas de Creusot foram bombardeadas um ano mais tarde. A criança morreu num desses bombardeamentos. Repousa ao lado da campa do seu amigo.

Aqui, com um pouco de silêncio, pode ouvir-se a dor e o pranto das famílias.
Com um silêncio um pouco mais profundo conseguimos surpreender os risos dos dois inseparáveis, ocupadíssimos a brincar após a festa do reencontro.»
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

CORAÇÕES EM SILÊNCIO


«Comunguei um dia de tal intimidade que cada palavra de um era recolhida pelo outro sem deturpação. Acontecia o mesmo com cada silêncio. Não se tratava daquela fusão que no início os amantes conhecem e que é um estado irreal e destruidor. Havia, na amplitude do laço que se criara, algo de musical e estávamos simultaneamente juntos e separados como as asas diáfanas de uma libélula. Por ter conhecido esta plenitude, sei que o amor nada tem a ver com o sentimentalismo que perpassa nas canções, nem tão pouco com a sexualidade de que o mundo faz a principal mercadoria - a que permite vender todas as outras.

O amor é o milagre de sermos ouvidos, mesmo estando em silêncio, e de ouvirmos em troca com igual acuidade a vida em estado puro, tão leve como o ar que sustém as asas das libélulas e se alegra com os seus bailados.»
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

BASTA A CADA DIA...


Ao peso do dia presente, temos o mau hábito de juntar o do passado, e ainda mais o do futuro.

O remédio para essa atitude é meditar (e pedir a Deus a graça de o pôr em prática) o ensinamento do Evangelho:
«Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?(...)
Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta.
Não valeis vós muito mais do que elas? (...)

(...) não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? Que havemos de beber? Com que nos havemos de vestir?(...) Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.» (Mateus 6, 25-34)

Não se trata de sermos imprevidentes e irresponsáveis, temos obrigação de fazer projectos e de pensar no amanhã. Mas temos de o fazer sem inquietação, sem aquela preocupação que consome o coração e que não resolve nada, impedindo-nos muitas vezes de estar disponíveis para o que temos que fazer no momento presente.
É preciso «evitar transferir para o dia presente o peso e as angústias que o futuro nos inspira» (Etty Hillesum).
O coração não pode estar simultaneamente absorvido pela preocupação com o dia seguinte e acolher a graça do momento presente...

Quando Jesus nos pede que não tenhamos nenhuma preocupação, fá-lo cheio de compaixão e de ternura, principalmente para salvaguardar a qualidade das nossas relações: um coração repleto de inquietações e de preocupações, não está disponível para os outros e não pode fazer de cada momento um verdadeiro momento de comunhão, daqueles que alegram o coração.» (Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

domingo, 11 de janeiro de 2009

DEUS: do lado da vida em que estou...


Quando, bastante imprudentemente, falo de Deus, falo apenas deste lado da vida em que estou, e mais precisamente de uma parte desta vida, que está abandonada e se assemelha a uma arrecadação de ferramentas ao fundo de um jardim...

Embora não saiba nada dele, é-me impossível fazer como se não tivesse nada a ver com os nossos dias mais banais. Esses dias são livros e esses livros são escritos por Ele.
Rosto, dor e bondade são as páginas mais ricamente iluminadas, tal como roseira, pardal e primavera.

Não sei o que mais impede os homens de ler: se a avidez, se a falta de atenção. A avidez nasce da sua falta de atenção. Quando olhamos apressadamente para uma coisa bela - e todas as coisas vivas são belas porque trazem em si o segredo do seu próximo desaparecimento - apetece-nos guardá-la para nós.
Quando a contemplamos com o vagar que merece, que requer e que, por um instante, a protege do seu fim, então ilumina-se e já não temos vontade de a possuir: a gratidão é o único sentimento que responde a essa luz que entra em nós...

Contemplar sem possuir e mesmo sem compreender.
Os pardais desafiam-nos a isso com os seus cantos.
Há sob a minha janela, nos inúmeros braços da tília, uma multidão de Bach e de Schubert cujas obras não escritas me instruem sobre o que Deus é do lado da vida em que eu estou. Para conhecer o outro lado, terei um dia de afastar a cortina do meu sangue que me impede de ver.»

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

CAPACIDADE DE AMAR

«Certa vez, Frei Egídio (um dos companheiros mais queridos de S. Francisco), homem muito simples e piedoso, falou assim ao Ministro General, Frei Boaventura (+ 1274), um dos maiores teólogos da Igreja.

- Meu Pai, Deus deu-lhe muitos dotes. Eu, pessoalmente, não recebi grandes talentos. O que devemos nós, ignorantes e tolos, fazer para sermos salvos?

O douto e santo Frei Boaventura elucidou-o dizendo:

- Se Deus não desse ao homem nenhuma outra capacidade senão a de amar, isto lhe bastaria para se salvar.

- Quer dizer que um ignorante, pode amar a Deus tanto como um sábio?, perguntou Frei Egídio, tentando entender.

- Mesmo uma velhinha muito ignorante, disse-lhe com ternura o grande teólogo, pode amar mais a Deus do que um professor de Teologia.


Dando pulos de alegria, Frei Egídio correu para a sacada do convento e começou a gritar:

- Ó velhinha ignorante e rude, tu que amas a Deus Nosso Senhor, podes amá-l`O mais do que o grande teólogo Frei Boaventura.


E, comovido, ficou ali, imóvel, durante três horas.»

(Pe. Neylor J. Tonin, em "Histórias de Sabedoria")

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A VIDA NA SUA PUREZA


Na altura em que nasci, uma fada debruçou-se sobre o meu berço e disse-me:

«Não experimentarás senão uma parte minúscula desta vida e em troca compreendê-la-ás toda.»


Quinze segundos de pureza aqui, outros dez além: com um pouco de sorte, terá havido na minha vida, quando partir, pureza suficiente para perfazer uma hora.


Christian Bobin, em "Ressuscitar"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Só o Amor conta...


Já não acredito no amor, porque só nele acredito.

Apostei tudo num amor que não pode fazer parte deste mundo, mesmo iluminando-lhe cada detalhe.

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

sábado, 3 de janeiro de 2009

UM CORAÇÃO PURO


«A Agnès tinha nascido numa família nobre e rica, daquelas que só se encontram nos contos, ou em Inglaterra. Perfumes sem preço, jóias antigas, sedas finas e viagens por um mundo impecavelmente liso - sim, tudo isso rodeou Agnès, do berço até à sepultura, mas a maravilha não estava no dinheiro nem na litania um pouco cansativa das portas que faz abrir à sua frente como num sonho.

A única maravilha era o coração da Agnès: um diamante cuja pureza dava aos seus olhos uma limpidez implacável. Mais do que de maravilha poder-se-ia falar de milagre: uma santa milionária - estas duas palavras, que não combinam, e que, no entanto, convêm perfeitamente a essa jovem, qual sapatinho ao pé da Cinderela.

Ao nascer a Agnès tinha recebido dinheiro e beleza. O dinheiro pode traçar caminho através de um coração como uma lagarta numa maçã. A beleza de uma mulher e o poder que lhe dá sobre os homens fracos pode inebriá-la, convencendo-a de que se gerou a si mesma e de que, como a uma divindade, tudo lhe é devido.

A Agnès tinha a seu favor ambas as coisas quando uma única basta para destruir uma alma.
A sua bondade tinha-a preservado, inspirando-lhe uma conduta ao mesmo tempo cheia de delicadeza e intransigente. "Prefiro, dizia ela, dormir debaixo da ponte a viver com um homem sem amor."

Infinitamente raras são as mulheres que, no seu desejo de amor, não fazem entrar a menor sombra de calculismo. A pureza ardia-lhe nos olhos, como um fogo perpétuo...»
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

UM BOM ANO!


A todos os visitantes, leitores, amigos e irmãos, desejo um Ano de 2009, com tudo o que permita que juntos nos tornemos pessoas melhores, mais humanas e fraternas.
«Começar, estamos sempre a começar. Temos um Ano Novo pela frente, mas começar de novo não é começar outra vez, não é repetir alguma coisa, é começar de outro modo, com novidade. E o primeiro gesto devia ser o de agradecer esta imensa oportunidade.

Este ano será aquilo que fizermos dele: se cultivarmos uma atitude de egoísmo e individualismo, será assim; mas se nos comprometermos com a construção da paz e da justiça no mundo, então teremos um bom Ano Novo.

Não esqueçamos ao longo do ano que começa hoje que há uma imensa sabedoria em viver cada dia como se fosse o primeiro e há imensa felicidade em viver cada dia como se fosse o último. As duas coisas são possíveis ao mesmo tempo.»

(Vasco Pinto de Magalhães, em "Não há soluções. Há caminhos.")

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A PRISÃO DO ORGULHO

Choro, metido na masmorra
do meu nome.
Dia após dia, levanto, sem descanso,
este muro à minha volta;
e à medida que se ergue no céu,
esconde-se em negra sombra
o meu ser verdadeiro.

Este belo muro é o meu orgulho,
que eu retoco com cal e areia
para evitar a mais leve fenda.

E com este cuidado todo,
perco de vista
o meu ser verdadeiro.

(Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera")

domingo, 28 de dezembro de 2008

EGOÍSMO

Fui sozinho à minha entrevista,
Quem é esse que me segue
na escuridão calada?

Afasto-me para ele passar,
mas não passa.

Seu andar soberbo
levanta poeira,
sua voz forte
duplica a minha palavra.

Senhor,
é o meu pobre eu!
Ele não se importa com nada.
Mas como sinto vergonha
por ter de vir com ele à tua porta!

(Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera")

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

UMA NOITE ILUMINADA, A PARTIR DE DENTRO


Um Santo e abençoado Natal para todos vós: amigos, leitores, irmãos.
Sintam-se abraçados fraternalmente.
"É tempo de luzes, de corridas nas lojas e de prendas.
Que qualidade de vida é esta?
Dar presentes ou ser presentes?
Não valeria mais a pena estar presente, dar atenção, dar tempo, dar ouvidos, dar oportunidades, dar-se?
Vamos dar a nós mesmos um espaço para reflectirmos e para nos alegrarmos?
Ou vamos ter mais um Natal de consumo, sem sumo nenhum?"

(Vasco Pinto de Magalhães, em "Não há soluções. Há caminhos")

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O MUNDO NOVO DO AMOR VERDADEIRO

«Aprender a dar e a receber gratuitamente pressupõe uma reeducação longa e laboriosa da nossa psicologia, que não está «estruturada» para um tal regime, pois está condicionada por milénios de necessidade de luta pela sobrevivência.
Diria talvez que a irrupção da revelação divina e do Evangelho no mundo, é como que um fermento evolutivo que tem por objectivo «transferir» o nosso psiquismo para uma lógica de gratuidade - a do Reino, a do amor. Trata-se de um processo de divinização, pois o objectivo é chegarmos a amar como Deus ama: «Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste» (Mt 5, 48) (...)

Não podemos adoptar uma nova maneira de ser senão à custa do «luto» de muitos dos nossos comportamentos naturais, de uma espécie de agonia. No entanto, uma vez transporta a «porta estreita» da conversão da mentalidade, o universo ao qual acedemos é esplêndido: é o Reino, o mundo onde o amor é a única lei, um paraíso de gratuidade onde o amor pode permutar-se sem limites, dar-se e receber-se sem restrições, onde já não há «direitos» nem «deveres», nada a defender nem nada a conquistar, nenhuma oposição entre o «teu» e o «meu», onde o coração se dilata ao infinito.

Neste mundo novo, reina o amor, um amor terrivelmente exigente (pois quer tudo: enquanto não amarmos totalmente, não amamos de verdade), mas soberanamente livre, pois não tem outra lei senão ele próprio.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

DAR E RECEBER GRATUITAMENTE

Estamos no mundo para aprender a amar, matriculando-nos na escola de Jesus.
Aprender a amar é extremamente simples: é aprender a dar gratuitamente e aprender a receber gratuitamente....

Dar gratuitamente não é para nós espontâneo. Temos uma grande tendência para dar para receber em troca. O dom de nós mesmos é sempre motivado, em maior ou menor grau, pela expectativa de alguma gratificação. O Evangelho convida-nos a pôr de parte essa limitação para praticar um amor tão puro e desinteressado como o do próprio Deus, um amor que seja livre precisamente por ser capaz de existir e de durar sem ser condicionado pela resposta nem pelo mérito daquele a quem se destina...

Também não temos facilidade em receber gratuitamente...
Receber gratuitamente pressupõe que tenhamos confiança naquele que dá, que tenhamos o coração aberto e disponível para receber...

Não podemos receber gratuitamente se não nos reconhecermos e nos aceitarmos como pobres; e o orgulho recusa-se terminantemente a fazê-lo. Somos capazes de reivindicar, de exigir, mas raramente de aceitar.

Pecamos por falta de gratuidade sempre que, nas nossas relações com Deus ou com os outros, o bem que tivermos realizado nos sirva de pretexto para reivindicar algum direito, para exigir reconhecimento ou qualquer gratificação por parte de outro. E também, mais subtilmente, sempre que tivermos receio, por causa desta ou daquela limitação ou falha pessoal, de não receber amor, como se o amor devesse pagar-se ou merecer-se.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

domingo, 14 de dezembro de 2008

Por causa do Teu Amor

«Trata-se de uma autêntica revolução interior: proceder de maneira a não me apoiar no amor que tenho a Deus, mas exclusivamente no amor que Deus me tem...
Quando já não acreditares no que podes fazer por Deus, continua a acreditar no que Deus pode fazer por ti...

Deus não me ama por causa do bem de que sou capaz, do amor que Lhe tenho, mas ama-me de uma maneira absolutamente incondicional, por causa de Si mesmo, da Sua misericórdia e da Sua infinita ternura, unicamente em virtude da Sua Paternidade para comigo.

Esta experiência produz um grande abalo na vida cristã, que vem a ser uma graça imensa: o fundamento da minha relação com Deus, da minha vida, não mais está em mim, mas total e exclusivamente em Deus.» Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior"

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A VIDA É ESPANTOSA...


«Tem nove meses. Está sentado ao meu lado no carro que conduzo através de um campo inundado de sol. Enquanto tomo atenção à estrada, observo-o de vez em quando.
Tem nos olhos a gravidade de um sábio. Estuda as luzes, as sombras e os laços dos sapatinhos, que agarrou. Por vezes um pensamento fá-lo franzir a testa.

Abrando um pouco, inclino-me para ele e digo-lhe a rir: "A vida é espantosa. Vamos todos morrer mas mesmo assim é fabulosa."
Ele interrompe os estudos, fixa em mim os olhos negros como ameixas, sorri de lado e retoma os pensamentos profundos, imperturbável, majestoso.» (Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

ALMAS PURAS E SIMPLES


Os orgulhosos ensinaram-me a humildade,
os impacientes a lentidão,
os perversos ensinaram-me a rectidão e,
quanto aos raros que possuíam uma alma simples,
ensinaram-me a ler no seu coração os enigmas do universo visível e invisível,
tão facilmente como um recém-nascido lê na face da sua mãe.

Há poucas alegrias neste mundo
que não tenham secretos laivos de melancolia,
e é uma felicidade sem mácula descobrir uma alma pura.
São almas que se parecem com os primeiros livros infantis:
também contêm poucas palavras e são igualmente coloridas.

Não há alegria mais violenta que encontrar uma alma pura:
dá vontade de morrer de imediato."

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O CORAÇÃO DE DEUS


Deus é mais fácil de matar do que um pardal,
e o Seu coração
mais fácil de rasgar do que uma folha de papel -
até as crianças sabem disso...

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")


domingo, 7 de dezembro de 2008

O Pintarroxo


"Tornei-me amigo de um pintarroxo. Olhava para mim, de patitas solidamente plantadas num ramo de árvore.
Um Deus trocista brilhava nos seus olhos e parecia dizer-me:
"Porque passas a vida a tentar fazer coisas? Ela é tão boa quando vai passando, indiferente a razões, projectos e ideias.".
Não soube que responder-lhe." - Christian Bobin, em "Ressuscitar"

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O MAL VEM PREENCHER UM VAZIO

«Observei muitas vezes que as pessoas mais críticas são aquelas que têm em si um grande vazio espiritual. Chego a perguntar-me se determinadas pessoas não sentem necessidade de fabricar inimigos para poderem exisitir, precisamente por ser enorme o seu vazio interior...

Se o mal penetra o nosso coração, é porque aí encontra um lugar onde se instalar, uma certa cumplicidade.
Se o sofrimento nos faz azedos e maus, é por termos o coração vazio: vazio de fé, de esperança e de amor.
Pelo contrário, se nele houver uma total confiança em Deus, se esperar tudo da Sua bondade e fidelidade, se a finalidade da nossa vida não for a procura de nós mesmos, mas fazer a vontade de Deus, amá-l`O de todo o coração e amar o próximo como a nós mesmos, então o mal não pode penetrar nele de maneira nenhuma.

Se nos enraizarmos em Deus pela fé e pela oração, se deixarmos de censurar aqueles que nos rodeiam por tudo o que não corre bem na nossa vida e de nos considerar vítimas dos outros ou das circunstâncias, se assumirmos decididamente as nossas próprias responsabilidades e aceitarmos a nossa vida como é, se lançarmos mão, constantemente, das nossas capacidades de crer, esperar e amar, se estivermos resolvidos a conquistar a liberdade de que temos falado (liberdade interior), ela ser-nos-á progressivamente concedida.» (Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

NÃO JULGAR

Quantos de nós não nos irritamos e julgamos os outros, sem compaixão; sem tentar compreender as suas motivações mais íntimas; a dor e o sofrimento que podem estar por detrás de uma determinada atitude, reacção ou comportamento?

Partilho convosco uma história que li há pouco tempo:

«Stephen Covey lembrou-se de um incidente enquanto andava no metro de Nova York, num domingo de manhã. Os poucos passageiros a bordo estavam lendo jornal ou cochilando. Era uma viagem silenciosa, quase sonolenta.
Covey estava absorto em sua leitura quando um homem, acompanhado de vários filhos pequenos, entrou na estação seguinte. Em menos de um minuto irrompeu-se um tumulto. As crianças corriam para cima e para baixo no corredor, gritando, berrando e brigando entre si no chão. O pai deles não fez nenhuma tentativa de intervenção.
Os passageiros mais idosos, irritados, mudavam de lugar. O stress se transformou em angústia. Certamente o pai faria algo para restabelecer a ordem: uma gentil palavra de correção, uma ordem severa, alguma expressão de autoridade paterna—qualquer coisa. Nada disso aconteceu. A frustração aumentava.

Depois de uma pausa apropriada e generosamente longa, Covey se virou para o pai e disse gentilmente:
- Senhor, seria possível restabelecer a ordem aqui dizendo a seus filhos que voltem e se sentem.
- Eu sei que deveria fazer alguma coisa —, respondeu o homem. — Nós acabamos de sair do hospital. A mãe deles morreu há uma hora. Simplesmente não sei o que fazer.
[1]

A compaixão sincera que provoca o perdão amadurece quando descobrimos onde nosso inimigo chora.»

Brennan Manning, em "O Impostor que vive em mim"
[1] Stephen Covey, The seven habits of highly effective people, seminário gravado em cassette. Provo, ut.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A Corrente do Teu Amor


Permite que de mim reste apenas aquele pouco,
pelo qual eu possa chamar-Te o meu tudo.
Permite que da minha vontade reste apenas aquele pouco,
pelo qual eu possa sentir-Te em todo o lugar,
chegar a Ti em cada coisa,
e em cada momento oferecer-Te o meu amor.

Permite que de mim reste apenas aquele pouco,
pelo qual eu jamais possa Te esconder.

Permite que das minhas correntes reste apenas aquele pouco,
pelo qual eu fique ligado à Tua vontade,
aquele pouco pelo qual
o Teu projecto se realiza na minha vida:
a corrente do Teu amor.

(Rabindranath Tagore)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

AMAR EM FRATERNIDADE


«Que significa amar?
Amar um ser é esperar nele para sempre.
Amar um ser é não o julgar; julgar um ser é identificá-lo com aquilo que dele se conhece. «Agora, conheço-te. Agora julgo-te. Sei aquilo que vales»... Isto representa matar um ser.
Amar um ser é esperar sempre dele algo de novo, algo de melhor.

O que é uma Fraternidade?
É um ambiente onde, graças aos outros, se é mais igual a si próprio, onde se tem necessidade dos outros para se ser autêntico.
Porque os outros esperam algo de nós, acreditam em nós, confiam em nós, atrevemo-nos a mostrar-nos tão bondosos, tão suaves, tão humildes, simples, serviçais e generosos como eles nos incitam a ser.

E nós? Sentimos necessidade de ser vários para sermos nós próprios?
Quando te sentes mais tu mesmo? Quando estás sozinho a remoer as tuas queixas, a ruminar a tua amargura? Ou quando deparaste com uma fraternidade, alguns amigos junto dos quais és muito mais tu mesmo?
Porque eles te estimam e têm confiança em ti e desse modo tu consegues revelar-te tão bondoso, tão delicado, tão generoso e tão alegre quanto de ti depende, tudo aquilo que os outros te impedem habitualmente de ser, porque não acreditam em ti...»

(Louis Evely, em "Fraternidade e Evangelho")

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

ACREDITA!


"O sol falava esta manhã tão claramente que, se eu tivesse podido tomar nota daquilo que ele dizia, teria escrito o mais belo livro de todos os séculos." (Christian Bobin, em "Ressuscitar")

Acredita, amigo (a)...
Há dentro de ti um SOL que quer, através de ti, projetar seus raios o mais longe que puder...
Não ponhas à frente dele obstáculos de lamentações, revoltas e materialismos...
Deixe-O livre para expandir Luz, Calor e Felicidade...
Quanto mais creres que tens este SOL
e que Ele te é vida de verdade e abundante,
mais eliminas a escuridão em teu interior,
e te abres ao optimismo e à esperança...
Passas a desfrutar de paz, amor e felicidade
que jamais esperavas possuir,
e nasce em ti um mundo novo, mais claro, mais alegre, mais feliz...

Acredita no teu SOL!
Põe sua Luz no que fazes,
e confia teu presente e teu futuro em Deus...
Deixa o teu SOL brilhar em teu interior
e serás o primeiro a ser iluminado(a)!!
(Autor desconhecido)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

UM AMOR LIBERTADOR

«O meu amor deve impulsionar o outro a amar-se a si mesmo.
Devemos avaliar o nosso êxito no amor não por aqueles que nos admiram pelas nossas realizações, mas por aqueles que atribuem a sua própria inteireza ao nosso amor por eles; por aqueles que viram a sua beleza reflectida nos nossos olhos, que ouviram as suas virtudes através do calor da nossa voz.

Somos como espelhos uns para os outros. Ninguém sabe como é a sua aparência antes de ver o seu reflexo num espelho.
É absolutamente certo que ninguém reconhece a sua própria beleza ou percebe o sentido do seu próprio valor até que seja reflectido no espelho do amor e cuidado de outro ser humano.

O sentido do próprio valor é, sem dúvida, o maior presente que podemos oferecer a alguém, a maior contribuição que podemos dar a uma vida. Só podemos oferecer este presente e dar esta contribuição através do amor.
No entanto, é essencial que o nosso amor seja libertador, não possessivo. Devemos sempre dar àqueles que amamos a liberdade de serem eles mesmos. O amor reconhece o outro como uma outra pessoa. Não deve possui-lo nem manipulá-lo como uma propriedade sua.

Cabe aqui a citação de Frederick Perls: «Não vieste ao mundo para satisfazer as minhas expectativas. E eu não vim ao mundo para satisfazer as tuas. Se nos encontrarmos, tudo será belo. Se não, nada há a fazer.» - John Powell, em "O segredo do amor eterno"

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O AMOR É TUDO!

«Um pensamento paralisou-me: pela primeira vez na minha vida, vi a verdade como é cantada por tantos poetas, proclamada como a sabedoria final por tantos pensadores.
A verdade é que o amor é o objectivo derradeiro e mais alto a que o homem pode aspirar. Então compreendi o significado do maior segredo que a poesia, o pensamento e a crença humana podem desvendar: a salvação do homem faz-se através do amor e no amor.» Viktor Frankl , in "Man searching for Meaning»

"A jornada para o amor é a jornada para a plenitude da vida. Só através dele o ser humano se torna capaz de se conhecer, de amar aquilo que é e o que virá a ser, e de encontrar a plenitude da vida, que é a glória de Deus. Só no amor o homem encontrará a razão de uma celebração eterna." - John Powell, em "O Segredo do Amor Eterno"

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

APRENDER A SER AMIGO DE SI MESMO

«Se não aprendermos a ser amigos de nós mesmos, arriscamo-nos a identificarmo-nos apenas pelo que o não-amigo diz de nós, pela forma como ele nos vê.

Se não aprendermos a ser amigos de nós mesmos, tornamo-nos cúmplices do não-amigo, daquele que nos está a agredir, daquele que está a escarnecer de nós, que nos está a violar.

Se não aprendermos a ser amigos de nós mesmos, teremos apenas uma visão parcial daquilo que somos, limitada aos nossos aspectos negativos.

Tornar-se amigo de si próprio é uma tarefa psicológica, espiritual.

É um trabalho interior.

Consiste em olhar de frente o nosso lado negativo e mais obscuro. Não nos envergonharmos dele, mas reconciliarmo-nos com ele.

Um homem mede-se pela sua profundidade. E a profundidade de uma pessoa alimenta-se, absorve linfa vital a partir dos seus aspectos mais desconhecidos, mais escondidos, onde dificilmente se consegue chegar.
Por outro lado, são esses mesmos aspectos que tornam forte, vital e corajoso o ser humano. Precisamente porque existem em cada pessoa, incitam-nos a ir à sua procura para lhes podermos dar um novo significado, para os convertermos.

Ser amigo de si próprio significa tentar conhecer com doçura e com ternura aqueles aspectos de nós que os outros, os não-amigos, agridem e, através dos quais, tentam debilitar-nos.

Sermos amigos significa, pois, completar uma viagem interior, em busca da totalidade da nossa pessoa, isto é, em busca de nós mesmos, o que também passa pela aceitação dos nossos pontos mais fracos e negativos, aqueles que os outros tanto se esforçam por pôr em destaque.»

Valerio Albisetti, em "Ser Amigo ou ter Amigos?"

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A NÃO-AMIZADE

»Há homens que não assassinam fisicamente, mas são muito mais perversos que aqueles que o fazem, porque emporcalham e aniquilam a alma dos seus semelhantes.

Não há maior dor para um ser humano que sentir, ainda em vida, que o seu espírito está a ser destruído, aniquilado.

Podemos enfrentar dificuldades, habituarmo-nos a trabalhos duros, contentarmo-nos em viver modestamente, mas sentimo-nos mortos interiormente quando somos vítimas da maldade e da inimizade de alguém.

A perversidade instala-se no homem, nas relações entre os seres humanos, não nas coisas. A não-amizade utiliza a relação interpessoal, o relacionamento amigável, precisamente para aviltar, maltratar, depreciar, intimidar, dominar e escarnecer dos outros.

Pois a não-amizade não aceita a complexidade, a plenitude, a totalidade do ser humano. Conhece-as bem, mas finge ignorá-las precisamente para poder agredir o outro, para o fazer sofrer, realçando apenas o lado mais fraco, que ataca ostensivamente.
Porque a não-amizade vê o outro de um modo parcial, limitado: redu-lo, simplifica-o, empobrece-o. Identifica-o somente, usando os seus aspectos mais frágeis, mais negativos...

O não-amigo procura as nossas feridas para aumentá-las ainda mais.

A pessoa que é incapaz de experimentar a verdadeira amizade sente-se grande ao fazer que os outros se sintam pequenos.

Humilhar o outro é o acto mais perverso que um ser humano pode levar a cabo. É a expressão mais terrível da não-amizade.
Quando se humilha alguém, está-se a exprimir, em relação ao outro, aquela nossa faceta que queremos renegar.

Quem humilha, procura destruir, no outro, exactamente aqueles aspectos que também se encontram em si mesmo...» Valerio Albisetti, em "Ser Amigo ou ter Amigos?"

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

"Existe para cada um de nós uma determinada hora em que o conhecimento inconsolável nos invade a alma e a despedaça.
É à luz dessa hora, já chegada ou não, que todos nós nos deveríamos falar, amar, e se possível, rir juntos...

Perante a morte, estaremos como na altura do nosso nascimento, radicalmente privados de qualquer poder.
É a esta nossa fraqueza que, para todo o sempre, o amor se deveria dirigir."

Christian Bobin, em "Ressuscitar"

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

ÉS AMADO E QUERIDO


«Nenhuma terapia psicológica pode devolver-me o afecto que os meus pais não me deram, pode oferecer-me a atenção dos outros; mas, a partir do momento em que compreendi que tive desde sempre um Pai divino, que é Deus, de Quem provenho, que nasci por um acto de amor desse mesmo Pai, que Ele me escolheu de antemão para realizar esta viagem terrena chamada vida, e para depois regressar a Ele, a falta de afecto da minha mãe, o sofrimento psíquico, a maldade do mundo, por muito dolorosos e terríveis que sejam, alcançaram novo significado, perderam importância, entraram numa nova perspectiva.

Cada vez estou mais convencido - por isso escrevo este livro - que tenho sido e sou continuamente, intimamente, misteriosamente amado e querido.
Estou cada vez mais convencido, depois de ter passado por muitas provas difíceis e dolorosas, que sou constantemente olhado com uma ternura infinita, que sou continuamente guiado.

Onde quer que eu esteja, Ele está comigo.

E o mesmo se aplica a vós, que me ledes.

Quando comecei a recordar que era amado e querido por Deus para vir a esta terra, que estou cá para realizar a minha viagem, as minhas interrogações iniciais, os meus «porquê?», passaram a ser: «Que quererá Deus dizer-me? Que quererá Ele dar-me a entender? Em que ponto da minha viagem me encontro? Que quer Ele ensinar-me, de facto?»
Agora estou muito mais crescido, muito mais livre, muito mais capaz de amar.»

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

VIVER OU SOBREVIVER?


«Viver significa nunca dominar outro ser humano.

A pessoa que sobrevive, pelo contrário, tem necessidade do outro, serve-se do outro.

A pessoa que vive serve o outro.

A pessoa que sobrevive procura controlar o outro, possui-o, deseja-o para si.

A pessoa que vive torna o outro livre, entrega-o às suas responsabilidades, à sua viagem, deseja que ele pertença ao universo.

A pessoa que sobrevive, na realidade, não tem confiança nos outros, na humanidade.

A pessoa que vive confia na humanidade.

A pessoa que sobrevive, de um modo geral, tem êxito nesta sociedade e é bem aceite, mas, no fundo, nunca está serena, nem feliz, nem plenamente realizada.

A pessoa que vive é, por definição, serena, feliz, plenamente realizada.

Quem sobrevive procura sempre fora de si a própria realização, a compensação para as próprias necessidades psicológicas, para as próprias lacunas, para os próprios defeitos, para a própria neurose, para a própria ansiedade.

No fundo, quem sobrevive, ilude-se, pensando viver.

Sobreviver significa ter medo de viver.»
(Valerio Albisetti, em "Viagem da Vida")

sábado, 8 de novembro de 2008

O Deus Humilde


"Ouvi contar esta história.
Uma criança com toda a naturalidade, voltou-se para Deus e perguntou-lhe:
"E tu, o que é que queres ser quando fores grande?"
"Pequeno", respondeu-lhe Deus, também com toda a naturalidade.
Os homens querem ser grandes, mas a grandeza de Deus está em tornar-se pequeno, em dar a vida, em desaparecer pelo bem do outro."
(Vasco Pinto de Magalhães, s.j. in "Não há soluções, há caminhos")

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

REGRESSA!

«Deus não exige um coração puro antes de nos abraçar.
Mesmo que regressemos apenas porque o seguimento dos nossos desejos não nos trouxe felicidade, Deus aceita-nos na mesma.

Mesmo que regressemos porque ser cristão nos proporciona mais paz do que ser pagão, Deus receber-nos-á.

Mesmo que regressemos porque os nossos pecados não nos deram tanta satisfação como esperávamos, Deus recebe-nos de novo.

Mesmo que regressemos por termos descoberto que não somos capazes de caminhar sozinhos, Deus receber-nos-á.

O amor de Deus não pretende saber porque regressamos.

Deus fica contente por nos ver voltar para casa e apressa-se a dar-nos tudo o que queremos, simplesmente por estarmos em casa.

Porquê protelar?

Deus mantém-se de braços abertos à espera de me abraçar.

Ele não fará perguntas sobre o meu passado.

O que Ele deseja é o meu regresso.»

(Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

USAR AS COISAS

"Haverá outro meio de uma pessoa tirar satisfação de outra que não o amor ou a dádiva?

Não confundas o amor com o delírio da posse.
Contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer.
O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse, sim, faz sofrer.

Haverá outro meio de uma pessoa tirar satisfação de outra que não o amor ou a dádiva?

Talvez devêssemos lavrar e semear o coração com esta lei, tão certa como a da gravidade:
Aprender
a usar as coisas
e a amar as pessoas;
não a amar as coisas
e a usar as pessoas."

(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

domingo, 2 de novembro de 2008

ESTE TAMBÉM SOU EU!


"Há anos que B. lê livros religiosos; passa noites inteiras debruçado sobre algumas frases cuja delicadeza admira, como um lapidador de diamantes, que inclinado sobre uma pedra com uma água particularmente pura, medita, sublinha, copia, em busca da verdade, sempre em vão, pois há muito que a encontrou. Falta-lhe apenas tirá-la dos livros onde definha para a fazer entrar no coração, único local onde poderia viver.
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")