quinta-feira, 30 de outubro de 2008

QUE TEMOS FEITO COM AS NOSSAS VIDAS?


«Que temos feito com as nossas vidas?
Quantos de nós não traímos o que em verdade poderíamos ter sido? (...)

Sabemos que é pelo sucesso que nos medem e é pelo sucesso que nos medimos a nós próprios. Vivemos aterrorizados pela possibilidade de fracassar. Mas nem o medo podemos admitir, e dominar tornou-se a técnica para o afastar(...)
Assim nunca saberemos o que podemos suportar sem sermos derrotados. A derrota é o pesadelo que nos ensombra os dias e as noites.
Continuamos a jogar os jogos que nos desgastam e, no fundo do coração, a acalentar o sonho do que poderíamos ter sido, transparentes e autênticos, se alguém nos tivesse querido tal qual éramos.

Mas não. E traímos aquilo que éramos, aquilo que íamos ser, aquilo que deveríamos ter sido, só para que nos quisessem, para que nos admirassem, para que nos amassem.
E perdemos a autonomia, esse estado de graça em que nos sentimos pacificados com os nossos sentimentos e necessidades, sem termos que provar nada a ninguém.

Que temos feito com as nossas vidas?

Temo-nos traído ou sentimo-nos fiéis a nós próprios? (Julgo que é mais do que uma mera pergunta retórica.)

Bom é saber que podemos recomeçar a qualquer momento.

Bom é saber que Aquele que incondicionalmente nos ama, todas as manhãs nos entrega em branco um dia, garantindo-nos que ainda temos hipóteses, que nada do que possamos ter feito nos condena irremediavelmente, que o exame se repete todos os dias, que há sempre um segunda chamada, que se chumbámos ontem, hoje podemos voltar a tentar.

Bom é saber desse Amor e rendermo-nos a ele

(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

terça-feira, 28 de outubro de 2008

POR QUE TE TRAÍSTE?

«Ouve, por que te traíste a ti próprio?

Afirmas com lamentos que tudo de mal te acontece e não reparas que, afinal, te enganas, julgando-te impotente para modificar a tua vida.

As bênçãos transbordam da tua mão, mas tu, criança mimada pela abundância, não lhes dás atenção.

Pergunta-te e responde se os obstáculos que produziram os teus fracassos não existem apenas na tua mente.

O meu orgulho por ti não conhece limites.
És a minha criação suprema, o maior milagre, em ti pus todos os segredos, até o de mover montanhas e desbravar o impossível.
Descobre-o, confia e rasga um dia novo, uma clareira mais perfeita na tua existência.

O que fizeste com essa força tremenda?

O que passou, passou. Pouco importa o que fizeste, importa o que és.

Conta as tuas bênçãos, os teus dons.

Proclama a tua singularidade, despe-te de máscaras e recomeça, sem angústia e sem pressa.
Concentra-te no poder que tens para escolher e procura pôr amor no que fazes. Amor por ti, pelos outros, amor por mim, teu Deus, que te criou. Não voltes a diminuir-te; a menos que seja para servir livremente.

Não te conformes com as migalhas da vida, nem com a metade de fruto nenhum.

Enxuga as tuas lágrimas, beija as cicatrizes, estende a tua mão, sente o calor da minha e vive este dia com toda a força que te dou.

Não o ouvimos já, e de tantas formas? Senão como o saberíamos?»

(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

domingo, 26 de outubro de 2008

O QUARTO DA ALMA


«Uma cama de luz,
uma cadeira de silêncio,
uma mesa em madeira de esperança,
nada mais:
assim é o pequeno quarto de que a alma é locatária."

(Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Aí fora


«Ando à procura de Deus», respondeu a criança quando o pai lhe perguntou porque corria ela para a Igreja.

- Mas Deus não está em todo o lado? - insiste o pai.
- Sim, Deus está em todo o lado.
- E não é sempre o mesmo onde quer que esteja?
- É, responde a criança, Deus é sempre o mesmo. Eu é que não sou o mesmo em todos os sítios...

Conta-se também que havia uma senhora muito devota. Deus ocupava o lugar cimeiro da sua vida. Todas as manhãs, mal o dia começava, ia à igreja rezar. Pelo caminho havia sempre quem precisasse da sua ajuda, mas ia tão concentrada nas suas devoções que não os via.
Um dia, depois de ter percorrido o caminho habitual em direcção à igreja, e no momento em que o culto ia começar, empurrou a porta, mas ela não se abriu. Insistiu. Em vão. A porta estava fechada à chave!
Aflita por, pela primeira vez na sua vida, não poder assistir ao culto e não sabendo já que fazer, olhou para o céu. E foi então nesse movimento do olhar que, precisamente ali, frente aos seus olhos, viu um papel colado na porta da igreja com este pequeno recado manuscrito: Estou aí fora.»

(Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

terça-feira, 21 de outubro de 2008

SANTAS


"As santas que conheci não se preocupavam com sê-lo. Tinham todas as idades e aparências. E, em comum, o passar pelo mundo com uma grande naturalidade e alegria como se nunca tivesse havido lei nem moral.

Sem pensar, cada uma delas dava mais amor do que o sol luz.

Uma, já idosa, ocupava-se de um jardinzinho e dormia num quarto do tamanho de uma casca de noz.
Outra trazia consigo a alegria como um pardal que esvoaçasse nos seus olhos claros.
Uma terceira, com quatro anos de idade, descobria, nas brincadeiras de que não se fartava, razão bastante para rir o dia inteiro." (Christian Bobin, em "Ressuscitar")

domingo, 19 de outubro de 2008

CONVERSA SILENCIOSA


"Acabo de ter uma conversa silenciosa com um bébé de dez meses. Olhámo-nos nos olhos durante mais de um quarto de hora. A nossa conversa era de ordem metafísica. Eu alegrava-me com a sua presença e ele admirava-se com a minha. Chegámos à mesma conclusão, o que nos fez desatar a rir ao mesmo tempo." - Christian Bobin, em "Ressuscitar"

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A meta é o Amor!

"O mandamento do amor não é uma simples exigência moral que podemos cumprir por um acto de vontade. Trata-se antes do começo de um longo caminho de desenvolvimento no decorrer do qual desmascaramos e expulsamos aquele egocentrismo tão profundamente arraigado em nós, e então conseguimos entrar em contacto com o nosso verdadeiro centro do qual brota o amor. A meta do nosso caminho de amadurecimento é o amor. Por meio de suas palavras e do seu exemplo, Jesus nos capacita para esse amor que não transforma só a nós mesmos, mas, pouco a pouco, também à sociedade humana." (Anselm Grün, em "Jesus - Porta para a Vida")

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

NÃO É FÉ

Se a nossa fé
não nos fizer acreditar que o dia de hoje pode ser melhor do que o de ontem;
se não nos arrancar da mesquinhez egoísta que nos esmaga de solidão e morte;
se não nos puxar os braços para os outros, na gratuidade natural de quem respira;
se não fizer com que a poesia desça ao nosso peito e as crianças e velhos bebam luz dos nossos olhos;
se formos secos de ternura e apenas e só prudentes como as serpentes;
se não passarmos de atarefados medricas a fugir, dias fora, da própria sombra;
se faz tremer a verdade e não rói os alicerces à mentira;
se não estrangula o desespero e incendeia a alegria;
se não nos fizer pôr na vida a beleza das palavras que engendramos,
então não é fé, pelo menos não é cristã.


Agarra-nos pelos ombros e diz-nos outra vez: «se a tua fé fosse sequer do tamanho de um grão de mostarda, dirias a esta montanha: vai daqui para ali, e ela iria e nada te seria impossível.» (Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A MAIOR DÁDIVA


«Todos somos radicalmente insatisfeitos, pois todos somos estimulados e treinados a viver voltados para o futuro, planeando para o futuro, ou então para o passado, lamentando-o ou analisando-o repetidamente. Nossa insatisfação nos faz perder a única oportunidade que temos de contentamento, de plenitude de vida. A única oportunidade que temos é o momento presente. Se o deixamos escapar, perdemos tudo.

Viver no passado ou no futuro só implica descontentamento, pois a preocupação excessiva com o que nos falta e com o que desejamos impede-nos de enxergar o que nos é dado. (...)
O estado de descontentamento é determinado não pelo espírito de amor, mas pelo egoísmo. O único caminho para a paz é o reconhecimento e a aceitação daquilo que nos é dado. Geralmente, a maior dádiva que recebemos nos escapa à atenção. Geralmente não conseguimos vê-la. Não se trata de saúde, riqueza, beleza ou talento. A maior dádiva é o nosso ser, simplesmente o facto de sermos." Laurence Freeman, em "A Luz que vem de dentro"

sábado, 11 de outubro de 2008

DEUS EM NÓS


"Tudo o que sei do céu me vem do espanto que experimento perante a bondade inexplicável desta ou daquela pessoa, à luz de uma palavra ou de um gesto tão puros que me revelam bruscamente que nada no mundo poderia ser a sua origem. (...)

Há almas nas quais Deus vive sem que elas disso se apercebam. Nada deixa supor essa presença sobrenatural, senão a grande naturalidade que inspira aos gestos e às palavras daqueles em que habita." Christian Bobin, em "Ressuscitar"

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

POBREZA


"Quando se perde algo de material, cai imeditamente uma moeda de ouro no mealheiro da Pobreza.

Retirei muitas coisas inúteis da minha vida e Deus aproximou-se para ver o que se passava." - Christian Bobin, em "Ressuscitar"

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

AS TENTAÇÕES HUMANAS EM RELAÇÃO AO AMOR

Dar-se-sem-se-dar: brincar ao amor sem se comprometer. Tocar sem se deixar afectar, sem perder as suas seguranças. Os homens querem deixar sempre livre o caminho de regresso. Então dão-se mas não se dão. Querem ter a sensação de que amam mas sem correr nenhum risco pessoal.

Fazer-coisas-em-vez-de-estar: Pensar que o amor se pode trocar por fazer coisas, não entender que consiste sobretudo em estar presente... O amor não consiste em horas, nem em cânticos, nem em roupas, nem em sorrisos, nem em reuniões, nem em nada do que se possa fazer por fora. O amor consiste em dar-se a si mesmo e para isso é preciso ter tempo para estar com o outro, ter tempo para simplesmente estar.

Dar-a-mão-sem-se-abaixar: Pensar que se pode amar sem se abaixar, sem ficar a perder. Mas amar é aceitar chegar a perder para que o outro fique a ganhar. Amar é quebrar a linha que nos mantém sempre por cima, na nossa auto-suficiência.

Dar-para-se-preencher: Procurar uma outra pessoa para tapar os seus próprios buracos. Só pode amar quem aceita viver a sua própria solidão e sabe que não precisa do outro para sobreviver. A solidão não é o contrário do amor - como os homens muitas vezes pensam -, é o seu alicerce escondido. O verdadeiro amor alimenta a independência. Quem deixa de ser quem é não pode amar. O amor não te faz ser outro, diferente de ti, faz-te ser o melhor de ti próprio.

Vender-se-para-agradar: Os homens, para agradar àqueles que dizem amar, são capazes de empenhar o que têm de mais sagrado. Vendem os seus ideais, comportam-se como se não fossem eles, tornam-se incapazes de dizer o que realmente pensam, relativizam aquilo em que realmente acreditam para não perderem o outro.

Manipular-o-outro-para-não-o-perder (esta é a maior das tentações): seduzir o outro de forma a que ele não possa recusar o amor, a que não possa viver sem nós, e fique convencido de que já não é ninguém sem esse amor…

Nuno Tovar de Lemos, em "O Príncipe e a Lavadeira" (adaptado)

sábado, 4 de outubro de 2008

AJUDAR O QUE SOFRE

"Sofre-se muito neste mundo e todos nós sofremos ao ver os outros sofrer. E sofremos até porque lhes queríamos arranjar uma solução e não sabemos onde está, nem como encontrá-la. Mas quem sofre, a maior parte das vezes, mais do que uma solução, só quer partilhar a sua dor, ser ouvido e apreciado, acompanhado. Não é estranho que seja dessa ajuda, que todos podemos dar, que a maior parte de nós foge?" (Vasco Pinto de Magalhães, s.j. in "Não há soluções, há caminhos")

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Prémio Butterfly Award


A minha amiga Viviana do blogue "Olhai os lírios do campo", acabou de me distinguir com este prémio, que ela por sua vez recebeu do blogue "Práxis Cristã"

As regras para receber esse mimo são:
1)Colocar este logo no seu blog;
2)Adicionar o link do blog que lhe ofereceu o prêmio;
3)Indicar no mínimo 7 outros blogs;
4)Adicionar no seu blog os links destes outros blogs que acabou de premiar;
5)Comunicar os premiados.

Pela riqueza de conteúdos e pelos valores que transmitem, os contemplados são:
Muitos mais havia para nomear. Contudo, segundo as regras, apenas posso distinguir sete.
Agradeço a todos os que visitam o blogue. A vossa "presença" e os comentários que deixam são um estímulo importante. Deus vos abençoe!


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Não-é-bastante


No romance de N. Kazantzaki, Última Tentação de Cristo (depois adaptado ao cinema por Martin Scorcese), um personagem dirige-se a Deus e pergunta-lhe qual o seu verdadeiro nome.
E uma voz responde:
- O meu nome é «Não-é-bastante». É o nome que eu grito em silêncio a todos aqueles que se atrevem a amar-me.

Não-é-bastante... Talvez seja este o nome de todo o verdadeiro amor.

Nunca se ama o suficiente. O amor é uma estrada que continua sempre para além do horizonte.

No horizonte visual duma grande planície pomo-nos a andar em direcção ao horizonte. Mas quando chegamos onde antes nos parecia ser o fim do horizonte, o fim deslocou-se para além do horizonte...

S. João da Cruz dizia que «o amor é fogo que arde com apetite de arder mais. Sempre mais!»

E a tal voz:

«O meu nome é "Não-é-bastante". É o nome que eu grito em silêncio a todos aqueles que se atrevem a amar-me.» (Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

BOM OU BURRO?

«Ser bom, para alguns, em nada difere de ser burro.

- Que diferença vai de bom para burro?
É um olhar.

É verdade que a força e o poder fazem parte da nossa auto-imagem e da imagem que procuramos vender. E tantas energias gastamos nas lides do poder e da imagem. Tantas guerrilhas e artifícios até ao dia da imobilidade, como os anjos de pedra dos frisos do barroco.

Tenho diante de mim um trecho do Talmude, esse conjunto de leis e tradições religiosas do judaísmo pós-bíblico... Não é fácil interpretá-lo... Creio, no entanto, que este trecho dispensa interpretações eruditas:
«O ferro é forte, mas o fogo funde-o.
O fogo é forte, mas a água apaga-o.
A água é forte, mas as nuvens fazem-na cair.
As nuvens são fortes, mas o vento arrasta-as.
O vento é forte, mas o homem controla-o.
O medo é forte, mas o sono fá-lo esquecer.
O sono é forte, mas a morte supera-o.
A morte é fortíssima, mas a bondade sobrevive-lhe

- Que diferença vai de bom para burro?
Embora seja uma perspectiva, diria que é grande a diferença.
Primeiro, porque «o perfume fica sempre na mão de quem oferece a rosa».
Depois, porque «a morte é fortíssima, mas a bondade sobrevive-lhe». (Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais...")

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PERDER A ALMA


"A terra cobre-se de uma nova raça de homens, simultaneamente instruídos e analfabetos, que dominam os computadores e não sabem nada sobre as almas, tendo mesmo esquecido o que semelhante palavra pôde um dia designar.
Quando algo na vida, apesar de tudo, os atinge - um luto ou uma ruptura - essas pessoas têm menos defesas que um recém-nascido. Ser-lhes-ia então necessário falar uma língua que deixou de ter lugar, muito mais subtil que a gíria informática." - (Christian Bobin, em "Ressuscitar")

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

FALTA DE AMOR

"O maior perigo que ronda o ser humano consiste na falta de amor e nas consequências que esta falta acarreta. Quem não se sente amado rejeita-se a si mesmo, condena-se, torna-se duro, frio e vazio, é incapaz de amar a si mesmo e aos outros. Torna-se necessário, então, um amor que não se poupa, que não recua nem mesmo diante da própria morte para curar-nos da ferida mortal da falta de amor." (Anselm Grün, em "Jesus - Porta para a Vida")

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

CRER


«Crer é confiar. Crer é permitir. Crer, principalmente, é aderir, entregar-se, numa palavra, crer é amar. (...)

Crer é «caminhar na presença de Deus» (Gn 17, 1). A fé é, ao mesmo tempo, um acto e uma atitude que agarra, envolve e penetra tudo o que a pessoa humana é: a sua confiança, a sua fidelidade, o seu assentimento intelectual e a sua adesão emocional. Compromete a história inteira de uma pessoa: com os seus critérios, atitudes, conduta geral e inspiração vital. (...)» (Ignacio Larrañaga, em "O Silêncio de Maria")

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O Teu Silêncio


Se não falas, vou encher o meu coração
Com o Teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará,
e a Tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

(Rabindranath Tagore)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A LUZ QUE ILUMINA TUDO O RESTO

"Se Deus é luz, e tantas religiões usam esta imagem para falar do divino, então Ele é o que não se vê mas faz ver. A luz não é para ser vista, é para iluminar tudo o resto. Se vejo as coisas, e as vejo em profundidade e com o seu verdadeiro sentido, escondido aos olhos comuns, então é porque algo, alguém, me faz ver. Procuras Deus? Olha para o mundo com olhos de ver." (Vasco Pinto de Magalhães, s.j. in "Ñão há soluções, há caminhos")

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

"AMA E FAZ O QUE QUISERES"

"Ama e faz o que quiseres". Esta famosíssima frase do santo Agostinho tem que se lhe diga. É que quem ama, só pode fazer o bem. E querer o bem é muito exigente. Não é "ama e faz o que te apetece", o que seria uma contradição. É antes: "Se amares de verdade, vais saber escolher o bem e o melhor." (Vasco Pinto de Magalhães, s.j. in "Não há soluções, há caminhos")

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

VIDA E LUZ


"Eu sou a luz do mundo; quem me segue de modo algum andará em trevas, mas terá a luz da vida." (João 8, 12)

"Vida e luz estão estreitamente ligadas. A vida verdadeira nasce do entendimento correcto. Quando vejo o mundo e a mim mesmo como somos realmente, consigo viver de maneira correcta. A luz faz o mundo ficar claro, dá-me a possibilidade de entender, de compreender a minha vida e a mim mesmo.

Deus como luz significa que só em Deus consigo enxergar claramente a minha vida, que aquilo que há de escuro e absurdo dentro de mim só é esclarecido por Jesus...
Em Jesus é tirado o véu que escurece a essência do nosso ser humano.
Nele reconhecemos a nossa originalidade. E reconhecemos nele Deus, o fundamento de todo o ser, o princípio da nossa existência humana.
Jesus quer abrir-nos os olhos para que percebamos o mundo como ele é, para que reconheçamos nele e em cada ser humano a realidade divina.
Em Jesus, nós homens vemos Deus. E nele somos transportados para dentro dessa intimidade com o Pai. Em Jesus estamos, por assim dizer, no seio do Pai. Assim, a nossa vida fica iluminada." (Anselm Grün, em "Jesus - Porta para a Vida")

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A PAZ SE EXPANDE

«A experiência de paz interior também irradia pensamentos pacíficos para os meus semelhantes. Pensamentos hostis e raivosos não têm lugar aqui. A meu ver, a paz não é primordialmente um apelo para viver pacificamente com todos. A paz com as pessoas nasce, antes, da experiência da minha paz interior. Não preciso, então, criar nenhuma paz. Em mim há paz. E ela se expande por si mesma.» (Anselm Grün, em "O Pequeno livro da verdadeira felicidade")

domingo, 7 de setembro de 2008

Devedor de amor

"Estamos sempre em dívida perante os outros. S. Paulo disse esta coisa espantosa: "Não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser o amor que devemos uns aos outros." Nunca deixo de ser devedor de amor! Nunca posso dizer que trato alguém bem de mais. E, pela nossa limitação e egoísmo, ficamos sempre aquém daquilo que devíamos dar." (Vasco Pinto de Magalhães, s.j. in "Não há soluções, há caminhos")

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

DAR LUGAR AO AMOR

«Para que o amor seja consumado, é preciso que o egoísmo seja consumido.
Para que o amor seja consumado em bem-aventurança, é preciso que o egoísmo seja consumido num arrependimento purificante." (François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A Felicidade vem do compromisso

«A felicidade vem do compromisso. Alguns pensam que não, que uma pessoa mais solta, sem ligações nem obrigações, é mais feliz! Será? Ela faz o que lhe apetece e não o que quer. Fica escrava das ondas, das emoções, vai para onde puxa o que 'está a dar' e não para onde quer e deve. Estar solto não é o mesmo que ser livre. E comprometer-se livra-nos da escravidão das fantasias e dos apetites.» (Vasco Pinto de Magalhães, in 'Não Há Soluções, Há Caminhos')

domingo, 31 de agosto de 2008

TRILHA RUMO À VIDA

«Os pais nem sempre nos deram aquilo de que precisaríamos. Mas, mesmo assim, devemos parar de lhes censurar isso. Devemos lhes agradecer pelo que realmente nos deram de positivo. Também nos foi possível ganhar coisas deles. Eles são as raízes das quais vivemos hoje. Sem elas nossa árvore da vida seca.


Para que aceitemos o que os nossos pais nos deram e tornemos isso frutífero para a nossa vida, é importante compreendê-los em sua limitação e em sua própria história. Quando os compreendemos, não os condenamos. Vemos os pais envolvidos em sua própria história familiar. Podemos deixar com eles o que eles não nos deram e nos feriram, sem passar a vida toda censurando-os por isso.


Quem sempre responsabiliza os pais por seu destino e nega a própria responsabilidade por sua vida, nunca encontrará a sua forma externa e interna, nunca descobrirá a trilha que o conduz à vida.» (Anselm Grün, em "O Pequeno livro da verdadeira felicidade")

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

TOCAR AS NOSSAS FERIDAS (2ª parte)

"Uma só coisa é importante:
que sejamos verdadeiros, que escapemos às mentiras, às ilusões, ao jogo de aparências
e mesmo aos sonhos e às teorias que nos fecham num mundo ilusório
em que somos cortados da nossa realidade profunda.

Na medida em que aceitamos as nossas feridas,
entramos no caminho da unidade;
na medida em que recusamos olhar de frente a nossa verdade,
mantemos uma fissura no interior de nós próprios.


Assim que aceitamos essa parte de nós próprios que recusávamos olhar,
que recusávamos reconhecer,
que recusávamos admitir,
a unidade começa a fazer-se no nosso interior,
e é da unidade que jorra a fecundidade.


Para sermos homens e mulheres fecundos,
é preciso que vivamos na verdade,
é preciso que encontremos a unidade no nosso interior.
Não se trata de negar as nossas feridas mas de as acolher,
de descobrir que Deus está presente nelas."

(Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas")

domingo, 24 de agosto de 2008

TOCAR AS NOSSAS FERIDAS (1ª parte)

«O grande perigo para cada um de nós é o de viver na ilusão em relação a si próprio.
É-se frequentemente bastante clarividente para julgar os outros,
mas para nós próprios é muito mais difícil,
julgamo-nos maravilhosos ou abomináveis,
exaltamo-nos ou denegrimo-nos,
mas temos a maior das dificuldades em vermo-nos tal como somos.


Há muitas vezes em nós coisas que não queremos ver, que negamos,
um alcoólico, por exemplo, raramente reconhece que é alcoólico
e cada um de nós tem tendência a negar uma parte de si próprio.
Jesus veio ensinar-nos a conhecermo-nos tais como somos,
com a nossa vocação profunda para o amor,
com todos os nossos dons,
com toda a beleza que está em nós,
mas também com tudo o que está ferido,
com tudo o que é frágil,
com tudo o que é pobre

(Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas")

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Onde mora a Felicidade?


"Não é na posse de rebanhos nem no ouro que se encontra a felicidade de viver: a morada da felicidade é a alma" (Demócrito)

«Muitos buscam a felicidade juntando o máximo de riqueza possível. Mas a riqueza não torna ninguém feliz. Quem não sente a felicidade na sua alma correrá atrás dela em vão no mundo das posses ou do sucesso. Nunca possuirá o suficiente, nunca receberá atenção suficiente, não terá tanto sucesso a ponto de ser feliz. A felicidade mora na alma, no âmbito interno do ser humano. Lá onde o homem está em concordância consigo mesmo, onde sente seu carácter único, onde sabe da sua dignidade humana, lá está uma felicidade que nenhum fracasso, nenhuma perda, nenhuma rejeição podem lhe roubar.» (Anselm Grün, em "O Pequeno livro da verdadeira felicidade)

domingo, 17 de agosto de 2008

Descobrir a Pérola


«Devemos, em algum momento, assumir a responsabilidade por nossa vida. Isso também significa que devemos nos reconciliar com as feridas que sofremos na infância, que podem, então, tornar-se fonte de vida. Nossas feridas viram pérolas, como diz Hildegard von Bingen. Quando contemplamos nossas feridas, podemos compreendê-las melhor. Não nos condenamos mais por reagir com tanto melindre. É compreensível sermos tão melindrosos com essas feridas, tão susceptíveis, tão temerosos em relação à autoridade. É só a compreensão que nos livra da autocondenação.
Mas não se pode parar na compreensão. É importante que em minhas feridas eu descubra o meu talento, a pérola que torna a minha vida preciosa. Na ferida está a minha oportunidade. Se, por exemplo, recebi pouco carinho, posso ser sensível com todas as pessoas que sofrem falta de amor. E, por não me ter saciado em minha necessidade de amor e proximidade, segui o caminho espiritual. Não me contento em ter uma boa situação. Permaneço vivo em meu anseio por Deus.
Descubro a minha trilha para a vida justamente nas minhas feridas. Estas se tornam minha oportunidade de reconhecer o meu carisma e vivê-lo. Desse modo, minhas feridas se tornam fonte de benção para mim e para os outros.» (Anselm Grün, em "O Pequeno livro da verdadeira felicidade")

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

ESPIRITUALIDADE NO DIA A DIA

«O caminho da espiritualidade tem de conduzir ao quotidiano. Consiste simplesmente em fazer aquilo que é «necessário», aquilo que devo fazer no momento, aquilo que devo a mim e ao meu ser, aquilo que devo ao outro e aquilo que devo a Deus. (...)


A espiritualidade tem de ser uma coisa concreta. Esta revela-se na configuração do dia, através de rituais curativos. Revela-se num relacionamento amável com os seres humanos, na disponibilidade para ajudar quando os outros precisam do meu trabalho, e numa ocupação em que sirvo as pessoas e não a minha própria imagem. O facto de um ser humano ser espiritual ou não é uma coisa que, segundo São Bento, conseguimos ler sempre no seu quotidiano: na sua maneira de lidar com as pessoas, como organiza o seu tempo e, não menos importante, como lida consigo próprio. Torna-se assim evidente se ele faz girar tudo à sua volta ou, em última análise, à volta de Deus.

Para São Bento, o objectivo de toda e qualquer espiritualidade é «que Deus seja glorificado em tudo». E, na sua regra, ele coloca este princípio precisamente num prosaico capítulo sobre os artíficies. A forma como trabalham e como lidam com o produto do seu trabalho é decisiva para avaliar se se deixam conduzir por cobiça ou avidez, ou se estão preocupados com a glorificação de Deus.» (Anselm Grun, em "O Livro das Respostas")

domingo, 10 de agosto de 2008

PARAR


«É preciso parar, para me acalmar. Preciso cessar de correr por aí, de agitar-me. Preciso ficar parado, ficar em mim mesmo. Quando paro, encontro-me antes de tudo comigo mesmo. Daí, não posso mais transferir para fora a minha inquietude. Vou percebê-la em mim mesmo. Apenas quem resiste à própria inquietude alcança a calma.

Ao amamentá-la, a mãe acalma a criança que chora de fome. Também devo acalmar a minha alma, que chora por dentro. Quando não corro mais de um lado para o outro, a fome do meu coração se apresenta. Ele precisa de alimento. Devo me voltar maternalmente para o meu coração, para que haja paz. Mas muitos têm medo de se envolver com o coração ruidoso. Preferem evitá-lo, precipitando-se de um lugar para o outro. Mas o teu coração continua a gritar. Ele não se deixa evitar. Precisa de atenção. Quer ser acalmado.» (Anselm Grün, em "O Pequeno livro da verdadeira felicidade")

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O LUGAR QUE DEUS ESCOLHEU

“Deus procura a Si mesmo em nós, e a aridez e o pesar do nosso coração são o pesar de Deus que não é conhecido em nós, que não pode encontrar a Si mesmo porque não ousamos acreditar ou confiar na incrível verdade de que Ele pode viver em nós, e o faz por escolha, por preferência. Mas de facto existimos somente para isto: para sermos o lugar que Ele escolheu para Sua presença, Sua manifestação no mundo, Sua epifania.” (Thomas Merton, in "The Hidden Ground of Love")

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Aceitar a Vontade de Deus

"Quem se encontra em sintonia consigo mesmo, consegue entregar-se ao trabalho. Tudo aquilo que reprimimos, aquilo com que não fazemos as pazes, nos impede de trabalhar e viver. E nos custa muita força interior. Durante as conversas com pessoas esgotadas, percebemos rapidamente que a sua exaustão não está relacionada à quantidade de trabalho ou ao tipo de trabalho que fazem, nem às expectativas provenientes do meio externo e também não ao contexto em que vivem. Na maior parte das vezes, trata-se da falta de paz experimentada por ela. Em última instância, lutam contra a vida com que Deus as confronta. Preferem agarrar-se a ilusões e vivem fantasiando sobre como deveria ser a sua vida. E é exactamente esta cisão entre a ilusão e a sua realidade que lhes rouba toda e qualquer energia." (Anselm Grun, em "Fontes da Força Interior")

domingo, 3 de agosto de 2008

Deus em nós

“Para encontrarmos Deus em nós, temos de parar de olhar para nós mesmos, de nos inspecionar e verificar no espelho da nossa futilidade; devemos contentar-nos em ser em Deus e de fazer o que Ele quiser, conforme as nossas limitações, julgando os nossos actos não à luz das nossas ilusões, mas à luz da Sua realidade que nos cerca nas coisas e pessoas com quem vivemos.” - Thomas Merton, em "Homem algum é uma ilha"

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Para ser realmente livre


"Nada ter, tudo possuir", assim se pode descrever a postura dos sábios de todas as religiões, de todos os tempos. Apenas quem não prende seu coração ás coisas criadas, quem sabe se soltar onde os outros se prendem, é realmente livre" (Anselm Grün, em "O Pequeno livro da verdadeira felicidade")

terça-feira, 29 de julho de 2008

TEM ESPERANÇA!

"A esperança - tal como diz o filósofo francês Gabriel Marcel, que desenvolveu a sua própria filosofia da esperança - é sempre uma esperança para ti e para mim. Aquele que tem esperança diz o seguinte: espero que se altere alguma coisa em mim e que eu consiga lidar melhor com o sofrimento. E, no teu caso, tenho esperança de que a tua tristeza se altere e que entres em contacto com a força que há em ti. A esperança é capaz de esperar. Tem paciência. Existem sempre pessoas à minha volta para as quais isso não é benéfico e que se «vergam». A esperança tem confiança de que essas pessoas sairão da crise. Na esperança, não desisto do outro. Tenho confiança de que ele irá encontrar o seu caminho. E consigo esperar pacientemente até que o outro volte a entrar em contacto com a sua própria força.


Ter esperança significa confiar no invisível e acreditar que ele se tornará mais forte do que aquilo que vejo actualmente." (Anselm Grün, em "O Livro das Respostas")

domingo, 27 de julho de 2008

Deficiências

« “Deficiente” é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

“Louco” é quem não procura ser feliz com o que possui.

“Cego” é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

“Surdo” é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

“Mudo” é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

“Paralítico” é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

“Diabético” é quem não consegue ser doce.

“Anão” é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:“Miseráveis” são todos que não conseguem falar com Deus.» (Mário Quintana)


Fonte: Caio Fábio

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Ai de quem nos desencorajar de amar!

«Ai de quem nos desencorajar de amar!», escrevia Bernanos. Ai de quem não levar a sério ou pensar que é interesseira essa mão que se estende, num gesto que, muitas vezes, só é possivel após um longo debate interior, após uma vitória heróica sobre o egoísmo.»- Henri Caffarel, em "Nas Encruzilhadas do Amor"

terça-feira, 22 de julho de 2008

Amar é fazer crescer

"Amar uma pessoa não significa fazer as coisas por ela, mas ajudá-la a descobrir sua própria beleza, unicidade, a luz escondida no seu coração e o significado da vida. Através do amor uma nova esperança é comunicada a essa pessoa e um desejo de crescer e viver." - Jean Vanier

domingo, 20 de julho de 2008

És o que amas

"Pouco importa quanto fazes, o que importa é quanto amas."
Pouco importa quanto tens. O que importa é o que tu és."-
(Santo Agostinho)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

UMA LUTA QUE VALE A PENA


"A humanidade precisa voltar para este Deus humilde e amoroso, que é todo coração. Ela precisa redescobrir a mensagem da suavidade, da ternura, da não violência e do perdão, para redescobrir a beleza do nosso universo, da matéria, de nosso próprio corpo e de toda a vida. Esse caminho de redescoberta vai ser uma luta, mas uma luta que vale a pena." (Jean Vanier)

terça-feira, 15 de julho de 2008

DAR ESPAÇO À ALMA

"No lugar onde uma pessoa foi muito magoada na sua infância, formam-se pontos sensíveis. E estes pontos sensíveis são a porta para as ofensas. Para que não adoeçamos recorrentemente, é importante que nos reconciliemos com as nossas feridas e nos aceitemos com os nossos pontos sensíveis.(...)

Se estivermos completamente no nosso meio e em harmonia connosco próprios, os outros não nos conseguem magoar tão facilmente. É verdade que ouvimos as palavras ofensivas, mas elas não nos atingem em profundidade.(...)

Salutar para a alma é o facto de se saber amada e de também se amar a si mesma, juntamente com tudo aquilo que nela existe. E é também salutar que a alma possa respirar. Há muitas pessoas que não estão em contacto com a sua alma. Vivem apenas à superfície. Esta separação da alma torna-as doentes. Só quando obtemos o acesso interior à alma é que ela pode renascer e desenvolver-se. A alma precisa de alimento.

Por um lado, é o amor que faz bem à alma, mas também a actividade espiritual. Muitas pessoas adoecem porque não dão espaço à alma. A alma precisa de asas, de agilidade, de amplitude. Aquele que restringe o espaço à alma está a retirar-lhe força. (Anselm Grün, em "O Livro das Respostas")

domingo, 13 de julho de 2008

Lealdade


«Ser leal para com o outro significa dizer-lhe: "Podes confiar em mim. Estou ao teu lado, tal como tu és. A minha aceitação da tua pessoa não está ligada a quaisquer ressalvas. Mas isso não significa que eu permita que tu me desvies do caminho certo, nem das minhas convicções interiores, nem do meu verdadeiro ser."
Ser leal para com o outro também não significa que eu deixe que ele me conduza para alguma coisa má. Pelo contrário, ser leal para com o outro significa o seguinte: "Não brinco com a nossa relação. Estou ao teu lado e não te abandono quando descubro em ti algo que não me agrada. Tenho confiança de que voltarás a encontrar o teu verdadeiro ser, caso tenhas sido desviado dele."
Normalmente, a lealdade para com o outro também me faz bem a mim mesmo. Prende-me, dá-me firmeza e forma-me.

(...) A lealdade é a promessa de permanecer leal ao longo de todas as mudanças que ocorrem em mim e no outro. Digo sim a uma pessoa, apesar de não saber no que ela se vai tranformar. Nesse sentido, a lealdade é também um risco e uma aventura.» (Anselm Grun, em "O Livro das Respostas")

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O nosso amor imperfeito

«Precisamos ter uma visão correcta em relação a nós próprios e ao outro. Não devemos esperar tudo do outro. O outro nunca nos poderá oferecer o amor absoluto, uma tranquilidade absoluta e uma compreensão total. Os psicólogos dizem que temos de desmistificar as relações entre duas pessoas, que não devemos exagerar nas exigências, para que o amor possa amadurecer. Só Deus poderá proporcionar algo absoluto. Se elevarmos a relação a um nível ideal e esperarmos do outro o Paraíso na Terra, estaremos a exigir demasiado dele através das nossas expectativas. Nesse caso, a relação tornar-se-á cada vez mais difícil. No entanto, se aceitarmos, agradecidos, aquilo que o outro, com as suas limitações, nos oferece em termos de amor, tranquilidade e compreensão, a nossa relação será facilitada. Reconhecemos, naquilo que recebemos do outro, uma referência ao amor absoluto. E, desta forma, a relação com o outro permanece viva no nosso percurso rumo ao amor absoluto, que Deus representa. É por esse motivo que, para mim, a relação com Deus é uma grande ajuda para que a relação entre as pessoas tenha êxito.» (Anselm Grun, em "O Livro das Respostas")

terça-feira, 8 de julho de 2008

Caminho para a verdade

"Quando o amor revela a mágoa que há em nós, não é raro pensarmos que foi o outro quem nos magoou. E pagamos-lhe na mesma moeda, magoando-o também. Surge assim um ciclo vicioso de mágoa recíproca, que não aprofunda o amor, mas antes o destrói. Aquele que se entrega ao caminho do amor deve saber que se trata de um caminho para a verdade, um caminho onde descubro a minha própria verdade e também a do outro. É o reconhecimento da verdade que é verdadeiramente doloroso. Mas o amor é também a oportunidade de curar esta lesão. Se me aceitar a mim próprio com as minhas feridas e não julgar o outro devido às suas lesões, mas o amar tal como ele é, é possível que o amor cure as minhas feridas e as dele." (Anselm Grun, em "O Livro das Respostas")

domingo, 6 de julho de 2008

Caminhos do Amor

«Para que o amor tenha êxito a longo prazo, não devo confundi-lo com a emoção. Amar não significa estar eternamente apaixonado. O estar apaixonado tem de se transformar num amor que aceita o outro tal como ele é. É frequente descobrirmos o outro com as nossas próprias imagens e desejos e amarmos mais a imagem que fizemos do outro do que aquilo que ele na realidade é. Amar o outro tal como ele é não é tarefa fácil. Exige que abdiquemos de todas as ilusões que criámos sobre ele. E exige também que abdiquemos da ilusão de que o amor é sempre maravilhoso. Frequentemente, é apenas lealdade para com o outro. Isso significa mais do que simplesmente suportá-lo. É dizer-lhe que sim no carácter mediano e banal. E o amor não é sinónimo de uma felicidade duradoura. Não existe amor sem dor. No amor, abro-me ao outro, e, ao fazê-lo, torno-me vulnerável. Sem esta sinceridade, o amor não seria possível. No amor pelos outros, conhecemo-nos com todas as lesões que sofremos na vida. O amor pode magoar, mas também é capaz de curar essa lesão.» (Anselm Grun, em "O Livro das Respostas")

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O Poder do Amor

“O que nos é pedido é apenas uma coisa: amar; e, se algo pode consegui-lo, é certamente esse amor que há-de tornar, tanto a nós quanto o próximo, dignos. De facto, isso é uma das coisas mais importantes em matéria de amor. Não existe neste mundo outra maneira de tornar alguém digno de amor senão amando-o. Logo que alguém reconhece ser amado – se não é tão fraco que não suporte mais ser amado – sente-se instantaneamente transformado e a caminho de ser digno de amor. Procurará, então, corresponder, extraindo das profundezas do seu ser um misterioso valor espiritual, uma identidade nova, chamada a existir pelo poder do amor que lhe é dedicado.” - Thomas Merton

terça-feira, 1 de julho de 2008

Liberdade no Espírito


"Liberdade é aceitar que, quando pertencemos a um grupo, raça, tribo, família, comunidade, religião, nenhum desses é perfeito, cada um tem os seus limites e fragilidades. Toda a comunidade de humanos tem a sua luz e sua escuridão. Todos nós somos parte de algo maior do que nós. Todos nós fluimos de uma fonte insondável e estamos todos caminhando para ela, levando connosco a luz da verdade e do amor. Cada um de nós é chamado a estar em comunhão com a fonte e centro do universo. Os infinitos anseios de nosso coração nos chamam para estar em comunhão com o Infinito. Nenhum de nós pode se satisfazer com o limitado e com o finito. Cada um de nós deve ser livre para seguir o Espírito de Deus." (Jean Vanier)

domingo, 29 de junho de 2008

Uma Viagem surpreendente


"Deus é uma palavra que por um aceno nos chama. Chama-nos para fora de nós mesmos, para lá de nós mesmos. É o Deus das surpresas, sempre a criar de novo.

Ele actua no coração de cada ser humano, ama a cada um, e atrai-o para Si. Não faz acepção de pessoas, nem respeita nenhuma das hierarquias humanas sociais ou profissionais, que para Ele não contam. "Derruba os poderosos dos seus tronos, e exalta os humildes". Ele actua nos Cristãos de qualquer denominação, em qualquer religião, e até nos corações dos que professam não ter religião alguma. Nenhuma religião pode monopolizar a acção de Deus, embora a maior parte delas o tente fazer, proclamando que todo aquele que não seguir o caminho que ela lhe aponta, não pode salvar-se.

Nós fomos feitos à imagem de Deus, e partilhamos do seu mistério. Se todos nós temos impressões digitais diferentes, não é de supreender que cada um de nós tenha de ter uma maneira única de conhecer e compreender Deus. Seguimos todos na mesma viagem, mas o caminho é diferente para cada um, e temos de o descobrir em liberdade. Na Igreja Cristã há guias que Ele nos oferece, sobretudo pela Sagrada Escritura e pela tradição docente, mas, em última análise, somos nós que havemos de encontrar o caminho, somos os responsáveis pela nossa viagem.

O termo dela é Deus. Mas Deus é mistério, o que não parece ser para nós uma grande fonte de informação. É como se nos mandassem fazer uma viagem, não só necessária, mas uma viagem que é para nós questão de vida ou de morte, e quando perguntássemos o destino dessa tão importante viagem, nos respondessem que não se sabe, nem se pode saber, e só nos dissessem "Ânimo e boa viagem!"» (George W. Hughes, em "O Deus das surpresas")

quinta-feira, 26 de junho de 2008

APELO DE DEUS

«Quantas vezes, um encontro não esbarrou contra barreiras de blocos de cimento em mim!

Coração de pedra, coração de pedra,
sinto... medo,
fuga em mim...
Incapaz de amar, de escutar,
procuro esquivar-me.
Quem poderá libertar-me?

Aquele que se agarra à segurança do trabalho quotidiano,
do horário, da organização, da família e das amizades,
esse já não vive.

Para viver, é preciso a segurança,
mas mais ainda
a aventura, o risco, o dinamismo, o dom de si, a solidariedade com os outros.

Medo de perder o meu dinheiro, o meu tempo,
a minha reputação, a minha liberdade;
medo, sobretudo, de me perder a mim próprio,
medo do desconhecido,
porque a miséria é uma terra desconhecida;
terror do desespero: essas mãos... essas mãos,
essas mãos que se estendem para mim,
essas mãos,
tenho medo de as tocar,
porque me podem submergir
num futuro desconhecido...

Então, volto as costas... e fecho-me em mim...
na minha segurança...
sozinho dentro de mim mesmo...

Recuso-me a amar... porque tenho medo da tua mão estendida,
que me chama para o desconhecido do amor... ;
porque tenho medo do vazio que há em mim, da minha pobreza, do chamamento para a morte;
tenho medo de mim próprio e fecho o meu coração... bloco de cimento que me separa de ti,
meu irmão desesperado...

Tu, sim, tu estás numa prisão de desespero e tristeza.
Eu também sou prisioneiro, as minhas grades são,
os meus supostos amigos, os meus clubes, as convenções sociais de moda;
barreiras que eu consolidei para te tirar da minha vida, meu irmão,
porque a tua presença, miserável, triste, é um apelo...
Desvio o olhar, ou, então, tenho a ousadia...
(o amor é o maior de todos os riscos)
de me dar a ti, meu irmão.

Terei eu a coragem de mergulhar no redemoinho da água viva, do amor fiel?

Que eu tenha a audácia,
a audácia de crer no teu apelo silencioso,
nas tuas lágrimas de silêncio.

Mas há também o mundo da eficiência, das técnicas, dos diplomas, dos negócios (negócios são negócios!),
e os amigos que pensam que sou louco... (serão meus amigos? estarei eu louco?)
a dúvida, as forças inimigas, a lassidão;
o medo.

Todavia, a vida chama-me, a compaixão mora nas minhas entranhas,
essa guerra estranha e silenciosa...
Terei a ousadia de crer? Terei a ousadia de fugir ao Teu apelo?
«Se abrires a tua alma ao faminto, e fartares o aflito; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio dia. O Senhor te guiará continuamente, e te fartará até em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca falham. E os que de ti procederem edificarão as ruínas antigas; e tu levantarás os fundamentos de muitas gerações; e serás chamado reparador da brecha, e restaurador de veredas para morar.» (Isaías 58, 10-12)

Ó Deus, ó meu Deus,
não me deixeis vergar, diminuir!
Não me deixeis afundar num sono sem fim!
Impedi que caia na prisão dos hábitos egoístas cujas grades são os amigos superficiais,
os «cocktails», as gargalhadas estúpidas, os beijos sem amor,
os presentes para glória do ofertante, os negócios e as administrações sem coração;
essas grades que impedem a vida cheia de cor em busca do infinito, aberto ao Teu apelo.»

(Jean Vanier, em "Novas perspectivas do amor")

terça-feira, 24 de junho de 2008

Pedidos dos filhos (2)

Eis a 2ª parte do precioso e pertinente artigo publicado pelo meu caro amigo Pe. Sandro Rogério. O artigo é da autoria de Dom Orlando Brandes, arcebispo de Londrina/PR, é presidente do Setor Família da CNBB. Com a devida autorização, reproduzo hoje a segunda parte.

«Os filhos aprendem imitando. Daí a necessidade do casal se querer bem e dar bom exemplo. Dizia um filho aos pais: “peço que vocês me amem quando eu não mereço, porque é aí que eu mais preciso ser amado.” Nada disso é fácil. O nascimento dos filhos traz grandes mudanças na família. Os cônjuges esquecem de ser esposos, trocam os papeis, e começam a ser somente pais. Apegar-se aos filhos e esquecer o cônjuge é um perigo. O primeiro amor na família é sempre o amor conjugal, depois o amor filial.

Além disso, temos pais agressivos e pais permissivos, mas precisamos de pai e mãe participativos. Os pais apegados aos filhos sofrem demais quando eles devem deixar o lar. Os desequilíbrios dos filhos levam ao desajuste do casal e vice-versa. Os pais conscientes tratam os filhos conforme a idade que eles têm. É preciso saber mudar de marcha. Pais ajustados, filhos equilibrados.

Um filho escreveu para seus pais: “Eu sou forte no mal porque vocês foram fracos no bem. Por isso estou preso”. Os pais nunca podem abdicar do diálogo, devem estar abertos em buscar soluções e aceitar ajuda. Ninguém é infalível. Os pais aprendem com os filhos, mas devem sempre colocar limites e apresentar valores. Lares sem disciplina criam filhos folgados e omnipotentes que se tornam delinquentes. É a tirania dos filhos sobre os pais.

Temos hoje a “família filiarcal” que sucedeu à família matriarcal e depois à patriarcal. Filiarcalismo é fazer dos filhos pequenos deuses. Eles não ajudam em nada nos trabalhos da casa, deixam roupas sujas em cada canto, só comem o que querem, dominam os pais que se tornam seus escravos e reféns. Pais permissivos são mais prejudiciais que os autoritários.

Os filhos emitem sintomas que sinalizam a presença de problemas familiares. Quando os pais vão mal os filhos entram em ansiedade. Hoje a grande tentação é resolver as crises com o “divórcio fácil”. É preciso crer nas soluções, na reorganização da família. O filho problema pode tornar-se o melhor. A ovelha negra se torna uma benção, quando recorremos a Deus, ao perdão, ao diálogo, à disciplina. Quem olha as soluções não cai nas acomodações. Os heróis se forjam nas carências e crises.

A arte de ser bons pais começa já no útero materno. A preparação para a missão de ser pai e mãe é assunto do namoro e noivado. Pais despreparados, filhos desequilibrados; pais ausentes, filhos delinqüentes; pais permissivos, filhos onipotentes; pais omissos, filhos rebeldes. Carregamos dentro de nós a criança que fomos no passado. Vale a pena investir no casal para que os filhos cresçam sadios, seguros e amorosos. A família é a esperança da sociedade e o futuro do mundo.»

domingo, 22 de junho de 2008

Pedidos dos filhos (1)

No magnífico blog do meu caro amigo Pe. Sandro Rogério, encontrei uma pérola de sabedoria que tenho o prazer de partilhar convosco.

«Os filhos pedem a seus pais e educadores vinte solicitações.

1. Não tenham medo de ser firmes comigo. Sua firmeza me dá segurança.
2. Não me tratem com excesso de mimo. Nem tudo o que eu peço me convém.
3. Não me corrijam na frente de outras pessoas. Isso me revolta.
4. Não permitam que eu forme maus hábitos. Dependo de vocês para saber o que é certo e o que é errado.
5. Não façam promessas apressadas. Sinto-me mal quando as promessas não são cumpridas.
6. Não me sufoquem com suas preocupações. Eu também preciso aprender com o sofrimento e com os erros.
7. Não sejam falsos comigo. A falsidade me faz perder a fé em vocês.
8. Não me incomodem com ninharias. Irei fazer-me de surdo.
9. Não dêem a impressão de serem perfeitos, infalíveis. O choque será muito grande quando eu descobrir seus defeitos.
10. Não deixem sem respostas minhas perguntas. Do contrário, deixarei de fazê-las e buscarei informações em outros lugares.
11. Não se sintam humilhados ao terem que pedir desculpas. O perdão me aproxima de vocês.
12. Não digam que minhas preocupações e problemas são tolices. Tentem compreender-me. Ficarei mais sereno.
13. Não esqueçam que estou crescendo e mudando rapidamente. Tentem acertar o passo comigo.
14. Não me comprem presentes. O melhor presente é a presença de vocês. Com vocês sinto-me seguro, forte, amado.
15. Acolham-me desde a fecundação, alimentem-me com aleitamento materno, dêem-me colo, toquem-me porque preciso de tudo isto para crescer saudável e equilibrado.
16. Preciso de um pai forte e amigo, de uma mãe equilibrada e feliz. Seu jeito de ser é que fica marcado em mim. Poderei esquecer suas palavras, não esquecerei seus gestos.
17. Não imponham nem direcionem minha profissão e vocação. Podem aconselhar-me, mostrar-me suas razões, mas deixem-me a liberdade de escolher.
18. Se vocês se amam eu me sinto amado por vocês. Se vocês brigam, não dialogam, não se perdoam, eu me sinto um órfão de pais vivos.
19. Porque vocês foram fracos no bem, eu agora sou forte no mal. Se vocês são pais despreparados eu cresço desequilibrado.
20. Se vocês não me elogiarem, se me castigarem injustamente, se não me ensinarem a rezar, se satisfizerem todos os meus desejos, vocês estragam minha vida.
Os filhos aprendem imitando.»
[continua no próximo post]

Dom Orlando Brandes, arcebispo de Londrina/PR, é presidente do Setor Família da CNBB e escreveu o artigo com o título acima (pedidos dos filhos).Com a devida autorização, reproduzi hoje a primeira parte.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Desejos desordenados

«A vida interior que influencia a nossa maneira de ver o mundo, actua nele, e reage perante ele, é complexa, caótica, um ameaçador misto de pensamentos, memórias, emoções, desejos e temores. A resposta a este caos está nos meus desejos. "Cada um é levado pelos seus próprios desejos", escreveu o poeta Virgílio...

O problema está na muliplicidade e variedade de desejos conflituosos que há dentro de nós. Como havemos de descobrir o que realmente desejamos? Os nossos desejos mais à superfície são sempre os que mais barulho fazem, e os mais exigentes. Quando os satisfazemos podem deixar-nos a sensação de vazio interior e de tristeza, porque, satisfazendo-os, frustámos outros desejos mais profundos dentro de nós.

Se conseguíssemos descobrir aquilo que realmente desejamos, se tomássemos consciência dos mais profundos desejos que há dentro de nós, descobriríamos então a vontade de Deus.» (George W. Hughes, em "O Deus das surpresas")

terça-feira, 17 de junho de 2008

Tal Deus não existe

"Se persistimos na ideia de que para nos virarmos para Deus devemos primeiro provar que Ele existe, então nunca O encontraremos, porque estamos a tratar o Deus do nosso ser como se fosse um problema intelectual que podemos resolver por nossas forças, definir claramente, colocá-l´O em seu lugar, e depois render-Lhe o que julgamos ser-Lhe devido. Um tal Deus não existe.

Nós somos constantemente tentados a fazer um Deus à nossa imagem e semelhança, a divinizar a nossa estreiteza de vistas e a nossa importância e chamamos a isto a vontade de Deus. Deus é mistério, a Palavra que nos interpela, e Ele chama-nos para lá da estreiteza dos nossos horizontes. A nossa única segurança está no que Ele é, e não no modo como nós imaginamos que Ele é." (George W. Hughes, em "O Deus das surpresas")

domingo, 15 de junho de 2008

Tenho medo...

«Tenho medo
Dessa misteriosa força da compaixão.
Não creio nela
porque isso implica que me encontre a mim mesmo,
que não represente mais
uma peça,
uma personagem,
de máscara,
para fingir,
mas que me torne eu próprio,
aceitando a minha própria pobreza,
deixando respirar,
viver,
crescer
o Espírito em mim,
abrindo o meu ser
sem medo,
quando a Sua mão delicada me toca
e me abre…

Tenho necessidade de sentir
que sou,
que sou único,
capaz de amar e de viver,
e não apenas um ser anónimo,
perdido na multidão,
que vê a vida ao longe,
mas uma pessoa viva.

Não devo continuar numa espécie de
não-vida,
fechado,
desesperado,
porque isso é uma antecipação da morte.

O amor é o maior de todos os riscos…
é o dom de si mesmo.
Terei eu a ousadia de correr tal risco…
e mergulhar
nas águas límpidas,
nas águas impetuosas,
nas águas vivas do amor,
raízes indestrutíveis?

Amor:
mais que um momento que passa,
mais que um olhar rasgado de um instante;
uma compaixão profunda, inalterável,
sem curiosidade mórbida,
sem piedade esmagadora, sem ingenuidade ineficaz.»



(Jean Vanier, em "Novas perspectivas do amor)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Salvos pelo Amor

«O amor é o mistério mais profundo e mais sublime do universo, origem e termo de todas as coisas; exige, porém, força de carácter, fidelidade, perspicácia de inteligência, delicadeza de coração e, sobretudo, disponibilidade para o diálogo, aceitação e abertura ao outro, disposições raras na nossa sociedade. Mas as coisas raras são, frequentemente, as mais encantadoras e trata-se de dirigir para elas o olhar, o coração e o espírito dos homens do nosso tempo.


Hoje como nunca, temos necessidade de homens e mulheres como os astronautas e os grandes sábios que descobriram a energia nuclear, mas no campo do amor.» - Jean Vanier, em "Novas perspectivas do amor"

terça-feira, 10 de junho de 2008

É Amor!

Já partilhei convosco muitos pensamentos, citações, contos, reflexões e meditações sobre o amor. A que se segue, não é apenas mais uma tentativa de exprimir algo tão inexprimível e inefável como o amor. Para mim, as palavras de Agostinho exprimem e personificam na perfeição a essência do Amor. É Amor!


«Um dia, estava S. Agostinho diante do Sacrário a desabafar o coração:

Meu Jesus, amo-Vos, amo-Vos com todas as minhas forças, e porque Vos amo, arrependo-me de haver-Vos ofendido tantas vezes na minha vida passada.

E ouviu uma voz que lhe disse:

– Agostinho, quanto Me amas?

– Senhor, se o sangue das minhas veias fosse azeite, eu quereria que esse azeite se consumisse por vosso amor, como se consome o azeite desta lâmpada, que arde diante do vosso tabernáculo.

– Agostinho, nada mais? – repetiu a voz.

– Senhor, amo-Vos tanto, tanto, que se os meus ossos fossem velas, queria que se derretessem de amor, como se derretem estas velas que alumiam o vosso altar.

– Agostinho, nada mais?

– Senhor, amo-Vos tanto, tanto, que se eu tivesse tantos corações como há de estrelas no céu, e gotas de água no oceano, e areias na praia, e átomos no espaço, com esses corações eu Vos quisera amar.

– Agostinho, nada mais?

Então olhando através das suas lágrimas a porta do sacrário, encontrou a resposta digna da sua inteligência extraordinária e da sua santidade:

– Senhor, como quereis que eu Vos ame mais, se o coração humano já não pode amar mais? Mas Senhor, eu amo-Vos tanto, tanto, que, se Vós fosseis Agostinho e eu fosse Deus, eu deixaria de ser Deus para que Vós o fosseis, e contentar-me-ia com ser o pobre Agostinho!

– Agostinho, isso é o Amor! – foi a resposta divina.»


Fonte: Blogue: "A Capela"