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terça-feira, 31 de outubro de 2017

para os pais com filhas


sempre que dizes à tua filha
que gritas com ela
por amor
estás a ensinar-lhe a confundir
a fúria com a doçura
o que não parece má ideia
até ao dia em que ela cresce
a confiar nos homens que a magoam
porque se parecem tanto
contigo

- para os pais com filhas

[Rupi Kaur, in "leite e mel"]

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Esperança sem limites


Empurro pelas ruas uma carroça carregada de optimismo.
Grito: "Esperança sem limites!"
Muitos me respondem lançando-me pela janela
o conteúdo do seu penico,
mas vai ser preciso muito mais
para apagar uma carga de sóis.

[Christian Bobin]

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Jogava o pião com Deus...


e jogava o pião com Deus
enquanto minha mãe estendia roupa
e o meu pai mendigava o pão

e minha alegria nesse tempo
era muito próxima da dos meninos
e de Deus que ganhava sempre

e não sei quem perdi primeiro:
o pião ou Deus
apenas sei que Deus continua
a jogar com outros meninos

e que no Outono quando saio à praça
nos sentamos e falamos muito
do suave rodopiar das folhas

Daniel Faria, In “Oxalida”

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O MISTÉRIO ESTÁ TODO NA INFÂNCIA

E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder



Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente



Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore



O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura



José Tolentino Mendonça

domingo, 23 de outubro de 2011

As sem-razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 21 de maio de 2010

AS PESSOAS SENSÍVEIS

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 17 de maio de 2010

À BELEZA

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga, in 'Odes'

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Para a minha menina-princesa...


«...talvez seja necessário despojarmo-nos de muitas coisas e tornar a vestir as vestes da inocência para que o amor nos possa ser revelado.» (António Alçada Baptista, em "O Riso de Deus")
Quando chegaste, redescobri em mim inocência e alegria.
Removi a máscara que sobrava:
nada havia a esconder de ti, nem medo é a não ser partires.

Supérfluas as palavras, dispensada a aparência, fiquei eu,
Sem prumo, como antes da primeira dúvida
E do último desencanto.

Quando chegaste, escutei meu nome como num outro tempo.
O meu lado da sombra entregou o que ninguém via:
As feridas sem cura e a esperança sem rumo.

( Lya Luft )

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

MEU REI

Meu Rei, houve um tempo em que eu não estava pronto para Ti.
Todavia, sem que eu pedisse,
entraste em meu coração como um desconhecido qualquer,
e marcaste os momentos fugazes da minha vida com Teu selo de eternidade.
Hoje, quando me deparo ao acaso com esses momentos
e neles vejo a Tua marca,
percebo que eles ficaram espalhados no pó,
misturados com a lembrança de alegrias
e tristezas dos meus dias esquecidos.
Tu não desprezavas os meus brinquedos de criança pelo chão,
e os passos que eu ouvia em meu quarto de brincar
são os mesmos que agora ecoam de estrela em estrela.

Rabindranath Tagore

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

POEMA SOBRE A LIBERDADE


Onde o espírito vive sem medo
e a fronte se mantém erguida;
onde o saber é livre;
onde o mundo não foi dividido em pedaços
por estreitas paredes domésticas;
onde as palavras brotam do fundo da verdade;
onde o esforço incansável
estende os braços para a perfeição;
onde a fonte clara da razão
não perdeu o veio
no triste deserto de areia do hábito rotineiro;
onde o espírito é levado á Tua presença
em pensamento e acção sempre crescentes;
dentro desse céu de liberdade, ó meu Pai,
deixa que se erga a minha pátria.

Rabindranath Tagore

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

PORQUE


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 15 de julho de 2009

SE ME É NEGADO O AMOR


Se me é negado o amor, por que, então, amanhece;
por que sussurra o vento do sul entre as folhas recém nascidas?
Se me é negado o amor, por que, então,
A noite entristece com nostálgico silêncio as estrelas?
E por que este desatinado coração continua,
Esperançado e louco, olhando o mar infinito?

Rabindranath Tagore

sexta-feira, 12 de junho de 2009


Tu me apresentaste teus amigos, que eu não conhecia.
Tu me deste poltronas em lares que não eram o meu.
Tu aproximaste de mim quem estava longe
e de um estranho fizeste meu irmão.
Quando tenho de deixar o antigo lar,
sinto o coração inquieto.
Esqueço de que aí o velho permanece novo
e estás morando aí também.
Desde o nascimento até a morte,
neste ou em outros mundos,
onde quer que me guies,
és sempre o mesmo companheiro,
em minha vida infinita.
És Tu quem uniu meu coração a um estranho para sempre.
Para quem te conhece não há mais desconhecidos,
nenhuma porta se fecha.
Concede-me esta graça:
permite-me a felicidade de sempre ver aquele que é o único e num mundo variado.

Rabindranath Tagore

quinta-feira, 11 de junho de 2009


Quando o coração é luz,

tudo se veste de luz.

Dos altos cumes não descem águas turvas,

mas transparentes


Ignacio Larrañaga

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O Teu Silêncio


Se não falas, vou encher o meu coração
Com o Teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará,
e a Tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

(Rabindranath Tagore)

terça-feira, 20 de maio de 2008

Eis aqui minha biografia

Senhor, eis aqui minha biografia, meu livro de vida...
É documentário e confesso que é muito difícil escrever a vida como vós quereis...
É difícil, Senhor, escrevê-la quando não se é escritor,
quando nunca se aprendeu tal ofício.
Mas a vida não se aprende:
Toda vida é um romance novo, único no género, sempre obra de primeira mão.
É difícil, Senhor, não poder copiá-lo, pois vós não aceitais plágios.
É difícil, Senhor, não poder corrigi-la.
Dela não podemos arrancar páginas mal escritas, ou apagar alguma coisa.
O que escrevi ficará sempre escrito.
O que eu posso é manifestar meu arrependimento,
escrevendo páginas melhores.
É difícil, Senhor, seguir este ritmo da vida que me leva inexoravelmente adiante...
Mas obrigado, Senhor, por retratar-me das páginas passadas
em cada nova página que escrevo.
É difícil, Senhor, ir virando as folhas, dia a dia,
na angústia de não saber o dia da entrega do manuscrito...
Mas não seria, Senhor, mais angustioso ainda saber o dia e a hora?
É difícil, Senhor, não sabermos quantas folhas em branco nos restam
para desenvolver satisfatoriamente o tema...
Um dia qualquer vós me tomareis a caneta das mãos
e escrevereis debaixo do meu último rabisco:
Fim.
É difícil, Senhor, não poder reclamar, então:
"Ainda não terminei...",
porque há sinfonias inacabadas que são obras primas
e há existências longevas que nunca acertaram o tema.
Tive pena do tempo perdido...
Mas, Senhor, não tivestes minha vida, a cada instante, em vossas mãos?

(Rabindranath Tagore)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Dá-me forças


"Dá-me, ó Deus, forças para tornar o meu amor frutuoso e útil.
Dá-me forças para jamais desprezar o pobre nem curvar o joelho ante o poder insolente.
Dá-me forças para levantar o espírito bem alto, acima das futilidades de todo dia.
Dá-me forças para que me humilhe, com amor, diante de Ti.

Não sou mais que um farrapo de nuvens de outono, vagando inútil pelo céu, ó Sol glorioso!
Se é Teu desejo e Teu aprazimento, toma do meu nada, pinta-o de mil cores, irisa-o de ouro,
fá-lo flutuar no vento, e espalha-o pelo céu em múltiplas maravilhas...
E depois, se for Teu desejo terminar à noite tal recreio,
eu desaparecerei, esvaecendo-me em treva,
ou talvez em um sorriso de alvorada,
na frescura da pureza transparente".
(Rabindranath Tagore)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Minha Canção

Minha Canção Te Envolverá Com Sua Música,
como os abraços sublimes do Amor.
Tocará o teu rosto como um Beijo de Graças.
Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido.

Minha Canção será como asas para os teus sonhos
e elevará teu coração até o Infinito.
Quando a noite escurecer o teu caminho,
minha Canção brilhará sobre ti como a Estrela Fiel.
Se fixará nos teus lindos olhos e guiará teu olhar até à Alma das Coisas.
Quando minha Voz se calar para sempre,
minha Canção te seguirá em teus pensamentos."
(Rabindranath Tagore)

terça-feira, 6 de maio de 2008

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Sim, bem sei...


Sim, bem sei, ó Amado do meu coração,
tudo isso não é senão o Teu Amor ;
esta luz dourada que dança sobre as folhas,
estas nuvens preguiçosas navegando pelo céu,
esta brisa fugitiva deixando uma frescura em minha fronte.

A luz da manhã inundou os meus olhos;
essa é a Tua mensagem ao meu coração.
A Tua face debruça-se do alto,
os Teus olhos olham os meus olhos aqui em baixo,
e o meu coração resvala pelos Teus pés.

(Rabindranath Tagore)