domingo, 22 de julho de 2007

Relações(1ª parte)


Uma das grandes invenções do nosso tempo são as auto-estradas. Até em relação à informática e aos meios audiovisuais se fala já das “auto-estradas da comunicação”. Só que reduz-se a tal “comunicação” a um intercâmbio de informação…É um sinal bem claro do que vem acontecendo às relações entre as pessoas nas últimas décadas. Cada vez está mais fácil e imediata a comunicação, mas cada vez são mais precárias e breves as relações. Porque talvez não nos andemos a encontrar ao nível certo…

As auto-estradas estão construídas para ultrapassar. Por isso é que é impossível ter uma só faixa de rodagem, porque isso dificultaria as ultrapassagens. A característica que identifica uma auto-estrada é possibilitar do início ao fim a “arte da ultrapassagem”.Ora, é exactamente a imagem do mundo que vimos construindo, onde as pessoas não se encontram verdadeiramente nem caminham juntas. Apenas se cruzam e entrecruzam enquanto se tentam ultrapassar.E o pior é que estamos a inocular esta “arte da ultrapassagem” no sangue inocente das crianças. Cada vez que comparamos uma criança com outra para a fazer sentir-se diminuída, ensinando-a a tirar daí motivação para ultrapassar a outra criança, estamos a inscrever desde logo no seu inconsciente (onde ganham raízes os valores que moldam a personalidade) que o importante não é ser bom. O mais importante é ser melhor que o outro. Mais importante que vencer-se cada um a si próprio, nas suas limitações e dificuldades, é vencer os outros. E assim vamos desde cedo envenenando o futuro…Deixamos de ter amigos porque os olhamos como rivais, os companheiros de caminhada passam a ser adversários, e os que caminham mais devagar não passam de estorvos.

Sabes que mentalidade é esta?A mentalidade daqueles que não esperam da vida mais que uma carreira!E não penses que isto está tão longe de ti como te pode parecer. Pensa bem…Desde pequenos, à célebre pergunta: “O que queres ser quando fores grande?”, somos ensinados a responder com uma carreira: “Quero ser professor, médico, advogado, veterinário…”. Quase nenhuma criança foi ensinada a responder: “Quero ser feliz!”Conheço muita gente que troca a vida por uma carreira. E isto – garanto-te – não é mais que um suicídio em câmara lenta.Foi esta mentalidade de “carreirismo” que inventou as famosas auto-estradas do coração, onde os outros não são mais que adversários a deixar para trás quanto antes.No nosso mundo, os heróis são todos “sprinters”.

O logótipo do sucesso é sempre alguém que, orgulhosamente só, chegou mais longe e mais rápido que todos os outros que queriam chegar ao mesmo, ficando assim no topo de um pedestal onde apenas há lugar para um, sobre todos aqueles que, por terem ficado para trás, lhe são submissos, ainda que a submissão esteja enraizada na inveja, no desejo de ver o outro fracassar ou na injustiça.Os heróis são os sprinters, os que chegam à meta em primeiro lugar e sozinhos. Quanto mais distantes dos seguintes, maior o brilhantismo. Parar pelo caminho para dar a mão aos companheiros é perda de tempo e chegar à meta de mãos dadas é “falta de espírito competitivo”. E no nosso mundo, só os que competem podem triunfar…(continua)

Rui Santiago cssr

2 comentários:

Flôr disse...

O Rui Santiago escreve como ninguém!
Que post! Que reflexão!

Beijo florido da tua mana e amiga Flor com muito carinho :)))

Flôr disse...

Voltei para dizer, nota máxima para a imagem!

A auto-estrada para o Céu... para chegarmos a Deus é... Jesus Cristo!

Flor