quinta-feira, 10 de julho de 2008

O nosso amor imperfeito

«Precisamos ter uma visão correcta em relação a nós próprios e ao outro. Não devemos esperar tudo do outro. O outro nunca nos poderá oferecer o amor absoluto, uma tranquilidade absoluta e uma compreensão total. Os psicólogos dizem que temos de desmistificar as relações entre duas pessoas, que não devemos exagerar nas exigências, para que o amor possa amadurecer. Só Deus poderá proporcionar algo absoluto. Se elevarmos a relação a um nível ideal e esperarmos do outro o Paraíso na Terra, estaremos a exigir demasiado dele através das nossas expectativas. Nesse caso, a relação tornar-se-á cada vez mais difícil. No entanto, se aceitarmos, agradecidos, aquilo que o outro, com as suas limitações, nos oferece em termos de amor, tranquilidade e compreensão, a nossa relação será facilitada. Reconhecemos, naquilo que recebemos do outro, uma referência ao amor absoluto. E, desta forma, a relação com o outro permanece viva no nosso percurso rumo ao amor absoluto, que Deus representa. É por esse motivo que, para mim, a relação com Deus é uma grande ajuda para que a relação entre as pessoas tenha êxito.» (Anselm Grun, em "O Livro das Respostas")

terça-feira, 8 de julho de 2008

Caminho para a verdade

"Quando o amor revela a mágoa que há em nós, não é raro pensarmos que foi o outro quem nos magoou. E pagamos-lhe na mesma moeda, magoando-o também. Surge assim um ciclo vicioso de mágoa recíproca, que não aprofunda o amor, mas antes o destrói. Aquele que se entrega ao caminho do amor deve saber que se trata de um caminho para a verdade, um caminho onde descubro a minha própria verdade e também a do outro. É o reconhecimento da verdade que é verdadeiramente doloroso. Mas o amor é também a oportunidade de curar esta lesão. Se me aceitar a mim próprio com as minhas feridas e não julgar o outro devido às suas lesões, mas o amar tal como ele é, é possível que o amor cure as minhas feridas e as dele." (Anselm Grun, em "O Livro das Respostas")

domingo, 6 de julho de 2008

Caminhos do Amor

«Para que o amor tenha êxito a longo prazo, não devo confundi-lo com a emoção. Amar não significa estar eternamente apaixonado. O estar apaixonado tem de se transformar num amor que aceita o outro tal como ele é. É frequente descobrirmos o outro com as nossas próprias imagens e desejos e amarmos mais a imagem que fizemos do outro do que aquilo que ele na realidade é. Amar o outro tal como ele é não é tarefa fácil. Exige que abdiquemos de todas as ilusões que criámos sobre ele. E exige também que abdiquemos da ilusão de que o amor é sempre maravilhoso. Frequentemente, é apenas lealdade para com o outro. Isso significa mais do que simplesmente suportá-lo. É dizer-lhe que sim no carácter mediano e banal. E o amor não é sinónimo de uma felicidade duradoura. Não existe amor sem dor. No amor, abro-me ao outro, e, ao fazê-lo, torno-me vulnerável. Sem esta sinceridade, o amor não seria possível. No amor pelos outros, conhecemo-nos com todas as lesões que sofremos na vida. O amor pode magoar, mas também é capaz de curar essa lesão.» (Anselm Grun, em "O Livro das Respostas")

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O Poder do Amor

“O que nos é pedido é apenas uma coisa: amar; e, se algo pode consegui-lo, é certamente esse amor que há-de tornar, tanto a nós quanto o próximo, dignos. De facto, isso é uma das coisas mais importantes em matéria de amor. Não existe neste mundo outra maneira de tornar alguém digno de amor senão amando-o. Logo que alguém reconhece ser amado – se não é tão fraco que não suporte mais ser amado – sente-se instantaneamente transformado e a caminho de ser digno de amor. Procurará, então, corresponder, extraindo das profundezas do seu ser um misterioso valor espiritual, uma identidade nova, chamada a existir pelo poder do amor que lhe é dedicado.” - Thomas Merton

terça-feira, 1 de julho de 2008

Liberdade no Espírito


"Liberdade é aceitar que, quando pertencemos a um grupo, raça, tribo, família, comunidade, religião, nenhum desses é perfeito, cada um tem os seus limites e fragilidades. Toda a comunidade de humanos tem a sua luz e sua escuridão. Todos nós somos parte de algo maior do que nós. Todos nós fluimos de uma fonte insondável e estamos todos caminhando para ela, levando connosco a luz da verdade e do amor. Cada um de nós é chamado a estar em comunhão com a fonte e centro do universo. Os infinitos anseios de nosso coração nos chamam para estar em comunhão com o Infinito. Nenhum de nós pode se satisfazer com o limitado e com o finito. Cada um de nós deve ser livre para seguir o Espírito de Deus." (Jean Vanier)

domingo, 29 de junho de 2008

Uma Viagem surpreendente


"Deus é uma palavra que por um aceno nos chama. Chama-nos para fora de nós mesmos, para lá de nós mesmos. É o Deus das surpresas, sempre a criar de novo.

Ele actua no coração de cada ser humano, ama a cada um, e atrai-o para Si. Não faz acepção de pessoas, nem respeita nenhuma das hierarquias humanas sociais ou profissionais, que para Ele não contam. "Derruba os poderosos dos seus tronos, e exalta os humildes". Ele actua nos Cristãos de qualquer denominação, em qualquer religião, e até nos corações dos que professam não ter religião alguma. Nenhuma religião pode monopolizar a acção de Deus, embora a maior parte delas o tente fazer, proclamando que todo aquele que não seguir o caminho que ela lhe aponta, não pode salvar-se.

Nós fomos feitos à imagem de Deus, e partilhamos do seu mistério. Se todos nós temos impressões digitais diferentes, não é de supreender que cada um de nós tenha de ter uma maneira única de conhecer e compreender Deus. Seguimos todos na mesma viagem, mas o caminho é diferente para cada um, e temos de o descobrir em liberdade. Na Igreja Cristã há guias que Ele nos oferece, sobretudo pela Sagrada Escritura e pela tradição docente, mas, em última análise, somos nós que havemos de encontrar o caminho, somos os responsáveis pela nossa viagem.

O termo dela é Deus. Mas Deus é mistério, o que não parece ser para nós uma grande fonte de informação. É como se nos mandassem fazer uma viagem, não só necessária, mas uma viagem que é para nós questão de vida ou de morte, e quando perguntássemos o destino dessa tão importante viagem, nos respondessem que não se sabe, nem se pode saber, e só nos dissessem "Ânimo e boa viagem!"» (George W. Hughes, em "O Deus das surpresas")

quinta-feira, 26 de junho de 2008

APELO DE DEUS

«Quantas vezes, um encontro não esbarrou contra barreiras de blocos de cimento em mim!

Coração de pedra, coração de pedra,
sinto... medo,
fuga em mim...
Incapaz de amar, de escutar,
procuro esquivar-me.
Quem poderá libertar-me?

Aquele que se agarra à segurança do trabalho quotidiano,
do horário, da organização, da família e das amizades,
esse já não vive.

Para viver, é preciso a segurança,
mas mais ainda
a aventura, o risco, o dinamismo, o dom de si, a solidariedade com os outros.

Medo de perder o meu dinheiro, o meu tempo,
a minha reputação, a minha liberdade;
medo, sobretudo, de me perder a mim próprio,
medo do desconhecido,
porque a miséria é uma terra desconhecida;
terror do desespero: essas mãos... essas mãos,
essas mãos que se estendem para mim,
essas mãos,
tenho medo de as tocar,
porque me podem submergir
num futuro desconhecido...

Então, volto as costas... e fecho-me em mim...
na minha segurança...
sozinho dentro de mim mesmo...

Recuso-me a amar... porque tenho medo da tua mão estendida,
que me chama para o desconhecido do amor... ;
porque tenho medo do vazio que há em mim, da minha pobreza, do chamamento para a morte;
tenho medo de mim próprio e fecho o meu coração... bloco de cimento que me separa de ti,
meu irmão desesperado...

Tu, sim, tu estás numa prisão de desespero e tristeza.
Eu também sou prisioneiro, as minhas grades são,
os meus supostos amigos, os meus clubes, as convenções sociais de moda;
barreiras que eu consolidei para te tirar da minha vida, meu irmão,
porque a tua presença, miserável, triste, é um apelo...
Desvio o olhar, ou, então, tenho a ousadia...
(o amor é o maior de todos os riscos)
de me dar a ti, meu irmão.

Terei eu a coragem de mergulhar no redemoinho da água viva, do amor fiel?

Que eu tenha a audácia,
a audácia de crer no teu apelo silencioso,
nas tuas lágrimas de silêncio.

Mas há também o mundo da eficiência, das técnicas, dos diplomas, dos negócios (negócios são negócios!),
e os amigos que pensam que sou louco... (serão meus amigos? estarei eu louco?)
a dúvida, as forças inimigas, a lassidão;
o medo.

Todavia, a vida chama-me, a compaixão mora nas minhas entranhas,
essa guerra estranha e silenciosa...
Terei a ousadia de crer? Terei a ousadia de fugir ao Teu apelo?
«Se abrires a tua alma ao faminto, e fartares o aflito; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio dia. O Senhor te guiará continuamente, e te fartará até em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca falham. E os que de ti procederem edificarão as ruínas antigas; e tu levantarás os fundamentos de muitas gerações; e serás chamado reparador da brecha, e restaurador de veredas para morar.» (Isaías 58, 10-12)

Ó Deus, ó meu Deus,
não me deixeis vergar, diminuir!
Não me deixeis afundar num sono sem fim!
Impedi que caia na prisão dos hábitos egoístas cujas grades são os amigos superficiais,
os «cocktails», as gargalhadas estúpidas, os beijos sem amor,
os presentes para glória do ofertante, os negócios e as administrações sem coração;
essas grades que impedem a vida cheia de cor em busca do infinito, aberto ao Teu apelo.»

(Jean Vanier, em "Novas perspectivas do amor")

terça-feira, 24 de junho de 2008

Pedidos dos filhos (2)

Eis a 2ª parte do precioso e pertinente artigo publicado pelo meu caro amigo Pe. Sandro Rogério. O artigo é da autoria de Dom Orlando Brandes, arcebispo de Londrina/PR, é presidente do Setor Família da CNBB. Com a devida autorização, reproduzo hoje a segunda parte.

«Os filhos aprendem imitando. Daí a necessidade do casal se querer bem e dar bom exemplo. Dizia um filho aos pais: “peço que vocês me amem quando eu não mereço, porque é aí que eu mais preciso ser amado.” Nada disso é fácil. O nascimento dos filhos traz grandes mudanças na família. Os cônjuges esquecem de ser esposos, trocam os papeis, e começam a ser somente pais. Apegar-se aos filhos e esquecer o cônjuge é um perigo. O primeiro amor na família é sempre o amor conjugal, depois o amor filial.

Além disso, temos pais agressivos e pais permissivos, mas precisamos de pai e mãe participativos. Os pais apegados aos filhos sofrem demais quando eles devem deixar o lar. Os desequilíbrios dos filhos levam ao desajuste do casal e vice-versa. Os pais conscientes tratam os filhos conforme a idade que eles têm. É preciso saber mudar de marcha. Pais ajustados, filhos equilibrados.

Um filho escreveu para seus pais: “Eu sou forte no mal porque vocês foram fracos no bem. Por isso estou preso”. Os pais nunca podem abdicar do diálogo, devem estar abertos em buscar soluções e aceitar ajuda. Ninguém é infalível. Os pais aprendem com os filhos, mas devem sempre colocar limites e apresentar valores. Lares sem disciplina criam filhos folgados e omnipotentes que se tornam delinquentes. É a tirania dos filhos sobre os pais.

Temos hoje a “família filiarcal” que sucedeu à família matriarcal e depois à patriarcal. Filiarcalismo é fazer dos filhos pequenos deuses. Eles não ajudam em nada nos trabalhos da casa, deixam roupas sujas em cada canto, só comem o que querem, dominam os pais que se tornam seus escravos e reféns. Pais permissivos são mais prejudiciais que os autoritários.

Os filhos emitem sintomas que sinalizam a presença de problemas familiares. Quando os pais vão mal os filhos entram em ansiedade. Hoje a grande tentação é resolver as crises com o “divórcio fácil”. É preciso crer nas soluções, na reorganização da família. O filho problema pode tornar-se o melhor. A ovelha negra se torna uma benção, quando recorremos a Deus, ao perdão, ao diálogo, à disciplina. Quem olha as soluções não cai nas acomodações. Os heróis se forjam nas carências e crises.

A arte de ser bons pais começa já no útero materno. A preparação para a missão de ser pai e mãe é assunto do namoro e noivado. Pais despreparados, filhos desequilibrados; pais ausentes, filhos delinqüentes; pais permissivos, filhos onipotentes; pais omissos, filhos rebeldes. Carregamos dentro de nós a criança que fomos no passado. Vale a pena investir no casal para que os filhos cresçam sadios, seguros e amorosos. A família é a esperança da sociedade e o futuro do mundo.»

domingo, 22 de junho de 2008

Pedidos dos filhos (1)

No magnífico blog do meu caro amigo Pe. Sandro Rogério, encontrei uma pérola de sabedoria que tenho o prazer de partilhar convosco.

«Os filhos pedem a seus pais e educadores vinte solicitações.

1. Não tenham medo de ser firmes comigo. Sua firmeza me dá segurança.
2. Não me tratem com excesso de mimo. Nem tudo o que eu peço me convém.
3. Não me corrijam na frente de outras pessoas. Isso me revolta.
4. Não permitam que eu forme maus hábitos. Dependo de vocês para saber o que é certo e o que é errado.
5. Não façam promessas apressadas. Sinto-me mal quando as promessas não são cumpridas.
6. Não me sufoquem com suas preocupações. Eu também preciso aprender com o sofrimento e com os erros.
7. Não sejam falsos comigo. A falsidade me faz perder a fé em vocês.
8. Não me incomodem com ninharias. Irei fazer-me de surdo.
9. Não dêem a impressão de serem perfeitos, infalíveis. O choque será muito grande quando eu descobrir seus defeitos.
10. Não deixem sem respostas minhas perguntas. Do contrário, deixarei de fazê-las e buscarei informações em outros lugares.
11. Não se sintam humilhados ao terem que pedir desculpas. O perdão me aproxima de vocês.
12. Não digam que minhas preocupações e problemas são tolices. Tentem compreender-me. Ficarei mais sereno.
13. Não esqueçam que estou crescendo e mudando rapidamente. Tentem acertar o passo comigo.
14. Não me comprem presentes. O melhor presente é a presença de vocês. Com vocês sinto-me seguro, forte, amado.
15. Acolham-me desde a fecundação, alimentem-me com aleitamento materno, dêem-me colo, toquem-me porque preciso de tudo isto para crescer saudável e equilibrado.
16. Preciso de um pai forte e amigo, de uma mãe equilibrada e feliz. Seu jeito de ser é que fica marcado em mim. Poderei esquecer suas palavras, não esquecerei seus gestos.
17. Não imponham nem direcionem minha profissão e vocação. Podem aconselhar-me, mostrar-me suas razões, mas deixem-me a liberdade de escolher.
18. Se vocês se amam eu me sinto amado por vocês. Se vocês brigam, não dialogam, não se perdoam, eu me sinto um órfão de pais vivos.
19. Porque vocês foram fracos no bem, eu agora sou forte no mal. Se vocês são pais despreparados eu cresço desequilibrado.
20. Se vocês não me elogiarem, se me castigarem injustamente, se não me ensinarem a rezar, se satisfizerem todos os meus desejos, vocês estragam minha vida.
Os filhos aprendem imitando.»
[continua no próximo post]

Dom Orlando Brandes, arcebispo de Londrina/PR, é presidente do Setor Família da CNBB e escreveu o artigo com o título acima (pedidos dos filhos).Com a devida autorização, reproduzi hoje a primeira parte.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Desejos desordenados

«A vida interior que influencia a nossa maneira de ver o mundo, actua nele, e reage perante ele, é complexa, caótica, um ameaçador misto de pensamentos, memórias, emoções, desejos e temores. A resposta a este caos está nos meus desejos. "Cada um é levado pelos seus próprios desejos", escreveu o poeta Virgílio...

O problema está na muliplicidade e variedade de desejos conflituosos que há dentro de nós. Como havemos de descobrir o que realmente desejamos? Os nossos desejos mais à superfície são sempre os que mais barulho fazem, e os mais exigentes. Quando os satisfazemos podem deixar-nos a sensação de vazio interior e de tristeza, porque, satisfazendo-os, frustámos outros desejos mais profundos dentro de nós.

Se conseguíssemos descobrir aquilo que realmente desejamos, se tomássemos consciência dos mais profundos desejos que há dentro de nós, descobriríamos então a vontade de Deus.» (George W. Hughes, em "O Deus das surpresas")

terça-feira, 17 de junho de 2008

Tal Deus não existe

"Se persistimos na ideia de que para nos virarmos para Deus devemos primeiro provar que Ele existe, então nunca O encontraremos, porque estamos a tratar o Deus do nosso ser como se fosse um problema intelectual que podemos resolver por nossas forças, definir claramente, colocá-l´O em seu lugar, e depois render-Lhe o que julgamos ser-Lhe devido. Um tal Deus não existe.

Nós somos constantemente tentados a fazer um Deus à nossa imagem e semelhança, a divinizar a nossa estreiteza de vistas e a nossa importância e chamamos a isto a vontade de Deus. Deus é mistério, a Palavra que nos interpela, e Ele chama-nos para lá da estreiteza dos nossos horizontes. A nossa única segurança está no que Ele é, e não no modo como nós imaginamos que Ele é." (George W. Hughes, em "O Deus das surpresas")

domingo, 15 de junho de 2008

Tenho medo...

«Tenho medo
Dessa misteriosa força da compaixão.
Não creio nela
porque isso implica que me encontre a mim mesmo,
que não represente mais
uma peça,
uma personagem,
de máscara,
para fingir,
mas que me torne eu próprio,
aceitando a minha própria pobreza,
deixando respirar,
viver,
crescer
o Espírito em mim,
abrindo o meu ser
sem medo,
quando a Sua mão delicada me toca
e me abre…

Tenho necessidade de sentir
que sou,
que sou único,
capaz de amar e de viver,
e não apenas um ser anónimo,
perdido na multidão,
que vê a vida ao longe,
mas uma pessoa viva.

Não devo continuar numa espécie de
não-vida,
fechado,
desesperado,
porque isso é uma antecipação da morte.

O amor é o maior de todos os riscos…
é o dom de si mesmo.
Terei eu a ousadia de correr tal risco…
e mergulhar
nas águas límpidas,
nas águas impetuosas,
nas águas vivas do amor,
raízes indestrutíveis?

Amor:
mais que um momento que passa,
mais que um olhar rasgado de um instante;
uma compaixão profunda, inalterável,
sem curiosidade mórbida,
sem piedade esmagadora, sem ingenuidade ineficaz.»



(Jean Vanier, em "Novas perspectivas do amor)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Salvos pelo Amor

«O amor é o mistério mais profundo e mais sublime do universo, origem e termo de todas as coisas; exige, porém, força de carácter, fidelidade, perspicácia de inteligência, delicadeza de coração e, sobretudo, disponibilidade para o diálogo, aceitação e abertura ao outro, disposições raras na nossa sociedade. Mas as coisas raras são, frequentemente, as mais encantadoras e trata-se de dirigir para elas o olhar, o coração e o espírito dos homens do nosso tempo.


Hoje como nunca, temos necessidade de homens e mulheres como os astronautas e os grandes sábios que descobriram a energia nuclear, mas no campo do amor.» - Jean Vanier, em "Novas perspectivas do amor"

terça-feira, 10 de junho de 2008

É Amor!

Já partilhei convosco muitos pensamentos, citações, contos, reflexões e meditações sobre o amor. A que se segue, não é apenas mais uma tentativa de exprimir algo tão inexprimível e inefável como o amor. Para mim, as palavras de Agostinho exprimem e personificam na perfeição a essência do Amor. É Amor!


«Um dia, estava S. Agostinho diante do Sacrário a desabafar o coração:

Meu Jesus, amo-Vos, amo-Vos com todas as minhas forças, e porque Vos amo, arrependo-me de haver-Vos ofendido tantas vezes na minha vida passada.

E ouviu uma voz que lhe disse:

– Agostinho, quanto Me amas?

– Senhor, se o sangue das minhas veias fosse azeite, eu quereria que esse azeite se consumisse por vosso amor, como se consome o azeite desta lâmpada, que arde diante do vosso tabernáculo.

– Agostinho, nada mais? – repetiu a voz.

– Senhor, amo-Vos tanto, tanto, que se os meus ossos fossem velas, queria que se derretessem de amor, como se derretem estas velas que alumiam o vosso altar.

– Agostinho, nada mais?

– Senhor, amo-Vos tanto, tanto, que se eu tivesse tantos corações como há de estrelas no céu, e gotas de água no oceano, e areias na praia, e átomos no espaço, com esses corações eu Vos quisera amar.

– Agostinho, nada mais?

Então olhando através das suas lágrimas a porta do sacrário, encontrou a resposta digna da sua inteligência extraordinária e da sua santidade:

– Senhor, como quereis que eu Vos ame mais, se o coração humano já não pode amar mais? Mas Senhor, eu amo-Vos tanto, tanto, que, se Vós fosseis Agostinho e eu fosse Deus, eu deixaria de ser Deus para que Vós o fosseis, e contentar-me-ia com ser o pobre Agostinho!

– Agostinho, isso é o Amor! – foi a resposta divina.»


Fonte: Blogue: "A Capela"

domingo, 8 de junho de 2008

A Fonte do Verdadeiro Amor

«Fora do amor de Deus, o amor dos homens corre o grande risco de não ser mais do que o prolongamento do amor de si mesmo (Pe. de Lubac).

... O outro é sempre, em certa medida, um meio privilegiado para o amor que eu tenho por mim mesmo. O meu sofrimento é ver-me obrigado a dizer, com toda a lucidez, que sou incapaz de amar verdadeiramente.
Só Deus ama absolutamente e nos concede amar como Ele ama.» (François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Amar

«...Amar é respirar, inspirar e expirar, dar e receber. O amor fica asfixiado quando este ritmo não é respeitado.
Amar um ser é ambicionar não tanto satisfazê-lo quanto fazê-lo crescer, superar-se, gastar-se, dar-se, em suma, amar.
A grande perfeição do amor está em saber ter necessidade daquele a quem damos tudo.» -

(Henri Caffarel, em "Nas Encruzilhadas do Amor.")

terça-feira, 3 de junho de 2008

O Poder da Palavra

"O acto da fala deve ser uma expressão do nosso amor e da nossa bondade para com as pessoas. No entanto, isso só é possível quando, ao falar, não colocamos a nós mesmos no centro, nem tentamos manter a pessoa longe de nós, mas, sim, sem egoísmo, ficamos abertos para a pessoa e suas necessidades. Assim, a palavra se torna um serviço de amor em prol de alguém que espera por uma palavra de ânimo ou alegria." Anselm Grun, "Não Esqueça o Melhor"

domingo, 1 de junho de 2008

O Jardineiro

«- Aceito apenas o que de boa vontade me ofereces: nada mais peço.
- Sei disso! Bem conheço o pedinte modesto que és: queres tudo quanto tenho.
- Ah! se eu tivesse essa flor que deixaste cair, levá-la-ia no meu coração.
- E se ela tivesse espinhos?
- Eu os suportaria.
- Sei disso! Bem conheço o pedinte modesto que és: queres tudo quanto tenho.
- Um olhar apenas dos teus olhos amorosos tornaria para sempre feliz a minha vida.
- E se esse olhar fosse mau?
- Guardaria no coração a cicatriz que ele me deixasse.
- Sei disso! Bem conheço o pedinte modesto que és: queres tudo quanto tenho.

(Rabindranath Tagore)

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Dois tipos de amor

"Há dois tipos de pessoas, porque há duas formas de amor.
Um amor santo, outro egoísta.
Um se preocupa com o bem comum em favor do entendimento mútuo e da fraternidade espiritual,
o outro procura submeter o bem comum ao próprio bem,
satisfazendo a arrogância e a ânsia de domínio;
um é submisso a Deus,
enquanto o outro trabalha para igualar-se a Deus.

Enquanto um trabalha pela paz,
o outro é insubordinado;
um prefere a verdade às honras humanas,
o outro anseia pelos louvores, ainda que sejam falsos;
um é amigo,
o outro é invejoso;
um deseja para o próximo o mesmo que deseja para si,
o outro deseja submeter o próximo a si mesmo;
um ajuda os demais interessado neles,
o outro se interessa por si mesmo."

(Santo Agostinho)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O AMOR CURA


«Só nos braços de alguém que nos ama podemos ousar mergulhar até ao fundo do abismo do nosso coração, reconhecer o nosso mal, confessá-lo, enfim, sermos verdadeiros perante nós mesmos e perante Deus. E começar uma vida nova».

É verdade que o mal descoberto não pode deixar de causar vergonha, uma vergonha que geraria angústia e desespero se, ao mesmo tempo, no olhar daquele que nos ama, não descobríssemos que há em nós uma beleza, mais profunda que o nosso mal, capaz de suscitar estima e amor.»

(Henri Caffarel, em "Nas encruzilhadas do amor")

domingo, 25 de maio de 2008

Aprender a ser livre


«Ao crescer, o homem descobre paulatinamente que tem um espaço interior, no qual está, de algum modo, à disposição de si mesmo. Ele percebe que, essencialmente, não depende nem dos pais, nem dos professores do colégio; não depende dos meios de comunicação, nem tão pouco da opinião pública. Experimenta um espaço no qual está a sós consigo mesmo, onde é livre. Descobre seu mundo interior, sua própria intimidade.
O íntimo é o que só a pessoa conhece: é o «santuário» do humano. Posso entrar dentro de mim, e aí ninguém pode me aprisionar.
Quando «estou comigo», facilmente percebo quão desnecessário e inclusive ridículo é o buscar a confirmação e o aplauso dos demais. O valor de uma pessoa não depende dos outros, não depende dos aplausos ou gestos de confirmação que possa receber ou não.
Somos mais do que vivemos no exterior. Há um espaço em nós ao qual os outros não têm acesso. É nossa «pátria interior», um espaço de silêncio e quietude. Enquanto não o descubramos, viveremos de um modo superficial e confuso, buscando consolo onde não há - no mundo exterior.
O homem é livre, quando mora na própria casa.
Infelizmente, há muitas pessoas que não «estão consigo», mas sempre com os outros. Não sabem descansar em si mesmas. » (Jutta Burggraf)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Solidão


«O nosso grande tormento na existência vem do facto de estarmos eternamente sós e de todos os nossos esforços, de todos os nossos actos tenderem apenas para um fuga a essa solidão.» - Guy de Maupassant

«Todo o nosso mal provém de não podermos estar sós: daí o jogo, o luxo, a dissipação, o vinho, as mulheres, a ignorância, a maledicência, a inveja, o esquecimento de si e de Deus.» - La Bruyère

terça-feira, 20 de maio de 2008

Eis aqui minha biografia

Senhor, eis aqui minha biografia, meu livro de vida...
É documentário e confesso que é muito difícil escrever a vida como vós quereis...
É difícil, Senhor, escrevê-la quando não se é escritor,
quando nunca se aprendeu tal ofício.
Mas a vida não se aprende:
Toda vida é um romance novo, único no género, sempre obra de primeira mão.
É difícil, Senhor, não poder copiá-lo, pois vós não aceitais plágios.
É difícil, Senhor, não poder corrigi-la.
Dela não podemos arrancar páginas mal escritas, ou apagar alguma coisa.
O que escrevi ficará sempre escrito.
O que eu posso é manifestar meu arrependimento,
escrevendo páginas melhores.
É difícil, Senhor, seguir este ritmo da vida que me leva inexoravelmente adiante...
Mas obrigado, Senhor, por retratar-me das páginas passadas
em cada nova página que escrevo.
É difícil, Senhor, ir virando as folhas, dia a dia,
na angústia de não saber o dia da entrega do manuscrito...
Mas não seria, Senhor, mais angustioso ainda saber o dia e a hora?
É difícil, Senhor, não sabermos quantas folhas em branco nos restam
para desenvolver satisfatoriamente o tema...
Um dia qualquer vós me tomareis a caneta das mãos
e escrevereis debaixo do meu último rabisco:
Fim.
É difícil, Senhor, não poder reclamar, então:
"Ainda não terminei...",
porque há sinfonias inacabadas que são obras primas
e há existências longevas que nunca acertaram o tema.
Tive pena do tempo perdido...
Mas, Senhor, não tivestes minha vida, a cada instante, em vossas mãos?

(Rabindranath Tagore)

domingo, 18 de maio de 2008

Contra ventos e tempestades: SÊ!


«Quanto melhor é uma pessoa, mais incomoda as pessoas más.

Se podes ser melhor do que és, é evidente que ainda não és tão bom como deves.

Quem caminha no sentido oposto ao Ser caminha para o nada.»

(Santo Agostinho)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

És o que dás


"... A morte onde cada um entra absolutamente só,
levando consigo unicamente o que se deu.
O que não se deu fica aí e apodrece pouco a pouco;
mas o que se deu é transformado em ser e vai com a pessoa para a eternidade. Porque o nosso ser constrói-se com o que damos..."

(François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Queres ser grande?

"Queres ser grande? Começa por ser humilde. Planejas levantar o edifício da tua própria perfeição? Começa por escavar os alicerces da tua humildade. E quanto mais alto o edifício, tanto mais profundos os alicerces. Vê bem que os edifícios sobem quando os alicerces são aprofundados. De tal forma que a grandeza torna-se pequena e a pequenez, grande." - Santo Agostinho

terça-feira, 13 de maio de 2008

Livre no amor


"Não se é livre senão para amar,
porque em tudo o que está fora do amor existe o poder de dominar
que oprime e impede o homem de ser plenamente homem."

(François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Dá-me forças


"Dá-me, ó Deus, forças para tornar o meu amor frutuoso e útil.
Dá-me forças para jamais desprezar o pobre nem curvar o joelho ante o poder insolente.
Dá-me forças para levantar o espírito bem alto, acima das futilidades de todo dia.
Dá-me forças para que me humilhe, com amor, diante de Ti.

Não sou mais que um farrapo de nuvens de outono, vagando inútil pelo céu, ó Sol glorioso!
Se é Teu desejo e Teu aprazimento, toma do meu nada, pinta-o de mil cores, irisa-o de ouro,
fá-lo flutuar no vento, e espalha-o pelo céu em múltiplas maravilhas...
E depois, se for Teu desejo terminar à noite tal recreio,
eu desaparecerei, esvaecendo-me em treva,
ou talvez em um sorriso de alvorada,
na frescura da pureza transparente".
(Rabindranath Tagore)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Minha Canção

Minha Canção Te Envolverá Com Sua Música,
como os abraços sublimes do Amor.
Tocará o teu rosto como um Beijo de Graças.
Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido.

Minha Canção será como asas para os teus sonhos
e elevará teu coração até o Infinito.
Quando a noite escurecer o teu caminho,
minha Canção brilhará sobre ti como a Estrela Fiel.
Se fixará nos teus lindos olhos e guiará teu olhar até à Alma das Coisas.
Quando minha Voz se calar para sempre,
minha Canção te seguirá em teus pensamentos."
(Rabindranath Tagore)

terça-feira, 6 de maio de 2008

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 4 de maio de 2008

Do Amor...

O amor dá-se apenas a si mesmo
e nada recebe se não de si próprio.
O amor não possui nem quer ser possuído.
Porque o amor se basta do amor.

Quando amardes,
não deveis dizer que está no meu coração,
mas antes, no coração de Deus.
E não penseis que sois vós quem orienta o rumo do amor,
pois, se vos achar dignos,
será o amor que conduzirá o vosso caminho.

O amor não tem outro desejo
que não realizar-se a si mesmo.
Mas se amardes e sentirdes desejos,
que sejam estes os vossos desejos:
Dissolver-se e ser-se como um regato que desliza e canta à noite a sua melodia.
De tanta ternura conhecer a dor,
ser ferido pela vossa própria concepção do amor
e sangrar de boa vontade e com júbilo.
Acordar para o amor com um coração alado
e dar graças por um outro dia de amor;
e fazer uma pausa à hora do meio dia e meditar sobre o êxtase do amor;
regressar à noite ao lar com gratidão;
e adormecer com uma oração no coração pelo amado,
e nos lábios um hino de louvor.

Kahlil Gibran, em "O Profeta"

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Amizade verdadeira


"Quando nosso quotidiano é preenchido somente com relacionamentos funcionais, pragmáticos, utilitaristas, ficamos doentes. Nossa vida espiritual pode funcionar, mas já não vai irradiar nada da bondade de Deus e do seu amor para as pessoas. Para a nossa vida espiritual ficar sadia e viva, precisamos ter bons relacionamentos, lúdicos e cheios de calor humano, aos quais dedicamos nosso tempo. Uma amizade verdadeira fecunda também a vida espiritual." - Anselm Grün, em "Não se esqueça do melhor"

quinta-feira, 1 de maio de 2008

E O PRÉMIO VAI PARA...


O Abrigo dos Sábios foi nomeado por outro blog amigo: Olhai os lírios do campo. Assim continuamos esta "RedeTeia" cumprindo as regras.
Pela blogosfera decorre uma inciativa com a finalidade de homenagear blogs de amigos que nos visitam ou que nós visitamos e que, de alguma forma, têm pontos em comum connosco.
Desta forma o blog Abrigo dos Sábios foi nomeado pela Viviana, pessoa muito amiga, generosa e amável que possui um espaço que é um convite permanente à reflexão e à contemplação da beleza que nos rodeia. "Olhai os lírios do campo" (http://olhaioliriodocampo.blogspot.com/).

Como é um blog muito bom, sim senhora!
De acordo com as seguintes regras:
1. Este prémio deve ser atribuído aos blogs que gostamos e visitamos regularmente, postando comentários.
2. Ao receber o selo "é um blog muito bom sim senhora"! devemos escrever um post incluindo:o nome de quem nos deu o prémio com o respectivo link de acesso+ a tag do prémio + a indicação de outros 7 blogs.
3. A tag do prémio deve ser exibida no blog.Assim o blog, http://www.abrigodossabios-paulo.blogspot.com/ conhecido por Abrigo dos Sábios, declara que os blogs que visita e comenta, entre outros que comenta e visita lamenta não nomear são:

http://flor-odesabrochar.blogspot.com/ (O Desabochar de uma simples flor)
http://sandrogerio.zip.net/ (Tudo tem seu tempo)

"Porque é um Prado Verdejante onde crescem plantas de sabedoria e de nobreza de carácter."
Viviana

terça-feira, 29 de abril de 2008

O amor fresco e puro...


Não quero o amor que desconhece limites,
como o vinho espumante que rompe o vaso e se derrama,
perdendo-se em um instante.

Envia-me o amor fresco e puro como Tua chuva
que abençoa a terra sedenta e enche as vasilhas do lar.
Envia-me o amor que penetra até ao centro do ser
e daí se espalha, como seiva invisível, pelos ramos da árvore da vida,
fazendo brotar flores e frutos.
Envia-me o amor que mantém o coração tranquilo, com a plenitude da paz.

(Rabindranath Tagore)

domingo, 27 de abril de 2008

Quando estiverem afinadas...


Quando estiverem afinadas, Mestre,

todas as cordas da minha vida,

cada vez que as toques, cantarão de amor.

(Rabindranath Tagore)

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O pássaro livre e o pássaro domesticado



O pássaro domesticado vivia na gaiola e, o pássaro livre, na floresta.

Mas o destino deles era se encontrarem, e a hora finalmente havia chegado.

O pássaro livre cantou: - Meu amor voemos para o bosque.

O pássaro preso sussurrou: - Vem cá, e vivamos juntos nesta gaiola.

O pássaro livre respondeu: - Entre as grades não há espaço para abrir as asas.

- Ah, lamentou o pássaro engaiolado - no céu não saberia onde pousar.

O pássaro livre cantou: - Amor querido, canta as canções do campo.

O pássaro preso respondeu: - Fica junto comigo, e eu te ensinarei as palavras dos sábios.

O pássaro da floresta retrucou: - Não, não! As canções não podem ser ensinadas!

E o pássaro engaiolado gemeu: - Ai de mim! Eu não conheço as canções do campo.

Entre eles o amor era sem limites, mas eles não podiam voar asa com asa.

Olhavam-se através das grades da gaiola, mas em vão desejavam se conhecer.
Batiam as asas ansiosamente, e cantavam: - Chega mais perto, meu amor!

Mas o pássaro livre dizia: - Não posso! Tenho medo da tua gaiola com portas fechadas.

E o pássaro engaiolado sussurrava: - Ai de mim! As minhas asas ficaram fracas e morreram. - (Rabindranath Tagore)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Sim, bem sei...


Sim, bem sei, ó Amado do meu coração,
tudo isso não é senão o Teu Amor ;
esta luz dourada que dança sobre as folhas,
estas nuvens preguiçosas navegando pelo céu,
esta brisa fugitiva deixando uma frescura em minha fronte.

A luz da manhã inundou os meus olhos;
essa é a Tua mensagem ao meu coração.
A Tua face debruça-se do alto,
os Teus olhos olham os meus olhos aqui em baixo,
e o meu coração resvala pelos Teus pés.

(Rabindranath Tagore)

domingo, 20 de abril de 2008

Ser Amor

«Estive duas vezes no monte Athos. Lembro-me com prazer da primeira visita há vinte anos. O velho padre nos cumprimentou, a mim e a meu irmão, em Simonos Petras. Não entendemos nada do que ele falava. Mas as mãos que nos estendeu eram tão macias e sensíveis que exalavam amor. E os seus olhos irradiavam tal amor que logo nos sentimos em casa. Então pressenti como uma pessoa pode mudar quando é atravessada por inteiro pelo amor de Deus.
Quando olho tais pessoas que são puro amor lembro-me também de uma velha camponesa em cujo olhar se podia ler amor e misericordiosa doçura. Ela passou por altos e baixos na vida. Não falava muito. Mas em todo o seu ser brilhava um amor que brotava em todos os poros do seu corpo. Dessas pessoas flui um amor que tudo une, Deus, homem e criação. Elas estão em harmonia consigo mesmas e com a sua vida. Elas se amam e se sabem profundamente amadas por Deus. Elas fazem o seu amor fluir para tudo que encontram, para os homens, mas também para os animais e as coisas, que elas tocam amorosamente.
É provável que o leitor também conheça essas pessoas que são preenchidas de amor em todo o seu ser. Perto delas, você se sente em casa, aceite, amado. Mas o que é isso que irradia dessas pessoas? Temos dificuldade quando tentamos definir com mais precisão aquilo a que chamamos amor. Só podemos descrever que o amor é, evidentemente, uma qualidade do sentir, do falar e do agir, uma força que flui de nós, uma irradiação. Nela estão as qualidades da doçura, da bondade, da ternura, da amizade, da mansidão, da alegria. Por fim, estão reunidos no amor todos os frutos do Espírito que Paulo enumera na Epístola aos Gálatas (Gl 5,22s).» - Anselm Grun, "Morar na casa do Amor"

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Liberdade


«Liberdade é uma condição essencial para ser feliz. É muito mais que fazer o que lhe apetecer! Isso é livre-arbítrio, não Liberdade… Liberdade é querer fazer o que considero melhor fazer, ainda que custe, ainda que, superficialmente, não me apeteça. Ser livre implica ser muito forte, porque é um combate que se trava consigo próprio. Ser livre é ser protagonista nas minhas opções, decisões e acções, não porque só se faz o que apetece, mas porque se está radicalmente comprometido com o que se faz.»

Rui santiago, Jovens redentoristas

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Como as criancinhas


"Ás vezes, em sonho triste
nos meus desejos existe
longinquamente um país
onde ser feliz consiste
apenas em ser feliz. " - Fernando Pessoa

«As crianças a brincar juntas mostram-nos a alegria de estarem juntas, assim..., nem mais nem menos. Um dia, quando eu estava muito ocupado a entrevistar uma artista que admirava bastante, a sua filhinha de cinco anos disse-me: «Fiz um bolo de aniversário com areia. Agora tem de vir e fingir que o está a comer e que gosta dele. Vai ser divertido!» A mãe sorriu e disse-me: «É melhor você brincar com ela antes de falar comigo. Talvez ela tenha mais a ensinar-lhe do que eu.»

A alegria simples e directa duma criança recorda-nos que Deus se manifesta nos lugares onde há sorrisos e até risadas. Os sorrisos e as risadas abrem as portas do reino. Eis por que Jesus faz um apelo a que nós sejamos como crianças.» - Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

domingo, 13 de abril de 2008

Surpreendidos pela Alegria


«Nós somos surpreendidos pela alegria ou pela tristeza?

O grande desafio da fé é sermos surpreendidos pela alegria. Recordo-me duma vez em que estava sentado à mesa de jantar com alguns amigos a discutir sobre a depressão económica do país. Continuávamos a amontoar estatísticas que nos convenciam cada vez mais de que as coisas não podiam senão piorar. Então, de repente, o filho de quatro anos dum dos meus amigos abriu a porta, correu para o pai e disse-lhe: «Olha, pai! Olha! Encontrei um gatinho no jardim... Olha!... Não é giro?» E, enquanto mostrava o gatinho ao pai, o menino acariciava-o com as mãos e apertava-o contra a face. Tudo mudou de repente. O miúdo e o gatinho tornaram-se o centro das atenções. Houve sorrisos, carícias e muitas palavras de ternura. Enfim, fomos surpreendidos pela alegria!

Deus fez-Se um menino no meio dum mundo violento. Seremos nós surpreendidos pela alegria ou contiuamos a dizer: «Sim, é bonito e terno, mas a realidade é diferente?» E que tal se a criança nos revelasse aquilo que, efectivamente, é a realidade?» - Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O Olhar de Amor


«Deus não é o olhar curioso, o olhar inquiridor, o olhar que esquadrinha, o olhar que julga. Deus não é também o olhar condescendente, que vem de cima para baixo, olhar que fere, olhar que ignora o outro como pessoa, olhar que despreza.(...)

Ser bom com Deus: que frase maravilhosa! Não somos bons com Deus se O tratamos como alguém que Ele não é; não somos bons com Deus se O tratamos pura e simplesmente como um juiz.» - François Varillon, em "Viver o Evangelho"


Deus é: "Um olhar de amor que me faz existir e me faz crescer no amor." (clicar)

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Beijo de Amor


«(...) o beijo é a troca de respirações, que significa a troca das nossas profundidades: respiro-me em ti, expiro-me em ti e aspiro-te em mim de tal maneira que esteja em ti e tu estejas em mim.

Quer dizer, saio de mim mesmo para já não ser eu o meu próprio centro para que, doravante, o meu centro sejas tu. É a ti que eu amo, és tu o meu centro, vivo para ti e por ti; sei que tu também sais de ti, que já não és tu o teu próprio centro, estás centrado(a) em mim. Eu estou centrado em ti, vivo para ti. Tu estás centrado(a) mim, vives para mim e ambos vivemos um pelo outro. Amar é viver para o outro (é o dom) e viver pelo outro (é o acolhimento). Amar é renunciar a viver em si, para si e por si.» -François Varillon, em "Alegria de Crer e de Viver"

domingo, 6 de abril de 2008

Há amores assim

Donna Maria - "Há amores assim"




Há amores assim
Que nunca têm início
Muito menos têm fim
Na esquina de uma rua
Ou num banco de jardim
Quando menos esperamos
Há amores assim

Não demores tanto assim
Enquanto espero o céu azul
Cai a chuva sobre mim
Não me importo com mais nada
Se és direito ou o avesso
Se tu fores o meu final
Eu serei o teu começo

Não vou ganhar
Nem perder
Nem me lamentar
Estou pronta a saltar
De cabeça contra o mar

Não vou medir
Nem julgar
Eu quero arriscar
Tenho encontro marcado
Sem tempo nem lugar

Je t’aime j’adore
Um amor nunca se escolhe
Mas sei que vais reparar em mim
Yo te quiero tanto
E converso com o meu santo
Eu rezo e até peço em latim

Quando te encontrar sei que tudo se iluminará
Reconhecerei em ti meu amor, a minha eternidade
É que na verdade a saudade já me invade
Mesmo antes de te alcançar
É a sede que me mata
Ao sentir o rio abraçar o mar

Sem lágrima caída
Sou dona da minha vida
Sem nada mais nada
De bem com a vida

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O Amor de Deus



«Não é possível entrar em competição para ver quem é que ganha o amor de Deus. O amor de Deus é um amor que abraça a todos - cada um na sua própria unicidade. Só quando reivindicamos o nosso lugar no amor de Deus é que podemos experimentar o abraço total desse mesmo e incomparável amor e sentirmo-nos em segurança, não só em relação a Deus mas também em relação a todos os irmãos e irmãs. »


Henri Nouwen, em "Viver é Ser Amado"

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Coração Puro

"Quem o tem o coração puro? Aquele que não mancha o seu coração nem com o mal que comete nem com o bem que faz». -Dietrich Bonhoeffer, citado por François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver"

domingo, 30 de março de 2008

O Poder de Dar



"Dar é a expressão mais elevada de potência. No próprio acto de dar, eu experimento a minha força, o meu valor, o meu poder. A experiência de uma elevada vitalidade enche-me de alegria. Eu experimento-me como transbordante, provedor, vivo e, portanto, alegre. Dar causa mais alegria que receber, não porque seja uma privação, mas porque, no acto de dar, encontra-se a expressão da minha vitalidade." - Erich Fromm, citado por Dallas Willard, em "A renovação do coração"

Lanço um apelo ao vosso coração generoso e solidário: uma amiga que é professora teve conhecimento que uma antiga colega de residência encontra-se há três anos a leccionar em S. Tomé e depara-se diariamente com as mais diversas dificuldades. Todos podemos contribuir para ajudar a minorar esta situação. Objectos que temos em abundância (como lápis, canetas, cadernos, livros escolares, dicionários e obras literárias portuguesas) podem fazer a diferença naquela escola e, acima de tudo, na aprendizagem daqueles alunos.

Por favor consultem o blogue:http://projectosaotome.blogspot.com/

Muito obrigado!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Quando chegamos ao fundo...


"...é deprimente procurar Deus quando o navio está afundando debaixo de nós; deprimente achegar-nos a Ele como um último recurso, oferecer a nossa pessoa quando não vale mais a pena guardá-la.

Se Deus fosse orgulhoso Ele jamais nos aceitaria nesses termos, mas Ele não é orgulhoso, Ele desce até nós para conquistar, Ele aceita-nos embora tenhamos mostrado que preferimos tudo o mais a Ele, e nos achegamos porque agora não há "nada melhor" que possamos ter.(...)"


C.S. Lewis, em "O problema do sofrimento"

quarta-feira, 26 de março de 2008

Amar é viver

"(...) Vida é o "algo mais" da existência. Não é um suceder de dias gastos e desgastantes, sem passado que alegre nem futuro que entusiasme. É uma construção quotidiana do mais fundo de mim próprio, do que sou, para lá do que tenho ou pareço. É uma descoberta do essencial, do eterno, do "eu" que permanece porque é mais forte que a morte. E só o que tem coração é eterno… só o que tem densidade de amor permanece, porque no frente-a-frente com a morte, só o amor se aventura sem lutar para perder. Seremos eternamente a plenitude do que agora construirmos; e construímo-nos agora na medida em que amamos.(...)"

terça-feira, 25 de março de 2008

A Vida é...

"A vida é uma oportunidade dada por Deus para nos tornarmos quem somos, para afirmarmos a nossa própria e autêntica natureza espiritual. (...)

O mistério insondável de Deus é que Ele é um Enamorado que quer ser amado. Aquele que nos criou está à espera da nossa resposta ao amor que nos deu o ser. "



Henri Nouwen, em "Viver é Ser Amado"

sexta-feira, 21 de março de 2008

Naquele dia, Naquele monte



Ele olhou ao redor da montanha e previu uma cena.
Três corpos pendurados em três cruzes.
Braços estendidos.
Cabeças inclinadas para frente.
Eles gemiam por causa do vento.
Homens fardados estavam sentados no chão, perto dos três.
Homens com roupas de religiosos se afastaram para o lado...
arrogantes, convencidos.
Mulheres envolvidas em sofrimento estão reunidas ao pé da montanha...
rostos marcados pelas lágrimas.

Todo o céu se levantou para lutar.
Toda a natureza se ergueu para o resgate.
Toda eternidade posicionou-se para dar proteção.
Mas o Criador não deu ordem alguma.
"Isso deve ser feito...", disse, e retirou-se.
O anjo disse outra vez: "Seria menos doloroso se..."
O Criador interrompeu brandamente: "Mas não seria amor..."

quinta-feira, 20 de março de 2008

Ser verdadeiramente


"O lugar para o qual Deus nos destina no Seu esquema de coisas é o lugar para o qual somos feitos. Quando o alcançamos, a nossa natureza é preenchida e a nossa felicidade alcançada: um osso quebrado foi colocado no seu lugar no universo, a angústia passou. Quando queremos ser outra coisa que não aquela que Deus quer que desejamos, devemos estar desejando, de facto, aquilo que não nos fará felizes. " - C.S. Lewis, em "O problema do sofrimento"

" Quanto mais deixamos que Deus assuma o controle sobre nós, mais autênticos nos tornamos - pois foi Ele quem nos fez. Ele inventou todas as diferentes pessoas que eu e você tencionávamos ser (...) É quando me viro para Cristo e me rendo à sua personalidade que pela primeira vez começo a ter minha própria e real personalidade." - C.S. Lewis, em "Cristianismo puro e simples"

terça-feira, 18 de março de 2008

1 ANO DE EXISTÊNCIA


Estimados amigos, visitantes e leitores, o "Abrigo dos Sábios" comemora hoje o seu primeiro ano de existência. Estão todos convidados para comer um pedacinho do bolito. É pequenino, mas bem dividido chega para todos. O importante é o espírito de comunhão, partilha e celebração!

Hoje, não há postagens. Este cantinho virtual pertence a todos vós que o visitam, lêem, comentam. Por isso, hoje estão todos convidados para expressarem as vossas opiniões, impressões, reflexões, pensamentos, sentimentos e emoções que este blog vos inspira, provoca, desperta...
Por exemplo: Qual o significado que ele tem para ti? Qual o post que mais te emocionou, marcou? Há quanto tempo o conheces? O que mais gostas e menos gostas no blog?

Estou aberto a sugestões, dicas, conselhos. O importante é melhorar, evoluir, crescer, aprender...

Partilhem comigo reflexões, frases, histórias, pensamentos, contos... Escolherei os que mais gostar para publicar no blog.

Obrigado a todos! Deus vos abençoe!


domingo, 16 de março de 2008

Felicidade Peregrina



«... a felicidade é justamente a colecção das pequenas alegrias que vamos colhendo e celebrando pelo meio do caminho. Como todos nós, a nossa felicidade também é peregrina. Guimarães Rosa sabia disso ao afirmar: "a felicidade não está nem na partida nem na chegada, mas no meio da travessia".

Já que a vida é infinita enquanto dura, então devemos celebrá-la constantemente fazendo o bem e fazendo isso muito bem. Se a felicidade é peregrina, o bem é definitivo. E no meio disso tudo está a vida, dom de Deus a ser celebrado, a ser desfrutado.»

Clovis Pinto de Castro em "Transformados pela Palavra de Deus" - W4 EndoNet - Comunicação.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Alegria de dar

«A nossa humanidade atinge a sua expressão mais alta no acto de dar.(...)

É triste constatar como, num mundo altamente competitivo e ávido de sucesso, perdemos o contacto com a alegria de dar. Com frequência vivemos até como se a nossa felicidade dependesse de ter. Mas o que acontece é que eu não conheço ninguém que seja realmente feliz pelo que tem. A alegria autêntica, a felicidade e a paz interior, provêm da capacidade de nos doarmos aos outros. Uma vida feliz é uma vida pelos outros. (...)»

Henri Nouwen, em "Viver é Ser Amado"


Convido-vos a ler (com atenção) e a reflectir (com profundidade) na seguinte parábola: Mar da Galileia/ Mar Morto (clicar)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Só dê ouvidos a quem te ama


«Só dê ouvidos a quem te ama. Outras opiniões, se não fundamentadas no amor, podem representar perigo. Tem gente que vive dando palpite na vida dos outros. O faz porque não é capaz de viver bem a sua própria vida. É especialista em receitas mágicas de felicidade, de realização, mas quando precisa fazer a receita dar certo na sua própria história, fracassa.Tem gente que gosta de fazer a vida alheia a pauta principal de seus assuntos. Tem solução para todos os problemas da humanidade, menos para os seus. Dá conselhos, propõe soluções, articula, multiplica, subtrai, faz de tudo para que o outro faça o que ele quer.

Só dê ouvidos a quem te ama, repito. Cuidado com as acusações de quem não te conhece. Não coloque sua atenção em frases que te acusam injustamente. Há muitos que vão feridos pela vida porque não souberam esquecer os insultos maldosos. Prenderam a atenção nas palavras agressivas e acreditaram no conteúdo mentiroso delas. Há muitos que carregam o fardo permanente da irrealização porque não se tornaram capazes de esquecer a palavra maldita, o insulto agressor.

Por isso repito: só dê ouvidos a quem te ama. Não se ocupe demais com as opiniões de pessoas estranhas. Só a cumplicidade e conhecimento mútuo pode autorizar alguém a dizer alguma coisa a respeito do outro.
Ando pensando no poder das palavras. Há palavras que bendizem, outras que maldizem. Descubro cada vez mais que Jesus era especialista em palavras benditas. Quero ser também. Além de bendizer com a palavra, Ele também era capaz de fazer esquecer a palavra que amaldiçoou. Evangelizar consiste em fazer o outro esquecer o que nele não presta, e que a palavra maldita insiste em lembrar. Quero viver para fazer esquecer... Queira também. Nem sempre eu consigo, mas eu não desisto. Não desista também. Há mais beleza em construir que destruir.

Repito: só dê ouvidos a quem te ama. Tudo mais é palavra perdida, sem alvo e sem motivo santo. Só mais uma coisa. Não te preocupes tanto com o que acham de ti. Quem geralmente acha não achou nem sabe ver a beleza dos avessos que nem sempre tu revelas. O que te salva não é o que os outros andam achando... mas é o que Deus sabe a teu respeito.»

Pe. Fábio Melo

terça-feira, 11 de março de 2008

O frio que vem de dentro

Seis homens ficaram bloqueados numa caverna por uma avalanche de neve. Teriam que esperar até ao amanhecer para poderem receber socorro. Cada um deles trazia um pouco de lenha e havia uma pequena fogueira ao redor da qual eles se aqueciam. Se o fogo apagasse - eles sabiam -, todos morreriam de frio antes que o dia clareasse.
Chegou a hora de cada um colocar a sua lenha na fogueira. Era a única maneira de poderem sobreviver.

O primeiro homem era um racista. Ele olhou demoradamente para os outros cinco e descobriu que um deles tinha a pele escura. Então ele raciocinou consigo mesmo: - "Aquele negro! Jamais darei a minha lenha para aquecer um negro". E guardou-a, protegendo-a dos olhares dos demais.
O segundo homem era um rico avarento. Ele estava ali porque esperava receber os juros de uma dívida. Olhou ao redor e viu no círculo em torno do fogo bruxuleante, um homem da montanha, que trazia a sua pobreza no aspecto do semblante e nas roupas velhas e remendadas. Ele fez as contas ao valor da sua lenha e enquanto mentalmente sonhava com o seu lucro, pensou: - "Eu? Dar a minha lenha para aquecer um preguiçoso?" E reservou-a.
O terceiro homem era um negro. Os seus olhos faiscavam de ira e ressentimento. Não havia qualquer sinal de perdão ou mesmo aquela superioridade moral que o sofrimento ensina. Seu pensamento era muito prático: - "É bem provável que eu precise desta lenha para me defender. Além disso, eu jamais daria a minha lenha para salvar aqueles que me oprimem". E guardou a sua lenha com cuidado.
O quarto homem era um pobre da montanha. Ele conhecia mais do que os outros os caminhos, os perigos e os segredos da neve. Ele pensou: - "Esta nevasca pode durar vários dias. Vou guardar a minha lenha."
O quinto homem parecia alheio a tudo. Era um sonhador. Olhando fixamente para as brasas. Nem lhe passou pela cabeça oferecer da lenha que carregava. Ele estava preocupado demais com as suas próprias visões (ou alucinações?) para pensar em ser útil.
O último homem trazia, nos vincos da testa e nas palmas calosas das mãos, os sinais de uma vida de trabalho. Seu raciocínio era curto e rápido. - "Esta lenha é minha. Custou o meu trabalho. Não darei a ninguém nem o menor dos meus gravetos".

Com estes pensamentos, os seis homens permaneceram imóveis. A última brasa da fogueira cobriu-se de cinzas e finalmente apagou-se. Ao alvorecer do dia, quando os homens do Socorro chegara à caverna, encontraram seis cadáveres congelados, cada qual segurando um feixe de lenha. Olhando para aquele triste quadro, o chefe da equipe de Socorro disse: - "O frio que os matou não foi o de fora, mas o frio que veio de dentro".

Autor desconhecido







domingo, 9 de março de 2008

Deus Procura-te


Hoje, quero partilhar convosco um texto de um escritor que admiro imenso. É um texto retirado de um livro maravilhoso que aconselho vivamente: "O Regresso do Filho Pródigo". Este trecho que escolhi reflecte em parte o que tem sido a minha busca e experiência de Deus. Mas, o que eu considero mais importante neste trecho é o facto de que "Deus é o Pai que anda em busca dos filhos, vela por eles, corre ao seu encontro, os abraça, roga, suplica e anima a que voltem para casa. Por estranho que pareça, Deus deseja encontrar-me tanto, se não mais, do que eu desejo encontrar Deus. Sim, Deus reclama-me tanto como eu a Ele.".
Mas, Deus não se impõe, não pressiona, não oprime. Bem a propósito são as palavras de outro autor cristão que muito estimo: "Deus respeita de modo absoluto a liberdade do ser humano. Ele a criou, e não foi para petrificá-la, ou violentá-la. É por isso que ele jamais grita, nem impõe. Ele sugere, propõe, convida. Ele não diz "Eu quero", mas "Se tu quiseres ... " Expressões como "os mandamentos de Deus" ou "a vontade de Deus" devem, assim, ser tomadas com cuidado, e compreendidas segundo o amor. Deus não repreende: ele deixa esse cuidado à nossa consciência. "Ele é maior que o nosso coração", diz São João na sua primeira carta. Ele fica escondido para não se tornar irresistível.. A sua invisibilidade é uma forma de pudor". - François Varillon


«Ao longo de toda a minha vida tenho lutado por encontrar Deus, por conhecer Deus, por amar a Deus; procurei seguir as directrizes da vida espiritual - orar constantemente, trabalhar pelos outros, ler as Escrituras - e evitei muitas tentações de arranjar desculpas. Falhei muitas vezes, mas voltei sempre a tentar, mesmo quando estive à beira do desespero. Agora pergunto se durante todo este tempo tive ou não suficiente consciência de que Deus andou a procurar encontrar-me, conhecer-me e amar-me.
A questão não é «Como hei-de encontrar Deus?», mas: «Como hei-de deixar que Deus me encontre?». A questão não é «Como posso conhecer Deus?» , mas: «Como posso deixar que Deus me conheça?». Finalmente, a questão não é: «Como vou amar a Deus?», mas: «Como vou deixar-me amar por Deus?».

Deus anda por longe à minha procura, tratando de me encontrar e desejando levar-me para casa. Nas três parábolas em que Jesus responde à pergunta: porque come com os pecadores? , põe a tónica na iniciativa de Deus. Deus é o pastor que vai à procura da ovelha perdida. Deus é a mulher que acende uma candeia, varre a casa e procura por todo o lado até encontrar a moeda perdida. Deus é o Pai que anda em busca dos filhos, vela por eles, corre ao seu encontro, os abraça, roga, suplica e anima a que voltem para casa. Por estranho que pareça, Deus deseja encontrar-me tanto, se não mais, do que eu desejo encontrar Deus. Sim, Deus reclama-me tanto como eu a Ele. Deus não é o patriarca que fica em casa, imóvel, à espera que os filhos voltem para ao pé dele, à espera que peçam desculpa pelo seu comportamento, que peçam perdão e prometam emendar-se. Pelo contrário, abandona a casa sem fazer caso da sua dignidade, corre à procura deles, não quer saber de desculpas e promessas de emenda, e condu-los à mesa magnificamente preparada.»

Henri Nouwen, em "O Regresso do Filho Pródigo"