segunda-feira, 6 de abril de 2009

À PROCURA DA PERFEIÇÃO (1ª parte)

«O psiquiatra Amo Gruen afirma que «o vício do poder destrói o coração do homem».

O que esperamos, não só do espelho onde em cada manhã nos olhamos mas de todos os olhos que nos olham, é a confirmação dessa imagem de seres poderosos que desejamos ostentar.

Odiamos em nós o desamparo, a dependência, as limitações, o medo, qualquer sinal de fraqueza, e se alguém ousa pôr a realidade a descoberto, enfurecemo-nos e descarregamos a nossa raiva. Queremos dizer a nós mesmos que não, que não conhecemos a insuficiência, o sofrimento, a dor, o medo de falhar, o medo da rejeição, o medo de que não gostem de nós.

Conhecemos a alegria que nos invade quando vencemos uma competição ou quando nos prestam homenagens. No entanto, esquecemo-nos de procurar a alegria no crescimento de outra pessoa, na partilha de um sofrimento ou de um momento de tristeza, na realização de qualquer coisa que torne melhor o espaço e o tempo em que nos foi dado viver.»

(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A LIBERDADE NO AMOR

"A liberdade para a qual conduz a vida espiritual não é apenas a liberdade de todas as influências exteriores, não apenas a liberdade das paixões e do poder dos homens. Ela é, simultaneamente, uma liberdade da entrega. Não se trata portanto apenas de uma liberdade 'de', e, sim, também de uma liberdade 'para'.

O ser humano que se tornou livre de si mesmo, também está livre para entregar-se em favor de outros, como Jesus o afirmou a respeito de si mesmo: "Não existe amor maior do que quando alguém entrega sua vida pelos amigos' (Jo 15,13).

A liberdade das expectativas dos outros e a liberdade de girar em torno de si mesmo são as condições para o amor. Somente quem se tornou livre de si mesmo pode empenhar-se altruisticamente pelos outros.

Não misturará seu engajamento com motivações egoístas, como tantas vezes o fazemos. Ele se torna livre de pensar em sua própria reputação, em seu empenho, nos elogios e no reconhecimento pelos homens. Também não pensará que então se sentirá melhor do que as outras pessoas, que Deus o iria recompensar, etc.

Ele está livre para as pessoas que dele necessitam. Livre para oferecer-se em amor."

(Anselm Grun, em "Caminhos para a Liberdade")

quinta-feira, 2 de abril de 2009

SÓ O AMOR

«Não podemos reconhecer a nós mesmos se não nos amamos.
E só o amor nos permite penetrar fundo em nós mesmos e reconhecer quem somos em verdade.

Amar-se a si mesmo é diferente de girar em torno de si.»

(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

CRIANÇAS E PEDRAS

Sobre Deus, uma história:

Era uma vez uma criança. Uma criança que tentava levantar uma pedra. Porém, e apesar do seu esforço, nem sequer a conseguia mexer.

O pai, que a observava já há algum tempo, disse-lhe finalmente:

- Ouve, tens a certeza de que estás a usar toda a tua força?

- Sim, tenho - respondeu o filho.

- Não estás não. É que ainda não me pediste para te ajudar - disse-lhe o pai.

Que é como quem diz: «Façamos o pouco que nos toca a nós realizar, mas façamo-lo. Depois entreguemos o resto a Deus, que nos ama com amor infinito."

(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

segunda-feira, 30 de março de 2009

O PERDÃO LIBERTA!

«Mesmo quando o coração nos acusa, Deus é maior que o nosso coração e conhece tudo.» (João 3, 20).

Em nenhum caso Deus atormenta a consciência humana.
Deus coloca o nosso passado no coração de Cristo e há-de cuidar do nosso futuro. (...)

Deus vem revestir-nos da sua compaixão.
Com os fios do seu perdão,
Ele tece a nossa vida e faz dela uma veste resplandecente.

Saber que o seu perdão é sempre dado significa descobrir uma das mais generosas realidades do Evangelho.
E isso liberta-nos, incomparavelmente.

(Irmão Roger, de Taizé, em "Deus só pode amar")

sexta-feira, 27 de março de 2009

EM QUEM NUNCA NINGUÉM REPARA...

" J., a quem muitos chamavam "menina" mesmo quando já tinha sessenta anos, trabalhava como bibliotecária num centro cultural, a encapar com plástico pesados livros de arte que nenhum leitor vinha requisitar. Os seus gostos, temperamento e cor dos vestidos, tudo nela parecia frágil e um pouco antiquado, como uma aguarela em que a cor rosa dominasse.
Doçura e benevolência cercavam os olhos daquela que, por nunca ter causado mal, terá atravessado esta vida na ponta dos pés sem que ninguém a visse, não fazendo a sua morte mais barulho que neve a cair sobre neve.

Talvez o mundo seja continuamente preservado do aniquilamento para que tende por seres assim, em quem nunca ninguém repara."

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 26 de março de 2009

LUZ QUE BRILHA NA NOITE


«Uma confiança em Deus não se comunica com argumentos que, procurando convencer o outro a todo o custo, suscitam inquietação e medo. É antes de mais no coração, nas nossas profundezas, que recebemos o chamamento do Evangelho.(...)

Pode acontecer, surpreendentemente, que cheguemos a dizer:«Jesus ressuscitado estava em mim e eu não sentia nada da sua presença. Procurei-O muitas vezes noutros sítios. Enquanto fugia das fontes por Ele depositadas no mais profundo do meu ser, podia ir longe, muito longe, mas perdia-me em caminhos sem saída. Parecia impossível encontrar em Deus uma alegria.

Mas chegou o dia em que descobri que Cristo nunca me tinha deixado. Quase não me atrevia a dirigir-me a Ele, mas Ele compreendia-me e até me falava. E, quando o véu da inquietação se levantou, a confiança da fé iluminou a minha noite.»

(Irmão Roger, de Taizé, em "Deus só pode Amar")

quarta-feira, 25 de março de 2009

SOPRO DE CONFIANÇA

«Tal como a amendoeira começa a florir no alvor da Primavera, um sopro de confiança faz germinar os desertos do coração. (...)
É a flor que desabrocha de madrugada, quando é possível recomeçar sempre de novo, quando o sopro da confiança nos conduz pela senda de uma bondade serena.»

(Irmão Roger, de Taizé, em "Deus só pode Amar")

segunda-feira, 23 de março de 2009

AMOR É O MEU NOME


“ Dizer que fui criado à imagem de Deus é dizer que o amor é a razão de minha existência, pois Deus é amor.
Amor é a minha verdadeira identidade.
Esquecimento de mim mesmo é meu verdadeiro eu.
Amor é meu verdadeiro caráter. Amor é meu nome...

...o amor de Deus é como um rio que brota das profundezas da substância divina e se derrama incessantemente através da criação, comunicando, em abundância, a todas as coisas, vida, bondade e força.

(Thomas Merton, em "Novas sementes de contemplação")

sexta-feira, 20 de março de 2009

TU ÉS O MEU FILHO AMADO!

"Uma tentativa de me tornar consciente do amor de Jesus foi a meditação sobre o seu batismo (Lc 3,21s).

Jesus desce até o Jordão, entra na água, "que está povoada de culpa" das pessoas que ali se deixavam batizar por João. Ao descer, abre-se sobre Ele o céu, e Deus lhe diz: "Tu és o meu Filho amado, de ti eu me agrado".

Eu experimentei na meditação a realidade deste amor, quando conscientemente pronunciei esta frase - "tu és o meu filho amado" - para dentro da minha angústia, da minha escuridão, do meu fracasso, da minha mediocridade, da minha mentira de vida. Tentei descer às águas do meu inconsciente, ao reino das sombras, para onde reprimi tudo o que teme a luz do dia, aquilo que não quero ver de dia.

Para mim esta é uma bela imagem para o batismo de Jesus, que o céu se abre justamente quando Ele desce às profundezas do Jordão. O céu também quer se abrir sobre os abismos da nossa alma. Mas precisamos criar coragem para descer a esses abismos interiores, para então, lá na profundidade, ouvir esta palavra com um novo sentido: "tu és o meu filho amado"; "tu és a minha filha amada".

Ao pronunciar esta palavra, que eu sou o filho amado, para dentro da minha vida concreta, fiquei tocado no fundo do meu ser e ganhei paz interior. Toda a fala sobre o amor de Deus não nos toca enquanto não atingir nossa vida nas experiências do quotidiano."

(Anselm Grün, em "Abra seu coração para o Amor")

quarta-feira, 18 de março de 2009

SOMOS AMADOS!

"Quando revejo minha história pessoal e imagino que em todos os meus caminhos, desvios e descaminhos, Deus me amou, jamais retirou de mim Sua mão amorosa, olho para a minha infância com outros olhos; posso me dar conta de que o amor de Deus me envolveu também lá, onde não o percebi, porque a falta de amor das pessoas havia me magoado.

Então, após a raiva e a dor pelas feridas, aumentará em mim também a noção de amar e de ser amado: mesmo com minhas chagas e em minhas chagas sempre permaneci o filho amado, a filha amada de Deus.

Seu grandioso amor nem sempre oferece apenas amparo: ele desabrocha muitas vezes, justamente quando tudo está despedaçado dentro de nós. Em meio à dor pelo fracasso damo-nos conta de que no fundo somos amados. Não ficamos delirando em virtude deste amor, mas podemos nos entregar a ele e assim ficar bem tranquilos, humildes e livres de nós mesmos em relação à dor."

Anselm Grün, em "Abra seu coração para o amor"

segunda-feira, 16 de março de 2009

CADA UM É ESPECIAL

«Muitos querem ser especiais. Naturalmente, cada pessoa é única. Mas muitos vêem "seu" carácter especial apenas no grande poder, na grande posse.

Também devo, porém, olhar dentro de mim mesmo; qual é a minha história de vida, quais são minhas feridas, qual é minha sensibilidade? Pois tudo isto faz parte de mim - minhas feridas, meus erros, minhas fraquezas. Não apenas meus pontos fortes.
Apenas quando me reconcilio com isso descubro que sou singular, uma expressão única de Deus.

Mas pretender ser algo de especial passando por cima da própria humanidade é dar murro em ponta de faca.»

(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade)

sexta-feira, 13 de março de 2009

O QUE OS ERROS PODEM MOSTRAR

«Muitas pessoas têm a tendência de dizer: se cometo um erro, não valho nada; serei rejeitado. E, com essa falta ideia, elas acabam justamente se prendendo aos seus erros. Consequência: procuram evitar os erros em todas as circunstâncias.
A experiência mostra, contudo, que quem procura evitar todos os errros é quem os acaba cometendo. Quem quer controlar tudo perde o controlo da vida.
Poder cometer erros pertence à minha condição humana.

E da minha condição também faz parte que eu seja aceite e amado com meus erros e apesar das minhas fraquezas. Mas também faz parte da condição humana trabalhar nossos erros e não cruzar simplesmente os braços e dizer: eu sou assim, vocês não vão me ter de outro jeito.
É preciso dizer: só quando eu me aceitar realmente - com minhas falhas, é claro - poderei dar o segundo passo e tentar mudar várias coisas. (...)

É este o objectivo da ascese: que eu me exercite, que eu entre numa boa forma para mim, que eu atinja um estado em que me sinta livre. Mas a ascese nunca vai impedir que eu cometa erros; eles sempre virão até mim e sempre voltarão a me mostrar que sou humano, não Deus.»

(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade")

quarta-feira, 11 de março de 2009

CORAGEM PARA COM A PRÓPRIA HUMANIDADE

«Aceitar a mim mesmo - do jeito que sou - é uma das coisas mais difíceis a exigir de mim. Para tanto é preciso humildade; e a humildade pede isto: descer aos abismos da minha alma, à escuridão, às minhas tendências agressivas, assassinas, sádicas, masoquistas. Quem é sincero consigo próprio sentirá esses abismos e tendências em si mesmo.

A humildade exige que eu desça a esse abismo, a esse meu desamparo. Isto é, por certo, a coisa mais difícil. Mas é exactamente isto que significa a mensagem cristã da humilitas, humildade: ter coragem de descer à sua humanidade.

Infelizmente, muitos cristãos que querem ser cristãos por inteiro tentam saltar esse caminho.
Na América se fala de bypassing espiritual, ou seja, de atalho espiritual. Quem age assim quer se edificar com belos pensamentos, sentimentos e ideais religiosos e, ao mesmo tempo, escapar da sua humanidade.»

(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade")

segunda-feira, 9 de março de 2009

O CAMINHO PARA UM CORAÇÃO TRANQUILO

"Aquele que sou saúda com melancolia aquele que eu gostaria de ser."

Por trás dessa frase do filósofo dinamarquês kierkegaard se esconde uma experiência que todos conhecemos: não raro, há um abismo entre nossa realidade (o jeito que somos) e nosso ideal (nosso ideia do que gostaríamos de ser). É totalmente compreensível que cada um goste de representar um ideal. Os ideais também são, em princípio, absolutamente positivos, pois têm o poder de estimular nosso crescimento; precisamos deles para sair das nossas comodidades.

Mas infelizmente muitos se identificam tanto com o seu ideal que não têm mais coragem de aceitar como são. Recusam aceitar sua realidade. Acham que só serão amados e reconhecidos por outras pessoas se puderem mostrar algo, se puderem fazer algo melhor que os demais. Então quase se fundem com sua concepção ideal. Outros são possuídos pela profunda desconfiança de que não serão reconhecidos como são.
Dizem para si mesmos: se você soubesse como realmente sou, não poderia mais me aceitar. Ou: se as pessoas soubessem como sou por dentro, se conhecessem minhas fantasias, não me respeitariam mais.

Para não cair nessa desconfiança de que os outros não me aceitariam como sou; para não cair nessa armadilha é preciso humildade; é preciso coragem para a verdade pessoal - coragem para aceitar a própria sombra. Claro que isso dói. Mas a negação nunca foi caminho para a felicidade e a paz interior.

Aceitar a verdade pessoal com toda a humildade é que traz tranquilidade ao coração.»


(Anselm Grün, em "O pequeno livro da verdadeira felicidade")

sexta-feira, 6 de março de 2009

Meu amor é único


Ela está perto do meu coração,
tão linda quanto uma flor no jardim;
é suave, como é o descanso para o meu corpo.

O amor que lhe tenho é minha vida fluindo plena,
como corre o riacho nas manhãs de outono,
em sereno abandono.
Minhas canções são únicas como meu amor,
como é único o murmúrio de um rio que canta com todas suas ondas e correntes.

(Rabindranath Tagore)

quarta-feira, 4 de março de 2009

HUMILDADE

«A humildade é a própria condição para ser aquilo que se é: para ser humano. Essa é a verdade da nossa humanidade. (...)

De facto, o que temos de aprender continuamente é a ser homens, ou seja, feitos de argila. Mas uma argila aberta ao céu! E isso com mansidão e humildade.

A primavera é o período em que floresce a humildade... em que o homem se torna verdejante. Mestre Eckart dizia: "O homem humilde se torna verdejante." Esse é o homem que está aberto ao que o Céu lhe oferece.

Ser humilde é aceitar-se como argila e, também, como luz. "Tu és pó e ao pó voltarás"; mas tu és luz e voltarás à Luz!

De facto, ser humilde é aceitar suas próprias qualidades e defeitos; ser humilde é aceitar aquilo que se é.»

(Jean-Yves Leloup, em "Amar... apesar de tudo")

segunda-feira, 2 de março de 2009

O DEUS CRISTÃO


«Deus não é uma simples projecção da nossa própria imagem no cosmos. Ele é diferente de tudo o que somos capazes de imaginar. Ele nos oferece algo que jamais poderíamos merecer: o perdão dos nossos pecados e o acolhimento do seu amor.(...)

O Deus cristão vem a nós como alguém completamente diferente. Tão diferente dos deuses da minha imaginação e tão além do meu controle. Encontrar-se com um Deus como esse é aterrorizante, pois encontrar o Amor Perfeito implica o abandono do nosso próprio ego.

Um Deus que pudéssemos conceber seria bem menos aterrorizante, mas não poderia nos oferecer aquilo de que mais precisamos, que á libertação dos nossos medos e a cura do nosso desânimo. (...)

O Deus que os cristãos adoram ama os pecadores, perdoa nossas falhas, alegra-se em poder nos oferecer uma segunda chance e um novo começo e nunca se cansa de buscar suas ovelhas desgarradas, de esperar pelos filhos pródigos ou de resgatar aqueles que foram maltratados pela vida e que se desviaram dos seus caminhos.»

(David G. Benner, em "A Entrega Total ao Amor")

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O SENTIDO DA VIDA

«O sentido da minha vida não consiste,em primeira linha,em criar algo grandioso. Devo sim,viver de modo autêntico aquilo com que Deus me presenteou para que se torne fértil para esse mundo. Ao encontrar o sentido da minha própria vida,tornar-me-ei suficientemente forte para interceder por esse mundo no sentido de torná-lo mais humano.»

(Anselm Grun, em "Fontes da Força Interior")

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A SOMBRA

Aquele que conhece sua sombra lidará com mais cuidado consigo mesmo e questionará mais criticamente suas próprias motivações. Cessará de projetar seus lados de sombra em outros povos ou no vizinho ao lado, e lidará de forma mais benevolente com as pessoas em seu redor.

A sombra é aquilo que excluímos da vida, porque não corresponde à ideia que fazemos de nós e de nossa imagem externa.

Anselm Grun, em "O Ser fragmentado"

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A FELICIDADE VEM POR ACRÉSCIMO

«Um trecho do Evangelho diz:
"Procurai em primeiro lugar, o Reino e o resto vos será dado por acréscimo."

A felicidade é justamente o que nos é dado por acréscimo! Razão pela qual se a procurarmos em primeiro lugar, nunca chegaremos a encontrá-la...

A etimologia da palavra felicidade é muito significativa. Como já indiquei com precisão, é a "boa hora"; trata-se de estarmos na hora certa, de estarmos presentes onde estamos!

A infelicidade é justamente não estarmos presentes... onde estamos!
Há duas maneiras de viver o tempo: o presente e o ausente.(...)

A felicidade é reencontrarmos em nós a capacidade para amar, porque tudo o que fazemos sem amor é tempo perdido, é feito em má hora, é uma infelicidade... Enquanto tudo o que fazemos com amor é a eternidade reencontrada, a boa hora reencontrada; desse modo, a felicidade nos é dada por acréscimo.»

(Jean-Yves Leloup, em "Amar... apesar de tudo")

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O JULGAMENTO FINAL


Não tenho medo do julgamento final, sei que seremos julgados por um olhar de criança...
Quando hoje me coloco diante desse terrível olhar inocente, não consigo ter ilusões sobre mim mesmo e, ao mesmo tempo, não posso mais desesperar. Quando somos olhados assim, não nos sentimos mais fora do alcance do amor, qualquer que seja a espessura de nossas máscaras.
(Jean-Yves Leloup, em "O absurdo e a graça")

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

QUEM É ELE?

Eu me vangloriei entre os homens de haver-Te conhecido.
Eles vêem as Tuas imagens em todas as minhas obras.
Então se aproximam e perguntam: ‘Quem é Ele?’
Não sei o que lhes responder, e digo apenas:‘Na verdade, não sei como vos contar’.
Eles troçam de mim e se afastam, com desprezo.
E Tu ficas aí, sentado e sorrindo.


Conto as Tuas histórias em canções sem fim,
e nelas o segredo do meu coração acaba escapando.
Eles se aproximam e me perguntam: ‘Conta-nos o que significam todas essas canções’.
Não sei o que lhes responder, e digo apenas: ‘Ah, quem pode saber o que elas significam?’
Eles sorriem e vão-se embora, me desprezando.
E Tu continuas aí, sentado e sorrindo.”


Rabindranath Tagore

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

TUDO, MENOS CORAÇÃO

Conheci um homem que passou 47 anos entrevado num quartinho abafado e morreu sem maldizer a vida.
Conheci uma mulher que criou 12 filhos, perdeu o marido cedo e nunca reclamou de nada.
Conheci uma pessoa que não tinha quase beleza física, mas só tinha lindas palavras para os outros.
Conheci uma outra que era absolutamente rigorosa consigo mesma, mas sempre foi afável para com todos.
Conheci um mendigo que cantava pelas ruas da cidade.
E conheci alguém que tinha tudo, menos coração.

(Pe. Neylor J. Tonin)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

AMOR ESPONTÂNEO E LIVRE

«O amor que fracassa quando não se vê correspondido não é livre, já que depende do amor de outrem; portanto, tem apenas interesse, confundindo-se com o egoísmo. Este amor exige reciprocidade.

A generosidade desinteressada atinge a sua plenitude no amor de cada um aos seus inimigos.
Por isso o perdão é um dom perfeito, e nele brilha a liberdade do amor.

O amor que temos aos nossos inimigos é o ponto mais alto da nossa consciência moral formada pelo cristianismo

(François Varillon)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A LÓGICA DO AMOR

«O amor tem pouco a ver com merecimento.
O amor não é um prémio que se dá aos bons, mas nasce da liberdade da pessoa que ama.
Nós não amamos pessoas que achamos que merecem o nosso amor ou que seriam as melhores pessoas para amarmos e sermos amados, mas amamos porque amamos!

Eu posso escolher alguém para casar a partir de um cálculo sobre as vantagens e desvantagens; mas não posso amar alguém desta forma.
Amor tem um outra lógica que não obedece às regras racionais da retribuição, cálculo, comparação, etc.»

Jung Mo Sung, em "O Caminho Espiritual para a Felicidade"

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

AMAR O PRÓXIMO COMO A NÓS MESMOS

A auto-estima consiste em como nos vemos reflectidos nos olhos dos outros. Isso, por sua vez, condiciona a percepção do mundo e a interacção com a comunidade.

Na condição de cristãos, a auto-estima negativa se expressa basicamente como uma imagem de pessoas não amadas. Negamos nosso próprio valor, somos assombrados por sentimentos de insuficiência e inferioridade, e nos fechamos para o valor dos outros porque ameaça nossa existência. (...)

Para amar o próximo como a nós mesmos, precisamos reconhecer nosso valor e nossa dignidade intrínsecos e nos amar de forma saudável e consciente, conforme Jesus nos ordenou ao dizer: "Ame o seu próximo como a si mesmo". (...)

A capacidade de amar a si mesmo é a raiz e o pilar básico de nossa capacidade de amar aos outros e a Deus. Só posso tolerar nos outros aquilo que posso aceitar em mim.

Van Kaam escreve:

A bondade para com o meu precioso e frágil "eu", quando inspirado exclusivamente por Deus, constitui o núcleo de bondade para com os outros e com as múltiplas formas criadas do Divino ao meu redor. É também uma condição necessária para minha apresentação a Deus.

Ironicamente, nossa auto-repugnância nos leva de modo bem frequente a prejudicar a auto-estima de outros. Andrew Greeley escreve:

A missão de Deus no mundo e sua missão na relação com o crente enquanto indivíduo é essencialmente uma missão de superação da auto-aversão. Pois a auto-aversão é uma barreira ao amor. Não odiamos outras pessoas porque nos amamos demais, mas porque não conseguimos nos amar o bastante. Nós as tememos e desconfiamos delas porque nos sentimos inadequados em nossa relação com elas. Nós nos escondemos por trás de nossa raiva e ódio porque em algum recesso profundo de nossa personalidade não acreditamos que somos bons o suficiente para elas.

(Brennan Manning, em "Convite à Loucura")

domingo, 8 de fevereiro de 2009

NÃO JULGAR PARA NÃO SER JULGADO

«O homem será julgado pela sua capacidade de amar. Aquele que julga o irmão não pode amar. Só vê o mal, está impedido de ver o bem que com ele se mistura.

Este tipo de injustiça, se não for detectada, provavelmente levará à condenação.
Acertamos quando dizemos «não julguemos para não sermos julgados».

Valemos o que valem os nossos juízos.»

(François Varillon)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Para além da cortina da vida


Ignoro onde estejam os que amei e que morreram. Só sei que não estão nos cemitérios, apesar de o sol se inclinar dia após dia frente aos seus túmulos fazendo brilhar os nomes deles.

Do além não imagino nada, ou apenas algo que se assemelha àqueles campos há muito por cultivar e cujos proprietários seria impossível encontrar, mesmo procurando nos pesados registos cor de malva das repartições municipais.

Cristo percorre esta terra inculta que escapou à tirania do utilitário, com o passo lento do vagabundo que não tem nada para fazer senão contemplar os mil cambiantes da vida. Quando se estende na erva para uma sesta, borboletas aproximam-se da sua cara, agitando, com o batimento silencioso das asas coloridas, o ar que ele respira.

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

DESPERTAR


Leio nas folhinhas amarelas da bétula, brilhantes de chuva e resistindo ao vento que as fustiga, como numa carta um pouco apressada escrita por um Deus pobre.

O meu coração desperta apenas raramente, mas quando o faz é para saltar de imediato sobre a eternidade como sobre uma presa desejada.
Christian Bobin, em "Ressuscitar"

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Aceitação de si mesmo (4ªparte)

«Temos tanta dificuldade em aceitar as nossas pobrezas que até parece que nos impedem de amar: como somos deficitários neste ou naquele ponto, não merecemos ser amados.
Viver sob o olhar de Deus, faz-nos perceber que essa ideia é falsa: o amor é gratuito, não se merece, as nossas pobrezas não impedem Deus de nos amar, pelo contrário! Somos libertados do terrível e desesperante dever de sermos alguém de bem para, finalmente, merecermos ser amados.

Porém, «autorizando-nos» a ser nós mesmos, a ser pobres pecadores, o olhar de Deus também nos permite todas as ousadias no caminho da santidade: temos o direito de aspirar aos cumes, de desejar a maior santidade, pois Ele quer e pode conceder-no-la.
Nunca ficamos encerrados na mediocridade, nem somos coagidos a uma triste resignação, mas temos sempre a esperança de progredir no amor.

Do pecador que eu sou, Deus é capaz de fazer um santo, a Sua graça pode realizar este milagre, posso ter uma fé ilimitada na força do Seu amor.

Aquele que cai todos os dias e que, apesar disso, se levanta dizendo: «Senhor, agradeço-Te, pois tenho a certeza de que farás de mim um santo!» agrada muito a Deus e, mais cedo ou mais tarde, receberá o que espera.

A atitude correcta diante de Deus é, pois, a seguinte: por um lado, uma aceitação muito serena, muito «descontraída», de nós mesmos e das nossas enfermidades, e por outro, em simultâneo, um imenso desejo de santidade, uma forte determinação de progredir, baseados numa confiança ilimitada na força da graça divina.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

sábado, 31 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (3 ªparte)

«Pelo olhar que poisa sobre nós, Deus convida-nos certamente à santidade, estimula-nos à conversão e ao progresso, mas sem nunca provocar a angústia de não a atingir, aquela «pressão» que às vezes experimentamos sob o olhar dos outros ou sob o julgamento que fazemos acerca de nós próprios: nunca nos portamos suficientemente «bem», nunca suficientemente isto ou aquilo, estamos permanentemente descontentes connosco mesmos, sentimo-nos sempre culpados por não correspondermos a tal expectativa ou a tal norma.

Não é por sermos pobres pecadores que havemos de nos sentir culpados por existir, como é o caso de muitas pessoas, muitas vezes inconscientemente.
O olhar que Deus poisa sobre nós autoriza-nos plenamente a sermos nós mesmos, com as nossas limitações e insuficiências, dá-nos o «direito ao erro» e livra-nos, diria eu, daquela espécie de coacção, daquela obrigação de que às vezes nos sentimos prisioneiros (obrigação que não provém da vontade de Deus, mas da nossa psicologia ferida) de sermos, afinal, diferentes daquilo que somos.

Sob o olhar de Deus, somos libertados da coacção de sermos «os melhores», de sermos perpétuos «vencedores»; podemos viver numa profunda descontracção, pois não temos que fazer esforços contínuos para nos mostrar bem dispostos nem que despender uma energia prodigiosa para parecermos aquilo que não somos: podemos ser, simplesmente, aquilo que somos, nem mais nem menos.
Não há melhor «relaxamento» do que repousar, como criancinhas, na ternura do Pai que nos ama como somos.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (2ª parte)

«O esforço de aceitação de si mesmo custa bastante mais do que parece. O orgulho, o medo de não ser amado, a convicção de que pouco valor temos, têm, em nós, raízes muito profundas. Basta constatar como aceitamos mal as quedas, os erros, os fracassos, até que ponto nos desmoralizam, culpabilizam ou preocupam.

Na verdade, julgo que não conseguimos chegar a aceitar-nos plenamente senão sob o olhar de Deus.

Para nos amarmos a nós mesmos, precisamos de uma mediação, do olhar de alguém que nos diga como o Senhor o fez pela boca de Isaías: «Eu tenho por ti um amor eterno». (Is 54, 8).

É um caso muito vulgar: uma jovem que se acha feia (como acontece, curiosamente, a muitas jovens, apesar de serem bonitas!), começa a pensar que talvez não seja tão horrível como isso no dia em que um jovem se enamora dela e poisa no seu rosto o terno olhar dos apaixonados!

Temos uma necessidade vital da mediação do olhar do outro para nos amarmos e nos aceitarmos a nós mesmos. Do olhar de um familiar, de um amigo, de um pai espiritual, mas acima de tudo, do olhar de Deus nosso Pai. Porque é o olhar mais puro, mais verdadeiro, mais terno, mais amante, mais cheio de esperança que existe no mundo.

E julgo que o maior presente que pode receber aquele que procura o rosto de Deus perseverando na oração, é dar conta, um belo dia, desse olhar divino poisado sobre si; sentir-se-à, então, tão ternamente amado, que receberá a graça de se aceitar profundamente a si mesmo.»
(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Aceitação de si mesmo (1ª parte)

«O que há de mais importante na nossa vida, não é tanto o que podemos fazer, mas sim que demos lugar à acção de Deus.
O grande segredo de toda a fecundidade e de todo o crescimento espiritual, é aprender a deixar Deus agir: «Sem Mim, nada podeis fazer», disse Jesus. Porque o amor divino é infinitamente mais poderoso do que tudo quanto poderíamos fazer pela nossa própria sabedoria ou pelas próprias forças.

Porém, uma das mais necessárias condições para permitir que a graça de Deus actue na nossa existência, é dizer «sim» àquilo que somos e às situações em que nos encontramos.

Com efeito, Deus é «realista». A graça divina não opera no imaginário, no ideal, no sonho. Actua na realidade, no concreto da existência. Mesmo que a trama da minha vida de todos os dias não me pareça muito gloriosa, em mais parte nenhuma poderei deixar-me encontrar pela graça divina.

A pessoa que Deus ama com a ternura de um Pai, com quem se quer unir para a transformar pelo Seu Amor, não é a pessoa que eu gostaria de ser, ou que deveria ser. É a que eu sou, muito simplesmente.
Deus não ama pessoas «ideais», seres «virtuais». Ama os seres reais, concretos.

Frequentemente, aquilo que bloqueia a acção da graça na nossa vida, não são os nossos pecados, nem os nossos erros, mas a falta de aceitação da nossa fraqueza, todas as rejeições mais ou menos conscientes do que somos ou da nossa situação concreta.

Para «libertar» a graça na nossa vida, e para possibilitar mudanças profundas e espectaculares, bastaria dizer simplesmente «sim» (um sim inspirado pela confiança em Deus) a aspectos da nossa existência face aos quais nos mantemos numa posição de recusa interior.
Não admito ter esta pobreza, aquela fragilidade, ter ficado marcado por tal acontecimento passado, ter cometido um determinado pecado, e assim por diante. E sem dar conta, invalido a acção do Espírito Santo.

Este não tem pleno domínio sobre a minha realidade senão na medida em que eu próprio a aceito: o Espírito Santo nunca age sem a colaboração da minha liberdade. Se não me aceitar tal como sou, não permito ao Espírito Santo que me faça ser melhor!"

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

domingo, 25 de janeiro de 2009

«SER» e «FAZER»

«A tendência para entender o «ser» com base no «fazer» tem, certamente, um aspecto positivo na construção da pessoa, pois ela desenvolve-se pelo exercício das suas diversas capacidades...

Não podemos, porém, identificar a pessoa com a soma das suas aptidões; ela é muito mais do que isso. Não podemos avaliar ninguém unicamente pelas suas capacidades; cada pessoa tem um valor e uma dignidade únicos, independentemente de «saber fazer»....

Que lugar haveria para os pobres e para os deficientes, num mundo onde a pessoa não fosse alguém senão em função da sua eficácia, do bem visível que fosse capaz de produzir? (...)


A nossa identidade, o «ser» quem somos, para além das nossas actividades, tem uma fonte muito mais profunda: o amor criador de Deus, que nos fez à Sua imagem, e quer que vivamos para sempre com Ele, amor esse que não pode desdizer-se.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A CALMA DE UM CORAÇÃO ARDENTE


Nada preserva melhor a frescura da vida do que a calma de um coração ardente.


(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

GANHAR O MUNDO... PERDER A ALMA...

Que as pessoas desapareçam é, no fundo, menos surpreendente do que vê-las aparecer repentinamente diante de nós, como uma oferta ao nosso coração e à nossa inteligência.
Essas aparições são tanto mais preciosas quanto infinitamente raras. A maior parte das pessoas está, hoje em dia, tão perfeitamente adaptada ao mundo que se torna inexistente. (...)

A maioria das pessoas perde a alma ao tomar contacto com as coisas do mundo, tão facilmente como se perde um livro numa mudança de casa.

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A VERDADEIRA CULPA

«...A verdadeira culpa é, principalmente, você não ousar ser você mesmo. É o medo do julgamento dos outros que nos impede de sermos nós mesmos, de nos mostrarmos tal como somos, de manifestarmos nossos gostos, desejos e convicções, de nos desenvolvermos, de nos expandirmos segundo a nossa própria natureza, livremente. É o medo do julgamento dos outros que nos esteriliza, que nos impede de produzir todos os frutos que somos chamados a produzir.
"Fiquei com medo" diz, na pará­bola dos talentos, o servo que escondeu o seu talento na terra, em lugar de fazê-lo valorizar. (Mt 25:25 BLH). »

(Paul Tournier, em "Culpa e Graça")

domingo, 18 de janeiro de 2009

DOIS INSEPARÁVEIS


«No cemitério de Saint-Charles a secção das crianças fica na parte mais alta.
Anjos de mármore branco de uns cinquenta cêntimos fazem com a luz do céu ricochete sobre os túmulos estreitos.
Uma criança de cinco anos, morta em 1942, tinha um companheiro da mesma idade que, no dia do seu enterro e nas semanas seguintes, afirmara aos pais que não abandonaria o amigo e iria em breve brincar com ele debaixo da terra.
As fábricas de Creusot foram bombardeadas um ano mais tarde. A criança morreu num desses bombardeamentos. Repousa ao lado da campa do seu amigo.

Aqui, com um pouco de silêncio, pode ouvir-se a dor e o pranto das famílias.
Com um silêncio um pouco mais profundo conseguimos surpreender os risos dos dois inseparáveis, ocupadíssimos a brincar após a festa do reencontro.»
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

CORAÇÕES EM SILÊNCIO


«Comunguei um dia de tal intimidade que cada palavra de um era recolhida pelo outro sem deturpação. Acontecia o mesmo com cada silêncio. Não se tratava daquela fusão que no início os amantes conhecem e que é um estado irreal e destruidor. Havia, na amplitude do laço que se criara, algo de musical e estávamos simultaneamente juntos e separados como as asas diáfanas de uma libélula. Por ter conhecido esta plenitude, sei que o amor nada tem a ver com o sentimentalismo que perpassa nas canções, nem tão pouco com a sexualidade de que o mundo faz a principal mercadoria - a que permite vender todas as outras.

O amor é o milagre de sermos ouvidos, mesmo estando em silêncio, e de ouvirmos em troca com igual acuidade a vida em estado puro, tão leve como o ar que sustém as asas das libélulas e se alegra com os seus bailados
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

BASTA A CADA DIA...


Ao peso do dia presente, temos o mau hábito de juntar o do passado, e ainda mais o do futuro.

O remédio para essa atitude é meditar (e pedir a Deus a graça de o pôr em prática) o ensinamento do Evangelho:
«Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?(...)
Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta.
Não valeis vós muito mais do que elas? (...)

(...) não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? Que havemos de beber? Com que nos havemos de vestir?(...) Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.» (Mateus 6, 25-34)

Não se trata de sermos imprevidentes e irresponsáveis, temos obrigação de fazer projectos e de pensar no amanhã. Mas temos de o fazer sem inquietação, sem aquela preocupação que consome o coração e que não resolve nada, impedindo-nos muitas vezes de estar disponíveis para o que temos que fazer no momento presente.
É preciso «evitar transferir para o dia presente o peso e as angústias que o futuro nos inspira» (Etty Hillesum).
O coração não pode estar simultaneamente absorvido pela preocupação com o dia seguinte e acolher a graça do momento presente...

Quando Jesus nos pede que não tenhamos nenhuma preocupação, fá-lo cheio de compaixão e de ternura, principalmente para salvaguardar a qualidade das nossas relações: um coração repleto de inquietações e de preocupações, não está disponível para os outros e não pode fazer de cada momento um verdadeiro momento de comunhão, daqueles que alegram o coração.» (Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

domingo, 11 de janeiro de 2009

DEUS: do lado da vida em que estou...


Quando, bastante imprudentemente, falo de Deus, falo apenas deste lado da vida em que estou, e mais precisamente de uma parte desta vida, que está abandonada e se assemelha a uma arrecadação de ferramentas ao fundo de um jardim...

Embora não saiba nada dele, é-me impossível fazer como se não tivesse nada a ver com os nossos dias mais banais. Esses dias são livros e esses livros são escritos por Ele.
Rosto, dor e bondade são as páginas mais ricamente iluminadas, tal como roseira, pardal e primavera.

Não sei o que mais impede os homens de ler: se a avidez, se a falta de atenção. A avidez nasce da sua falta de atenção. Quando olhamos apressadamente para uma coisa bela - e todas as coisas vivas são belas porque trazem em si o segredo do seu próximo desaparecimento - apetece-nos guardá-la para nós.
Quando a contemplamos com o vagar que merece, que requer e que, por um instante, a protege do seu fim, então ilumina-se e já não temos vontade de a possuir: a gratidão é o único sentimento que responde a essa luz que entra em nós...

Contemplar sem possuir e mesmo sem compreender.
Os pardais desafiam-nos a isso com os seus cantos.
Há sob a minha janela, nos inúmeros braços da tília, uma multidão de Bach e de Schubert cujas obras não escritas me instruem sobre o que Deus é do lado da vida em que eu estou. Para conhecer o outro lado, terei um dia de afastar a cortina do meu sangue que me impede de ver.»

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

CAPACIDADE DE AMAR

«Certa vez, Frei Egídio (um dos companheiros mais queridos de S. Francisco), homem muito simples e piedoso, falou assim ao Ministro General, Frei Boaventura (+ 1274), um dos maiores teólogos da Igreja.

- Meu Pai, Deus deu-lhe muitos dotes. Eu, pessoalmente, não recebi grandes talentos. O que devemos nós, ignorantes e tolos, fazer para sermos salvos?

O douto e santo Frei Boaventura elucidou-o dizendo:

- Se Deus não desse ao homem nenhuma outra capacidade senão a de amar, isto lhe bastaria para se salvar.

- Quer dizer que um ignorante, pode amar a Deus tanto como um sábio?, perguntou Frei Egídio, tentando entender.

- Mesmo uma velhinha muito ignorante, disse-lhe com ternura o grande teólogo, pode amar mais a Deus do que um professor de Teologia.


Dando pulos de alegria, Frei Egídio correu para a sacada do convento e começou a gritar:

- Ó velhinha ignorante e rude, tu que amas a Deus Nosso Senhor, podes amá-l`O mais do que o grande teólogo Frei Boaventura.


E, comovido, ficou ali, imóvel, durante três horas.»

(Pe. Neylor J. Tonin, em "Histórias de Sabedoria")

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A VIDA NA SUA PUREZA


Na altura em que nasci, uma fada debruçou-se sobre o meu berço e disse-me:

«Não experimentarás senão uma parte minúscula desta vida e em troca compreendê-la-ás toda.»


Quinze segundos de pureza aqui, outros dez além: com um pouco de sorte, terá havido na minha vida, quando partir, pureza suficiente para perfazer uma hora.


Christian Bobin, em "Ressuscitar"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Só o Amor conta...


Já não acredito no amor, porque só nele acredito.

Apostei tudo num amor que não pode fazer parte deste mundo, mesmo iluminando-lhe cada detalhe.

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

sábado, 3 de janeiro de 2009

UM CORAÇÃO PURO


«A Agnès tinha nascido numa família nobre e rica, daquelas que só se encontram nos contos, ou em Inglaterra. Perfumes sem preço, jóias antigas, sedas finas e viagens por um mundo impecavelmente liso - sim, tudo isso rodeou Agnès, do berço até à sepultura, mas a maravilha não estava no dinheiro nem na litania um pouco cansativa das portas que faz abrir à sua frente como num sonho.

A única maravilha era o coração da Agnès: um diamante cuja pureza dava aos seus olhos uma limpidez implacável. Mais do que de maravilha poder-se-ia falar de milagre: uma santa milionária - estas duas palavras, que não combinam, e que, no entanto, convêm perfeitamente a essa jovem, qual sapatinho ao pé da Cinderela.

Ao nascer a Agnès tinha recebido dinheiro e beleza. O dinheiro pode traçar caminho através de um coração como uma lagarta numa maçã. A beleza de uma mulher e o poder que lhe dá sobre os homens fracos pode inebriá-la, convencendo-a de que se gerou a si mesma e de que, como a uma divindade, tudo lhe é devido.

A Agnès tinha a seu favor ambas as coisas quando uma única basta para destruir uma alma.
A sua bondade tinha-a preservado, inspirando-lhe uma conduta ao mesmo tempo cheia de delicadeza e intransigente. "Prefiro, dizia ela, dormir debaixo da ponte a viver com um homem sem amor."

Infinitamente raras são as mulheres que, no seu desejo de amor, não fazem entrar a menor sombra de calculismo. A pureza ardia-lhe nos olhos, como um fogo perpétuo...»
(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

UM BOM ANO!


A todos os visitantes, leitores, amigos e irmãos, desejo um Ano de 2009, com tudo o que permita que juntos nos tornemos pessoas melhores, mais humanas e fraternas.
«Começar, estamos sempre a começar. Temos um Ano Novo pela frente, mas começar de novo não é começar outra vez, não é repetir alguma coisa, é começar de outro modo, com novidade. E o primeiro gesto devia ser o de agradecer esta imensa oportunidade.

Este ano será aquilo que fizermos dele: se cultivarmos uma atitude de egoísmo e individualismo, será assim; mas se nos comprometermos com a construção da paz e da justiça no mundo, então teremos um bom Ano Novo.

Não esqueçamos ao longo do ano que começa hoje que há uma imensa sabedoria em viver cada dia como se fosse o primeiro e há imensa felicidade em viver cada dia como se fosse o último. As duas coisas são possíveis ao mesmo tempo.»

(Vasco Pinto de Magalhães, em "Não há soluções. Há caminhos.")

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A PRISÃO DO ORGULHO

Choro, metido na masmorra
do meu nome.
Dia após dia, levanto, sem descanso,
este muro à minha volta;
e à medida que se ergue no céu,
esconde-se em negra sombra
o meu ser verdadeiro.

Este belo muro é o meu orgulho,
que eu retoco com cal e areia
para evitar a mais leve fenda.

E com este cuidado todo,
perco de vista
o meu ser verdadeiro.

(Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera")

domingo, 28 de dezembro de 2008

EGOÍSMO

Fui sozinho à minha entrevista,
Quem é esse que me segue
na escuridão calada?

Afasto-me para ele passar,
mas não passa.

Seu andar soberbo
levanta poeira,
sua voz forte
duplica a minha palavra.

Senhor,
é o meu pobre eu!
Ele não se importa com nada.
Mas como sinto vergonha
por ter de vir com ele à tua porta!

(Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera")

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

UMA NOITE ILUMINADA, A PARTIR DE DENTRO


Um Santo e abençoado Natal para todos vós: amigos, leitores, irmãos.
Sintam-se abraçados fraternalmente.
"É tempo de luzes, de corridas nas lojas e de prendas.
Que qualidade de vida é esta?
Dar presentes ou ser presentes?
Não valeria mais a pena estar presente, dar atenção, dar tempo, dar ouvidos, dar oportunidades, dar-se?
Vamos dar a nós mesmos um espaço para reflectirmos e para nos alegrarmos?
Ou vamos ter mais um Natal de consumo, sem sumo nenhum?"

(Vasco Pinto de Magalhães, em "Não há soluções. Há caminhos")

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O MUNDO NOVO DO AMOR VERDADEIRO

«Aprender a dar e a receber gratuitamente pressupõe uma reeducação longa e laboriosa da nossa psicologia, que não está «estruturada» para um tal regime, pois está condicionada por milénios de necessidade de luta pela sobrevivência.
Diria talvez que a irrupção da revelação divina e do Evangelho no mundo, é como que um fermento evolutivo que tem por objectivo «transferir» o nosso psiquismo para uma lógica de gratuidade - a do Reino, a do amor. Trata-se de um processo de divinização, pois o objectivo é chegarmos a amar como Deus ama: «Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste» (Mt 5, 48) (...)

Não podemos adoptar uma nova maneira de ser senão à custa do «luto» de muitos dos nossos comportamentos naturais, de uma espécie de agonia. No entanto, uma vez transporta a «porta estreita» da conversão da mentalidade, o universo ao qual acedemos é esplêndido: é o Reino, o mundo onde o amor é a única lei, um paraíso de gratuidade onde o amor pode permutar-se sem limites, dar-se e receber-se sem restrições, onde já não há «direitos» nem «deveres», nada a defender nem nada a conquistar, nenhuma oposição entre o «teu» e o «meu», onde o coração se dilata ao infinito.

Neste mundo novo, reina o amor, um amor terrivelmente exigente (pois quer tudo: enquanto não amarmos totalmente, não amamos de verdade), mas soberanamente livre, pois não tem outra lei senão ele próprio.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

DAR E RECEBER GRATUITAMENTE

Estamos no mundo para aprender a amar, matriculando-nos na escola de Jesus.
Aprender a amar é extremamente simples: é aprender a dar gratuitamente e aprender a receber gratuitamente....

Dar gratuitamente não é para nós espontâneo. Temos uma grande tendência para dar para receber em troca. O dom de nós mesmos é sempre motivado, em maior ou menor grau, pela expectativa de alguma gratificação. O Evangelho convida-nos a pôr de parte essa limitação para praticar um amor tão puro e desinteressado como o do próprio Deus, um amor que seja livre precisamente por ser capaz de existir e de durar sem ser condicionado pela resposta nem pelo mérito daquele a quem se destina...

Também não temos facilidade em receber gratuitamente...
Receber gratuitamente pressupõe que tenhamos confiança naquele que dá, que tenhamos o coração aberto e disponível para receber...

Não podemos receber gratuitamente se não nos reconhecermos e nos aceitarmos como pobres; e o orgulho recusa-se terminantemente a fazê-lo. Somos capazes de reivindicar, de exigir, mas raramente de aceitar.

Pecamos por falta de gratuidade sempre que, nas nossas relações com Deus ou com os outros, o bem que tivermos realizado nos sirva de pretexto para reivindicar algum direito, para exigir reconhecimento ou qualquer gratificação por parte de outro. E também, mais subtilmente, sempre que tivermos receio, por causa desta ou daquela limitação ou falha pessoal, de não receber amor, como se o amor devesse pagar-se ou merecer-se.»

(Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

domingo, 14 de dezembro de 2008

Por causa do Teu Amor

«Trata-se de uma autêntica revolução interior: proceder de maneira a não me apoiar no amor que tenho a Deus, mas exclusivamente no amor que Deus me tem...
Quando já não acreditares no que podes fazer por Deus, continua a acreditar no que Deus pode fazer por ti...

Deus não me ama por causa do bem de que sou capaz, do amor que Lhe tenho, mas ama-me de uma maneira absolutamente incondicional, por causa de Si mesmo, da Sua misericórdia e da Sua infinita ternura, unicamente em virtude da Sua Paternidade para comigo.

Esta experiência produz um grande abalo na vida cristã, que vem a ser uma graça imensa: o fundamento da minha relação com Deus, da minha vida, não mais está em mim, mas total e exclusivamente em Deus.» Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior"

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A VIDA É ESPANTOSA...


«Tem nove meses. Está sentado ao meu lado no carro que conduzo através de um campo inundado de sol. Enquanto tomo atenção à estrada, observo-o de vez em quando.
Tem nos olhos a gravidade de um sábio. Estuda as luzes, as sombras e os laços dos sapatinhos, que agarrou. Por vezes um pensamento fá-lo franzir a testa.

Abrando um pouco, inclino-me para ele e digo-lhe a rir: "A vida é espantosa. Vamos todos morrer mas mesmo assim é fabulosa."
Ele interrompe os estudos, fixa em mim os olhos negros como ameixas, sorri de lado e retoma os pensamentos profundos, imperturbável, majestoso.» (Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

ALMAS PURAS E SIMPLES


Os orgulhosos ensinaram-me a humildade,
os impacientes a lentidão,
os perversos ensinaram-me a rectidão e,
quanto aos raros que possuíam uma alma simples,
ensinaram-me a ler no seu coração os enigmas do universo visível e invisível,
tão facilmente como um recém-nascido lê na face da sua mãe.

Há poucas alegrias neste mundo
que não tenham secretos laivos de melancolia,
e é uma felicidade sem mácula descobrir uma alma pura.
São almas que se parecem com os primeiros livros infantis:
também contêm poucas palavras e são igualmente coloridas.

Não há alegria mais violenta que encontrar uma alma pura:
dá vontade de morrer de imediato."

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O CORAÇÃO DE DEUS


Deus é mais fácil de matar do que um pardal,
e o Seu coração
mais fácil de rasgar do que uma folha de papel -
até as crianças sabem disso...

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")


domingo, 7 de dezembro de 2008

O Pintarroxo


"Tornei-me amigo de um pintarroxo. Olhava para mim, de patitas solidamente plantadas num ramo de árvore.
Um Deus trocista brilhava nos seus olhos e parecia dizer-me:
"Porque passas a vida a tentar fazer coisas? Ela é tão boa quando vai passando, indiferente a razões, projectos e ideias.".
Não soube que responder-lhe." - Christian Bobin, em "Ressuscitar"

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O MAL VEM PREENCHER UM VAZIO

«Observei muitas vezes que as pessoas mais críticas são aquelas que têm em si um grande vazio espiritual. Chego a perguntar-me se determinadas pessoas não sentem necessidade de fabricar inimigos para poderem exisitir, precisamente por ser enorme o seu vazio interior...

Se o mal penetra o nosso coração, é porque aí encontra um lugar onde se instalar, uma certa cumplicidade.
Se o sofrimento nos faz azedos e maus, é por termos o coração vazio: vazio de fé, de esperança e de amor.
Pelo contrário, se nele houver uma total confiança em Deus, se esperar tudo da Sua bondade e fidelidade, se a finalidade da nossa vida não for a procura de nós mesmos, mas fazer a vontade de Deus, amá-l`O de todo o coração e amar o próximo como a nós mesmos, então o mal não pode penetrar nele de maneira nenhuma.

Se nos enraizarmos em Deus pela fé e pela oração, se deixarmos de censurar aqueles que nos rodeiam por tudo o que não corre bem na nossa vida e de nos considerar vítimas dos outros ou das circunstâncias, se assumirmos decididamente as nossas próprias responsabilidades e aceitarmos a nossa vida como é, se lançarmos mão, constantemente, das nossas capacidades de crer, esperar e amar, se estivermos resolvidos a conquistar a liberdade de que temos falado (liberdade interior), ela ser-nos-á progressivamente concedida.» (Jacques Philippe, em "A Liberdade Interior")

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

NÃO JULGAR

Quantos de nós não nos irritamos e julgamos os outros, sem compaixão; sem tentar compreender as suas motivações mais íntimas; a dor e o sofrimento que podem estar por detrás de uma determinada atitude, reacção ou comportamento?

Partilho convosco uma história que li há pouco tempo:

«Stephen Covey lembrou-se de um incidente enquanto andava no metro de Nova York, num domingo de manhã. Os poucos passageiros a bordo estavam lendo jornal ou cochilando. Era uma viagem silenciosa, quase sonolenta.
Covey estava absorto em sua leitura quando um homem, acompanhado de vários filhos pequenos, entrou na estação seguinte. Em menos de um minuto irrompeu-se um tumulto. As crianças corriam para cima e para baixo no corredor, gritando, berrando e brigando entre si no chão. O pai deles não fez nenhuma tentativa de intervenção.
Os passageiros mais idosos, irritados, mudavam de lugar. O stress se transformou em angústia. Certamente o pai faria algo para restabelecer a ordem: uma gentil palavra de correção, uma ordem severa, alguma expressão de autoridade paterna—qualquer coisa. Nada disso aconteceu. A frustração aumentava.

Depois de uma pausa apropriada e generosamente longa, Covey se virou para o pai e disse gentilmente:
- Senhor, seria possível restabelecer a ordem aqui dizendo a seus filhos que voltem e se sentem.
- Eu sei que deveria fazer alguma coisa —, respondeu o homem. — Nós acabamos de sair do hospital. A mãe deles morreu há uma hora. Simplesmente não sei o que fazer.
[1]

A compaixão sincera que provoca o perdão amadurece quando descobrimos onde nosso inimigo chora.»

Brennan Manning, em "O Impostor que vive em mim"
[1] Stephen Covey, The seven habits of highly effective people, seminário gravado em cassette. Provo, ut.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A Corrente do Teu Amor


Permite que de mim reste apenas aquele pouco,
pelo qual eu possa chamar-Te o meu tudo.
Permite que da minha vontade reste apenas aquele pouco,
pelo qual eu possa sentir-Te em todo o lugar,
chegar a Ti em cada coisa,
e em cada momento oferecer-Te o meu amor.

Permite que de mim reste apenas aquele pouco,
pelo qual eu jamais possa Te esconder.

Permite que das minhas correntes reste apenas aquele pouco,
pelo qual eu fique ligado à Tua vontade,
aquele pouco pelo qual
o Teu projecto se realiza na minha vida:
a corrente do Teu amor.

(Rabindranath Tagore)